Itaú-Unibanco Holding: em meio à crise, surge um gigante das finanças no Brasil

Ser um global player em cinco anos. Essa é a meta do novo conglomerado que emerge da fusão entre os bancos Itaú e Unibanco. Separados, eles ocupavam respectivamente a terceira e a quinta posição no ranking de ativos totais no mercado bancário brasileiro. Juntos, eles formam a maior instituição financeira do país, já que a soma resultante da união, R$ 575 bilhões em ativos (R$ 397 bilhões do Itaú e R$178 bilhões do Unibanco), supera os R$ 450 bilhões do estatal Banco do Brasil e os R$ 422 bilhões do Bradesco. A junção dos dois é o segundo capítulo da recente movimentação do mercado bancário brasileiro, que viu no ano passado a compra do Banco Real pelo Banco Santander.

"Dos anos 90 para cá, assistimos à entrada de grandes conglomerados no mercado brasileiro. Enquanto houver uma política monetária de juros elevados, não se mexer no aspecto relativo aos componentes da taxa de juros, que fazem com que o Brasil tenha as taxas mais altas do mundo, ou na legislação que autoriza os bancos a funcionarem sem nenhum controle oficial, os bancos vão se apropriar dessas anomalias do mercado brasileiro e vão gerar grandes lucros. A tendência é que essa fusão gere lucros gigantescos, mas sem nenhuma repercussão do ponto de vista da concorrência ou mesmo melhora no custo das tarifas ou juros cobrados do consumidor", avalia Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Ratings.

O professor de economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), Fabio Kanczuk, é totalmente cético em relação aos motivos que levaram Roberto Setúbal, do Itaú, e Pedro Moreira Salles, do Unibanco, a juntar forças. O acadêmico rejeita inclusive qualquer associação com a crise financeira. "Estávamos curiosos para saber se a questão da crise estava pegando forte os bancos, mas parece que não. Foi só uma questão de motivos pessoais mais do que qualquer coisa (a relação pessoal entre os dois banqueiros é antiga). Quando se estuda o mercado bancário, vê-se que não faz sentido você se juntar para tentar competir com outro. O mercado é tão competitivo que não é dessa forma que alguém sairá ganhando", declarou Kanczuk. "A crise no mercado bancário internacional só veio a catalisar essa decisão. A decisão foi tomada justamente no momento da crise americana até para demonstrar ao mundo que o Brasil tem bancos muito sólidos", aposta o professor de finanças da FGV-RJ (Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro), Ricardo Araújo.

Moreira Salles deu algumas dicas da negociação que resultou na união. O presidente do conselho de administração do Unibanco deu a entender à imprensa que o processo começou há “pouco mais de um ano, fruto da percepção de que quando o Santander adquiriu a operação do Banco Real no Brasil, criava-se um novo tipo de concorrente que nós, bancos brasileiros, não tínhamos visto ainda", revelou Moreira Salles durante o anúncio à imprensa. "Iniciarmos uma nova rodada de conversas, em agosto do ano passado, foi conseqüência direta dessa decisão e um pouco nossa indagação foi: o que fazemos? Como nos preparamos para enfrentar esse novo mundo, para enfrentar uma organização com especificidades que ainda não tínhamos encontrado?", acrescentou ele.

Mauro F. Guillén, diretor do Instituto Lauder da Wharton, explica que o setor bancário brasileiro passa por mudanças normais em um mercado em crescimento, porém com muitos bancos, e salienta que pode haver um processo de consolidação. O crescimento do Santander (depois da aquisição do ABN Amro), diz ele, “foi o estopim de tudo”. Realmente, o Santander superou este ano o Unibanco em ativos totais e tem como meta a liderança do mercado a médio prazo.

Moreira Salles conta que o objetivo da parceria ia se consolidando a cada reunião. "Cada vez que nos encontrávamos, ia fazendo anotações. Tenho um papel, acho que muito bem resumido pelo Roberto, e ao final há uma linha dele que diz: ‘ser global player em cinco anos’. Então vamos seguir um pouco esse plano original", explicou o banqueiro. Setúbal também procurou dissociar qualquer vínculo da fusão com a crise financeira. "Fomos amadurecendo isso ao longo desse período todo. Eu diria que, com a crise, talvez tenha se criado uma oportunidade, a vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer. Entendemos que tínhamos de ficar mais fortes para caminharmos juntos para esse projeto. A crise apenas ajudou a amadurecer essa idéia", garantiu ele.

O maior banco do Brasil formou um cartão de visitas considerável, mesmo se avaliado no espectro mundial de bancos. O Itaú-Unibanco já figura entre os 20 maiores bancos do mundo e é o maior banco privado da América Latina. Terá 18% da rede bancária do Brasil, com quase 4.800 agências. Em volume de crédito, o banco terá em seu poder 19% do sistema nacional, porcentagem que chega a 21% quando medido o total de depósitos, fundos e carteiras administradas. O banco responderá ainda por 14,5 milhões de clientes de conta corrente. Há volumes significativos registrados em participação no mercado brasileiro de seguros, com fatia correspondente a 17% do total, e 24% do mercado de previdência. Os banqueiros explicaram que o novo banco será gerido por uma holding, a IU Participações, formada pela Itausa, holding que controla o Itaú, e pelo Unibanco em modelo de governança compartilhada. Pedro Moreira Salles assumirá o comando do conselho de Administração, cabendo a Roberto Setúbal a presidência executiva.

