Manipulação na venda de ações: como e quando acontece e quem é beneficiado

Por ocasião do colapso do Bear Stearns em março, alguns analistas disseram que era errado culpar as apostas arriscadas que o banco fizera em papéis lastreados em hipotecas de alto risco. Eles tinham outro culpado: operadores mal intencionados que em uma ação conjunta no mundo invertido das vendas a descoberto ganharam muito dinheiro com a derrocada das ações do Bear Stearns.

 

Ninguém admitia abertamente ter havido uma manipulação proposital dos preços das ações, uma vez que tal procedimento é ilegal. Contudo, Wall Street há tempos acredita que tais manipulações podem acontecer e, na verdade, acontecem de fato. Não houve, porém, um número suficiente de pesquisas acadêmicas que explicassem quais forças entraram em ação naquele momento. Agora, dois especialistas em finanças lançaram um pouco de luz sobre esse processo. “Descrevemos basicamente de forma teórica como funcionam as manipulações de ações”, diz Itay Goldstein, professor de finanças da Wharton. Em parceria com Alexander Guembel, da Saïd Business School e do Lincoln College, da Universidade de Oxford, Goldstein descreve o procedimento em um estudo intitulado “O papel da manipulação e da alocação de preços” [Manipulation and the Allocational Role of Prices].

 

Sua principal descoberta esclarece a inter-relação entre o valor econômico real de uma empresa e o preço de suas ações, mostrando de que maneira os operadores, ao empurrar deliberadamente para baixo o preço das ações, podem corroer a riqueza da empresa, fazendo com que o preço de suas ações caia ainda mais mergulhando-o em seguida em um ciclo vicioso.

 

“O que procuramos mostrar é que, com a venda das ações, produz-se um efeito na empresa”, observa Goldstein. “A ligação com o valor real da companhia é o dado novo […] Esse é o elemento crucial.”

 

Goldstein e Guembel mostram que o processo funciona apenas quando a intenção é prejudicar a empresa; os operadores não têm o mesmo poder de criar um mecanismo de realimentação e ajuste que empurre os preços para cima.

 

O segredo do processo é a venda a descoberto, isto é, quando o operador faz um “empréstimo” de ações de uma corretora vendendo-as em seguida na esperança de pagar o empréstimo contraído com ações compradas posteriormente por preço inferior. O vendedor a descoberto lucra somente se os preços caírem — vendendo na alta e comprando na baixa. Se os preços subirem, ele será obrigado a comprar ações substitutas a preços superiores ao ganho obtido com as ações vendidas.

 

Uma conspiração contra o preço das ações

A associação entre o preço da ação de uma empresa e seu verdadeiro valor não é tão automático quanto muita gente pensa. As empresas vendem ações ao público para levantar fundos. Depois que as ações começam a circular, os preços tendem a subir ou a abaixar em sintonia com a maior ou menor lucratividade da empresa; entretanto, outras forças estão em progresso nesse momento — a tendência do mercado ou da indústria, o desempenho da empresa em relação a outras do mesmo segmento, além da especulação em torno da estratégia de negócios, produtos e competitividade da empresa. Tudo isso afetará seus ganhos futuros.

 

Às vezes, investidores entusiasmados acabarão empurrando para cima o preço das ações mesmo que não haja sinal algum de que os lucros irão aumentar. Outras vezes, a percepção do investidor pode pender para o lado negativo, empurrando para baixo o preço das ações mesmo que a empresa pareça perfeitamente saudável.

 

Como a relação entre o desempenho dos negócios da empresa e o preço das ações não é predeterminado, há tempos acredita-se que o destino de uma ação não tem necessariamente impacto algum sobre o valor econômico real da empresa medido por coisas como ativos e lucros.

 

É evidente que os especuladores podem conspirar para derrubar o preço das ações numa articulação conjunta e fulminante de venda a descoberto. Contudo, em algum momento outros operadores — impressionados com a solidez da empresa — poderão achar uma boa barganha as ações da empresa, o que aqueceria a demanda levando à estabilização e ao aumento do preço das ações. Portanto, manipular as ações não teria efeito permanente. Entretanto, se o preço em queda das ações, fruto de manipulação, prejudicar de fato economicamente a empresa, outros investidores deverão também se desfazer das ações, provocando assim um ciclo vicioso de queda e de prejuízo ao valor econômico da companhia que tornará a manipulação mais rentável.

 

Para saber qual cenário é mais provável, Goldstein e Guembel tomaram com exemplo uma empresa prestes a investir em um projeto cujo valor final para a empresa não pode ser determinado com precisão. Ao mesmo tempo, temos um especulador que sabe alguma coisa sobre o valor do projeto que a companhia desconhece. Ele poderá, por exemplo, ter um insight especial sobre o possível custo do capital.

