“Hoje pode ser um bom dia”: desmistificando a figura do empreendedor

Hoje, um dia como outro qualquer, pode ser um bom dia para empreender, mas não necessariamente para criar um negócio, e sim para tomar uma iniciativa e fazer mudanças numa determinada função ou em outro aspecto qualquer da vida pessoal. O chileno Cláudio Gregoire, autor do livro “Pode ser um bom dia”, compartilha histórias pessoais e exemplos de superação que poderão servir de inspiração a seus leitores. Gregoire, que acaba de lançar sua obra na Espanha, passou por 200 microcirurgias nos olhos entre os 12 e os 17 anos, até que finalmente ficou cego. Contudo, isto não o impediu de estudar psicologia e de fazer um MBA. Atualmente, dirige uma consultoria própria de recursos humanos. O autor conversou com o Universia-Knowledge@Wharton sobre as chaves do sucesso em todas as facetas da vida do ponto de vista do empreendedor.

Universia-Knowledge@Wharton: Com o sr. definiria o conceito de “empresa própria” a que faz referência em seu livro? Em que consiste essa empresa?

Claudio Gregoire Pino: O conceito de empresa própria procura inspirar e motivar as pessoas, de modo que se responsabilizem por seus atos, sonhos e desafios. Em outras palavras, o conceito requer que o indivíduo compreenda que as conseqüências e os resultados no trabalho e na vida dependem das táticas pessoais utilizadas, de suas competências e motivações.

Para isso, devemos abandonar o paradigma atual que nos faz pensar que nosso desempenho depende de nossos chefes ou da empresa em que trabalhamos, adotando em vez disso uma estratégia de maior complexidade, mas que, bem administrada, pode dar resultados muito interessantes e até inimagináveis. O ponto de partida para isso é o autogoverno acompanhado da automotivação e da autocapacitação como eixos fundamentais para uma mudança bem-sucedida.

UK@W: Em relação ao empreendedor, quais seriam os erros e os acertos que costumamos cometer quando planejamos alguma mudança na empresa?

C.G.P.: Os acertos estão relacionados ao know-how que possuímos para sonhar, planejar e entender as mudanças como processo natural das empresas e das pessoas. Nesse sentido, nossas competências fazem com que nossa visão de futuro nos permita visualizar muito claramente o que desejamos e como obtê-lo.

No entanto, os pontos fracos ganham relevo por um excesso de individualismo e pouca participação na tomada de decisões daqueles que nos acompanham. Um empreendedor que não compreenda a colaboração e a sinergia como elementos criadores de valores não terá a ajuda necessária para promover as mudanças indispensáveis em sua empresa. O trabalho em equipe cria vantagens comparativas e competitivas indispensáveis para o cumprimento de metas corporativas e individuais.

UK@W: Por que as coisas nem sempre acontecem como o empreendedor planeja e o que se pode fazer nesses casos?

C.G.P.: Isso acontece por dois motivos principais. O primeiro deles é o diagnóstico mal feito dos nossos pontos fortes e de nossas fraquezas. O segundo se deve a pouca credibilidade do encarregado, ou encarregados, de administrar a mudança. Essa pouca credibilidade não está relacionada exclusivamente ao conhecimento técnico ou teórico do indivíduo, mas também às relações interpessoais com os trabalhadores, por exemplo.

UK@W: Quais seriam os dez mandamentos do empreendedor?

C.G.P.: Os dez mandamentos são apenas um guia que pretende orientar os leitores do livro e levá-los a refletir sobre o significado de uma competência. Explico também que competências considero mais importantes para lidar com os desafios diários.

Contudo, mais do que um livro de receitas, cujo objetivo seria atingir milhões de empreendedores no mundo todo, o livro se apresenta de forma interativa, para que o leitor possa assimilar certos conceitos que lhe pareçam interessantes e somar, de acordo com sua experiência, outros que lhe pareçam mais úteis. Não vejo as pessoas como uma massa maleável, e sim como indivíduos que pensam e são capazes de tomar decisões e de se responsabilizar por seus sucessos.

Numa lista de dez competências, teríamos: resiliência (capacidade de se sobrepor aos fracassos e aos episódios dolorosos); perseverança, trabalho em equipe, sabedoria, flexibilidade, coerência, responsabilidade e proatividade, autocrítica, inovação e foco nos objetivos propostos.

UK@W: Quais seriam os desafios da empresa moderna do ponto de vista dos recursos humanos?

C.G.P.: Mudar o paradigma do empresário e do trabalhador de inimigos para sócios estratégicos. Sob esse ponto de vista, o resultado obtido pela empresa afeta a ambos: empresários e trabalhadores desfrutam de seus sucessos, mas assumem em conjunto suas responsabilidades, como um único e grande sistema, também nos maus tempos.

