Imagens da doença: OneWorld Health luta para curar as comunidades mais pobres do mundo

Criar a primeira companhia farmacêutica sem fins lucrativos do mundo não foi fácil, diz Victoria Hale, fundadora e diretora-executiva do Institute of OneWorld Health (IOWH).

 

“Quando começamos a divulgar nosso plano de negócio para alguns diretores-executivos recém-aposentados de grandes empresas farmacêuticas, houve uma certa preocupação de que a OneWorld Health estivesse tentando começar uma indústria sem fins lucrativos nos EUA”, observa. “Mas, embora nossa sede seja em São Francisco, os mercados que visamos estão fora dos EUA. E não pretendemos competir com as empresas ocidentais que têm fins lucrativos. Isso agora está bem claro.”

 

Além disso, quando Hale tentou levantar fundos para seu grupo no Vale do Silício no ano passado, “nos disseram: ‘É uma grande idéia, mas você está alguns anos atrasada. A bolha já explodiu’”. Foi lamentável, diz ela, porque a Bay Area em geral – e os americanos descendentes de indianos em particular – “poderiam ter sido uma grande fonte de doações, especialmente para o nosso programa da febre negra em Bihar, o Estado mais pobre da Índia.”

 

Mas sempre é possível encontrar uma solução quando o objetivo é desenvolver medicamentos para combater doenças parasíticas mortais que todo ano afligem milhões de pessoas nas regiões mais pobres do mundo.

 

A genialidade do OneWorld Health, que foi oficialmente constituído no ano 2000, é que seu modelo beneficia a todos. As grandes empresas farmacêuticas são incentivadas a doar as pesquisas existentes – de compostos químicos a medicamentos totalmente desenvolvidos – sobre doenças que afetam principalmente as áreas mais pobres da África, América Latina e Ásia. Elas não têm incentivos econômicos para continuar desenvolvendo esses medicamentos, pois o mercado potencial é constituído basicamente por pessoas que não podem pagar nem mesmo os remédios mais simples. Por outro lado, ao doar sua pesquisa ao OneWorld Health, elas têm dedução de impostos e publicidade favorável.

 

O OneWorld Health então usa os recursos obtidos das fundações e agências governamentais para levar esses medicamentos dos experimentos clínicos para as mãos dos doentes graves. A organização se concentra somente nos medicamentos que prometem eficácia e preço acessível e não têm efeitos colaterais tóxicos que possam prejudicar outros tratamentos.

 

Em vez de se afastar das companhias farmacêuticas, o OneWorld Healt está trabalhando para fazer parcerias com tais empresas e também com as de biotecnologia. No ano passado, apesar das dificuldades econômicas, o instituto recebeu uma verba de US$ 4,7 milhões da Bill and Melinda Gates Foundation e assinou compromissos de parceria de muitos milhões de dólares com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e os Institutos Nacionais de Saúde (NHI).

 

Acabando com a febre negra

Eis o que foi feito com o dinheiro até agora.

 

“Assim que saímos em campo, logo nos deparamos com a febre negra e a doença de Chagas”, conta Hale, uma cientista farmacêutica. A febre negra, também conhecida como calazar ou leishmaniose visceral, infecta 500.000 pessoas e mata até 200.000 a cada ano na Índia, Bangladesh, Nepal, Sudão e Brasil. Transmitida pela picada de um minúsculo mosquito-pólvora, a febre negra ataca os órgãos internos e é fatal se não tratada. A doença de Chagas é uma infecção parasítica que acomete entre 16 e 18 milhões de pessoas na América Central e América do Sul e mata cerca de 50.000 anualmente. A doença, disseminada por insetos e transfusão de sangue, debilita o coração e pode levar à insuficiência cardíaca.”

 

No caso da febre negra, a Pharmacia & Upjohn (adquirida no ano 2000 pela Monsanto e adquirida novamente em 2003 pela Pfizer) produziu uma primeira versão de um medicamento para combater essa doença. Na década de 1980, a Pharmacia & Upjohn abandonou o projeto de desenvolver o medicamento, chamado paromomicina, e permitiu que a Organização Mundial de Saúde começasse a explorar sua eficácia contra a febre negra.

 

No ano passado, o IOWH decidiu fazer parceria com a OMS para desenvolver a paromomicina para aprovação pelos órgãos reguladores da Índia, país que tem a maior incidência de febre negra. “A febre negra está na medida certa para nós”, diz Hale. “Na Índia, podemos estudar o fármaco e cobrir 60% de todos os pacientes portadores da doença. A alternativa seria começar com uma doença como a malária, mas nesse caso teríamos de fazer um experimento [clínico] em 20 países. É difícil para uma organização pequena como a nossa começar com uma doença tão difundida.”

