Jeremy Siegel: o impacto da eleição nos mercados

O mercado de ações americano se recuperou um dia depois da eleição ─ foi uma reversão rápida que anulou uma queda de 800 pontos no índice Dow de futuros, na medida em que os investidores se assustaram inicialmente com a vitória inesperada de Donald Trump. “Os mercados de risco odeiam incertezas”, disse Jeremy Siegel, professor de finanças da Wharton. Contudo, os investidores partiram do pressuposto de que os republicanos são muito mais amigos do capital do que os democratas, e decidiram mudar de curso. Siegel disse que Wall Street também aprendeu algumas lições com o Brexit ─ quando os mercados se recuperaram depois do choque inicial do voto a favor da saída do Reino Unido da UE. Os investidores aprenderam a não reagir exageradamente às notícias inesperadas da eleição, diz.

De acordo com Siegel, se os mercados financeiros continuarem tranquilos no decorrer das próximas semanas, é provável que o Fed decida aumentar os juros em dezembro. No entanto, ele prevê a elevação das taxas de juros a longo prazo em decorrência do que Trump tem dito sobre gastos com infraestrutura e redução de impostos, o que poderia resultar em déficits ainda maiores. Siegel está de acordo com algumas projeções segundo as quais a Média Industrial Dow Jones pode chegar a 25.000 pontos, ou mais, em cerca de cinco anos. Sua projeção pessoal vê ganhos com retornos anuais de 6% a 6,5%, ou 5% depois de descontada a inflação. Siegel e Bill Stone, estrategista chefe de investimentos da PNC, estiveram no programa da Knowledge@Wharton transmitido pela Wharton Business Radio, canal 111 da Sirius XM para debater o efeito da eleição de Trump nos mercados.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Os mercados globais reagiram de forma relativamente violenta na noite da eleição, o que fez com que o índice Dow de futuros caísse mais de 800 pontos. Os mercados asiáticos tiveram uma desvalorização de 5% a 6%. Contudo, essa reação perdeu força e os mercados se recuperaram no dia seguinte. Professor Siegel, gostaria de começar pela sua reação ao que aconteceu.

Jeremy Siegel: Quando se pensa na possibilidade que Trump tinha de ganhar, pelo menos de acordo com Nate Silver, analista de sondagens, vemos que ela era tão grande quanto a possibilidade do Chicago Cubs se recuperar de uma posição de desvantagem de 3 a 1 e ganhar a World Series. Eu disse isso aos meus alunos. E quando os Cubs ganharam a World Series, eles me disseram: “Dr. Siegel, o Sr. Está prevendo a vitória e Trump?” Eu respondi: “Não, não, essas coisas não têm nada a ver uma com a outra. Só queria que vocês tivessem uma ideia da possibilidade de uma coisa dessas acontecer quando falamos de eventos únicos.”

Na verdade, o FiveThirtyEight, site de Nate Silver, era o mais pessimista de todos os que faziam sondagens e previsões sobre a eleição. A probabilidade de muitos deles era de 10 para 1, 15 para 1, 20 para 1. Silver disse que poderíamos estar diante de um evento que se costuma chamar de “cisne negro”, isto é, algo raro, jamais visto anteriormente, um evento do tipo “cauda gorda” ─ conforme os estatísticos chamam a um fato em que o grau de incerteza é muito maior do que em outras eleições.

Bill Stone: Para mim, era interessante porque […] o mercado, em geral, vende rapidamente seus ativos ─ não importa o motivo ─ quando o partido de oposição, aquele que não está no poder, ganha a presidência […] As sondagens talvez tenham subestimado em parte esse fenômeno.

Siegel: Observamos o movimento.  Uma coisa que sabemos sobre os mercados de risco é que eles odeiam a incerteza. Trump era alguém que trazia mais incerteza. Portanto, a reação instintiva inicial foi exatamente a que se viu na noite em que foi anunciada a sua vitória, isto é, o Dow caiu 800 pontos.

No entanto, se analisarmos a situação de uma perspectiva mais ampla, veremos que os republicanos, que tomaram conta do Congresso e agora da presidência, são muito mais amigos do capital do que os democratas, e ponha amigos nisso. Portanto, de modo geral, as pessoas estão dizendo: “Olhe, se pudermos ir além da incerteza, se ele estabelecer alguns procedimentos, se indicar gente competente, se houver um clima maior de confiança, teremos alguém muito melhor na Casa Branca do que teríamos se a candidata democrata Hillary Clinton tivesse sido eleita.”

Knowledge@Wharton: Professor, você disse na CNBC que talvez tenha havido uma grande venda instantânea de ativos no dia seguinte à eleição.

Siegel: A queda no mercado foi de 800 pontos ─ a aí atingiu seu limite, mas poderia ter sido mais. Eu achava que ele pudesse cair 1.000 pontos e se recuperar mais tarde no mesmo dia. No entanto, conforme sempre se vê no mercado, tivemos uma recuperação bem antes disso.

