Local ou global: quem deve se incumbir de contratar novos empregados?

Há uma tendência no mercado atualmente de dar preferência ao que é local. Restaurantes e supermercados estão promovendo ingredientes locais, enquanto o Small Business Saturday oferece um antídoto local à loucura das compras natalinas nos shoppings. Até mesmo os setores de vestuário e mobílias estão aderindo à moda ao dar destaque a itens produzidos em uma região específica. Contudo, será que essa tendência deveria se estender também à contratação de empregados para o varejo? Ou seria essa uma tarefa mais adequada ao escritório central da empresa?

Carolyn Deller, professora de contabilidade da Wharton, e Tatiana Sandino, professora de administração de empresas de Harvard, descobriram as respostas a essas perguntas em sua pesquisa mais recente, em que analisam se as contratações descentralizadas resultam em maior volume de retenção de funcionários e melhor desempenho das lojas. A pesquisa tem por título “Quem deve selecionar os novos funcionários, a matriz ou o gerente da unidade ? Consequências da centralização de contratações em uma rede de varejo“. Deller conversou recentemente com a Knowledge@Wharton sobre as suas descobertas. 

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Sua pesquisa analisa quem deveria selecionar os novos funcionários de uma loja de varejo, o escritório central ou o gerente da unidade. Você poderia discorrer sobre isso?

Carolyn Deller: De modo geral, as taxas de contratação em uma empresa caem ao longo de todo o espectro da companhia. Em um extremo, a responsabilidade pelo processo de contratação poderá recair integralmente sobre o escritório central ou sobre a matriz. No outro extremo de nossa rede varejista, essa poderá ser uma tarefa do gerente da loja.

Estamos interessadas em estudar o assunto porque muitas empresas enfatizam a seleção dos empregados, e para muitos executivos, esse é um mecanismo fundamental que permite aos indivíduos dentro da empresa se alinharem aos objetivos e valores da companhia. No entanto, é mínima a pesquisa empírica nessa área. Analisando-a da perspectiva do controle da gestão, estamos interessados em examinar como a alocação do direito de decisão afeta o processo de seleção dos funcionários.

Felizmente, tivemos acesso a um cenário extraordinário em que uma empresa estava envolvida em contratações centralizadas de forma equilibrada. Ela havia migrado de um regime descentralizado para um novo modelo centralizado, ao mesmo tempo que manteve lojas com regime descentralizado para efeito de controle durante o período em que estávamos colhendo amostras. Portanto, pudemos estudar não apenas o efeito principal da contratação centralizada sobre as variáveis dos resultados que nos interessavam, como pudemos perceber também que é improvável um impacto uniforme na empresa. É possível que haja circunstâncias em que a matriz tenha vantagens sobre a contratação em relação aos gerentes de unidades, bem como circunstâncias em que o gerente local seria a melhor opção para fazer novas contratações, talvez porque a loja esteja localizada longe da matriz ou atenda a uma faixa demográfica diferente do restante da rede. Analisamos essas duas circunstâncias distintas para ver se a contratação centralizada era mais ou menos benéfica, dependendo das circunstâncias específicas de cada unidade.

Knowledge@Wharton: Vocês identificaram algumas vantagens na contratação centralizada e também na descentralizada. Fale um pouco a esse respeito.

Deller: Foi interessante observar que não havia nenhum efeito digno de nota na contratação centralizada. Em média, esse tipo de contratação não melhorou o tempo em que os funcionários permaneceram na empresa, nem a rotatividade agregada mensal de funcionários e tampouco o desempenho de vendas da loja.

O que constatamos, na verdade, foi muito coerente com as previsões que fizemos no tocante ao efeito moderador da vantagem de contratação pela matriz, bem como da vantagem da unidade de gerência local. De modo concreto, descobrimos que em muitas lojas de grande movimento, tomando por base o volume de vendas por hora de trabalho, e nas quais é provável que o gerente da unidade se ache limitado no tempo que dispõe para filtrar e contratar novos empregados, a contratação centralizada era mais benéfica porque aumentava a duração média de permanência de um funcionário na loja.

Contudo, quando o gerente de unidade é quem sabe qual a melhor contratação para a equipe local ─ em coisas do tipo: como servir aos clientes dessas unidades, se a loja atendeu a uma modalidade de mercado diferente em relação ao restante da rede, ou se a loja estava mais habituada a servir clientes fiéis ─, constatamos que os benefícios da contratação centralizada não se manifestavam. Na verdade, esse tipo de contratação podia até ser contraproducente em relação à contratação descentralizada no que se refere ao tempo em que os empregados permanecem na empresa e à rotatividade de funcionários na loja em geral.

Knowledge@Wharton: Quais as conclusões da sua pesquisa? Parece que o varejo deveria adotar uma estratégia de duas vias. Há lugares que se beneficiariam da contratação centralizada, enquanto outros se dariam melhor com a contratação local.

