A Irlanda pagará o alto preço do Brexit?

No momento em que o Reino Unido sair oficialmente da União Europeia, a Irlanda do Norte se verá diante da perspectiva de uma fronteira controlada com seu vizinho do sul, a República da Irlanda, trazendo à tona lembranças de um passado violento e colocando desafios às empresas de ambos os lados.

A maior parte dos eleitores da Irlanda do Norte votou pela permanência na UE no referendo de 2016 conhecido como Brexit. No entanto, perderam, e a saída em breve do Reino Unido da união política e econômica pode afetar negativamente a sorte dos exportadores agrícolas e possibilitar o retorno do contrabando através da fronteira alfandegária.

Enquanto isso, a Irlanda do Norte continua sem um governo executivo desde janeiro em razão da renovação frustrada de um acordo de divisão de poder entre o Sinn Fein (partido nacionalista que quer a independência do Reino Unido) e o Partido Unionista Democrático (ou DUP, isto é, unionistas que querem permanecer integrados ao Reino Unido). Some-se a essa confusão o aparente conflito de interesse do governo de Theresa May ao fazer o papel de “mediador sincero” entre os dois partidos, embora ela dependa do apoio do DUP para seu governo de minoria. May se viu nessa situação constrangedora depois que seu partido, os Conservadores, perdeu terreno precioso para o Partido Trabalhista na eleição antecipada de junho de 2017, em que ela esperava obter um mandato mais forte para sair da UE.

A instituição mais visivelmente ameaçada é conhecida como Acordo de Sexta-feira Santa de 1998, ou GFA, por intermédio do qual o ex-presidente Bill Clinton pôs fim a mais de três décadas de violência na Irlanda do Norte entre os Nacionalistas e os Unionistas e que resultou na divisão de poder entre os dois grupos. Essa ameaça ao GFA surgiu porque a Grã-Bretanha quer levar junto a Irlanda do Norte quando sair da UE, explica Brendan O’Leary, professor de ciências políticas da Universidade da Pensilvânia.

“Com isso surgiu a forte possibilidade de que o GFA seja emendado”, disse O’Leary. “Isso desestabiliza as coisas; os partidos não sabem mais que posição tomar. Cabe também às pessoas avaliar se querem renegociar as partes do acordo de que não gostam. Será tentador para ambas as partes [Sinn Fein e DUP] buscar coisas que perderam em ocasiões anteriores.”

São inúmeros também os receios nos partidos políticos da Irlanda do Norte no que diz respeito ao futuro do apoio financeiro que recebe da UE. “O volume de dinheiro que está sendo despejado nessas comunidades de ambos os lados ─ nacionalistas e unionistas/legalistas ─ pela UE tem sido algo extremamente positivo para as comunidades locais que buscam um novo desenvolvimento na tentativa de sair do círculo de problemas e da violência que as rodeiam”, disse Jay Roszman, professor adjunto do departamento de história da Universidade Carnegie Mellon. “É grande o receio da saída do o Reino Unido da UE no que diz respeito ao novo processo de desenvolvimento que vem ocorrendo nas comunidades.”

O’Leary e Roszman discorreram sobre as implicações do Brexit para a Irlanda do Norte e outras questões semelhantes durante o programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM.

Lembranças de dias sinistros

De acordo com O’Leary, a “saída do Reino Unido” (em inglês “U.K.-exit”, porque ele se recusa a chamar o evento de Brexit, uma vez que o Reino Unido inteiro está envolvido) “seria extremamente prejudicial”. O que preocupa Roszman é a discussão sobre a violência, mesmo que não aconteça de fato. “Ainda que a violência irrompa novamente e o processo de paz desmorone, o fato é que os dois partidos políticos estão usando o evento como arma em seu modo estreito de raciocinar”, disse. “É um problema quando a premissa por inteiro de governo da Irlanda do Norte está baseada no trabalho em conjunto [do DUP e do Sinn Fein] e na celebração de um acordo.”

