Investir na Rússia é um risco alto demais?

As recentes incursões militares na Crimeia e no leste da Ucrânia ─ combinadas com relatos de cumplicidade de Vladimir Putin nos assassinatos de dissidentes russos e o hackeamento dos computadores do Comitê Nacional Democrata no ano passado ─ reforçaram a reputação de instabilidade da Rússia e a imagem de ditador obcecado pelo poder de Putin. Contudo, como o presidente dos EUA, Donald Trump, tem falado de forma tão admirável de Putin, muitos observadores esperam que o novo governo retire as sanções impostas à Rússia e cultive uma relação mais próxima com o país. Será que essa dinâmica em evolução tão rápida poderia dar lugar a uma nova oportunidade de investimentos para as empresas americanas em setores específicos? Ou seria a Rússia, sob Putin, um projeto arriscado demais para todos, exceto para uns poucos investidores estrangeiros dos EUA?

Embora a Rússia seja rica em petróleo e gás, e ofereça ao investidor um mercado consumidor de 143 milhões de pessoas, seu papel de fornecedor de bens para os EUA e de mercado para produtos feitos nos EUA vem decaindo de forma persistente apesar da entrada do país na Organização Mundial do Comércio em 2012. Além disso, embora a relação econômica dos EUA com a Rússia tenha estagnado, os laços econômicos dos EUA com a China ─ que tem cerca de dez vezes a população da Rússia (1,38 bilhão) ─ cresceu rapidamente. Desde os primeiros momentos do século 21, o comércio bilateral entre EUA e China praticamente quintuplicou, de US$ 116 bilhões, em 2000, para US$ 577 bilhões em 2016, ao passo que o comércio bilateral entre EUA e Rússia quase que dobrou, passando de meros US$ 9,75 bilhões, em 2000, para US$ 20,3 bilhões em 2016.

Igualmente preocupante para perspectivas futuras, o influxo do Investimento Direto Externo (IDE) na Rússia caiu 92% em 2015, em cifras anuais, passando para US$ 9,8 bilhões, de acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês), e a parte do IDE no PIB russo permaneceu baixo ─ somente 1,5%. Naquele mesmo ano, o influxo de IDE na China cresceu US$ 135 milhões, e o volume de IDE enquanto percentual do PIB da China foi de 11,1%, ou mais de sete vezes acima do registrado na Rússia. De acordo com o Portal de Negócios Santander, o “IDE da Rússia não deverá se recuperar devido à ausência de melhoras reais na Ucrânia e questões persistentes de governo”, tais como “corrupção e incertezas sobre o estado de direito e a estabilidade regional”.

O principal desestímulo: a economia debilitada

Philip Nichols, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, aponta três grandes desestímulos para o investimento externo na Rússia. “O maior de todos nos últimos anos foi a contração econômica. A economia encolheu.” A economia russa encolheu 0,2% em 2016 depois de uma contração revisada para baixo de 2,8% em 2015, conforme estimativas do escritório oficial de estatística do país.

Nichols explica: “Três fatores foram responsáveis pela contração.” O primeiro deles foi a queda acentuada do preço do petróleo depois da crise financeira global de 2008-2009. “É um fator muito importante, mas não decisivo.”

O segundo fator é o impacto das sanções contra a Rússia por suas ações na Crimeia e na Ucrânia. Diferentemente das sanções americanas contra o Irã e Cuba, cujo propósito era prejudicar aquelas economias, as sanções russas “tiveram como objetivo afetar indivíduos ou empresas que possam ter influenciado as decisões a respeito da Ucrânia”. Contudo, por causa das sanções, “ficou muito difícil mexer com dinheiro, o que resultou num medo psicológico por parte dos investidores russos dispostos a tirar seu dinheiro do país o mais rápido possível”.

Um terceiro fator para a contração foi que “o governo russo ampliou sua presença e controle sobre a economia. Já vimos antes esse nacionalismo assustador. Setenta por cento da economia russa é estatal. É um número grande quando comparado com a Europa oriental. Não é necessariamente encorajador para a inovação e o empreendedorismo, e certamente não para o investimento externo”.

Embora a Rússia tenha recursos naturais abundantes, uma força de trabalho qualificada e um grande potencial, entre seus pontos fracos estão “um clima instável para os investimentos, regulações contábeis e leis às vezes complexas e contraditórias”, violação endêmica da propriedade intelectual e o fato de que muitos setores considerados estratégicos estão fechados ao investimento externo, observa o Portal de Negócios Santander.

