Indústria colombiana da moda em ascensão

A Colômbia mudou muito nos últimos anos. O país não é mais conhecido por sua taxa elevada de crimes. Hoje, ele é um destino bastante procurado de férias com uma economia vibrante. Um setor que evoluiu muito depressa foi o da indústria da moda. Como foi que a Colômbia se tornou um centro da moda na América Latina, rivalizando com mercados maiores como o do Brasil e do México? Por que as marcas internacionais, e também os empresários, estão afluindo para o país assim como fizeram com o Brasil anos atrás?

De 2009 a 2014, a Colômbia teve um crescimento de 5,5% em volume de vendas no setor de vestuário e calçados. Esse número é maior do que o registrado no México (4,9%), Brasil (3,3%) e Argentina (3,4%), de acordo com uma pesquisa da Euromonitor publicada em abril de 2015. A agência prevê que o crescimento futuro do setor de vestuário e de calçados da Colômbia, de 2014 a 2019, será ainda maior.

Um dos fatores mais importantes que explica a ascensão da Colômbia na indústria da moda é a indústria pujante de têxteis de Medellin. O setor gera 30% dos postos de trabalho na cidade, ao mesmo tempo que aproximadamente 50% das exportações têm como destino EUA, Costa Rica, Venezuela, Europa e Equador. Como consequência da alta qualidade dos tecidos e do baixo custo de produção, Medellin já há algum tempo passou a ser vista como centro de produção que tem atraído a atenção dos designers do mundo todo.

A economia colombiana avançou nos últimos anos como resultado de reformas políticas e econômicas deflagradas pelos governos de Álvaro Uribe e de Juan Manuel Santos, entre 2000 e 2010. Ambos promoveram a redução significativa dos níveis de criminalidade como consequência da “agenda de segurança doméstica”. Santos, presidente desde 2010, levou adiante essa iniciativa através de negociações de paz com a organização guerrilheira FARC.

Outras reformas abriram a economia colombiana para o comércio e o empreendedorismo internacionais. Comparados com outros países da América Latina, os pré-requisitos legais para a criação de empresas na Colômbia são menos rigorosos: por exemplo, não há necessidade de nenhum investimento na hora de abrir uma start-up ali. Além disso, trata-se de um mercado favorável ao investimento internacional. De acordo com o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation de 2015, o índice médio das tarifas na Colômbia é de 4,4%, mais baixo do que o do Brasil (cerca de 8%) e da Argentina (cerca de 6%). A Colômbia é também membro da Aliança do Pacífico, que incentiva os investimentos entre Chile, Costa Rica, México e Peru. Investidores estrangeiros e locais são, geralmente, tratados da mesma maneira pelas leis do país, sendo o crédito alocado conforme os termos de mercado, em igualdade de condições para as firmas estrangeiras.

Por causa disso, a Colômbia foi eleita, em 2015, o melhor país da América Latina para se fazer negócios pelo Banco Mundial, e líder internacional em empreendedorismo pelo Fórum Econômico Mundial. A economia do país cresceu 5%, tendo o desemprego caído para seu nível mais baixo em mais de uma década. Um relatório de 2014 do The Business of Fashion, publicação online especializada no mundo da moda, diz que a estabilidade da Colômbia e os avanços na área de segurança contribuíram para o aumento de compras pelo público. Muitos colombianos que decidiram gastar com itens de luxo no exterior agora se sentem seguros em gastar seu dinheiro dentro do país. De igual modo, houve um aumento no número de colombianos de classe média e alta que optaram por permanecer na Colômbia em vez de ir para o exterior. A confluência de todos esses fatores levou a um influxo de marcas locais e internacionais, dentre elas, por exemplo, a Zara, varejista espanhola do setor de vestuário e acessórios que hoje opera também no mercado colombiano.

“Creio que a Colômbia se abriu efetivamente para um mercado de moda ‘sério’ com a chegada da Zara, disse Natalia Uribe, editora de moda da Esquire Colômbia. “Os bons resultados desse empreendimento fizeram com que a Inditex e outras marcas se dispusessem a investir no país. Isso foi há sete anos. Hoje, há outras marcas importantes do mercado intermediário e de luxo entrando na Colômbia.”