O governo de May comprometeu severamente sua capacidade de promover a paz entre o DUP e o Sinn Fein. “Antes das recentes eleições [em junho de 2017], os Conservadores consideravam a Irlanda do Norte um prejuízo secundário ou um peso morto em seu caminho para sair da UE”, disse O’Leary. “Agora, porém, estão em uma situação muito difícil que tem de negociar com o DUP em Londres e com o Sinn Fein em Belfast.”

Philip Nichols, professor de estudos jurídicos e ética nos negócios da Wharton, disse que o Brexit poderá resultar em “sérias” implicações para a Irlanda do Norte. “Os fundos da UE dedicados à introdução do GFA provavelmente deixarão de existir, e a instituições da UE criadas para dar apoio ao GFA provavelmente deixarão de existir também, o que é muito sério”, disse. “O Reino Unido e a Irlanda não interagirão mais como instituições da UE, e a familiaridade e a proximidade criadas por essas interações se perderão, o que é muito sério.”

De acordo com Nichols, “a possibilidade implícita de reunificação pacífica seria mais difícil com a existência de uma fronteira controlada entre a Irlanda e o Reino Unido”.

Nichols também alerta para a possibilidade de tensões na fronteira. “O aspecto do Brexit que visualmente terá uma imagem muito inquietante será a introdução de postos aduaneiros instalados ao longo da fronteira, os caminhões que serão parados para que as mercadorias possam ser inspecionadas e os impostos aplicados, além da verificação de passaportes e identificações”, disse.

Muitos feridos

As comunidades agrícolas também serão afetadas, disse O’Leary. “Os programas da UE, juntamente com a operação do mercado único, beneficiam de forma significativa ambos os lados da fronteira”, disse. “Se for decretado o fim da política agrícola comum para a ilha da Irlanda, e se houver uma aduana rigorosa, o setor agrícola será bastante afetado no norte e no sul. No norte, o governo do Reino Unido será impactado em razão de suas dificuldades atuais, obrigado que é a remunerar os agricultores do norte que são parte fundamental do eleitorado do DUP.”

O’Leary receia que a nova ordem emergente trará más lembranças. “Cresci ali entre os oito e os dezoito anos. Lembro-me de ser revistado regularmente na fronteira e da impaciência que as pessoas demonstravam e o receio que elas tinham de possíveis bombas ou tiros na fronteira”, disse. Ele não acha que May seja capaz de evitar um retorno àqueles dias. “O governo do Reino Unido foi simplesmente inepto nessa questão; ele disse a todos que queria uma fronteira descomplicada, mas, na verdade, ele não tem esse controle.”

Um déficit de confiança

O’Leary descartou negociações sobre uma fronteira livre de controles em vez de uma fronteira controlada entre o Reino Unido e a UE acrescentando que seria preciso um nível de confiança que não existe hoje. Ele observou que a Comissão Europeia está avaliando atualmente um relatório segundo o qual o Reino Unido não foi capaz de aplicar adequadamente tarifas alfandegárias em suas negociações com a China e poderá ser multado em dois bilhões de euros. “Isso significa que a Comissão Europeia não tem razão alguma para acreditar que as autoridades do Reino Unido administrariam seu lado da alfândega adequadamente”, disse.

O’Leary também levantou a possibilidade de contrabando. “Há pessoas ali muito habilidosas para contrabandear e praticar crimes e por causa disso não há como a UE apostar em uma relação com menos controle. Ela vai querer algum tipo de controle na fronteira”, disse. Roszman concordou. “Ninguém pretende alimentar o medo, mas uma das maneiras pelas quais o IRA provisório foi capaz de arrecadar dinheiro foi porque conseguiu contrabandear petróleo e cigarros na fronteira e ganhou dinheiro no mercado negro, que usou para comprar armas”, disse. “Há pessoas ali que construíram a vida porque foram capazes de extrair riqueza do mercado negro, contrabandeando bens dos dois lados da fronteira. Theresa May e os unionistas terão de pensar muito a esse respeito.”

Irlanda do Norte: um obstáculo?

O DUP também está em uma situação difícil ─ ele é a favor da saída da UE, ao passo que a maior parte da Irlanda do Norte é a favor de permanecer. Hoje ele apoia o governo de May com votos cruciais que podem ameaçar a sobrevivência do governo, e a maior parte desses votos dizem respeito à saída do Reino Unido da UE, disse O’Leary.