Que tipos de produtos estão atraindo o investimento estrangeiro? “Uma grande quantidade de produtos de fabricação leve estão migrando do oeste europeu para a Rússia”, observa Nichols. “Com relação aos produtos norte-americanos, os russos estão interessados em bens de consumo, sobretudo alimentos. O segmento financeiro também interessa a algumas pessoas. Contudo, os principais são petróleo e gás ─ mas essas não são opções fáceis. O rublo desmoronou ─ caiu pela metade ─ portanto, embora o nível de consumo na Rússia não tenha sido afetado, também não está crescendo muito depressa. O varejo tem passado por momentos difíceis nos últimos quatro anos” depois de um período de “crescimento elevado em que havia lojas ocidentais abrindo as portas no país. A situação agora é de estagnação ou de fechamento. Existe a previsão de crescimento real em 2017 ─ o varejo pode voltar à carga ─, mas eu tenho o pressentimento de que ele tenha de esperar pelo menos um ano.”

Melhorias no ambiente de investimentos

No entanto, segundo alguns especialistas russos, há motivo para otimismo a longo prazo. Randi B. Levinas, vice-presidente executivo e diretor de operações do Conselho de Negócios EUA-Rússia (USRBS, na sigla em inglês), diz que a Rússia “continua a fazer melhorias em seu ambiente de investimentos, conforme demonstrado por seu persistente crescimento na pesquisa ‘Fazendo Negócios’ do Banco Mundial. Em 2015, pela primeira vez, a Rússia recebeu a melhor classificação geral entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). A Rússia saltou 24 posições na categoria ‘Obtendo eletricidade’ devido, em grande parte, a um declínio significativo no custo de obtenção de alvarás. O país galgou 19 posições na categoria ‘Obtenção de crédito’, uma vez que, segundo avaliação do Banco Mundial, as proteções legais para tomadores e credores estão agora no mesmo patamar das proteções oferecidas pelos países de renda elevada da OCDE.”

Apenas 12 entre 189 países pesquisados fizeram pelo menos quatro reformas fundamentais para melhorar o ambiente de negócios, mas a Rússia fez cinco. Levinas acrescentou que a “USRBC […] acredita que a presença ativa de nossas empresas na Rússia e seu partilhamento de melhores práticas são influências positivas no mercado”.

Patricia Dowden, presidente e CEO do Centro de Ética nos Negócios e Governança Corporativa, observou que embora haja uma percepção generalizada no exterior de corrupção e violência generalizadas na Rússia, a Pesquisa de Fraude Global da EY (2016) mostrou que a “Rússia continua a desenvolver e a ampliar o alcance de sua legislação anticorrupção com um número cada vez maior de autoridades do governo de quem se exige que revelem sua renda pessoal e possíveis conflitos de interesse. A Rússia também se dedicou a combater a corrupção em nível regional, submetendo vários governadores e outras autoridades à investigação criminal,, bem como em nível multinacional, repatriando diversos homens de negócios bem conhecidos cujas fortunas foram supostamente construídas através de esquemas fraudulentos”.

Em uma pergunta feita aos entrevistados eles deviam responder se “práticas de suborno/corrupção ocorriam de forma generalizada no país”. A Rússia ficou na posição de número 31 de 57, pouco à frente dos EUA, que ficou na posição 32, assinala Dowden. Além disso, as leis anticorrupção da Rússia trabalham com regulações muito semelhantes à Lei de Combate a Práticas Corruptas Estrangeiras nos EUA e à Lei Antissuborno do Reino Unido, sendo que ambas vêm sendo postas em prática com muito rigor, diz Dowden. Putin assinou um decreto presidencial relativo ao Plano Nacional de Anticorrupção para 2016-2017.

“As iniciativas do governo privilegiaram a imparcialidade e a transparência nos procedimentos de compras, tanto por grandes empresas estatais quanto por grandes companhias privadas”, acrescentou Dowden. “As empresas estatais criaram sistemas sofisticados para lidar com propostas de forma transparente.” Dowden cita o Instituto de Aquisições Públicas, fundado em 1998. Certificado pelo governo russo, ele disponibiliza um centro educacional de aquisições para compras estaduais e municipais, compras corporativas e outras compras reguladas pelo governo, além de participar de atividades públicas de combate à corrupção. “As atividades anticompetitivas são rigorosamente monitoradas pelo Serviço Federal Antimonopólio, que obriga a introdução de práticas severas de igualdade de condições para a realização de compras. A transparência é muito importante para os requisitos de compras.”

Em se tratando de tolher a corrupção entre as autoridades do governo, Dowden assinala que, na Rússia, autoridades interinas de vários níveis e autoridades estaduais e membros de suas famílias são obrigados a informar anualmente sua renda e ativos. “Pequenas e médias empresas são protegidas por um ombudsman que é funcionário do governo e cuja organização analisa queixas de tratamento indevido por autoridades oficiais.” As quatro principais empresas russas que representam empresas de vários tamanhos se uniram para criar uma Carta Patente de Anticorrupção de Empresas Russas, que é bastante promovida pelo governo russo, particularmente através de várias câmaras de comércio e indústria em todas as regiões do país.

