Indústria automobilística mexicana em alerta com a chegada de Trump

O republicano Donald Trump ganhou as eleições presidenciais dos EUA contra todos os prognósticos. Ele chegou à Casa Branca com promessas de fazer todo o possível para proteger a economia do país e obrigar as empresas americanas a levar de volta suas fábricas para o território nacional.

Nesse sentido, entre as medidas por ele mencionadas durante a campanha eleitoral estavam a possível ruptura dos tratados internacionais de comércio, como o NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) ou a imposição de tarifas elevadas para os produtos importados. Um discurso extremamente protecionista que rompe com a postura tradicional a favor do livre comércio mantido pelos EUA nas últimas décadas.

Se Trump cumprir suas ameaças, um dos setores industriais mais afetados seria o setor automobilístico. E um dos países mais prejudicados seria o México, que produziu mais de 3,5 milhões de veículos em 2015, o que o coloca como sétimo maior fabricante mundial. Grande parte desses carros produzidos em solo mexicano foram enviados a seu vizinho do norte.

De acordo com os últimos números oficiais da balança comercial dos EUA, correspondentes ao fechamento do mês de outubro deste ano, o México ocupa o terceiro lugar no ranking de países que exportam carros para os EUA, sendo superado apenas pela Alemanha e pelo Japão. Ao mesmo tempo, é o principal exportador de caminhões e ônibus e o país que mais vende autopeças para a indústria automobilística americana.

Nos dez primeiros meses de 2016, 86,1% das exportações de automóveis e caminhões do México foram enviadas para seus parceiros comerciais do NAFTA, o que em números absolutos corresponde a quase dois milhões de veículos, de acordo com dados da Associação Mexicana da Indústria Automobilística (AMIA). Atualmente, o mercado americano concentra 77% das exportações mexicanas desses produtos.

Tarifa de 35%?

Tudo indica que persistirá a dependência do México em relação ao mercado americano e, inclusive, ficará maior nos próximos anos, a não ser que aconteça alguma mudança drástica com a chegada de Trump à presidência. A Ford, por exemplo, disse há alguns meses que deslocaria toda a sua produção de modelos de pequeno porte de Michigan para o México. A decisão foi duramente criticada pelo recém-eleito presidente.

Trump chegou a ameaçar dizendo que imporia tarifas de 35% sobre os carros produzidos no México. “A tarifa seria imposta a todo o setor automobilístico, o que poderia ter um forte impacto sobre a economia americana”, disse à imprensa Mark Fields, CEO da Ford, depois de um discurso feito durante o congresso Automobility, em Los Angeles. A Ford é a favor do “comércio livre e justo”, acrescentou.

Brad McBride, professor do departamento acadêmico de administração do Instituto Tecnológico do México, acredita que se Trump levar adiante sua ameaça, o efeito sobre a indústria mexicana será significativo. “Com a aplicação de uma tarifa de importação sobre automóveis ou componentes, muitos fabricantes deslocariam grande parte da sua produção voltada para a exportação para o sudeste dos EUA: para as Carolinas, Alabama, Tennessee ou para a Geórgia. Essa região teria uma boa vantagem comparativa em relação à costa do México se forem introduzidas barreiras tarifárias”, prevê McBride.

De acordo com Miguel León, professor reitor da área de direção de operações da Escola de Negócios IPADE, a implantação de uma tarifa especialmente alta pelo governo Trump “acabaria com a exportação das empresas americanas (GM, Ford, Chrysler) e, consequentemente, resultaria no desabastecimento de alguns produtos no mercado americano”. León diz que se esse tipo de medida for posta em prática, os fabricantes americanos teriam duas opções: absorver juntamente com os distribuidores o custo da nova tarifa ou redirecionar sua produção no mundo todo aproveitando os tratados comerciais que o México vem firmando com diferentes países do mundo.

Jorge Arturo Yescas Hernández, professor do departamento de engenharia industrial e mecânica da Universidade de las Américas, em Puebla, diz que a eliminação ou o aumento das tarifas “pode fazer com que as montadoras, cujo principal mercado é os EUA, voltem a se restabelecer nesse país sempre que o preço adicional da mão de obra não repasse o imposto pago atualmente”. Nos dois casos, diz, “o consumidor final será afetado”

Todos os grandes grupos automobilísticos mundiais estão presentes no México. A Audi foi a última grande marca a abrir uma fábrica (em Puebla), onde montará seu SUV Q5 para o mundo todo. No futuro próximo, chegarão ao país outras empresas, como a Mercedes-Benz e a BMW ─ que planeja um investimento de US$ 2,2 bilhões em Luis de Potosí. Essas empresas se unirão a outras que já estão presentes no país, como a Volkswagen, Renault, Nissan, Toyota, Mazda e Honda.

Contudo, as empresas que têm um peso maior na indústria automobilística mexicana são as americanas. Tanto é assim que um total de 54,6% das exportações do México foram de carros fabricados nas fábricas da General Motors, Ford e Fiat Chrysler.

