Mais confiantes, menos cuidadosos: por que é difícil lidar com o namoro no escritório

Se tudo o que você soubesse da vida dentro de um escritório tivesse como referência a comédia The Office, produzida pela NBC, ninguém poderia culpá-lo por acreditar que o tempero principal da vida no local de trabalho é o romance. Contudo, o sucesso desse programa confirma de forma satírica o que estudos recentes demonstraram através de números: o romance é o principal ingrediente da vida no ambiente de trabalho, e mesmo assim os departamentos de recursos humanos pouco têm a dizer a esse respeito. Apesar dos prováveis desdobramentos negativos dessas relações, as empresas preferem recuar nessa questão por sua própria conta e risco, avaliam os especialistas. Conforme diz um profissional de RH: “Existe um sentimento de resignação entre o pessoal de recursos humanos. Na maior parte das vezes, eles fecham os olhos e torcem para que o desfecho seja o melhor possível.”

Se tudo o que você soubesse da vida dentro de um escritório tivesse como referência a comédia The Office, produzida pela NBC, ninguém poderia culpá-lo por acreditar que o tempero principal da vida no local de trabalho é o romance.

Pam, a secretária, e Jim, vendedor, trocam olhares apaixonados nos escritórios fictícios da companhia de papel Dunder Mifflin; Michael, gerente regional, escapa com a chefe, Jan, para uma aventura romântica na Jamaica; Dwight, um tipo sisudo, e Angela, divertem-se com o suspense em que mantêm oculta sua mútua paixão. A sátira, porém, não parece muito distante da realidade — sobretudo quando Toby, o sombrio representante do RH da empresa, adverte secamente os funcionários que o mantenham informado sobre seus relacionamentos amorosos. “Mesmo que seja uma noite só?”, indaga Phyllis, funcionária de meia idade da equipe de vendas, surpreendendo os colegas.

A série The Office confirma de forma satírica o que estudos recentes demonstraram através de números: o romance é o principal ingrediente da vida no ambiente de trabalho, e mesmo assim o departamento de recursos humanos pouco tem a dizer a esse respeito. Embora tais relações possam redundar em prováveis desdobramentos negativos, as empresas preferem recuar nessa questão por sua própria conta e risco, avaliam os especialistas. Conforme diz um profissional de RH: “Existe um sentimento de resignação entre o pessoal de recursos humanos. Na maior parte das vezes, eles fecham os olhos e torcem para que o desfecho seja o melhor possível”, observa Deborah Keary, diretora de recursos humanos da Society for Human Resource Management (SHRM).

Em um estudo de 2005 feito pela SHRM e pelo CareerJournal.com, do Wall Street Journal, 40% dos funcionários pesquisados disseram que haviam tido um caso em algum momento de sua carreira — uma descoberta que se confirmou em três outras pesquisas recentes feitas por empresas privadas. Um desses estudos, realizado pelo site de carreiras Vault.com, mostrou também que 19% dos empregados admitiram ter tido “encontros amorosos” em lugares como o “escritório do chefe” e até “dentro do carro a caminho de uma visita a cliente”.

Embora essa última constatação possa ter deixado surpresas algumas pessoas — que talvez daqui para frente comecem a bater na porta da despensa de materiais antes de entrar — a enorme freqüência com que o envolvimento amoroso ocorre no ambiente de trabalho não deveria ser motivo de surpresa para ninguém, diz Keary. “O local de trabalho é a nova vizinhança. As pessoas passam muito tempo no escritório, e se tiverem de ter um caso com alguém, será ali”, diz ela.

A demografia fornece combustível a esse fenômeno, observam Keary e outros. A média de idade com que as pessoas se casam está aumentando, portanto os funcionários jovens têm maior probabilidade de ser solteiros. Na medida em que as mulheres participam cada vez mais da força de trabalho e vão galgando posições mais elevadas, crescem as chances de trabalharem lado a lado com profissionais do sexo masculino. Em empresas que não hostilizam o trabalhador gay, o namoro entre parceiros do mesmo sexo não deveria surpreender ninguém.