UK@W: Em tempos de crise e diante da avalanche de demissões em algumas empresas, o que fazer para que não se tenha um “mau dia” ou, pelo menos, para que não se tenha um dia tão ruim?

C.G.P.: Partindo da premissa de que nem nossas empresas, nem nossos empregados são fantásticos em épocas de prosperidade, como tampouco são os piores possíveis em épocas de crise, a confiança neles, em suas competências, esforços e motivação é fundamental. É imprescindível também que especifiquemos do que estamos falando e do que necessitamos antes de, como empresa, tomar decisões tão drásticas como a demissão indiscriminada. Um bom diagnóstico e estratégias eficazes podem dar vida nova à empresa.

Entendo os empresários, sei que assumem um risco e apostam seu patrimônio em uma empresa, mas sei também que a demissão em épocas de crise não só baixa os custos de uma empresa como também aumenta o caos, a incerteza e a insegurança dos trabalhadores. Isso leva à queda da produtividade e, portanto, da lucratividade da empresa.

UK@W: Quem são os “empregados iluminados”?

C.G.P.: São aqueles que crêem que, por ter um título profissional, acreditam que seu futuro esteja assegurado e acham que os conhecimentos obtidos em um determinado momento bastam para a vida toda. São também aqueles que acham que por pendurarem um diploma na parede do seu escritório serão indispensáveis para a empresa.

Para evitar esse tipo de comportamento, é preciso entender que a inovação e o espírito empreendedor são coisas de todos os dias e, juntamente com a perseverança e a paciência, podem ser conselheiros muito bons.

UK@W: Como aplicar a filosofia de um empreendedor empresarial à vida cotidiana?

C.G.P.: Todos os desafios, oportunidades e ameaças podem ser enfrentados da mesma maneira. Em outras palavras, o interesse pelo desencadear de uma nova história, pela realização de um projeto ou a implementação de uma mudança requer tanta seriedade, trabalho, motivação, responsabilidade e rigor em uma empresa quanto na vida em família, entre amigos ou na vida de uma pessoa comum.

UK@W: Existem diferenças entre a forma de empreender na Espanha e na América Latina?

C.G.P.: Creio que seria imprudente generalizar a gestão empreendedora de tantos países, já que se trata de um tema que requer maior aprofundamento atualmente. O que se pode dizer é que, tanto na Espanha como nos países latino-americanos, há muitos e bons empreendedores.

Diante disso, a pergunta que faço a mim mesmo é a seguinte: se há empreendedores em todos os países, por que nem todos os cidadãos desses países são empreendedores? Aí está o problema: há mitos e preconceitos em torno dessa questão.

UK@W: Que países latino-americanos são mais empreendedores ou que características definem cada região? Todos são igualmente otimistas?

C.G.P.: Creio que, atualmente, não existem países com um selo empreendedor visível, porém há empreendedores em todos os países. Ninguém sabe ao certo. É preciso acreditar que os países, as empresas e os diversos grupos de trabalhadores também podem ser empreendedores. Portanto, o conceito não pode ficar limitado exclusivamente ao âmbito do indivíduo. Para isso, a educação é fundamental. A mudança deve começar na escola, e não só quando o trabalhador chega à empresa.

UK@W: Quem é empreendedor?

C.G.P.: Há muitos mitos e preconceitos em relação ao empreendedor. O primeiro deles é acreditar que o empreendedor seja uma pessoa ligada ao mundo dos negócios e cujo objetivo é fundar uma empresa. O objetivo do livro é justamente desmistificar esse conceito e ressaltar o fato de que um empreendedor pode também ser um país, uma cidade, uma empresa ou um grupo de trabalho, como pode ser também uma família ou uma pessoa que esteja passando por um momento difícil e que queira começar uma nova história, convertendo suas fraquezas e frustrações em pontos fortes e em alegrias. Talvez por isso o conceito de empreendimento seja tão pouco amplo, porque persiste o mito de que um empreendedor seja uma pessoa especial.

Esse é o propósito do livro: entender e motivar as pessoas, famílias e empresas, mostrar a elas que tudo pode mudar e que hoje Pode ser um bom dia. Mas, para isso, a mudança deve começar em nós mesmos. Devemos estar conscientes de que, com muito esforço, trabalho e motivação, os sonhos que pareciam impossíveis podem se tornar realidade.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"“Hoje pode ser um bom dia”: desmistificando a figura do empreendedor." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [26 November, 2008]. Web. [06 July, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/hoje-pode-ser-um-bom-dia-desmistificando-a-figura-do-empreendedor/>

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“Hoje pode ser um bom dia”: desmistificando a figura do empreendedor. Universia Knowledge@Wharton (2008, November 26). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/hoje-pode-ser-um-bom-dia-desmistificando-a-figura-do-empreendedor/

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"“Hoje pode ser um bom dia”: desmistificando a figura do empreendedor" Universia Knowledge@Wharton, [November 26, 2008].
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