 

Se esse insight indicar que o plano de gastos funcionará a contento, o especulador comprará ações dessa companhia e sua demanda empurrará os preços dos papéis para cima. Se o insight indicar que o plano está fadado ao fracasso, ele venderá as ações e a pouca demanda empurrará os preços para baixo. Seja com for, o insight do especulador acaba se refletindo no preço das ações.

 

Goldstein e Guembel acrescentam em seguida um novo elemento a essa visão tradicional de mercado: a empresa considera a mudança de preço das ações como sinal do que pensa o mercado sobre a engenhosidade do seu plano de gastos. Se o preço cair, a percepção será negativa e a empresa terá de abandonar o plano.

 

Até este momento, o especulador toma suas decisões de acordo com a avaliação que faz do plano de gastos. Contudo, Goldstein e Guembel dizem que o especulador que não tem nenhum insight específico do plano poderá explorar o processo no sentido de empurrar propositalmente o preço das ações para baixo.

 

Reduzindo o valor da empresa

Grandes transações são efetuadas por gente que comanda o mercado em Wall Street e que, em muitos casos, compra e vende usando para isso seu próprio estoque de ações. O formador de mercado cota um preço com base na avaliação que faz do mercado. O formador que executa um pedido de compra ou venda de um especulador parte do pressuposto de que o especulador tem algum insight da empresa em questão. Caso contrário, ele não tomaria atitude alguma. De modo geral, operadores bem informados contribuem para a eficiência do mercado, assegurando assim que os preços das ações reflitam de forma adequada o valor das empresas. Ao inspirar confiança nos mercados, essa eficiência tende a manter os preços elevados.

 

Contudo, no exemplo dos autores, o especulador que vende ações ao formador de mercado através de vendas a descoberto não tem esse insight. Portanto, sua venda reduz de fato a eficiência do mercado, ampliando as perspectivas de queda dos preços das ações e tornando a venda a descoberto rentável.

 

Além disso, o especulador pode fazer uma série de vendas a descoberto para reduzir o preço das ações. Ao interpretar a queda dos preços como um voto de desconfiança, a empresa abre mão do seu plano de gastos perdendo com isso o benefício que o plano traria e, como resultado, derrubando mais ainda o preço das ações.

 

“De modo geral, essa é uma decisão equivocada que, por si mesma, afetará negativamente o valor da empresa”, observam os autores. “Isso permite ao especulador cobrir sua posição a um custo menor e realizar lucros. Em vista da natureza dessa estratégia, nós nos referimos a ela como manipulação.”

 

É claro que é importante que ninguém saiba o que pretende o especulador, diz Goldstein. “Se todos no mercado souberem que um fundo de hedge em especial está tentando manipular ações, o efeito disso será nulo.” É fundamental, acrescenta, que outros participantes do mercado acreditem que o manipulador baseia suas decisões em insights, mesmo quando não for este o caso.

 

Para que a manipulação funcione, as variações do preço das ações têm de influenciar a decisão da empresa de seguir adiante, ou não, com seu plano de gastos. Isso é possível, contanto que sejam observadas três condições: o valor do plano de gastos não deverá ser muito alto; há uma boa dose de incerteza em relação ao resultado final do plano e, por último, a empresa espera receber um feedback importante dos mercados financeiros acerca da engenhosidade do seu plano.

 

“Por fim, mostramos que a manipulação é rentável somente se executada por meio de pedidos de venda”, observam Goldstein e Guembel. “Isto porque as duas fontes de lucros por trás da estratégia de manipulação […] não podem gerar lucros com ordens de compras.” O especulador que não tem nenhum insight especial da empresa partirá do princípio que ela vale menos do que aparenta no mercado, o que lhe servirá de incentivo para vender, e não para comprar, assinalam os autores.

 

De igual modo, um especulador que trabalhe sem um tipo especial de conhecimento produz ineficiências que poderão levar posteriormente à queda do preço das ações. Para ter lucro com preços em queda, o especulador precisa recorrer às vendas a descoberto. Ele perderá dinheiro se comprar ações.

 

O segredo da manipulação de mercado é fruto da associação entre o preço das ações e o valor real da empresa, diz Goldstein. “Via de regra, as pessoas acham que os mercados financeiros não afetam as empresas, o que não é verdade.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Manipulação na venda de ações: como e quando acontece e quem é beneficiado." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [30 April, 2008]. Web. [25 September, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/manipulacao-na-venda-de-acoes-como-e-quando-acontece-e-quem-e-beneficiado/>

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Manipulação na venda de ações: como e quando acontece e quem é beneficiado. Universia Knowledge@Wharton (2008, April 30). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/manipulacao-na-venda-de-acoes-como-e-quando-acontece-e-quem-e-beneficiado/

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"Manipulação na venda de ações: como e quando acontece e quem é beneficiado" Universia Knowledge@Wharton, [April 30, 2008].
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