IBM e seu lendário fundador: gênio imperfeito

Segundo uma história contada pelo guru da administração Peter Drucker, quando os japoneses procuraram nos Estados Unidos exemplos de empresas nas quais se basear para tentar reconstruir sua economia após a Segunda Guerra Mundial, a escolha foi óbvia: IBM, a empresa mais bem-sucedida do mundo. Kevin Maney nos conta esse e muitos outros casos e episódios fascinantes em The Maverick and His Machine: Thomas Watson, Sr. and the Making of IBM. O relato de Maney sobre o homem que criou a IBM e concebeu sua famosa cultura está extraordinariamente bem pesquisado e equilibrado. Watson nos revela vida, máculas e muito mais.

 

Watson passou por momentos difíceis até conseguir um emprego em 1903 na National Cash Register Company, de Dayton, Ohio. As caixas registradoras eram os dispositivos de alta tecnologia nas décadas de 1890 e 1900, e um número cada vez maior de varejistas passou a utilizar esse tipo de máquina para controlar o caixa e o estoque. Watson rapidamente descobriu sua grande vocação de vendedor nessa empresa.

 

A National Cash Register era a Microsoft da época e detinha o monopólio do mercado. A NCR fabricava seus produtos para durar e eles realmente duravam. Pequenas empresas independentes descobriram um nicho lucrativo na reforma e venda de máquinas usadas a firmas menores que não tinham como bancar máquinas novas. O presidente e fundador da NCR, John Patterson, odiava a idéia de que outras empresas pudessem ganhar dinheiro com as “suas” máquinas. Assim, criou uma organização fictícia, com Watson na direção, para negociar máquinas usadas. Financiada e controlada pela NCR com o único propósito de eliminar os concorrentes da NCR, a empresa tinha recursos para pagar preços mais altos pelas máquinas usadas e depois vendê-las a preços menores. Assim, arruinou praticamente todos os concorrentes.

 

Watson dirigiu a divisão com sucesso, sem pensar nas repercussões legais ou morais de seus atos ou dos atos da empresa, até que o governo federal descobriu as atividades da NCR e indiciou a empresa e seus principais diretores. Todos os diretores, inclusive Watson, foram condenados. Depois de mais de uma década de sucesso crescente na NCR, Watson, que havia recentemente casado e constituído família, se viu diante da perspectiva muito real da prisão.

 

Em 1914, Watson deixou a NCR com a mancha da condenação por crime qualificado e uma possível sentença de prisão pairando sobre sua cabeça. Foi para Nova York, onde conversou com Charles Flint, empresário com um portifólio que englobava diversas empresas. Pouco tempo antes, Flint havia agrupado três de suas empresas mais problemáticas e encontrou em Watson o homem de que precisava para comandar o novo empreendimento. E é aí, como dizem, que a história começa: Watson recomeçou a vida em Nova York, como o responsável pela Computing-Tabulating-Recording Company, a base da IBM de hoje.

 

A empresa era uma mixórdia de organizações que fabricavam relógios de ponto, balanças de peso e dispositivos rudimentares de tabulação. Foi neste último negócio que Watson viu uma oportunidade. O principal cliente das máquinas de tabulação automática era o Departamento de Censo do governo federal. Mas Watson enxergou potencial para crescimento na expansão de grandes negócios, em especial bancos, seguros e indústrias.

 

Watson levou com ele as melhores idéias que havia visto John Patterson implementar na NCR, inclusive a obsessão de Patterson por cultura. E não demorou em criar a base da cultura que tornaria a IBM famosa. Conclamou seus homens a se vestirem em estilo similar ao dos clientes que visitavam. Instituiu cotas e concursos de vendas. As reuniões com sua equipe de vendas assumiam o ar de encenações teatrais. Maney termina cada capítulo com letras das muitas músicas escritas em homenagem a “Mr. Watson”.

 

Em 1924, Watson mudou o nome de sua próspera empresa: do “desajeitado” Computing-Tabulating-Recording Company para International Business Machines. O nome tinha o som que Watson procurava. Muitos, no entanto, não ligaram para o novo nome, inclusive um cliente, vice-presidente de um grande banco, que escreveu: “O nome Computing-Tabulating-Recording Company é para mim muito mais eufônico e me impressiona por ser um nome mais grandioso e substancial do que o novo nome”. O banco para o qual esse crítico trabalhava não existe mais, enquanto a IBM continua aí.

 

Depois da quebra da bolsa em 1929, Watson estava determinado: sua empresa não ia simplesmente sobreviver, mas prosperar. Ele fez uma jogada arriscada ao assentar as bases para a expansão futura em plena Depressão. Por várias vezes a empresa teve altos e baixos, mas acabou sendo extremamente bem-sucedida durante toda a década de 1930, quando abriu novos mercados no exterior.

 

Watson havia sido profundamente influenciado por Charles Kettering, o brilhante engenheiro responsável por grande parte das inovações mais importantes da General Motors. Watson conheceu Kettering quando os dois eram jovens, no início de suas carreiras na NCR, em Dayton. Foi Kettering quem infundiu em Watson tanto a compreensão quanto o reconhecimento da importância da pesquisa e do desenvolvimento em qualquer organização: “Watson acreditava que pesquisa e desenvolvimento conduziriam às vendas”. Foi sua paixão por melhorias tecnológicas que acabou por levá-lo a construir o que se tornaria o famoso laboratório da IBM.

 

No entanto, não foi a tecnologia, mas a cultura da IBM que impulsionou o sucesso da empresa: “A cultura da IBM era uma coisa totalmente nova… [A empresa] não era a melhor do mundo em nenhum aspecto do seu negócio… O que a IBM de Watson fez melhor do que qualquer outra empresa do mundo foi criar e administrar uma cultura corporativa forte, coesa – e bem-sucedida. Por sua vez, essa cultura uniu as várias divisões da empresa e motivou os funcionários de um modo que os concorrentes não conseguiam superar”, escreve Maney. Foi essa cultura que os japoneses acharam tão atraente para ser imitada após a Segunda Guerra Mundial.

 

Basicamente, foi essa vaidosa cultura IBM que acabou por levar a empresa à ruína. Apesar dos onipresentes e iconoclásticos sinais “THINK” (pense) que Watson colocou em toda a empresa, a cultura “eliminou o pensamento crítico da empresa e fez com que Watson pensasse que estava sempre certo”. Parece que seus gerentes raramente ofereciam qualquer coisa além de um “Sim, Mr. Watson”. Conforme os anos se passaram e a empresa ficou mais famosa, a capacidade de Watson de ouvir qualquer pessoa que mesmo remotamente discordasse dele se evaporou.

 

Maney conclui: “Thomas John Watson Sr. viveu uma grande vida americana. Começou pobre, construiu uma grande empresa, ganhou milhões de dólares e mudou o mundo. Fez isso apesar de enormes falhas… Mas os pontos fortes de Watson eram inúmeros. Ele foi abençoado com aquele raro carisma que inspira os seguidores a realmente adorarem seu líder… Watson viveu para a empresa. Ele personificava a empresa. Cada gota de sua ambição pessoal era inseparável de sua ambição pela IBM”. A perseverança, a energia e o carisma de Watson, juntamente com seus defeitos, aparecem claramente nessa excelente biografia.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"IBM e seu lendário fundador: gênio imperfeito." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [13 agosto, 2003]. Web. [20 September, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ibm-e-seu-lendario-fundador-genio-imperfeito/>

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"IBM e seu lendário fundador: gênio imperfeito" Universia Knowledge@Wharton, [agosto 13, 2003].
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