Ganhando escala: start-ups colombianas querem crescer fora do país

Situada em uma rua arborizada de Chapinero ― principal distrito empresarial de Bogotá ―, o quartel-general da Polymath Ventures ocupa uma casa de estilo inglês usada no passado como escritório de campanha do atual presidente colombiano, Juan Manuel Santos. A sede da Polymath é símbolo de todo o ecossistema empresarial da Colômbia: ela incuba novas empresas para que ocupem seu espaço na economia cada vez mais vibrante do país.

Na verdade, os cinco anos de Santos na presidência foram marcados por uma série de reformas, planos e iniciativas no setor público para promoção do empreendedorismo na Colômbia. Na Polymath, assessores financeiros da start-up Aflore conversam no final do corredor depois de uma reunião com um investidor-anjo. No andar de cima, as janelas com sacadas e o piso de madeira escura contrastam com o layout do escritório de uma start-up moderna. Uma nova economia está emergindo da antiga.

Entender o estado do empreendedorismo na Colômbia requer tanto uma apreciação do rápido progresso do país quanto uma sóbria compreensão dos limites desse progresso. De um lado, a Colômbia tem desfrutado de anos de crescimento sólido e estabilidade macroeconômica. A renda nacional bruta per capita mais do que triplicou desde 2000, e o país continuar a subir no ranking da “Doing Business” [Fazendo negócios] do Banco Mundial. A ênfase nas parcerias público-privadas permitiu à Colômbia aumentar o gasto com infraestrutura para 3% do PIB, ante 1,5% há 10 anos apenas. Programas de setores públicos com ótimo respaldo, como o iNNpulsa Colômbia proporcionam educação e investimento às novas empresas do país. Um estudo de 2015 da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) e do Fórum Econômico Mundial (WEF) elogiaram a Colômbia situando-a em um pequeno grupo de “especialistas em empreendedorismo” ― isto é, países que produzem um grande volume de start-ups inovadoras que empregam uma quantidade significativa de pessoas.

Por outro lado, ainda é cedo demais para dizer que a Colômbia é uma economia empreendedora madura. Os empresários do país operam em uma economia onde aproximadamente 60% do emprego fora do setor agrícola é informal. As mulheres raramente participam do empreendedorismo formalizado. Embora o Banco Mundial atribua a redução de 30% da pobreza extrema na América Latina à entrada das mulheres no mercado de trabalho (sendo que o maior índice de participação se dá na Colômbia), é especialmente difícil para elas fazer a transição do mercado informal para o formal ― sobretudo em vista de desafios como os do financiamento formal. Dos 40 empresários colombianos destacados desde 2007 pela Endeavor, empresa sem fins lucrativos, só quatro são mulheres.

Além disso, a violência que marcou o país no século 20 contribuiu para a formação de um ambiente de capitais conservador. São raros os investidores-anjos, e os verdadeiros fundos de capital se contam na casa dos dois dígitos apenas. De modo geral, os investidores operam em pequena escala e a intervalos muito curtos junto aos empreendedores. Além disso, as novas empresas colombianas bem-sucedidas geralmente deparam com o tamanho limitado do mercado doméstico. Embora a Colômbia esteja acima dos índices de crescimento do PIB na América Latina, sua economia ainda é menos do que a metade da economia mexicana e cerca de ¼ da brasileira.

Em busca de um crescimento extraordinário

Talvez a medida por excelência da economia de um país empreendedor seja a extensão com que as novas empresas têm contribuído para a produção e o emprego. Uma estatística citada com frequência pela Associação Nacional de Capitais de Risco afirma que embora as empresas lastreadas pelo capital de risco representem apenas uma pequena parte do número total de novas empresas nos EUA, elas respondem por cerca de 20% do PIB e 10% do emprego. O impacto desproporcional de novas empresas extremamente bem-sucedidas é a razão pela qual os governos no mundo todo pregam o empreendedorismo e tomam medidas de políticas públicas para que o processo decole.

Embora a Colômbia tenha dados passos significativos, nenhum empresa de risco ali hoje se enquadra no perfil de uma start-up extraordinária dos EUA. Portanto, que manual deve seguir uma nova empresa colombiana que aspire a ter um impacto na economia global? Ash Kirvan, sócio da Polymath, acredita que sua empresa tem um plano para lidar com dois dos principais obstáculos enfrentados pelos empresários colombianos: um ecossistema empresarial frágil e o tamanho limitado do mercado doméstico local.

Os ecossistemas empresariais incluem os próprios empreendedores, as incubadoras que os ajudam a desenvolver suas ideias de negócios e uma comunidade de capital de risco que proporciona o investimento-semente necessário ao início e ao crescimento das operações. Conforme observa Kirvan, os ecossistemas de risco levam tempo para emergir organicamente. Ele explica que a construção de um ecossistema forte geralmente requer o esforço de pelo menos uma geração, uma vez que exige o investimento de empreendedores já bem-sucedidos para ter escala. A primeira geração ― como no caso da Colômbia ― precisa de capital e experiência antes que possa assessorar outros e financiá-los. De igual modo, leva tempo para desenvolver o relacionamento entre investidores, empresários e instituições de apoio importantes, como as universidades. O investimento em 1959 na Fairchild Semiconductor, tido por muita gente como o primeiro investimento em capital de risco no Vale do Silício, precedeu em décadas a existência de um ecossistema sólido na região.