Deller: Exatamente. Eu diria que a maior parte das lojas tem, provavelmente, uma política uniforme em relação às contratações. Elas devem ser feitas pela matriz? Pela gerência local? Nossa pesquisa, porém, mostra que o efeito da contratação centralizada ou descentralizada pode depender em grande medida das circunstâncias específicas da unidade. As redes de varejo talvez queiram avaliar se a política uniforme em vigor é adequada ou se deveriam trabalhar com um modelo misto, em que algumas lojas fazem suas próprias contratações enquanto outras as deixam a cargo da matriz, principalmente lojas muito movimentadas, que não têm efetivamente condições de fazer isso por conta própria, na tentativa de aperfeiçoar assim seus processos de contratação.

Knowledge@Wharton: Na pesquisa, você deixa claro que a contratação descentralizada pode ser benéfica se uma loja apresentar características demográficas atípicas. Se ela não for como as demais lojas, seria melhor deixar que o pessoal da unidade em questão faça as contratações locais.

Deller: Sim. Muitas redes abrem franquias de algumas de suas unidades. A pesquisa anterior mostrou que a franquia é mais comum nas unidades localizadas mais distantes da matriz, em unidades que atendem a diferentes mercados e em organizações em que há mais clientes fiéis. Nesses casos, pode ser difícil para a matriz monitorar as unidades mais distantes. Ela talvez não compreenda as nuances do que é necessário para servir os clientes de diferentes faixas etárias ou grupos.

Fizemos a seguinte pergunta: isso se aplica ao processo de contratação? Talvez você imagine que a contratação centralizada ajude o funcionário que se sente um pouco desconectado da empresa porque se encontra distante dela ou porque atende a um mercado diferente. A contratação centralizada seria vantajosa para que esses empregados se sintam parte da empresa. No entanto, parece que a vantagem que tem a gerência local no tocante às informações que detém, ao tipo de pessoa certa para atender a sua clientela e o indivíduo que se adaptaria melhor à equipe supera quaisquer possíveis benefícios que possa ter uma contratação centralizada.

Knowledge@Wharton: Existem aplicações para sua pesquisa em outros setores fora o varejo?

Deller: Acho que ela se aplica mais diretamente ao varejo, mas há muitos setores e indústrias em que as empresas têm inúmeras unidades espalhadas pelo país ou no exterior. Bancos, redes de hotéis e restaurantes e até mesmo hospitais. De modo ainda mais amplo, em organizações de grande escala poderá haver circunstâncias em que os gerentes saibam melhor do que ninguém quem se adapta à demanda de diferentes clientes servidos pela empresa. Poderá ainda haver casos em que uma unidade específica seja extremamente movimentada, ou pode ser ainda que os gerentes estejam desconectados dos objetivos estratégicos gerais da empresa, por isso seria aconselhável ter gente experiente do RH na matriz encarregada das contratações.

Knowledge@Wharton: Qual será o assunto da sua próxima pesquisa?

Deller: Nossa pesquisa atual procurou otimizar a adequação entre o empregado e a empresa no momento da contratação inicial. Outro momento em que o grau de adequação se torna particularmente importante nas empresas ocorre quando se tem de tomar a decisão de promover alguém. Procura-se, nesse caso, tentar “casar” os empregados existentes com posições de nível mais elevado.

Em outro estudo, uso dados de uma empresa que avalia anualmente seus empregados, não apenas o desempenho que tiveram no ano, mas fazem também um prognóstico do seu potencial. De que maneira esse funcionário se sai em diferentes competências de liderança que, em nossa opinião, um líder de empresa deve ter? Essa avaliação é comunicada aos funcionários. Quero examinar as circunstâncias nas quais, e como, essas possíveis avaliações estão relacionadas com as decisões voluntárias dos empregados de sair da empresa. O paralelo com a pesquisa sobre a qual conversamos consiste em buscar um mecanismo feito para melhorar a adequação e descobrir de que maneira isso influencia um funcionário a permanecer na empresa ou a deixá-la.

Em geral, porém, creio que a seleção de funcionários e as promoções são duas decisões importantes feitas pelas empresas e que costumam ter custos elevados se não forem feitas do jeito certo, por isso muitas estão adotando abordagens distintas para equacionar as decisões de promoção e de contratação. Estou muito interessada em prosseguir analisando essas duas áreas porque as considero fascinantes.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Local ou global: quem deve se incumbir de contratar novos empregados?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [21 October, 2017]. Web. [15 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/local-ou-global-quem-deve-se-incumbir-de-contratar-novos-empregados/>

APA

Local ou global: quem deve se incumbir de contratar novos empregados?. Universia Knowledge@Wharton (2017, October 21). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/local-ou-global-quem-deve-se-incumbir-de-contratar-novos-empregados/

Chicago

"Local ou global: quem deve se incumbir de contratar novos empregados?" Universia Knowledge@Wharton, [October 21, 2017].
Accessed [December 15, 2018]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/local-ou-global-quem-deve-se-incumbir-de-contratar-novos-empregados/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far