Mais integração regional: resposta da América Latina a Trump?

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Os países latino-americanos olham uns para os outros estupefatos com o novo discurso que chegou à Casa Branca. Donald Trump se mostra disposto a mudar as relações comerciais e econômicas que os EUA cultivaram durante as últimas décadas, o que leva inquietação para seus vizinhos do continente. O novo presidente americano lançou mensagens a favor do protecionismo e contra a globalização, afastando-se das negociações de importantes tratados comerciais internacionais, como a PTT (Parceria Transpacífico) avisando ainda que renegociará outros tratados, como o que mantém com o México e o Canadá (NAFTA). O México se converteu de fato em seu principal campo de batalha, ameaçando o país com tarifas pesadas sobre todos os seus produtos.

Se, como tudo indica, o novo governo resolver de fato dificultar a manutenção dos laços comerciais com seus principais sócios econômicos, a América Latina terá muito a perder. Os EUA são fundamentais para a região, já que mais de 40% das exportações locais têm como destino os EUA, de acordo com números da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (CEPAL). Mas, não apenas isso, os EUA são, de longe, o principal investidor na região. De acordo com os últimos dados disponíveis da CEPAL, referentes a 2015, os EUA foram responsáveis por 25.7% dos investimentos estrangeiros, muito acima dos demais países da lista: Países Baixos (15,4%) e Espanha (11,5%). Além disso, no México e em muitos países da América Central e do Caribe, os investimentos diretos dos EUA respondem por mais de 50% do total.

O que para muitos se converteu em motivo de preocupação, para outros é uma oportunidade. Teria chegado o momento de unir forças, de modo que haja uma maior integração do ponto de vista econômico na América Latina?

É o que pensa, por exemplo, Leandro Morgenfeld, professor do Instituto de Pesquisas de História Econômica e Social da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires. Para ele, a atitude do presidente americano em relação aos hispanos poderá impulsionar a unidade da região. “O discurso xenófobo de Trump e, de modo especial, seu desprezo pelos hispanos, vem provocando uma ampla rejeição [a ele] não apenas no México, mas em toda a América Latina e no Caribe. A estigmatização dos que não têm documentos e dos mais de 55 milhões de pessoas de origem hispânica que hoje vivem nos EUA representa igualmente uma humilhação para o restante do continente.” Nesse contexto, Morgenfeld crê que estejam sendo geradas condições para a retomada da via da coordenação política e da integração regional. Ele lembra um sinal importante observado na última reunião de cúpula da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América ou Tratado de Comércio dos Povos): houve uma forte rejeição às iniciativas xenófobas de Trump. Morgenfeld diz que seria “bom” que todos os países da região, no marco da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), fixassem uma posição conjunta de solidariedade regional e de repulsa ao muro e às deportações em massa. “A única estratégia possível para os 33 países da ‘Nossa América’ consiste na retomada da integração regional até aqui postergada. Só assim será possível ter autonomia perante os EUA e demais potências de fora do hemisfério.”

Para Eugenio Gómez, professor da área acadêmica de entorno econômico da Escola de Negócios IPADE, a integração econômica tem sentido com ou sem políticas protecionistas dos EUA. “Desde o início da ciência econômica como tal, desenvolveu-se claramente a ideia de que a especialização e a colaboração entre países é uma força importante para melhora do bem-estar de seus habitantes. Se um país confia em outro para que produza um bem ou um insumo de que necessita, isso lhe permite ser mais produtivo na fabricação de outros bens com base na especialização, no aproveitamento da economia de escala ou de uma maior capacidade e recursos em nível local”, explica. Portanto, ele defende a ideia de que uma maior integração econômica será sinônimo de bem-estar além de ser positiva, quaisquer que sejam as políticas de Donald Trump, embora reconheça que essa ameaça possa servir de pretexto ou atrativo para uma maior integração, “o que seria muito bom para a América Latina”. Apesar disso, Gómez adverte que uma maior integração na região poderia não ser suficiente para enfrentar um forte protecionismo dos EUA. Nesse sentido, cita o caso do México, cujas exportações a seu vizinho do norte representam em torno de 36% das importações totais do restante da América Latina. Em outras palavras, diz Gómez, o México teria que conquistar mais de 1/3 do mercado latino-americano para compensar a perda do mercado americano. Por esse mesmo motivo, diz ele que o “desafio é também conquistar outros mercados, como o europeu e o asiático”.

David Castells-Quintana, professor de economia aplicada da Faculdade de Economia da Universidade Autônoma de Barcelona, também acha que a guinada protecionista dos EUA pode ser uma oportunidade para a promoção de uma maior união na América Latina. Ele lembra que a integração na região avançou muito nas décadas de 70, 80 e 90, mas estagnou com as disputas políticas do século atual, por exemplo, entre a Colômbia e a Venezuela. Ele lamenta que tenham sido perdidas organizações e iniciativas como a Comunidade Andina de Nações (CAN). “Para que a oportunidade de uma maior integração comercial se concretize, é preciso que haja mais vontade política”, adverte.