A chegada das marcas de luxo

Em 2012, Ferragamo, Longchamp, Montblanc, Vilebriquin e outras marcas abriram lojas em Bogotá, capital do país. Burberry, Dolce & Gabana e Tiffany & Co., entre outras, fizeram o mesmo no ano seguinte. De acordo com Kelly Talamas, editora chefe da Vogue México e América Latina, “por volta de 2009 ou 2010 houve uma mudança de mentalidade em relação à Colômbia em geral ― surgiu uma perspectiva de maior esperança em relação ao seu potencial. Por essa época, o país tinha se tornado mais seguro e havia um efeito semelhante ao da conquista do Oeste, uma vez que, com exceção de alguns pioneiros como a Louis Vuitton, MaxMara e Hugo Boss, tratava-se de um mercado inexplorado tanto para investidores quanto para as marcas internacionais”.

A entrada das marcas internacionais ajudou a fomentar a indústria de moda local, transformando a Colômbia em um dos destinos mais destacados e importantes para os profissionais da indústria em toda a América Latina. Conforme diz Brenda Diaz de La Veja, editora chefe da Harper’s Bazaar México e América Latina, “de certa forma, foi uma vantagem porque a indústria da moda local pôde se desenvolver ao longo dos anos. Creio que se as marcas internacionais tivessem chegado à Colômbia há dez anos, os profissionais locais não teriam tido a chance de mostrar seu trabalho”. A Inexmoda, instituto privado de moda e exportação da Colômbia, realiza todos os anos dois dos mais importantes eventos do segmento têxtil e da moda em Medellin: o Colombiamoda e o Colombiatex.

O Colombiamoda, versão colombiana da Fashion Week de Nova York, ocorre em julho. Em 2015, o evento atraiu mais de 60.000 visitantes, entre os quais, 13.000 compradores (cerca de 20% de fora do país), tendo gerado mais de COL$ 1,063 bilhões (US$ 340 milhões) em negócios, o que representa um aumento de 11% em relação ao ano anterior. A Colombiatex é uma feira de têxteis de classe mundial cujo objetivo é a promoção das fábricas e da produção locais que hoje representam 12% do PIB do país. De acordo com Carlos Botero, presidente da Inexmoda, “é o evento de moda mais importante do setor de têxteis da América Latina […] uma feira de negócios que pode representar US$ 150 milhões em oportunidades de negócios, o que faz dela uma feira com um impacto verdadeiro sobre as diversas indústrias, executivos da área de negócios e participantes em que compradores em visita ao local encontrarão ofertas realmente interessantes e inovadoras”.

O evento de 2015 contou com mais de 500 exibidores e atraiu um público superior a 10.000 compradores do mundo todo. Ambos os eventos constituem oportunidades fundamentais para que os profissionais locais possam apresentar seus designs e inovações mais recentes, tendo ambos também influenciado fortemente a ascensão do empreendedorismo.

A presença de organizações como a Colombiamoda, que se dedica à promoção dos profissionais locais e contribui com o progresso da indústria, é extremamente importante, uma vez que a moda colombiana é exemplo da diversidade cultural do país. Ela é considerada fonte de orgulho, demonstração de criatividade, além de promover uma visão positiva do país. O povo colombiano é extremamente patriótico e dotado de uma paixão contagiosa por seus cantores, atletas e até mesmo designers, que são apoiados pelo país. É impressionante o fato de que, em face da chegada de um maior número de marcas internacionais mais conhecidas, a maior parte das vendas ali seja de produtos locais. Designers, como Julieta Suarez, dizem que os colombianos preferem uma moda que seja fiel à sua identidade local. Ela observa que “a chegada de marcas de luxo fez com que os colombianos apreciassem e apoiassem ainda mais os designers locais, aumentando sua visibilidade pelo fato de serem mais exclusivos e produzirem itens de alta qualidade”.