O fato de que nos últimos anos tenham chegado ao país investimentos de mais de US$ 15 bilhões oriundos desse setor tem uma explicação. O México tem tratados de livre comércio com a União Europeia, EUA e Canadá (NAFTA) e com países da América Central e do Mercosul. Some-se a isso o relativo baixo custo da mão de obra, que compensa os gastos logísticos decorrentes do transporte de veículos montados em outros países. Contudo, com a chegada de Trump ao governo e a possível ruptura dos acordos comerciais, há uma pergunta que parece inevitável: o México perderá suas vantagens competitivas e, portanto, as grandes marcas deixariam de investir no país?

Para León, “não parece possível que as grandes marcas paralisem seus investimentos”. Ele disse que, a curto prazo (cinco anos), seria impossível para os fabricantes substituir a capacidade de produção do México por outra que mantenha o mesmo nível de qualidade a um custo similar. McBride também pensa da mesma maneira, embora creia que os fabricantes não sairiam do país por outros motivos: “Há um mercado interno substancial e em crescimento no México”. Contudo, ele certamente acredita na possibilidade de que se reduza a produção no México substituindo-a pelo incremento da produção nos EUA, “uma área competitiva, econômica e sem muita atividade sindical”.

Para Yescas Fernández, as coisas não estão muito claras. Ele acredita que algumas marcas podem pensar duas vezes antes de investir seu dinheiro no país. No caso específico da BMW, ele diz que “se levarmos em conta que seu objetivo inicial é abastecer o mercado latino-americano, então o impacto não será tão grande a ponto de paralisar seus investimentos”. No entanto, ele diz que a situação da concorrente da empresa, a Mercedes-Benz, pode ser muito diferente, já que sua intenção é se instalar em solo mexicano e vender para o mercado americano. “Neste caso, os investimentos seguramente serão afetados”, adverte.

Duro golpe para o país

Apesar de tudo, os especialistas acreditam que a economia mexicana seria fortemente prejudicada se o setor automobilístico for afetado pelas decisões políticas de Washington. Para León, o prejuízo seria significativo, já que 80% das exportações de carros têm como destino os EUA, sendo que a indústria representa em torno de 3% do PIB e 18% do PIB em produtos manufaturados. Apesar disso, León acredita que as possíveis medidas protecionistas teriam um efeito de bumerangue e acabariam prejudicando também os americanos. “A indústria mexicana baseia sua produtividade e competitividade em sua localização, na juventude da sua mão de obra e na grande tradição de montagem de veículos desde 1927, ano em que a Ford produziu seu primeiro carro no México. A capacidade de produzir veículos de acordo com programado com custo e qualidade de classe mundial, em muitos casos superiores aos do resto do mundo, tornam a indústria automobilística mexicana muito competitiva. É por isso que deixar de comprar do México sairia muito caro para os EUA. A compra teria de ser feita na China, que é o principal produtor e consumidor de unidades com mais de 22 milhões de vendas ao ano”, disse León.

McBride lembra que o norte do México prosperou consideravelmente durante os 22 anos de vigência do NAFTA. “Na verdade, agora grande parte do norte do país tem aspecto de economia de primeiro mundo, especialmente o estado de Nuevo León (Monterrey), devido à economia manufatureira criada pelo comércio com os EUA. Há uma classe média cada vez maior no México (também no norte e no centro do país), mas é provável que ainda não seja suficiente para criar uma demanda que substitua as exportações para o vizinho do norte”, disse.

É por esse motivo que McBride acredita que um golpe na indústria automobilística seria “terrivelmente negativo” para o México, “um impedimento grave ao seu crescimento no futuro”. Ele diz que o dano poderia ser parcialmente compensado por futuras desvalorizações do peso mexicano, o que tornaria toda a produção mexicana mais barata no exterior, “mas se as tarifas e outras barreiras resistirem a esse efeito de desvalorização, o país terá problemas”.

Yescas Hernández prevê uma importante desaceleração econômica no país caso as ameaças de Trump se concretizem. Um efeito que, conforme se lembra, já foi previsto também por órgãos como a Secretaria de Economia, a Associação Mexicana da Indústria Automobilística e o Banco Central de Comércio Exterior.

Para enfrentar esse possível novo contexto comercial e resistir a seus efeitos negativos, Yescas Hernández propõe que se “inicie imediatamente a criação de marcas nacionais e se promova o desenvolvimento mediante sua incorporação às necessidades de transporte do governo”. É evidente que o país terá de contar com tecnologia e pessoal qualificado para levar adiante inciativas desse tipo.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Indústria automobilística mexicana em alerta com a chegada de Trump." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 November, 2016]. Web. [18 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/industria-automobilistica-mexicana-em-alerta-com-chegada-de-trump/>

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"Indústria automobilística mexicana em alerta com a chegada de Trump" Universia Knowledge@Wharton, [November 29, 2016].
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