A Polymath acelera o processo combinando os elementos de um ecossistema de risco sob um único teto conectando-os a uma rede internacional de profissionais e de capital. Ela incuba suas novas ideias de negócios através de um programa internacional de bolsas de estudo chamado Seed [Semente]. Esse programa reúne profissionais de dentro e de fora da Colômbia encarregados de trabalhar uma área temática como, por exemplo, serviços financeiros, transporte ou força de trabalho feminino. Suas equipes têm conexões globais e uma variedade de profissionais nas áreas de engenharia, design, etnografia e negócios. As empresas que emergem do programa recebem financiamento de um dos fundos LABS da Polymath, um conjunto de fundos de capital apoiados por investidores internacionais. À medida que as empresas crescem, a Polymath as ajuda a obter mais capital de investidores-anjos e de outros investidores de risco. O resultado até o momento são cinco novas empresas e há planos de duplicar esse número nos próximos dois anos.

A Polymath lida com o segundo obstáculo ― o tamanho do mercado doméstico da Colômbia ― através de modelos de negócios voltados para a expansão das empresas que desenvolve. As empresas da Polymath têm como propósito interagir com as oportunidades e tendências de mercado que afetam inúmeros países latino-americanos. A crescente classe média da região é uma tendência subjacente. Por exemplo, o aumento da renda per capita resultou no crescimento espetacular de veículos particulares em países como a Colômbia e o Peru. Contudo, quando os proprietários levam seus carros para o conserto, as opções geralmente são limitadas a oficinas informais ou a departamentos de serviços caros das concessionárias. A Autolab, uma das concessionárias da Polymath, pretende ser a terceira opção, proporcionando um serviço de alta qualidade a um preço razoável. Conforme explica Kirvan, a Polymath investe em ideias que ela acredita que possam representar proposições de valor estimadas em US$ 1 bilhão ou mais.

Os modelos regionais de crescimento são especialmente promissores na América Latina por uma série de razões ― algumas delas novas e outras antigas. A semelhança e a compatibilidade cultural de muitos países da América Latina facilitam a entrada de empresas novas no mercado. Embora seja um equívoco negar a diversidade interna da região, fatores como a existência de um mesmo idioma têm sido a base para expansões internacionais bem-sucedidas na região desde a década de 1980. O Grupo Bimbo, por exemplo, empresa de comida mexicana de US$ 11 bilhões, firmou posições sólidas nos mercados latino-americanos no decorrer das últimas três décadas. Atualmente, o crescimento de instituições multilaterais como a Aliança do Pacífico entre Chile, Colômbia, México e Peru uniu vastos segmentos da América Latina como nunca antes. Como o investimento e as pessoas transitam mais livremente na região, os planos de expansão se tornam mais atraentes.

Além da curva do poder

Embora boa parte do projeto empreendedor da Colômbia tenha como objetivo replicar o sucesso de ecossistemas avançados como o do Vale do Silício, há um motivo para acreditar que os novos empreendimentos de risco da Colômbia se comportarão e crescerão de maneira distinta daqueles situados na América do Norte dada a diferença fundamental no perfil de risco dos investimentos em cada lugar.

Uma distinção fundamental está no conceito de “curva do poder” que Peter Thiel usou para caracterizar sua experiência como empreendedor e investidor nos EUA. As start-ups norte-americanas raramente são bem-sucedidas. Thiel explica que sua empresa de capital de risco, a Founders Fund, teve apenas um sucesso extraordinário uma única vez em dez. Além disso, boa parte do valor gerado por essas empresas extraordinárias só deverão vir à tona no final de alguns anos. O investidor de risco nos EUA sempre aposta no que pode dar certo.

Em comparação, o perfil de risco de uma empresa colombiana é totalmente distinto. São poucos os fundos de capital de risco que competem por contratos. Muitas indústrias visadas estão cheias de empresas frágeis, fragmentadas e informais que não podem competir com profissionais de primeira linha, com o modelo certo de negócio ou capital suficiente. As start-ups que dão certo tendem a gerar capital muito mais depressa do que nos EUA. As cotações não se equipararão aos níveis estratosféricos do Vale do Silício, mas o sucesso na Colômbia será mais barato e mais frequente quando as empresas combinarem o capital, os profissionais e o conhecimento certos.

Hoje, muitos colombianos estão voltando para casa. Equipados com boa educação e experiência ganhas no exterior, eles acompanharam as melhoras econômicas do seu país e querem ser parte delas. Kirvan descreve esse movimento como “uma diáspora ao contrário em escala histórica”. À medida que a Colômbia continuar a crescer em profissionais, capital e conectividade com a economia global, o país deverá começar a se dar conta dos benefícios extraordinários da economia de risco.

Este artigo foi escrito por Renan Andrade, Koehler Briceño, Randal Drew e Tom McElwee, membros da turma Lauder de 2017.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Ganhando escala: start-ups colombianas querem crescer fora do país." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [31 May, 2016]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ganhando-escala-start-ups-colombianas-querem-crescer-fora-pais/>

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