Mapfre: seguradora espanhola, decidida a crescer, aposta nos EUA e em outros países

A Mapfre anunciou em 5 de junho passado a conclusão da compra da seguradora americana Commerce Group, operação anunciada em outubro de 2007. A maior seguradora da Espanha pagará pela empresa 2,211 bilhões de dólares (1,431 bilhões de euros). Trata-se do maior investimento dos 75 anos de história da companhia e é um passo fundamental para a expansão internacional da empresa.

 

Os acionistas da Commerce receberão 36,7 dólares por ação. A Mapfre garantiu a manutenção da atual equipe diretora da empresa, e não prevê mudanças em sua folha de pagamentos de cerca de 2.400 funcionários, que serão integrados com todos os direitos assegurados ao grupo espanhol. A sede da Commerce continuará em Webster (Massachusetts), sendo que a empresa manterá suas operações nas áreas geográficas em que desenvolve atualmente suas atividades, tendo em vista a ampliação de suas operações, paulatinamente, para outros estados do país.

 

Uma boa compra

Mauro F. Guillén, diretor do Instituto Lauder da Wharton, na Universidade da Pensilvânia, está convencido de que a operação “é uma boa oportunidade” para que a Mapfre se estabeleça no mercado de seguros dos EUA “num momento em que o país está aberto aos investimentos em razão do atual déficit comercial”. Além disso, acrescentou que “se trata de um mercado fragmentado em que uma boa seguradora, como é o caso da espanhola Mapfre, pode ter sucesso”. “A compra do Commerce Group, nos EUA, foi uma decisão correta. O euro garante à empresa um bom negócio”, acrescenta.

 

Para Manuel Romera, diretor do setor financeiro da Escola de Negócios do Instituto de Empresa (IE), trata-se de “um bom momento” para entrar no mercado americano e fazer aquisições. Além de ressaltar “a vantagem de se fazer aquisições no atual momento que vive o país em face da força do euro diante do dólar”, Romera salienta que “o momento delicado que atravessa as finanças dos EUA devido à crise do subprime fez com que o valor das empresas do setor se convertesse em verdadeira barganha”. Romera diz ainda que a Mapfre contava com um “bom dinheiro em caixa” para realizar aquisições. O especialista acha que a entrada da companhia nos EUA “demonstra sua grande capacidade financeira e comercial”.

 

Uma das provas mais contundentes do bom estado das contas da Mapfre e da viabilidade da operação feita é o fato de que as agências de risco Standard & Poors (S&P) e AM Best ratificaram os índices da empresa depois do anúncio da aquisição de 100% da seguradora americana. A S&P ressalta em seu relatório que manterá os índices de solidez financeira ‘AA’ das principais empresas do Grupo: a Mapfre Empresas e Mapfre RE, bem como as perspectivas da companhia. Além disso, manterá o índice ‘BBB’  de qualidade da dívida do Grupo Commerce e o ‘A’ referente à solidez do crédito de suas filiais, a Commerce Insurance e Citation Insurance. A AM Best, por sua vez, anunciou que pretende ratificar o índice ‘a’ de emissor de dívida da Mapfre mantendo também os índices de solidez financeira e de emissão de dívida da Commerce e de suas filiais, que são de ‘A+’ (superior) e ‘aa’, respectivamente. Já a agência Moody’s confirmou a avaliação de risco de solidez financeira da Commerce (A2) e de qualidade da dívida (Baa2), elevando a perspectiva da empresa americana de “estável” para “positiva” em sintonia com os benefícios de que ela passará a desfrutar ao se integrar a Mapfre.

 

O Grupo Commerce ocupa o posto de número 20 no ranking de seguros de automóveis nos EUA, tendo encerrado o exercício de 2007 com cerca de 1,2 bilhão de euros em prêmios (1,9 bilhão de dólares). Em Massachusetts, a Commerce é líder no segmento de seguro de vida pessoal. Além disso, o grupo tem filiais na Califórnia, Ohio e Nova York. Atualmente, a empresa desenvolve um plano de crescimento fora do seu estado de origem, uma vez que tem licença para operar nos 50 estados da federação.

