Globalização: mais produtores, poucos consumidores

Para o professor de estudos jurídicos da Wharton, Philip Nichols, a palavra “globalização” é uma das palavras mais mal utilizadas na língua inglesa – ou em qualquer outro idioma.

 

Ela foi usada muitas vezes para designar uma mudança tecnológica, uma mudança psicológica, uma mudança no modo como as pessoas estabelecem seus relacionamentos ou um plano dos líderes mundiais para conseguir maior integração – ou opressão, dependendo do ponto de vista.

 

Na qualidade de moderador da uma mesa-redonda sobre as promessas e os perigos da globalização, no 4º Encontro dos Ex-Alunos da Wharton sobre a Região da América Latina, realizado no início deste mês, Nichols sugeriu sua própria definição da palavra: como os países mudam suas instituições para se adaptar ao mundo.

 

Qualquer que seja a definição, um tema emergiu claramente da discussão: a globalização representa uma mudança ou, em último caso, a necessidade de mudança.

 

Na opinião de Julio Ramirez, presidente da Burger King Corp. para a região da América Latina e Caribe, as mudanças envolvidas na globalização são incrementais. Os hambúrgueres da Burger King na América Latina são grelhados diretamente no fogo, exatamente como nos Estados Unidos. Essa técnica é o “principal capital” do Burger King, a característica que distingue seus hambúrgueres dos das cadeias concorrentes. Mas, aconselha Ramirez, não procure pelo café da manhã padrão do Burger King – lingüiça e pãezinhos ou panquecas – nos restaurantes da América Latina. Em vez disso, no intuito de atender ao gosto local e afastar as redes de fast-food locais, que estão cada vez mais competitivas, os restaurantes Burger King de lá oferecem alimentos típicos da região para o desjejum.

 

Há também o sistema de entrega de hambúrgueres, acrescentou Ramirez. Parece que a cadeia norte-americana de pizzarias Domino instalou-se no México bem antes de sua arqui-rival, a Pizza Hut. No modelo de negócio da Domino, as pizzas são entregues em casa; os clientes não comem no restaurante. Com isso, os consumidores mexicanos logo se acostumaram ao hábito norte-americano de encomendar pratos rápidos para comer em casa. Atualmente a Burger King entrega seus hambúrgueres em domicílio em seis países da América Latina. O sucesso, conclui Ramirez, é diferente em diferentes locais.

 

Embora a Burger King e milhares de outras empresas estejam operando em mercados locais do mundo todo, grande parte da discussão da conferência se concentrou não na globalização pela adaptação, mas na questão controversa do comércio internacional e nas mudanças necessárias para melhorá-lo. O consenso foi que os governos falam muito dos benefícios de uma maior abertura no comércio, mas acabam voltando atrás e protegendo as próprias indústrias que se sentem ameaçadas por produtores mais eficientes. Essa característica é típica, na opinião dos participantes da América Latina, dos países desenvolvidos que protegem seus produtores dos concorrentes de países menos desenvolvidos.

 

Ira S. Shapiro, advogado comercial e ex-consultor geral do Escritório do Representante de Comércio dos EUA, reconhece que os Estados Unidos têm a reputação de usar e abusar das leis antidumping. Embora os economistas afirmem que os consumidores estariam em melhor situação se o comércio fosse mais aberto, “a realidade política é que os governos protegem seus produtores”, disse ele. Observando que o Congresso dos EUA quase não aprovou as liberalizações de comércio negociadas na Rodada Uruguai na década de 1990, Shapiro disse que o comércio “é extraordinariamente controverso e alguém é sempre prejudicado”.

