Indústria das flores na Colômbia: tendências atuais e desafios

A Colômbia é uma das economias mais avançadas da América do Sul. O PIB local cresceu a uma média anual de 4,6% nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco Mundial. A economia depende de dois setores fundamentais: minérios ― petróleo e gás, entre outros ― e agricultura: café e flores estão entre os produtos econômicos mais importantes do país.

A Colômbia é o segundo maior exportador mundial de flores depois da Holanda. Suas exportações de flores para os EUA cresceram rapidamente desde as remessas iniciais de 50 anos atrás. Atualmente, o mercado americano é, de longe, o principal mercado para as flores colombianas respondendo por 75% de suas exportações. A Rússia é o segundo maior cliente, ainda que bem atrás, com 5% das exportações.

O comércio de flores da Colômbia é considerado um modelo de cooperação econômica entre a América Latina e os EUA. Diversos fatores iniciais contribuíram para a viabilidade e o sucesso dessa indústria a longo prazo. Em agosto de 1961, John F. Kennedy, presidente dos EUA, lançou a Aliança para o Progresso, cujo objetivo era aumentar a cooperação econômica entre a América Latina e os EUA com foco específico na agricultura.

Em 1967, John Cheever, estudante de horticultura na Universidade do Colorado, identificou o apelo da indústria de flores em sua tese de mestrado “Bogotá, exportador de flor de corte para os mercados mundiais”. Ele observou em sua pesquisa que a região em torno de Bogotá era ideal para o cultivo de flores e sua proximidade com o aeroporto internacional e os EUA fizeram da Colômbia um exportador ideal. Cheever abriu um negócio em 1969 que foi tão bem-sucedido que nove concorrentes haviam entrado no setor no prazo de cinco anos.

Contudo, o mercado americano também tem seus desafios, especialmente devido à mudança no gosto do consumidor. Tome-se o caso da Passion Growers, um dos maiores produtores de flores de Bogotá.

A empresa atua há 13 anos no setor e, por meio de uma rede bem desenvolvida, despacha as rosas sete dias depois de colhidas. Moisés Croitoru, diretor de operações da empresa, disse que os três principais mercados da indústria de flores da Colômbia são os EUA, a Rússia e o Japão. O Dia dos Namorados, Dia das Mães e o Natal respondem por mais de 50% da demanda anual no mercado americano. Não é fácil planejar o atendimento dessa demanda em períodos específicos do ano, sobretudo no que diz respeito à contratação e ao treinamento da mão de obra temporária.

De acordo com Croitoru, os produtores colombianos de flores também tiveram de se adaptar aos gostos particulares dos consumidores americanos, que não gostam de grandes inflorescências [parte da planta onde se localizam as flores], ao contrário, portanto, de russos e japoneses. Como consequência, os produtores colombianos desenvolveram ciclos menores de cultivo que facilitam a produção rápida e em massa. Além disso, o consumidor americano tende a ser mais suscetível à influência da moda na escolha do estilo das flores, o que obriga os produtores de flores colombianos a ajustar frequentemente sua produção levando em conta tipos e cores. Croitoru disse, por exemplo, que ele muda seu plantio de rosas a cada quatro ou cinco anos, embora as plantas possam produzir flores por até 12 anos.

Ele acrescentou que a indústria de flores da Colômbia tem buscado meios de ampliar suas oportunidades globais. Diversos produtores estão exportando suas flores para novos mercados, como é o caso do Japão, apesar de custos mais elevados com transporte. Isso exige que os produtores ajustem seu cultivo e os processos de embalagem para atender aos padrões rígidos de qualidade dos japoneses.

Ampliando o mercado

O Japão é um mercado muito importante, já que ali as flores são vendidas a preços mais altos do que nos EUA, o que torna essas exportações rentáveis, embora haja custos de transporte. Privilegiar o mercado japonês diminuiria a dependência dos produtores colombianos dos EUA e lhes daria um fluxo de receitas ao longo do ano.