De modo geral, diz Dowden, “na minha experiência, o progresso [na Rússia] tem sido notável. As multinacionais têm exercido grande influência no desenvolvimento de um contingente impressionante de profissionais de conformidade russos, empresas russas, inclusive estatais, que demonstraram um grande interesse em lidar com a corrupção. O governo russo também tem apoiado oficialmente e com rigor o combate à corrupção”.

Raízes da suspeita

Portanto, por que há tanta gente fora da Rússia que suspeita dos padrões de governança corporativa do país? Diz Dowden: “Algumas dessas percepções equivocadas e exageros advêm de uma negatividade generalizada dos americanos em relação à Rússia, resíduos de estereótipos dos dias da Guerra Fria alimentados por histórias intermináveis e, com frequência, imprecisas da mídia. Para Henry Kissinger trata-se de ‘demonizar Putin’ e, assim nos parece, àqueles de nós com fortes interesses na Rússia, que se trata de um comportamento peculiar. Conforme disse um amigo, ‘os americanos precisam de alguém para odiar’. Segundo outra teoria, como os russos se parecem conosco, esperamos que ajam como nós ─ e quando isso não acontece, nós nos tornamos mais críticos em relação a eles.”

Dowden acrescenta: “Parte do exagero da corrupção na Rússia é obra dos próprios russos. Eles estão se habituando à economia de mercado, mas no começo estavam convencidos de que qualquer um que fizesse sucesso era, por definição, corrupto ─ na verdade, um jornal russo lançou um desafio em que indagava se alguém tinha alguma história positiva sobre homens e mulheres de negócios que pudesse começar a mudar esse modelo autodestrutivo. Os russos estão vivendo também em uma das nações mais desconfiadas do mundo, e isso tende a respaldar sua percepção exagerada de comportamento antiético dos demais. Eles expressam livremente sua opinião a esse respeito.”

Para Nichols, o problema tem raízes no fato de que a “Rússia é simplesmente bastante parecida com a Europa ocidental ou com a América do Norte, o que leva as pessoas a pensarem que ela seja parecida com a América do Norte ou com a Europa. Contudo, há diferenças que podem nos enganar.” Em se tratando de política, a maior parte dos americanos “entende que o domínio político afeta o econômico, e que o domínio dos negócios afeta o domínio político. Isso é natural. Eles olham para a Rússia e pensam que todos ali devem estar absorvidos pela questão da Ucrânia. Ou acham que as empresas estão tentando fazer as coisas isoladas do governo, e que os governo as está impedindo'”.

Outro equívoco comum é que “a Rússia é constituída por uma porção de gente que só olha para si mesma”, observa Nichols. “Contudo, os russos são cosmopolitas como qualquer outro povo; eles estão perfeitamente cônscios do que se passa na Europa, na Ásia e na América do Norte. Não estão isolados, mas são russos, e pensam primeiro na Rússia. Pensamos que são diferentes em aspectos que não são; e não achamos que sejam semelhantes a nós em aspectos que são.”

Removendo as sanções econômicas

Até que ponto faria diferença se os EUA retirassem as sanções contra a Rússia? Dowden observa que como as sanções foram impostas a empresas estatais específicas e a certas pessoas, “nem de longe elas tiveram o impacto que deveriam ter tido sobre a economia em geral quanto foi a queda drástica nos preços do petróleo, que levou à forte desvalorização do rublo […] O impacto maior foi provavelmente psicológico, contribuindo para uma desconfiança já existente na Rússia de modo geral e para um sentimento de apreensão de que os americanos não são bem-vindos aqui”, disse. “Na minha experiência, nada poderia estar mais longe da verdade. Os russos, diferentemente dos americanos, separam as percepções dos cidadãos da percepção do governo. Minha impressão é a de que as pessoas são mais acolhedoras, mais dispostas a estabelecer relações do que antes da imposição de sanções à Crimeia.”

Levinas observa: “As sanções de energia têm sido dolorosas para as empresas, mas a queda no preço do petróleo atenuou de qualquer maneira o ímpeto de muitos projetos russos na área de energia. As sanções financeiras são mais constrangedoras. Dito isso, as autoridades russas indicaram a importância da reforma estrutural como elemento-chave para que a economia russa volte aos trilhos do crescimento. Elas disseram que mesmo no caso de suspensão das sanções, o impacto sobre o PIB russo provavelmente será mínimo.”

Que conselho Levinas dá para os investidores estrangeiros? A Rússia “se mostrou um mercado lucrativo para muitas empresas ao longo do tempo graças a estratégias que aproximam o país de um desempenho de longo prazo, em que uma empresa se esforça para construir relações de confiança no mercado; em que os níveis de categoria sênior das empresas dão tempo e atenção à Rússia, e onde as empresas têm apetite para gerir as incertezas. Algumas empresas se sentem mais à vontade e preparadas para isso do que outras”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Investir na Rússia é um risco alto demais?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 March, 2017]. Web. [18 November, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/investir-na-russia-e-um-risco-alto-demais/>

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