“O trabalhador hoje se sente mais à vontade em relação ao namoro no local de trabalho, e demonstra menos preocupação em ocultá-lo”, observa Mark Oldman, um dos fundadores da Vault.com. Essa percepção é compartilhada por 76% dos empregados entrevistados durante pesquisa conjunta feita em 2004 pela Lawyers.com e pela revista Glamour. De acordo com o levantamento realizado, as relações no local de trabalho são mais comuns hoje do que há dez anos.

Oldman tem uma lista própria de razões para o aumento dos casos de namoro no escritório: maior volume de horas trabalhadas, uma economia pujante que colocou o empregado no comando da ação, além da influência de programas da TV como Just shoot me, da NBC — sobre o dia-a-dia da redação de uma revista onde ocorrem vários romances — e filmes como O diário de Bridget Jones, em que a protagonista namora o chefe. “As pessoas dizem então: ‘Se eles podem, por que não nós?’”, diz Oldman.

Impacto sobre outros empregados

“Namorar no serviço é como comer na mesa de trabalho: o resultado é quase sempre muita confusão”, assinala Oldman, da Vault.com. “Namorar um colega de trabalho pode parecer ótimo à primeira vista, principalmente para os jovens solteiros. Quando o namoro acontece — o que é freqüente — os desdobramentos costumam repercutir no ambiente de trabalho, resultando em distrações.”

Não é apenas o par romântico que se distrai, mas também todos à sua volta, de acordo com Jennifer Mueller, professora de Administração da Wharton. Mueller, que estuda relações interpessoais e dinâmica de grupo no trabalho, diz que os indivíduos, no ambiente de trabalho, formam “panelinhas”, e o relacionamento romântico é, na verdade, uma panelinha de duas pessoas que pode represar recursos valioso da equipe na exclusividade da relação.

“Sempre que as pessoas acumulam recursos — ou quando se acredita que o façam — isso reduz a eficiência do grupo e deixa as pessoas iradas”, diz Mueller. Se, por outro lado, o casal continua “bem integrado” ao grupo, que não o vê como um relacionamento exclusivista, a relação pode não ser problemática.

Para promover a integração do casal, diz Mueller, o líder da equipe deve atribuir tarefas distintas a cada um. “É um expediente prático porque, caso o namoro acabe, haverá outros laços capazes de dar sustentação a ambos. Como tudo o que acontece dentro de uma equipe, a situação tem de ser administrada.”

O possível impacto sobre os colegas de trabalho talvez explique por que os empregados, via de regra, apóiam a idéia de a administração intervir em relacionamentos que são vistos como violação da política da empresa: mais da metade dos entrevistados pelo SHRM/CareerJournal.com disseram que o casal de namorados deveria receber uma advertência formal da administração (em comparação com apenas 36% dos profissionais de recursos humanos favoráveis à idéia).

Para alguns empregados, porém, o envolvimento romântico de colegas pode ser algo incômodo em si mesmo. Isto porque os trabalhadores, em geral, tendem para um dos dois lados do espectro — os que são a favor da integração da vida profissional à vida pessoal e os que preferem a segmentação, ou separação, das duas esferas, assinala Nancy Rothbard, professora de Administração da Wharton. “As pessoas que namoram no ambiente de trabalho tendem a se integrar mais. Elas reduzem as barreiras entre o trabalho e os aspectos não relacionados à sua vida pessoal.”

Na pesquisa que fez sobre a forma como os empregados interagem com as políticas de trabalho e de vida pessoal adotadas pela empresa, Rothbard constatou que os segmentadores demonstravam menos satisfação e dedicação ao trabalho sempre que a empresa propunha políticas integracionistas, como creches, por exemplo. “Portanto, os que preferem a segmentação, mesmo que não se envolvam romanticamente com um colega de escritório, podem se sentir incomodados com a existência de uma relação desse tipo à sua volta”, diz. “O namoro no escritório pode afetar profundamente outras pessoas.”