Assim como nos EUA, há uma forte demanda no Japão de flores para eventos especiais como Dia das Mães, Dia dos Namorados e o Higan (dias do equinócio de primavera e de outono quando se realizam cultos em memória dos ancestrais). Os japoneses compram flores com mais frequência para decoração da casa, para arte floral ou para dar de presente em eventos especiais. Além disso, o consumidor japonês está disposto a pagar um preço maior por uma qualidade melhor. Isso significa que os produtores de flores da Colômbia que atendem às exigências do mercado japonês podem desfrutar dos benefícios de uma demanda mais estável e de margens mais elevadas de lucros.

Ao mesmo tempo, os importadores de flores no Japão são tidos como mais exigentes não apenas por causa de suas exigências mais severas, mas também devido à especificidade de seus pedidos. Por exemplo, quando os importadores americanos encomendam flores, eles geralmente indicam apenas a cor que desejam, de modo que os produtores têm maior flexibilidade na hora de selecionar o tipo de flor a ser exportada. Os importadores japoneses, porém, encomendam uma variedade específica de flor e não aceitam outra coisa no lugar, mesmo que seja muito parecida.

Além disso, as flores têm de ser transportadas da Colômbia para o Japão 72 horas depois de colhidas. Embora a produção de flores esteja concentrada em um bairro de Bogotá, a cerca de uma hora do aeroporto principal de caminhão, e embora a indústria de flores colombiana tenha aperfeiçoado de modo significativo o processo de transporte, ainda assim é difícil finalizar a entrega do produto ao Japão em 72 horas e controlar o ritmo de florescimento das flores para garantir que estejam em seu pico máximo no momento da entrega.

Novas políticas governamentais também ajudam

Conforme dissemos anteriormente, a exportação de flores é uma fonte de renda importante para a economia colombiana. Contudo, a indústria é volátil e sofre o impacto de vários fatores, inclusive do tempo. Os agricultores também são uma das classes menos protegidas do país. Para compreender as tendências do setor e o papel que nele tem o governo atualmente, é preciso levar em conta dois aspectos. O que aconteceu à indústria em anos recentes? Como foi que o papel do governo colombiano evoluiu nesse tempo?

É importante compreender a situação atual do ponto de vista do produtor local, especialmente daquele que está há muitos anos no setor. Croitoru disse que o governo introduziu duas ferramentas fundamentais de apoio ao setor: empréstimos para os agricultores e uma política de céu aberto, que permitiu o barateamento do transporte.

A indústria de flores, a exemplo da maior parte das indústrias do setor agrícola, é imprevisível e requer investimentos em tecnologia, terras e material. Para comprar sementes e plantas, as empresas geralmente contratam empréstimos e os pagam depois da colheita. Há duas restrições para a concessão de empréstimos por parte dos bancos privados na Colômbia ― a elevada taxa de juros e a relutância dos bancos de conceder empréstimos a empresas voláteis e de alto risco.

Para lidar com isso, o governo, em dezembro de 2014, criou 40 linhas de crédito diferentes para a indústria agrícola através do Banco Agrario. Esse processo dá aos agricultores acesso ao crédito em menos de três dias e leva em conta os ciclos de produção. As empresas podem se candidatar a um empréstimo de até US$ 30 milhões por quatro anos para investir em capital de giro. A taxa de juros é de 16,77% ao ano e é fixa pelo período contratado.

É interessante comparar o papel do atual governo da Colômbia com o da Holanda, o maior exportador de flores do mundo. O governo holandês tentou promover o crescimento do setor subsidiando o custo de novas tecnologias e permitindo o uso de pesticidas. Atualmente, o financiamento é feito por bancos agrícolas comerciais, como o Rabobank, que oferece empréstimos a taxas de juros baixas.

Com relação à política de céu aberto do governo colombiano introduzida em 2011, o acordo com 36 país garante maior acesso às companhias aéreas ao mercado colombiano e oferece aos consumidores preços mais atraentes. Como consequência, os custos de transporte e os prazos de entrega caíram significativamente, e a competitividade das flores colombianas no exterior aumentou.