 

Nem mesmo os países em desenvolvimento estão imunes à competição. O processo de globalização está gerando uma competição intensa que os governos não conseguem mais controlar, disse Jorge Montealegre, um investidor da Costa Rica. O México, por exemplo, tomou muitas atitudes certas ao diversificar sua economia antes dependente do petróleo, criar incentivos para atrair as indústrias de manufatura para o país e participar do Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Mesmo assim, algumas fábricas que se estabeleceram no México na última década agora estão fechando as portas porque as empresas estão se mudando para a China, já que lá a mão-de-obra é muito mais barata. E o florescente setor têxtil da América Central ficará ameaçado daqui a alguns anos, quando começarem as quotas, abrindo a possibilidade de que a China abocanhe uma parte maior desse negócio também. “Em termos de globalização, ninguém está no comando”, disse Montealegre.

 

A discussão sobre comércio, conduzida num clima de país-versus-país e empresa-versus-empresa, levou um dos ouvintes a argumentar que a globalização não existe. “Os países e as empresas têm posições muito individualistas”, disse ele, que não representam o quadro real da economia global. A verdadeira globalização exige que empresas e governos tomem decisões “geograficamente neutras”, algo que claramente não acontece em grande escala. Para serem realmente globais, sugeriu ele, as empresas devem ter diretores e gerentes de outros lugares do mundo. “Esqueça a globalização. Nós precisamos falar é de comércio internacional.”

 

Argumentando que a globalização não é um mito, Shapiro respondeu que esse processo “não elimina os interesses nacionais nem os interesses corporativos paroquiais”. Como prova de que a globalização é uma realidade, citou os notáveis avanços ocorridos nos últimos anos nas áreas de comunicações, tecnologia e transporte, avanços estes que mudaram o modo como o mundo funciona. Recentemente, destacou Shapiro, graças à tecnologia das comunicações, as empresas americanas puderam criar call centers na Índia, e seus clientes agora podem conversar com alguém que tem sotaque do centro-oeste e trabalha em Calcultá. Shapiro observou ainda que a engenharia de software também pode ser e é feita em qualquer lugar. “O mundo mudou, e isso indica que a palavra ‘globalização’ é apropriada”, acredita.

 

Ramirez, que trabalhou com diferentes proprietários da cadeia Burger King, disse que para ele a globalização é evidente na mudança definitiva de perspectivas dos conselhos de administração, que não estão mais focadas no crescimento dentro do mercado interno, mas sim na busca do crescimento em qualquer lugar do mundo onde ele possa ocorrer.

 

De modo geral, os participantes da mesa-redonda concordaram que a globalização melhorou a vida de pessoas do mundo todo. “Elas estão em melhor situação, estão mais informadas, têm mais escolhas e mais esperança”, disse Nichols. Certamente a Burger King criou oportunidades de emprego e mesmo oportunidades de carreira nos lugares onde se estabeleceu, acrescentou Ramirez.

 

Mas as mudanças para melhor foram mais lentas do que alguns desejariam. Embora satisfeitos com a opinião geral de que a abertura dos mercados e a queda das barreiras comerciais são a melhor maneira de conseguir prosperidade em âmbito global, “a globalização e a expansão do comércio ainda não trouxeram os benefícios esperados para boa parte do mundo”, disse Shapiro.

 

O problema, ressaltou ele, é que há muitas pessoas talentosas e trabalhadoras que, com treinamento e ferramentas adequadas, podem ser muito produtivas. O resultado é que elas se tornam bons produtores antes de se tornarem bons consumidores. “O grande desafio é ter estruturas sociais para que as pessoas possam subir de classe e passar a consumir produtos e serviços”, explicou. “Caso contrário, continuaremos com excesso de capacidade.”

 

O economista venezuelano Pedro Palme vê o mesmo problema de uma perspectiva ligeiramente diferente. Em sua opinião, não há mercados suficientemente grandes para absorver o aumento da capacidade produtiva das indústrias que estão em processo de rápida expansão. “A globalização precisa de mercados globais”, disse ele. “A integração econômica é necessária para criar estes mercados, mas isso não é fácil por causa das disparidades encontradas em termos de economia, educação e vantagens competitivas.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Globalização: mais produtores, poucos consumidores." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 September, 2003]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/globalizacao-mais-produtores-poucos-consumidores/>

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