Ausência de política oficial

Namorar no escritório — e de forma aberta — é mais comum entre as gerações mais jovens, de acordo com uma pesquisa de 2007 da Spherion, de Fort Lauderdale, na Flórida, especializada no recrutamento e preenchimento de cargos . No grupo de faixa etária entre 30 e 39 anos, 47% dos entrevistados disseram que haviam tido um caso amoroso no escritório, ao passo que na faixa etária entre 50 e 64 anos, esse percentual foi de 31%, embora este último grupo estivesse, supostamente, há mais tempo na empresa. Os trabalhadores mais jovens, entre 18 e 24 anos, apresentaram maior propensão para tornar público seu envolvimento, de acordo com dados da Spherion.

Em vista dessa inclinação ao envolvimento amoroso, talvez surpreenda constatar que mais de 70% dos profissionais de recursos humanos disseram não haver em suas empresas nenhuma política oficial, escrita ou verbal, sobre o envolvimento amoroso no local de trabalho, de acordo com o estudo da SHRM/CareerJournal.com. As políticas que existiam eram fragmentadas demais: cerca de 20% permitiam o relacionamento no local de trabalho, enquanto 31%, não. A política mais comum consistia em sancionar, sem incentivar, o namoro no escritório (48%).

Empregados e funcionários da área de recursos humanos nos vários estudos realizados são unânimes em condenar a relação amorosa entre chefe e subordinado. Contudo, cerca de 20% dos funcionários da Vault.com entrevistados admitiram ter tido relacionamento amoroso com um superior. A demissão de Harry Stonecipher, ex-CEO da Boeing, em 2005, que mantinha relações extraconjugais com uma vice-presidente da empresa, foi o exemplo mais citado. Contratado para levantar o padrão ético da empresa depois de escândalos diversos, Stonecipher admitiu que havia fraquejado: “Nós estabelecemos — nós não, eu — um padrão mais elevado na empresa”, disse ele ao Wall Street Journal. “E eu mesmo quebrei os padrões que havia estabelecido.”

No caso das poucas empresas com políticas específicas para episódios de romance no escritório, o temor de queixas relacionadas ao assédio sexual é fator preponderante, de acordo com o estudo do SHRM/CareerJournal.com. A tendência atual nessa área é a de pedir aos empregados que declaram estar namorando que assinem um documento afirmando que a relação é consensual. Essa estratégia de recursos humanos foi retratada de maneira cômica em um episódio recente de The Office quando Jan pede a seu namorado e subordinado, Michael, que assine um contrato absolvendo a empresa de qualquer responsabilidade caso a relação dos dois dê errado e acabe prejudicando o trabalho.

David Gebler, presidente da Working Values, empresa de Boston especializada em ética empresarial e treinamento, diz que o principal perigo que ronda os relacionamentos amorosos no escritório é a possibilidade de conflitos de interesse. “Pode parecer algo frio, mas se o relacionamento for público, a empresa tem a possibilidade de avaliá-lo para evitar rupturas éticas”, diz Gebler.

Os funcionários têm todos os motivos para manter seu relacionamento em segredo, seja porque temem que pareça pouco profissional, porque querem evitar fofocas, seja porque prefiram simplesmente mantê-lo na esfera pessoal. Contudo, guardar segredo torna o empregado mais vulnerável a tropeções éticos, acrescenta Gebler. “Todo o mundo acha que consegue administrar o segredo sozinho, que fará uso do bom senso, mas é difícil ter bom senso quando se está emocionalmente envolvido. Uma boa política ética pode ser sintetizada da seguinte forma: não sofra, converse sobre o assunto.”

É interessante notar que a demissão forçada de Stonecipher “foi conseqüência da violação do código de conduta da empresa, e não da política aplicada aos relacionamentos”, observa John Dern, porta-voz da Boeing. A pessoa com quem Stonecipher se envolveu romanticamente não era sua subordinada, mas o fato é que ele enviou a ela, conforme informou o Wall Street Journal, e-mails amorosos explícitos pela rede da empresa. Talvez a lição aqui consista no seguinte: se Stonecipher tivesse lidado com o caso de forma diferente — tornando-o público e limitando-se a escrever e-mails do seu computador pessoal — talvez ele ainda fosse CEO.