Resta saber se o DUP se posicionará a favor do Brexit, disse O’Leary. “Na hora que ele acordar para o fato de que uma alfândega controlada terá um impacto significativo sobre seu eleitorado e que não conseguirá um reembolso do tesouro londrino para compensar integralmente todos os custos incorridos, será que mudará de posição?”, indagou. “Se mudar, ameaça com isso impactar toda a estratégia de saída do Reino Unido da UE. Portanto, a Irlanda do Norte ainda pode ser um obstáculo nos planos dos Conservadores de sair da UE.”

Para O’Leary, May não está à altura da tarefa que tem de enfrentar. “Ela vai tentar barganhar a saída da UE com Michael Barnier, principal negociador do Brexit, em Bruxelas, barganhando com o DUP constantemente em Londres e, ao mesmo tempo, tentando demonstrar boa fé barganhando com o Sinn Fein dentro da Irlanda do Norte para reconstruir o acordo de divisão de poder”, disse. “Essa mulher não tem capacidade para gerenciar tamanha tarefa a longo prazo.”

Uma opção para o Reino Unido seria tornar a Irlanda do Norte uma Região Autônoma Especial, disse Nichols. Ele comparou isso ao “inverso do que ocorre na Groenlândia, que pertence à Dinamarca, mas não faz parte da UE”. Uma Irlanda do Norte autônoma não poderia fazer parte da UE, mas poderia negociar um acordo com ela similar ao da Noruega, acrescentou. “Isso, é claro, criaria uma fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, mas isso é muito melhor do que as pessoas se ferirem mutuamente.”

Enquanto isso, o restabelecimento do acordo de divisão de poder entre o DUP e o Sinn Fein já perdeu vários prazos. Roszman excluiu um acordo para julho ou agosto e O’Leary observou que as indicações são de que as conversas devem ser retomadas em setembro. Contudo, isso coincidirá com o programa legislativo dos Conservadores, que é difícil de gerir e “imensamente complexo”, disse O’Leary.

Graças redentoras

De acordo com Roszman, “a graça redentora” para a Irlanda do Norte é que os jovens na faixa dos 18 aos 45 anos votaram pela permanência na UE. “Houve um movimento contrário entre eles: sair da UE significava abandonar todo tipo de oportunidade que as pessoas tinham, sendo obrigadas então a se contentar com um mercado apenas”, disse. “A graça redentora consiste no fato de que se você está na Irlanda do Norte, você pode pedir a cidadania irlandesa. Isso significa que se seu pai ou mãe requisitaram a cidadania, você pode requisitar também.”

O’Leary disse que o aspecto da cidadania pode acarretar dificuldades. “O que a UE certamente não quer é que uma porção de indivíduos britânicos obtenham de algum modo a cidadania irlandesa e a usem para conseguir todos os direitos que perderiam se deixassem a UE”, acrescentou. Isso significaria mais negociações entre o Reino Unido e a UE. “Resta saber se a postura de negociação do Reino Unido seria a de tratar imediatamente essas dificuldades. Eu acho que sim.”

Nichols apresentou as dificuldades em relação a um pano de fundo mais amplo. “A União Europeia existe porque é impossível separar os negócios de outras questões sociais”, disse. “Alguns empresários não querem aceitar isso, mas a razão pela qual a UE existe é para coordenar a política social, de modo que seus membros possam desfrutar de um mercado realmente comum. A coordenação das políticas sociais torna efetivamente possível um mercado comum, e a coordenação da política social e dos negócios foi a plataforma sobre a qual o GFA foi criado.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"A Irlanda pagará o alto preço do Brexit?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [19 July, 2017]. Web. [18 November, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/irlanda-pagara-o-alto-preco-brexit/>

APA

A Irlanda pagará o alto preço do Brexit?. Universia Knowledge@Wharton (2017, July 19). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/irlanda-pagara-o-alto-preco-brexit/

Chicago

"A Irlanda pagará o alto preço do Brexit?" Universia Knowledge@Wharton, [July 19, 2017].
Accessed [November 18, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/irlanda-pagara-o-alto-preco-brexit/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far