Outro ponto importante a considerar com relação à indústria de flores da Colômbia é a força de trabalho. O setor emprega sobretudo mulheres com pouca instrução. É difícil subestimar os benefícios para esses empregados em sua maioria da zona rural, os quais têm poucas oportunidades de emprego fora de casa, especialmente no setor formal. Além disso, 69% das mulheres empregadas são chefes de família. Essas mulheres colhem os benefícios oriundos de uma renda maior, adquirem casa própria e tem uma rede social maior de contatos e maior autoestima. Seu emprego também altera a dinâmica de força em seus lares, na medida em que ganham maior autonomia econômica.

O grande número de mulheres empregadas e a autonomia que isso lhes confere cria benefícios secundários na sociedade, principalmente em torno das áreas de produção de flores. As taxas de homicídio caíram nessas regiões. De acordo com um estudo de 2015 de Sara Hernandéz, “Guns N’ Roses: oportunidades de emprego para mulheres e seu impacto sobre a violência na Colômbia”, cada ponto percentual a mais na produção de flores reduz em 0,08 por hectare a taxa de homicídio nos distritos que produzem flores. Já os aumentos dos preços do café levam ao crescimento dos homicídios. Esse fenômeno se explica, em parte, pela mudança de dinâmica na família e pela diminuição das dificuldades financeiras nos lares em que as mulheres têm emprego.

Apesar dos benefícios para a sociedade, os trabalhadores da indústria de flores são submetidos a grandes desgastes físicos e emocionais. Seu emprego é solitário, repetitivo e cansativo. Além disso, trabalham com prazos muito apertados. Muitas vezes, eles dizem que o salário é o único aspecto positivo do trabalho.

De acordo com um estudo da Corporación Cactus, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para a melhora da vida dos empregados da indústria de flores, os trabalhadores têm pouca satisfação no trabalho e poucas perspectivas, não há entrosamento e nem apoio emocional, as demandas psicológicas são excessivas, não há segurança no emprego e outros problemas. Uma vez que os custos de mão de obra compreendem 55% dos custos operacionais (o número correspondente da indústria têxtil é de apenas 27%), as empresas resistem à introdução de melhoras que resultem em aumento de custos ou reduzam a produtividade.

Contudo, a indústria introduziu melhoras constantes nas condições de trabalho em razão, em grande parte, da pressão dos países importadores. O Florverde, um certificado de padrões ambientais e de condições de trabalho, foi criado em 1996 para aprimorar os padrões operacionais na Colômbia. A Passion Growers oferece diversos programas de apoio aos seus empregados a custo zero ou nominal. Croitoru citou um programa em particular que permite ao trabalhador concluir sua educação formal e outro que oferece pré-escola às crianças. Ipanema, a fazenda da empresa, foi reconhecida em 2011 como “Lugar Excelente para Trabalhar” pelo Instituto de Lugares Excelentes para Trabalhar da Colômbia, que avalia e classifica empresas. Além disso, organizações como a Asociación Herrera, o sindicato Untraflores, Casa das Flores, Corporación Cactus e CorpoLabor oferecem serviços e apoio a mulheres do setor.

O sucesso da indústria de flores da Colômbia se deve à demanda internacional. O setor soube chegar ao nível atual com pouca participação do governo. Contudo, para continuar a prosperar, a indústria necessita de mais apoio governamental e melhores condições de trabalho. Apesar de sua longa história, a indústria ainda tem um vasto caminho a percorrer antes de se tornar a maior do mundo.

Este artigo foi escrito por Sebastian Apud, Gennadiy Babenko, Bobby Gianchandani e Mizuho Imanishi, membros da Turma Lauder de 2017.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Indústria das flores na Colômbia: tendências atuais e desafios." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 May, 2016]. Web. [18 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/industria-das-flores-na-colombia-tendencias-atuais-e-desafios/>

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