Para Júlio César Gambina, professor de economia política da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosário, “os momentos de ofensivas do capitalismo, como a ascensão de Donald Trump nos EUA, não são a melhor ocasião para levar adiante projetos autônomos na região”. Ele diz que a atitude do presidente americano e do seu governo em relação aos hispanos não será suficiente para que haja uma maior integração regional, o que se complica ainda mais com Enrique Peña Nieto no governo do México, Michel Temer, no Brasil, e com Mauricio Macri à frente da Argentina. “A continuidade da luta dos povos poderá criar condições para que se reinstale a perspectiva de integração alternativa. Não será pela via diplomática e menos ainda pela iniciativa dos governos de direita submissos aos desígnios da potência hegemônica, embora com declarações críticas às posições hoje assumidas pelo governo Trump”, diz.

Papel do Mercosul

Atualmente, o Mercado Comum do Sul, conhecido como Mercosul, representa o maior processo de integração regional da América Latina. Criado em 1991 pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, incorporou posteriormente outros países como Venezuela (suspenso) e Bolívia (em processo de adesão). Também integram o bloco, embora como “Estados associados”, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Guiana e Suriname. México e Nova Zelândia são “Estados observadores”.

Não há consenso entre os especialistas na hora de discorrer sobre o papel que deveria ter o Mercosul no novo contexto internacional e se deveria ser a pedra angular de uma grande integração regional. Morgenfeld defende que a Venezuela deveria ser reincorporada e que se deveria abandonar a estratégia de abertura em favor dos tratados de livre comércio que hoje advogam sobretudo os governos neoliberais de Michel Temer e Mauricio Macri. Morgenfeld diz que, em 2005, essa foi uma ferramenta útil para frear a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), propugnada por George W. Bush, cujo objetivo era estender o NAFTA aos demais países do continente, com exceção de Cuba. “Creio que seria um grave erro voltar ao Mercosul dos anos 90, pensado então como uma plataforma para a consolidação do ‘regionalismo aberto.'” O pacto de livre comércio com a União Europeia que ambos os blocos negociam há anos, mas cujas tratativas relançaram nos últimos tempos o fechamento das fronteiras impulsionado por Trump, “seria uma má notícia”, adverte. “É paradoxal que os governos de direita da região fomentem acordos de livre comércio prejudiciais para a maior parte da população e que, além disso, sejam repelidos pelos EUA e pela Europa. A abertura comercial que propõem é inoportuna”, acrescentou.

Gómez admite que o Mercosul representa um esforço importante para a integração da América Latina, mas salienta que o número de países excluídos é maior do que o de países membros, por isso considera imprescindível que o acordo seja ampliado e reformulado para estar à altura do desafio que poderiam representar as políticas protecionistas dos EUA.

Para Castells-Quintana, o Mercosul poderia ser uma ferramenta útil para a integração regional, mas deveria ser mais inclusivo e levar em conta acordos regionais anteriores, como o da Comunidade Andina de Nações (CAN). Para o professor, é evidente que há muitos fatores que explicam o fato de que não haja uma voz comum diante do desafio que Trump representa e que os países da América Latina não avancem rumo à integração econômica. Contudo, Castells-Quintana crê na seguinte solução: “Há décadas muitos países latino-americanos começaram a se fixar mais nas diferenças entre eles do que em suas semelhanças. Portanto, dar uma resposta consensual, ou prosseguir rumo à integração, é muito difícil. A União Europeia começou a avançar quando os países europeus se deram conta de que era mais o que os unia do que aquilo que os separava. Na América Latina, ainda não chegamos a compreender isso.”

Para Morgenfeld, o principal obstáculo à integração é político. “Com os golpes parlamentares no Paraguai e no Brasil, o triunfo de Macri na Argentina e a crise econômica que afeta a região em decorrência da queda do preço e da demanda de matérias-primas, a direita neoliberal achou que havia chegado sua hora, que era inexorável a derrota dos processos de mudança do eixo bolivariano e das experiências reformistas. Contudo, Peña Nieto, Temer e Macri enfrentam uma crescente rejeição social e política”, diz. Ele explica que as direitas regionais favorecem uma agenda de câmbio livre e se inclinam a favor da reversão das conquistas sociais. “Abandonam qualquer estratégia de coordenação e cooperação política latino-americana e disputam o papel de parceiros privilegiados dos EUA. Contudo, o triunfo de Trump os deixou perplexos”, diz. Creio que os governos mencionados defendem uma agenda que vem sendo impugnada, pelo menos no discurso, nos países que eles consideram um “modelo” a seguir.

Morgenfeld diz que “impulsionar uma integração latino-americana deveria nortear todo processo de transformação social na região”. Ele diz que nos próximos meses se verá se as “direitas regionais” consolidam o “processo de restauração conservadora” ou se as “resistências e rebeliões populares” reverterão essa tendência.

Gómez crê que a má situação econômica e política que atravessam alguns países importantes como Argentina, Brasil e Venezuela é um obstáculo para que haja uma política comum na região e uma agenda política que aponte para a cooperação. “Parece que sempre faltou uma liderança importante ou vontade dos governantes latino-americanos para dar voz comum aos interesses perseguidos pela região em nível mundial”, diz. Ele ressalta que esse é um tema muito importante, já que está convencido de que a América Latina poderá ter uma influência considerável no mundo. “Seu Produto Interno Bruto combinado supera os US$ 5 trilhões, o que equivaleria ao posto de terceira maior economia do mundo. É uma pena”, lamenta Gómez, “que não se aproveite mais esse ponto forte quando há tantos interesses comuns para esses países”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mais integração regional: resposta da América Latina a Trump?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 March, 2017]. Web. [26 April, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mais-integracao-regional-resposta-da-america-latina-trump/>

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