Administrando da melhor maneira possível

Em face das dificuldades próprias desse tópico e do seu teor delicado, não é de surpreender que a maior parte das empresas não tenha uma política formal ou o treinamento administrativo necessário para tratar do tema amor no escritório, observa Keary, da SHRM. “As empresas não querem perder tempo criando regras para coisas que fogem a todas as regras. Por que adotar uma política que ninguém obedecerá?”, indaga, ressaltando que os profissionais de recursos humanos não se sentem profundamente “angustiados” por causa disso.

Basta observar a amostra de respostas dadas a esse tópico: quando lhe pediram que comentasse a política para casos de namoro no escritório, um porta-voz da MITRE, empresa de tecnologia com participação do governo e sem fins lucrativos, disse que ninguém na empresa tinha coisa alguma a dizer a esse respeito. “Não é um assunto que ocupe o topo da lista das nossas preocupações”, observou. Um representante de mídia do escritório nova-iorquino da Naked Communications, agência de publicidade londrina, disse que a empresa não comentaria o assunto “em razão de se tratar de tópico delicado”. Um representante da Booz Allen disse em um e-mail que a agência de consultoria global não tem uma política sobre o assunto e que “a empresa respeita o direito dos empregados de se comportarem da forma que acharem melhor em sua vida privada, ao passo que sua conduta em público deve ter reflexos positivos para a reputação da empresa”.

Esse mosaico de respostas aponta para as diferentes mensagens que muitos empregados, ao que tudo indica, estão recebendo. Na pesquisa feita pela Vault.com, em 2007, 41% dos trabalhadores entrevistados disseram que não sabiam se o escritório onde trabalhavam tinha, ou não, uma política definida sobre namoro no local de trabalho.

Gebler, da Working Values, recomenda um enfoque mais definido e proativo. “Não se conforme com um palavreado genérico quando tiver de lidar com a questão de conflito de interesses”, diz ele, salientando que sua empresa, embora pequena (85 funcionários), tem uma política específica que requer dos empregados que revelem seu envolvimento amoroso para que não haja conflitos de interesse. “Respeitamos o direito do empregado à privacidade, mas se ele quiser ter um relacionamento, a empresa requer que o revele.”

Como, porém, fazer com que o empregado torne público seus sentimentos pessoais? Gebler diz que isso depende do clima instaurado pela administração. “Se a empresa tiver um cultura sadia, respeitosa, questões desse tipo não constituirão dificuldade alguma. Só quando se tem uma cultura repressiva é que o tema ganha uma importância exagerada, seja porque as pessoas não se sentem à vontade revelando seu relacionamento por medo de retaliação ou de humilhação, seja porque a empresa não aceita que as pessoas” sejam humanas.

A existência de uma política específica dá também aos supervisores maior margem de manobra para interferir no caso de o relacionamento se tornar problemático, diz John Heins, vice-presidente sênior e diretor de recursos humanos da Spherion. “O mais seguro é investir no desempenho, na freqüência ou no comportamento. As empresas que não têm política específica para o assunto são míopes, porque só se preocupam com o desempenho e com a freqüência”, ao passo que a conduta diz respeito ao comprometimento com a política da empresa.

Seja qual for a política em vigor, diz Oldman, da Vault.com, cabe ao líder comunicá-la com clareza. “Não se pode simplesmente imprimi-la em um cartaz e pendurá-la em algum lugar à espera de que os empregados a levem a sério”, diz. “Um parágrafo em um manual qualquer dirigido ao trabalhador não é suficiente para vencer os impulsos primordiais dos seres humanos.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mais confiantes, menos cuidadosos: por que é difícil lidar com o namoro no escritório." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 April, 2007]. Web. [21 January, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mais-confiantes-menos-cuidadosos-por-que-e-dificil-lidar-com-o-namoro-no-escritorio/>

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