Se o volume do Itaú-Unibanco garante a primeira colocação no mercado brasileiro, a posição não deve ser mantida com margem de folga tão grande. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esconde que deseja o retorno imediato do Banco do Brasil ao topo do ranking. O primeiro passo nessa direção foi finalmente dado no dia 20 de novembro, quando o Banco do Brasil confirmou a compra do Banco Nossa Caixa, que pertence ao governo do estado de São Paulo, por R$ 5,3 bilhões. A transação já vinha sendo negociada e propagada há meses, mas a legislação impedia a investida do Banco do Brasil.

Essa amarra caiu quando a Câmara dos Deputados aprovou, no dia 12 de novembro, a Medida Provisória 443, que permite ao banco estatal comprar instituições privadas. Mesmo com a aquisição da Nossa Caixa, o Banco do Brasil não vai recuperar a liderança que perdeu. Com a Nossa Caixa, o banco federal totaliza R$ 512 bilhões em ativos, o que ainda não é suficiente para recuperar o posto perdido com o casamento do Itaú com o Unibanco. O Banco do Brasil deve ainda comprar nos próximos meses outros bancos. É tido como quase certa a aquisição do Banco Votorantin, com ativos na casa dos R$ 73 bilhões, o que já devolveria a ponta do ranking ao banco estatal.

Expansão internacional

Se a junção dos dois conglomerados criou o maior banco do mercado brasileiro, é natural pensar que esse gigante poderia tentar passos ousados rumo a mercados do primeiro mundo. Embora Moreira Salles fale dos planos de se tornar um player global, durante a coletiva conjunta, Setúbal mostrou, ou procurou demonstrar, certa ponderação nesse sentido. "Fazer uma internacionalização desse banco é um processo que dependerá de oportunidades também. Mesmo quando você tem algum objetivo, depende de uma outra parte. Se quisermos fazer uma aquisição no exterior, por exemplo, vai depender da outra parte querer vender. Isso é uma questão de oportunidade, de momentos", afirmou o banqueiro.

Roberto Piscitelli, professor de finanças públicas da UnB (Universidade de Brasília), acha possível que o banco busque posições no exterior. "Talvez não na União Européia, mas quem sabe fora dela, em outros países que não tenham o tipo de regulamentação que possa obstacularizar essa penetração", acredita Piscitelli. A tese do acadêmico vai ao encontro do que declarou Moreira Salles quando do anúncio da fusão. "Talvez haja alguma vantagem comparativa em ir para outros lugares menos explorados, porém, com taxas de crescimento interessantes onde tenhamos algum valor a agregar", conjeturou.

Setúbal foi mais direto e mirou na América Latina como caminho natural da nova instituição. "Acho que, provavelmente, vamos ampliar a presença na América Latina, possivelmente até em países como o Chile, onde já estamos. Mas diria que há outros países atrativos na América Latina onde não estamos, como o México, por exemplo, Colômbia, Peru, que são países que têm tido estabilidade econômica e mercados que estão crescendo", disse Setúbal. Provavelmente as expectativas do mercado em relação à possível expansão da nova instituição formada pela união do Itaú com o Unibanco sejam maiores do que a vontade, de fato, dos banqueiros de estender as operações para o exterior nesse momento. "Não estamos com pressa", admite Setúbal.

E há muitos analistas que acreditam que isso nem deve ser a prioridade a curto prazo. "Acho que eles podem tentar, mas penso que não há nisso nenhuma vantagem comparativa. Eles são bons de Brasil. Podem até ir para a briga, mas aqui é tão fácil, eles ganham muito dinheiro aqui. Não sei por que fariam isso", avalia Kanczuk. O professor de finanças da FGV-RJ, Ricardo Araújo, acha mais do que natural que o banco busque posições fora do Brasil a partir da fusão, mas reforça o coro de que isso não deve ser prioridade. "O problema todo é que eles não têm o menor interesse. Por que eles emprestariam dinheiro na Europa, onde há uma recessão que há décadas não se via, se podem emprestar dinheiro no Brasil, que tem potencial de crescimento extraordinário", analisa ele.

Concentração de mercado

Em linhas gerais, a fusão entre Itaú e Unibanco foi muito bem recebida pelo mercado brasileiro. Uma certa aura de euforia espantou as possibilidades de crítica ao processo. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou à imprensa que via com bons olhos a fusão. Apesar disso, pouca gente acredita que a união possa gerar resultados expressivamente positivos para os consumidores, além de haver o perigo de a tendência de aquisições gerar um mercado cada vez mais concentrado nas mãos de poucos e poderosos jogadores, o que certamente tornará o mercado bancário brasileiro ainda mais competitivo entre os poucos atores que nele atuarem.

