Já é hora de se livrar do EBITDA?

Após encarar a torrente diária de notícias trazendo histórias de supostos abusos por parte de corporações, altos funcionários e contadores, os quais deveriam garantir a validade de suas demonstrações; o público, cansado, poderia ser perdoado por se perguntar se o poço das controvérsias contábeis e financeiras finalmente secou.

Segundo membros do corpo docente da Wharton e outros especialistas, ainda não. O mais novo alvo, no entanto, talvez não seja nem uma empresa nem uma pessoa. É um conceito, o EBITDA, que pode ter sido diretamente responsável por pelo menos alguns dos esqueletos corporativos que agora dominam o cenário.

O EBITDA – ou Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização -, tem sido usado por analistas e investidores como uma ferramenta para medir a saúde fiscal das muitas empresas de alta tecnologia, mídia e outras empresas com grande quantidade de ativos que não geram lucros, ao contrário, sofrem muita depreciação, amortização e outros encargos.

 

Dos anos 80 aos 90, muitos analistas e outros especialistas acreditavam que com a eliminação desses gastos, que geralmente não eram diretamente resultantes de operações, seria possível realizar uma análise mais precisa e uma comparação das “principais operações” das empresas. Na verdade, muitos consideravam o EBITDA uma demonstração modificada de “fluxo de caixa”, algumas vezes o chamando, erroneamente, de “fluxo de caixa livre”.

 

Deve-se levar em conta, entretanto, que ao passo que uma demonstração de fluxo de caixa concilia a renda ou perda líquida de uma empresa por um período com a posição do capital da empresa no final daquele período, o EBITDA não o faz. O EBITDA também difere de uma demonstração de “fluxo de caixa livre”, que é basicamente o EBITDA deduzido dos dispêndios de capital (geralmente compras de bens duráveis, como maquinário, equipamentos ou outros itens que aparecem no balanço em vez de na demonstração de resultados). E é claro que, como o EBITDA exclui tantas despesas, não mede a renda líquida. Ao levar esse fato em consideração, algumas pessoas questionam sua utilidade.

 

John Percival, professor adjunto de finanças da Wharton, faz parte dos que nunca realmente aceitaram o EBITDA como uma ferramenta válida. “Em algumas de minhas aulas, eu o chamo de EBIT Duh”, brinca. “É o fluxo de caixa do analista preguiçoso, e é perigoso”.

 

Outros contadores também estão levantando dúvidas sobre o EBITDA. Ben Neuhausen, diretor nacional de contabilidade da BDO Seidman, observa que “O EBITDA continua sendo útil, embora precise ser usado com cuidado. Como medida de desempenho, não é um substituto da renda líquida”. Assim como o EBITDA ignora desembolsos de capital no caso de dispêndios de capital que podem ser significantes, também ignora os juros e outras despesas específicas que podem ser responsáveis por uma grande parcela da saída de caixa de uma empresa.

 

Segundo Percival, o EBITDA era inicialmente usado para avaliar a capacidade de uma empresa administrar o serviço de sua dívida a curto prazo, cerca de um ano ou dois. A comparação do EBITDA com as despesas de juros serviria, teoricamente, para dar ao usuário uma idéia sobre se havia receitas operacionais suficientes para pagar os juros. Entretanto, por ignorar muitas fontes de saída de capital (como dispêndios), uma empresa poderia atingir um EBITDA excepcional, mas não dispor de capital suficiente em mãos para bancar seus juros e outros pagamentos. Na verdade, o problema se agravou na década de 80, quando as aquisições alavancadas, que geralmente resultavam em altos níveis de endividamento, começaram a se espalhar pelo país.

 

“Na década de 80, as pessoas começaram a usar o EBITDA para encontrar bons candidatos para aquisições alavancadas” (pensava-se que o EBITDA fosse um bom indicador da capacidade de uma empresa cumprir com o pagamento de suas dívidas), conta Percival. “As pessoas projetavam um EBITDA em crescimento no futuro e afirmavam que a empresa poderia administrar muito mais dívidas”. Através do uso de uma análise com base no EBITDA, afirma Percival, as aquisições alavancadas concederiam “empréstimos enormes às empresas para mais tarde descobrirem que não havia capital suficiente para o serviço da dívida”.

 

Percival observa que o EBITDA faz suposições incertas, por exemplo, partindo do princípio de que todas as receitas são recolhidas. É “absurdo”, acrescenta, usar o EBITDA para avaliar as empresas. O problema, segundo ele, é que o valor da empresa é realmente um conceito de capital, “e o valor do capital vem do fluxo de caixa livre no futuro”. Por não considerar o capital intensivo e outros dispêndios de capital, “o EBITDA é uma aproximação precária do fluxo de caixa livre. No geral, excetuando-se aplicações muito específicas e limitadas, o EBITDA é um número perigoso”.

 

Isso ficou claro no caso da WorldCom, que viu suas ações caírem em queda livre recentemente retiradas da lista de ações cotadas após a empresa divulgar que havia inflado seu EBITDA em US$3,8 bilhões durante um período de cinco trimestres através da simples e indevida classificação de custos operacionais de rotina como custos de capital de longo prazo.

 

Os custos operacionais e outras despesas deveriam, geralmente, ser imediatamente reconhecidos no período em que incidiram – diferentemente das despesas, as quais podem ser legitimamente capitalizadas como ativos e depreciadas ao longo de sua vida útil. Através da divulgação errônea dessas despesas, a WorldCom inflou artificialmente sua renda líquida e, portanto, seu EBITDA.