 

“Além disso, fomos atraídos pela idéia de trabalhar na Índia porque lá se fala inglês e já existe uma agência reguladora de alta qualidade. Por fim, o fato de o fármaco já ter completado a fase II dos testes clínicos era maravilhoso. Todos esses fatores se somaram para a decisão.” O IOWH recentemente contratou uma empresa indiana para comercializar o produto. Para essa empresa, é uma oportunidade participar de um projeto de saúde de âmbito global e trazer esperança para o povo indiano, explica Hale.

 

A doença de Chagas é outra história. O Celera Genomics Group – a empresa que estava competindo com o governo dos EUA para mapear o genoma humano – herdou um medicamento que poderia ser um tratamento para a doença de Chagas quando adquiriu a Axys Pharmaceuticals, a empresa que patenteou o composto. Em novembro de 2001, o Celera concedeu ao IOWH uma licença exclusiva e todos os direitos de desenvolvimento do fármaco, conhecido como CRA-3316. “Não há muita oportunidade comercial” para o Celera com esse medicamento, observou um porta-voz da empresa em uma reportagem jornalística naquela época. “Entretanto, trata-se obviamente de uma terapia que tem potencial para proporcionar muito benefício ao ser humano.”

 

Os Institutos Nacionais de Saúde vão colaborar realizando testes pré-clinicos em animais em preparação para os testes clínicos. O OneWorld Health pretende realizar os testes clínicos da fase I (com voluntários humanos) e procurar parceiros internacionais para desenvolver o medicamento para os testes clínicos das fases II e III na América do Sul, supondo que os testes preliminares corram bem.

 

O IOWH vai licenciar o fármaco para os fabricantes locais e “monitorar a qualidade e o preço [do produto]. Se não ficarmos satisfeitos, poderemos retirar a licença”, explica Hale. “O segredo é escolher logo, com muito cuidado, e tentar descobrir quanto essas empresas precisam ter de lucro para continuar fabricando o medicamento. Dividiremos o mercado em dois: o setor público – cerca de 90% dos pacientes – e o setor privado. Permitiremos que nossos parceiros fabricantes façam o que quiserem no mercado privado, mas o preço para o setor público terá de ser muito, muito baixo.”

 

E como ficam aqueles que não podem pagar nem mesmo um preço muito baixo? “É aí que os governos devem intervir”, afirma Hale. “Quando se entra numa área de pobreza e carência como essa, é de se supor que as pessoas não possam pagar nada. No caso da febre negra, o governo da Índia está se dedicando a erradicar a doença.”

 

Entrando pela porta da frente

O escritório do IOWH em São Francisco conta com quatro funcionários em tempo integral, oito em regime de meio período e cerca de 20 voluntários. “Gostaríamos de ter 200 voluntários, mas não temos pessoal suficiente para supervisioná-los”, observa Hale.

 

A estrutura ‘enxuta’ do grupo, no entanto, não leva em conta as muitas alianças e relacionamentos que o IOWAH tem com outras organizações. “Somos oportunistas”, reconhece Hale. “Pegamos processos que estão parados, os colocamos em andamento e tiramos vantagem do que já foi feito. Mesmo assim, ainda há muito a ser feito”. Esse modelo econômico significa que o IOWH não tem de sustentar laboratórios, fábricas ou um departamento de vendas e marketing. Sua estrutura é tão nova que “é muito fácil ser aprovado pelo Departamento da Receita Federal”, observa Hale. “Eles nunca viram uma companhia farmacêutica sem fins lucrativos antes. Nós somos a primeira.”

 

Além da OMH e do NIH, o OneWorld Health recebe ofertas de ajuda de biotecnólogos, escritórios de transferência de tecnólogos universitários e cientistas individuais. “Alguns nos perguntam se queremos fazer parceria com eles e talvez ajudar a levantar fundos para eles. Outras empresas querem simplesmente doar a propriedade intelectual para nós e não participar do projeto se ele for adiante”, conta ela.

 

“Mas acreditamos que ter um segundo parceiro é ainda melhor. Queremos motivar a indústria a continuar envolvida com essas doenças. Se pudermos fazer parceria com eles para continuar trabalhando com seus agentes antiinfecciosos e ainda pudermos trazer algum dinheiro dos NHI, das Nações Unidas, do Banco Mundial, da Usaid ou das fundações – bem como nossa experiência e nosso conhecimento do mundo em desenvolvimento – então ambos os lados sairão ganhando.”