A atenção cada vez maior que a Colômbia tem recebido da comunidade internacional da moda pode também ser atribuída ao grande impulso dado por designers latinos que trabalham no exterior, e que tiveram seu interesse despertado pela região, de acordo com Talamas. A moda colombiana está arraigada no orgulho nacional, conforme se vê pelas vendas e pelo apoio que recebe de várias entidades. Esse sistema de apoio ficou demonstrado pela Creo Consulting, uma plataforma criada por duas primas colombianas, Giovanna Campagna e Claudia (Cloclo) Echavarría, para a promoção da moda e do design latino-americano. A dupla está empenhada na “criação de um programa semelhante ao CFDA dos EUA, que funciona como incubadora para jovens profissionais da Colômbia. “Elas representam o espírito empreendedor tal como o dos designers que representam, lançando campanhas e tentando gerar oportunidades para que a indústria colombiana cresça até um nível que lhe permita competir com os setores de moda de Paris, Milão e EUA.

Fidelidade às raízes

Com relação à Colômbia e à sua identidade nacional, há uma forte conexão entre os recursos naturais do país e sua moda. Seus designers são leais às suas raízes: suas coleções são influenciadas por suas comunidades e tradições, o que se pode notar por suas silhuetas fluidas, por seu caráter artesanal de alta qualidade e seleção de matérias-primas. A integração desses elementos mostra não apenas a beleza do país, mas também o impacto social positivo por trás desse processo.

A Mola Sasa, por exemplo, marca de luxo do segmento de bolsas, depende de molas (tecidos estampados) feitos por mulheres da comunidade indígena kuna na província de Urabá, em Alto Caimas. A designer Yasmin Sabet cria o exterior das bolsas usando molas, e o interior com fibras naturais locais. Segundo ela, é importante que se inclua a palavra mola na marca porque é fundamental que se reconheça e se compartilhe essa obra artística tão pessoal produzida por aquela comunidade de mulheres. Cada item é único e conta a história da mulher que o teceu. Segue-se, portanto, que cada bolsa representa a identidade colombiana, mais ainda das regiões locais e menos conhecidas do país.

O reconhecimento cada vez maior da indústria da moda colombiana também chama a atenção para os obstáculos do setor e para as áreas que ainda precisam ser desenvolvidas. Algumas questões de produção no país não se repetem em países que há tempos operam no segmento da moda e já têm seus processos devidamente consolidados. Campagna e Echavarría descrevem a dificuldade de integrar um sistema padronizado de tamanho de sapatos e apontam a ausência de controle de qualidade, coisas que consideram graves, enquanto Paula Herrera, criadora da bolsa da marca MAPA Collective, chama a atenção para o problema da comunicação e da falta de urgência na produção colombiana. Além disso, inexiste atualmente uma diversidade nos programas universitários dedicados à moda. Campagna e Echavarría insistem que é preciso haver uma mudança de mentalidade na Colômbia para que a moda seja aceita como “forma de arte”, de modo que ela possa participar de mostras de museus e possa também ser apreciada além das passarelas e butiques. Há várias áreas que podem ser aperfeiçoadas, e não apenas no mundo da moda. A Colômbia é um país que, até recentemente, não dispunha de estrutura formal em vários setores. O desenvolvimento acelerado dos últimos anos trouxe à tona a questão da modernização e da adaptação a esse crescimento. A visão da Creo Consulting e de outras plataformas pode ajudar a transformar a esfera da moda e do design na Colômbia, fornecendo os recursos e o apoio de que ela precisa para continuar a prosperar.

Por fim, a ascensão econômica da Colômbia abriu as portas e atraiu inúmeras marcas internacionais do setor da moda nos últimos anos. Seu sucesso, por sua vez, permitiu que a indústria da moda florescesse internamente. Graças aos vários esforços da Inexmoda, isto é, da Colombiamoda e da Colombiatex, a Colômbia conseguiu se impor como polo importante da moda na região e continua a atrair a atenção internacional. A indústria investiu pesadamente no apoio ao desenvolvimento de profissionais locais, criando um mercado de design forte na cultura e identidade nacionais. Na medida em que designers colombianas como Silvia Tcherassi conquistam a admiração e o reconhecimento internacionais, isso fará com que os compradores internacionais se interessem cada vez mais pelo design local. A Colômbia é, de fato, um mercado emergente com inúmeras oportunidades de crescimento e de desenvolvimento à medida de sua evolução nos próximos anos.

Este artigo foi escrito por Christina Cerezo, Vanessa Frances e Jessica Kong, membros da turma Lauder de 2017.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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