Knowledge@Wharton: O que foi que aconteceu, na sua opinião, para que as coisas se arrumassem tão depressa? No Brexit, houve prejuízos inicialmente, e foi preciso alguns dias para que os mercados voltassem novamente a ficar positivos.

Siegel: Acho que os mercados se lembraram do que aconteceu no Brexit: “Reagimos exageradamente ao Brexit, não foi mesmo? Não vamos fazer a mesma coisa de novo.” Os mercados fazem isso o tempo todo. Eles olham para o evento mais comum, ou para um evento já ocorrido, que é efetivamente o caso do Brexit, e dizem: “O que foi que aconteceu ali? Como seríamos estúpidos se tivéssemos vendido as ações do FTSE, ou do Dow, ou outra coisa qualquer nos mercados de risco naquela ocasião.” A única coisa que continuou em baixa foi a libra esterlina. O FTSE disparou registrando altas históricas, enquanto a libra continuava desvalorizada. Foi o que aconteceu.

Agora a única coisa que parece, digamos assim, permanente no mercado, é que teremos sem dúvida algumas taxas de juros de longo prazo mais elevadas. Isto se deve, na minha opinião, ao fato de que […] Trump já disse que fará gastos significativos com infraestrutura. Disse que reduzirá drasticamente os impostos. Isso significa que haverá déficits enormes. Não sei se será possível manter as taxas de juros baixas por muito tempo. Por isso, haverá pressão a longo prazo. Esse é um sentimento que só vem se fortalecendo.

Knowledge@Wharton: Bill, eu queria me concentrar um pouco no Fed. Muita gente tem falado da possibilidade de um aumento nas taxas de juros em dezembro. Há também quem diga que Janet Yellen deverá continuar à frente do Fed. Qual a sua opinião sobre essas duas possibilidades?

Stone: O Fed reagiria à instabilidade nos mercados financeiros dizendo: “Bem, talvez deixemos tudo igual por enquanto se os mercados financeiros estiverem descontrolados.” Como eles se acalmaram repentinamente, há expectativas em torno do que o Fed fará. Portanto, partindo do princípio de que as coisas permanecerão relativamente calmas, acho que podemos ter boas expectativas em dezembro.

Siegel: Concordo. Se os mercados financeiros permanecerem calmos no decorrer das próximas semanas, as chances são de que tenhamos um aumento nas taxas de juros em dezembro […] Podemos especular quem será o próximo presidente do Fed. Se Hillary Clinton tivesse sido eleita, e Janet Yellen se dispusesse a ficar, certamente ela teria permanecido no cargo.

Acho que ela ainda tem mais um ano a partir de janeiro […] O interessante é que Trump era um dos candidatos republicanos que mais apoiava Janet Yellen em comparação com os demais. Ele disse inclusive que era a favor de juros baixos. É claro que, como ele é do ramo imobiliário, deve mesmo gostar bastante de juros baixos.

Mas aí ele se deixou levar pela ideologia republicana: “Nada disso, você sabe que o Fed está mantendo os juros artificialmente baixos demais.” E com isso ele passou a falar a mesma linguagem dos demais. No entanto, não posso dizer com certeza o que ele pensa do assunto […] Entre os republicanos que viam Yellen e o Fed de maneira hostil, ele era dos mais amigáveis. Contudo, ele já disse que se fosse eleito, pensaria em substituir Yellen.

Knowledge@Wharton: Se você analisar como foi que se deu essa eleição, obviamente os democratas não vão apoiá-lo. Além disso, uma boa parte dos republicanos também não. Portanto, Donald Trump está nessa sozinho e não deve nada a ninguém.

Siegel: Isso também significa que ele precisará de apoio do Congresso […] Diferentemente do modelo parlamentar europeu, […] o sujeito não se elege presidente ou primeiro-ministro a menos que seu partido tenha a maioria das cadeiras. Sei que os republicanos conseguiram isso, mas a maior parte deles repudia em grande medida as políticas de Trump. Portanto, ele terá de convencer os republicanos e também um bom número de democratas. Ele não deve nada a ninguém, mas não poderá fazer muita coisa se não conseguir um consenso.

As pessoas comentam que Trump poderia causar muito prejuízo se agisse apenas por conta própria expedindo decretos sobre imigração, comércio.

Knowledge@Wharton: Há também a questão da Suprema Corte.

Siegel: A escolha de um novo juiz para a Suprema Corte é uma questão totalmente distinta. É óbvio que agora que os republicanos dominam o senado, eles terão a palavra final nessa escolha. A regra para obstrução ainda hoje conta com o mínimo necessário de 60 votos. Isso é uma coisa muito interessante sobre a qual eu e vários colegas estávamos conversando antes da eleição: se Hillary for eleita, como ela vai fazer para nomear seu juiz? Se os democratas conquistarem o senado, eles abolirão a regra dos 60 votos para obstrução e assim terão maioria, exatamente como fizeram com os tribunais de segunda instância. Resta saber se os republicanos que eram contra a medida vão raciocinar da seguinte forma: “Se nós abolirmos a lei dos 60 votos, será que todas as nossas escolhas serão atendidas?”