 

Os grupos que financiam o OneWorld Health “consideram positivo o fato de sermos pequenos e ágeis e pedem que continuemos assim, pois isso nos permite fazer as coisas acontecerem”, diz Hale. “Trabalhamos com organizações enormes e burocráticas, mas somos extremamente flexíveis. Cada medicamento, cada programa, cada licença é diferente. Se criássemos uma burocracia dentro do OneWorld Health, jamais chegaríamos a lugar algum.”

 

Hale e seu grupo acabaram descobrindo exatamente os pontos fortes e os pontos fracos das grandes organizações. Por exemplo, apesar da enorme burocracia, “a OMS é fantástica para você se apresentar oficialmente e ir direto ao ministro da Saúde em qualquer país do mundo. Então, se estamos planejando estudar uma doença em uma zona rural pobre da Índia, precisamos que a OMC nos leve “às pessoas certas… Sem elas, nunca poderíamos ter assumido o projeto da febre negra.”

 

Imagens da doença

Hale trouxe para o OneWorld Health uma experiência diversificada dentro do setor farmacêutico. Trabalhou como farmacêutica no John Hopkins University Hospital em Baltimore, obteve seu doutorado em farmacologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco, analisou as solicitações de pesquisas de medicamentos no FDA, trabalhou como cientista sênior na Genentech e como consultora da Organização Mundial de Saúde e foi co-fundadora de uma firma de consultoria sobre desenvolvimento de medicamentos chamada Axiom Biomedical Inc.

 

“Quando tinha 40 anos, já havia feito tudo o que queria na vida. Tinha atingido todas as minhas metas. Mas, por causa do meu trabalho na indústria farmacêutica, descobri que havia um grande número de excelentes produtos que não estavam sendo utilizados. Podia imaginar quantas pessoas seriam ajudadas se houvesse um meio de fazê-lo.”

 

Segundo Hale, em todo o mundo a comunidade da saúde estava desestimulada pela falta de verbas e pela incapacidade de fazer progressos, em parte porque algumas das doenças mais devastadoras porém mais fáceis de prevenir simplesmente não eram importantes para o Ocidente. “Eu trouxe para o campo da parasitologia um pouco de otimismo, a sensação de que seria possível realizar alguma coisa, que podíamos começar tentando essa nova abordagem. Não sabemos se vai funcionar ou não”, adverte.

 

Era especialmente importante conhecer outros cientistas de outras culturas, acrescenta Hale. “Eles são extremamente humanitários e talentosos, mas simplesmente não têm oportunidades [de fazer progresso contra essas doenças]. Estamos tentando criar meios para que isso seja possível.”

 

Hale viaja com freqüência para o sudeste da Ásia a fim de visitar locais e pacientes que têm doenças parasitárias. “Qualquer um que veja essas imagens uma vez fica envolvido. Não é possível tirar essas pessoas da cabeça. As doenças parasitárias têm um apelo extremamente forte. Você vê como essas pessoas vivem e percebe que grande parte de seu sofrimento poderia ser evitada.”

 

“Espero continuar me dedicando a estes projetos pelo resto da minha vida.”

 

Um novo modelo

Apesar das doações das fundações e agências governamentais, Hale reconhece a necessidade de um “modelo sem fins lucrativos que seja auto-sustentável”. “Quando você trabalha com projetos do porte dos nossos – de milhões de dólares – é importante entender que nem sempre se pode contar com os filantropos”. A idéia então é escolher uma doença – e um produto para tratá-la – que seja suficientemente difundida de modo que “as frações de centavos que lucrarmos com cada tratamento possibilitem o financiamento de nosso próximo programa.”

 

Nessa linha, o OneWorld Health está iniciando o lançamento de um amplo programa global para desenvolver novos tratamentos e vacinas para doenças diarréicas, a segunda maior causa de morte de crianças com menos de cinco anos de idade. “Identificamos um fármaco que encerrou os testes da fase II alguns anos atrás e que estava ‘encostado’”, diz Hale. “É o tipo de tratamento que poderia ser usado por milhões de pessoas em todo o mundo.”

 

Seus dois primeiros programas financiados – para febre negra e doença de Chagas – “não darão lucro”, acrescenta ela. “Esses programas são para os mais pobres dos pobres. As pessoas adquirem essas doenças em conseqüência de sua extrema pobreza.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Imagens da doença: OneWorld Health luta para curar as comunidades mais pobres do mundo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 November, 2003]. Web. [21 September, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/imagens-da-doenca-oneworld-health-luta-para-curar-as-comunidades-mais-pobres-do-mundo/>

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"Imagens da doença: OneWorld Health luta para curar as comunidades mais pobres do mundo" Universia Knowledge@Wharton, [November 25, 2003].
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