Nesse sentido, Santacreu enxerga a fusão como uma tacada inteligente dos gestores dos dois bancos para conquistar novos clientes sem gastar nada, apenas por meio do casamento. "A coisa mais difícil num país como o Brasil é fazer uma pessoa sair de um banco para ser correntista em outro. A distribuição de renda é muito desigual no Brasil, onde muitas pessoas nem sequer têm acesso a banco, portanto é duro ficar brigando pela população que tem dinheiro", disse o analista da Austin Ratings.

O problema da concentração de mercado divide opiniões. Há uma corrente que considera a união dos bancos como um passo perigoso rumo à concentração. "Fiquei surpreso que vissem nisso uma coisa muito positiva, que só tivesse vantagens e fosse uma espécie de manifestação do poder que o sistema financeiro nacional tem, do lugar que ele vai ocupar no mundo", critica Piscitelli. Na opinião dele, a fusão é uma ameaça. Entretanto, o professor da FEA-USP não acredita que a união dos dois bancos já signifique concentração suficiente para gerar problemas ao consumidor. "Não é essa fusão que vai gerar, neste momento, um problema grave. O setor é competitivo, e a fusão não deve afetá-lo. Precisaria concentrar muito mais para que houvesse um problema. Agora, algum benefício por se tratar de um banco gigantesco, isso não. Nunca houve benefício nenhum vindo de uma instituição muito grande. O que pode é atrapalhar", afirma Kanczuk.

Esse, por sinal, é um ponto de congruência do mercado: a idéia de que o consumidor não terá grandes benefícios com o novo banco. O professor da FGV-RJ sintetizou relativamente à expectativa nessa direção: "No que tange às tarifas pagas pelos clientes pelos serviços bancários prestados, acho que a sociedade brasileira não vai ganhar grande coisa. Não acredito que as tarifas subam porque reduziu a quantidade de bancos ou caiam para ganhar competitividade no mercado", acredita Araújo.

Sobreposição e demissões

Quando anunciaram a fusão, Moreira Salles e Setúbal procuraram passar uma certa tranqüilidade sobre duas questões, uma delas tida como grande desafio. "O grande desafio é tornar uniforme as operações bancárias o mais rápido possível e evitar que o cliente tenha problemas daqui para frente", resumiu Araújo. Setúbal afirmou que os clientes dos bancos não devem se preocupar com mudanças neste momento. "Não haverá nenhuma mudança neste instante, e os clientes continuarão a ser atendidos como sempre foram", disse o banqueiro, para quem o primeiro passo na integração será o atendimento casado na rede de caixas eletrônicos.

Os banqueiros não entraram em muitos detalhes sobre a integração, e nem em relação às sobreposições que obviamente acontecerão, o que é natural quando dois banco tão semelhantes resolvem juntar forças. E sobreposição significa abordar outro tema que parece evidente na visão do mercado: haverá demissões. "Por mais que o Roberto Setúbal diga que não se pretende fechar agências, o fato é que haverá demissões. Ninguém faz fusão sem demitir", disparou Araújo. Piscitelli reforça a avaliação. "É uma ilusão achar que eles vão manter o mesmo número de agências ou o mesmo número de funcionários. Não tem muito sentido. Num primeiro momento, elas podem continuar operando, mas acho muito difícil que eles preservem as agências muito próximas umas das outras", emendou o professor da UnB.

A perspectiva sombria de demissões, ainda que Setúbal tenha garantido que "não haverá programas de demissão", não tirou o otimismo do sindicato dos bancários. Luiz Cláudio Marcolino, presidente do sindicato dos bancários de São Paulo, Osasco e região, disse que já houve um primeiro encontro entre banqueiros e bancários e que o clima do diálogo parece favorável. Tanto que, segundo Marcolino, pela primeira vez na história do relacionamento entre o sindicato e Itaú, no que diz respeito a aquisições e fusões, houve a promessa de uma mesa permanente de diálogo. Eles voltam a se encontrar no dia 9 de dezembro para mais uma rodada de negociações.

"Queremos consolidar uma proposta que tenha não só a garantia do emprego, mas também um processo de realocação interna da parte do banco, para que haja um aproveitamento interno (de mão-de-obra). Com a sinergia das duas áreas, com certeza haverá excedente de mão-de-obra em alguns lugares. Haverá áreas que passarão por processo de crescimento", garante o sindicalista. Ele cita a área de back office como um exemplo de que a realocação poderia contribuir para evitar demissões.

"O back office do Unibanco é terceirizado. Então vamos discutir nesse encontro (de dezembro) o fim da terceirização do setor, já que essa é uma forma de gerar mais postos de trabalho", declara Marcolino, acrescentando que irá propor o congelamento de todos os processos de contratação. Ele espera, com isso, conseguir a realocação de muitos funcionários que poderiam ser demitidos. "Se o banco interromper os processos de contratação, vai poder aproveitar bancários tanto do Itaú quanto do Unibanco para as vagas que forem surgindo", aposta ele.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Itaú-Unibanco Holding: em meio à crise, surge um gigante das finanças no Brasil." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 December, 2008]. Web. [31 October, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/itau-unibanco-holding-em-meio-a-crise-surge-um-gigante-das-financas-no-brasil/>

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