Knowledge@Wharton: Um dos assessores econômicos de Trump, Peter Navarro, esteve na CNBC […] Ele disse que o governo Trump pode, através de várias instâncias econômicas, elevar o Dow para 25.000.

Siegel: É verdade. Eu estava lá, mas acho que ele deu um prazo de cinco anos para que isso aconteça. Alguém disse que isso não seria uma coisa tão fantástica assim.

É claro que se trata de um número realista, porque não implica grandes retornos. Estou prevendo cerca de 5% depois de descontada a inflação, o que dá em torno de 6% a 6,5% ao ano. É nesse valor que eu acredito. O que não é realista é a ideia de que você poderia, reduzindo impostos em x trilhões, conseguir um crescimento do PIB de 5,5%. É por isso que os economistas tradicionais se mantêm basicamente afastados.

Stone: Siegel tem razão. Retornos na casa de meio dígito são, creio eu, uma coisa razoável de se pensar […] Portanto, no que diz respeito à meta pretendida, acho que é perfeitamente possível imaginar que continuaremos a crescer a um ritmo decente.

Knowledge@Wharton: Quais seriam os números realistas do crescimento do PIB no futuro?

Siegel: Essa foi a parte mais decepcionante da recuperação. O crescimento do PIB foi o pior possível já registrado em qualquer recuperação dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial. E nem sequer sabemos exatamente por quê. A produtividade despencou […] Acho que há muitas regras ─ nisso eu acho que o Trump tem razão. Vai ser interessante acompanhar o que vai acontecer, porque para mim o Obamacare ia explodir por conta própria no ano que vem, mesmo que Hillary tivesse ganho. Se pudermos fazer com que os negócios sejam um pouco mais compatíveis com a regulação, e se a regulação for um pouco menos restritiva, talvez conseguíssemos espremer 0,5% ou 0,75% a mais.

Stone: Concordo. É muito bom que haja possibilidade de desregulamentar, de reformar a carga tributária das empresas. Esse tipo de coisa é algo que poderia, conforme disse ele, somar alguma coisa […] Mas, você sabe, não é algo que vai nos catapultar para os 5%.

Há, provavelmente, um ponto que preocupa as pessoas no plano de Trump: o receio de um protecionismo exagerado, de muita intermediação nos negócios. Será preciso observar de que maneira isso vai se dar. Estou esperançoso.

Knowledge@Wharton: É muito importante observar o que vai acontecer ao NAFTA, e de que maneira. É óbvio que a Parceria TransPacífico está fora de cogitação agora.

Siegel: Certo. E como vamos repelir o NAFTA? Não sei até que ponto Trump poderá fazê-lo por meio de decreto presidencial, não sei quanto ele poderá mexer em uma coisa ou outra. Teremos de esperar para ver. Além disso, poderá haver contestação, já que há muitos interesses envolvidos aí. Trump escreveu um livro: A arte da negociação. Veremos agora que tipo de negociação ele conseguirá fazer com o congresso. Isso é o que contará.

Knowledge@Wharton: Bill, que setores o preocupam daqui para a frente? Especialmente nos primeiros seis meses a um ano do governo Trump?

Stone: É difícil não pensar na saúde. Digo isso porque é um problema muito maior do que se poderia imaginar. Mesmo que você já achasse que era uma coisa preocupante, e que o Trump fosse ganhar, você não teria imaginado necessariamente que o Congresso continuaria republicano. O interessante é que Trump já pensava assim. Ele falou que tinha em mente negociar os preços dos remédios com uma câmara sobretudo republicana.

Além disso, é interessante notar o fracasso da Proposição 61 na Califórnia [que proíbe ao estado comprar remédios que precisam de receita médica a preços superiores aos menores pagos pelo Departamento de Administração dos Veteranos dos EUA]. Vimos então um setor que poderia estar com uma imagem bem pior recuperar novamente um pouco da sua vida política.

Knowledge@Wharton: Jeremy, que setor você está acompanhando mais de perto?

Siegel: Concordo com Stone. O setor de saúde teve bom desempenho porque as taxas estão subindo. A longo prazo, a indústria de telecomunicações será pressionada, bem com a de bens imóveis, porque o que acontecerá às taxas de juros terá uma enorme repercussão.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Jeremy Siegel: o impacto da eleição nos mercados." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 November, 2016]. Web. [17 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/jeremy-siegel-o-impacto-da-eleicao-nos-mercados/>

APA

Jeremy Siegel: o impacto da eleição nos mercados. Universia Knowledge@Wharton (2016, November 14). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/jeremy-siegel-o-impacto-da-eleicao-nos-mercados/

Chicago

"Jeremy Siegel: o impacto da eleição nos mercados" Universia Knowledge@Wharton, [November 14, 2016].
Accessed [June 17, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/jeremy-siegel-o-impacto-da-eleicao-nos-mercados/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far