 

Se a empresa acreditasse na existência de uma justificativa para tratar essas despesas como dispêndios de capital, a racionalização deveria ter sido informada através de notas de rodapé na demonstração financeira ou por outros meios cabíveis.

 

Scott Sullivan, ex-diretor financeiro da WorldCom, recentemente alegou não ser culpado no que diz respeito às queixas de fraudes nos valores mobiliários. Um recente levantamento dos erros contábeis da empresa (inclusive declaração falsa de renda e a separação inadequada de uma subsidiária não rentável) está estimado em US$10 bilhões, de acordo com a CFO.com.

 

Atualmente, o ceticismo de Percival com relação ao EBITDA é apoiado em vários graus por uma ampla gama de profissionais de Wall Street e de outros lugares. Entre esses críticos está Jordan Rohan, um dos diretores do SoundView Technology Group, que abrange os setores de mídia e entretenimento, cabo e mídia on-line. “Embora o EBITDA fosse um importante método de avaliação da mídia, está perdendo terreno para um outro que abrange índices preço/lucro e preço/venda, EBITDA e análise de fluxo de caixa”, afirma.

 

No começo deste ano, por exemplo, após recalcular as projeções de ganhos das empresas a partir dos GAAP (princípios contábeis geralmente aceitos), em vez do EBITDA, Rohan reduziu seu alvo de preço em quatro ações da mídia: Clear Channel Communications; AOL Time Warner, Inc. (que está atualmente sendo investigada pela SEC por suspeita de não ter reconhecido renda de transações envolvendo sua unidade da AOL e terceiros); Walt Disney Co. e Viacom, Inc. No entanto, ele chama atenção para o fato de que “projeções desse tipo estão sempre mudando”.

 

Até mesmo os reguladores dos padrões de contabilidade estão advertindo sobre o EBITDA, embora os avisos estejam longe de caracterizar uma desaprovação. Um exemplo é o fato de que, na proposta de um projeto de agosto de 2001, intitulado “Reporting Information About The Financial Performance Of Business Enterprises” (Relatórios de informações sobre o desempenho financeiro de empresas de negócios), o Conselho de Normas de Contabilidade Financeira (FASB) divulgou sua preocupação de que enquanto muitas empresas se concentram cada vez mais em medidas alternativas de desempenho, o que inclui o EBITDA, “o atual uso de medidas alternativas e inconsistentes é freqüentemente confuso, e, às vezes, enganoso”. O projeto, agora chamado “Relatórios de desempenho financeiro por empresas de negócios”, está em andamento.

 

Assim como Percival, Neuhausen afirma que a atratividade original do EBITDA pode ser atribuída ao alto volume de aquisições alavancadas nos anos 80. A estrutura dessas aquisições significava que a maioria delas era contabilizada a partir do método da integração global de contabilidade (em contraposição ao método da equivalência patrimonial, que foi definitivamente eliminado pelo FASB mais tarde). De acordo com o método de integração global, os ativos adquiridos em uma combinação de negócios geralmente são registrados pelo comprador em seu justo valor de mercado, o qual pode ser significativamente mais alto que o valor contábil.

 

“Como a contabilidade de integração global resultou em aumento do valor dos ativos, também desencadeou despesas maiores com depreciação”, explica Neuhausen. “O EBITDA foi visto como uma maneira de comparar o desempenho da empresa antes e depois de uma aquisição alavancada; foi também considerado um modo de comparar empresas que realizavam essas aquisições com empresas que não o faziam. Mas as despesas associadas ao serviço da dívida são custos reais, e custos reais não podem ser ignorados. O EBITDA pode ser útil em um contexto limitado, desde que usado juntamente com outras medidas”.

 

Entretanto, o EBITDA tem seus defensores. A professora de contabilidade Cathy Schrand observa que ele fornece uma medida para o desempenho de uma empresa, a despeito do desempenho de suas finanças. Ela concorda com o fato de que o EBITDA ignora alguns custos de financiamento, como os juros, mas argumenta que outras medidas, como a renda líquida, não consideram outras questões, como o custo dos dividendos que podem ocorrer como resultado da emissão de ações.

 

“Existem também custos intangíveis relacionados com a emissão de ações, como a diluição da participação dos acionistas”, afirma. “O EBITDA ou outras medidas podem ser apropriadas, conforme o que estiver sendo examinado. Os juros, por exemplo, são um custo de recursos, e refletem uma escolha de financiamento. Portanto, se o desempenho geral de uma empresa, inclusive sua escolha com relação ao financiamento, estiver sendo estudado, uma medição que considere os lucros após os juros poderá ser adequada”.

 

Ferramentas financeiras analíticas estão constantemente sendo desenvolvidas e aprimoradas. Mas assim como os físicos e outros cientistas ainda estão à procura de uma Teoria Unificada para explicar todas as forças básicas da Física, os profissionais de finanças e contabilidade ainda têm de descobrir uma teoria unificada para analisar o desempenho de uma empresa. E como demonstram as recentes experiências com o EBITDA, até que essa teoria seja desenvolvida, pode ser perigoso confiar demais em qualquer ferramenta analítica isolada.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Já é hora de se livrar do EBITDA?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 February, 2003]. Web. [21 January, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ja-e-hora-de-se-livrar-do-ebitda/>

APA

Já é hora de se livrar do EBITDA?. Universia Knowledge@Wharton (2003, February 18). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ja-e-hora-de-se-livrar-do-ebitda/

Chicago

"Já é hora de se livrar do EBITDA?" Universia Knowledge@Wharton, [February 18, 2003].
Accessed [January 21, 2021]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ja-e-hora-de-se-livrar-do-ebitda/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far