 

“A aquisição da Commerce não foi só a maior operação da história do grupo, uma vez que se encaixa perfeitamente em sua estratégia de crescimento e em seu desejo de se converter em seguradora mundial, foi também um passo decisivo para sua expansão internacional e sua aposta no mercado americano”, observou o presidente da Mapfre, José Manuel Martínez, ao se referir à operação em um comunicado enviado à Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV), órgão regulador da bolsa espanhola. “O compromisso, a solidez e a independência da rede de agentes da Commerce foi decisiva para a aquisição da empresa”, disse.

 

Estratégia a seguir

Romera assinala, em relação a Commerce, sua “experiência no negócio do setor de não-vida”, sua “grande capacidade financeira e comercial” e seu “bom posicionamento”, o que lhe permite ampliar suas atividades por todo o mercado americano. Guillén acredita que o grupo contribuirá para que a “seguradora espanhola aprenda como funciona o mercado americano”, para, mais tarde, “se tudo correr bem, realizar mais uma aquisição no prazo de alguns anos”, uma vez que os “EUA são um mercado muito vasto e, portanto, deve-se conquistá-lo aos poucos”.

 

Que estratégia deverá seguir a Mapfre no momento atual do mercado americano? Um dos fatores que podem favorecer a seguradora é sua característica de empresa hispânica, dado o grande crescimento experimentado pela comunidade latina do país. “A Commerce opera em 17 estados, não necessariamente entre a população latina. Seria um erro concentrar-se nela. A Mapfre tem muito mercado para crescer nos EUA sem necessidade de se apresentar como empresa de fala hispânica”, adverte Guillén. Romera, por sua vez, crê que a empresa espanhola “quer aproveitar a população latina, porém deseja também ingressar no mundo anglo-saxão do seguro e mostrar do que é capaz”.

 

Embora a Mapfre esteja empenhada em buscar uma estratégia correta, os analistas crêem que a empresa encontrará algumas dificuldades no mercado americano. “Trata-se de um mercado grande, com um órgão regulador distinto em cada um dos 50 estados, e que passa por um momento delicado devido à crise das hipotecas subprime. Contudo, é também uma oportunidade de futuro. Não há negócio rentável sem riscos”, diz Guillén. Quando fala dos problemas financeiros do país decorrentes das hipotecas de alto risco, o professor se refere de forma explícita às dificuldades por que passa a maior seguradora americana e do mundo, a American International Group (AIG). A empresa anunciou prejuízos de 7,805 bilhões de dólares no primeiro trimestre do ano, ante ganhos de 4,139 bilhões no mesmo período em 2007.

 

Romera acredita que a Mapfre “terá pela frente uma forte concorrência no mercado americano”, uma vez que “a cultura do seguro é muito desenvolvida nos EUA”. Ele observa que, nesse mercado, as empresas estão mais voltadas para o seguro a longo prazo, por isso acha que a empresa espanhola “deve se dedicar a produtos de curto prazo”, como os seguros de automóveis”. Romera, professor do IE especializado no setor financeiro, crê que a entrada pelo sul do país “pode ser uma oportunidade para ampliar sua presença em mercados como o mexicano, onde poderá haver sinergias muito interessantes — potencializando, quem sabe, seus negócios em outros países, com o Chile, por exemplo”.

 

Solidez na América Latina

A Mapfre já conta com uma importante expansão na América Latina. De acordo com os últimos dados recolhidos pela Fundação Mapfre e publicados em novembro de 2007, a empresa ocupa o terceiro lugar na região com uma participação de mercado de 4,5%, a mesma da AIG, que ocupa a segunda posição no ranking. A seguradora espanhola ganhou dois décimos de participação em relação ao ano passado graças ao forte aumento do seu negócio de vida no Brasil e de não-vida na Argentina e México. O grupo brasileiro Bradesco voltou a ocupar o primeiro lugar com uma participação de mercado de 7,9%, cinco décimos a mais do que ano anterior.

 

Em termos de setores, a Mapfre é a primeira seguradora do segmento de não-vida na América Latina, com uma participação de mercado de 6,2%, ao passo que nos produtos do setor de vida, a empresa ocupa a 11a. colocação, com 2,3% do mercado. No final de 2007, contava com mais de 12.400 funcionários nos países da região, 32.000 agentes e uma das redes mais extensas do segmento financeiro com cerca de 2.000 escritórios.

 

A expansão da Mapfre pela América do Sul continua. Em 11 de junho passado, a empresa anunciou a aquisição de 60% da companhia de seguros equatoriana Atlas por 3,8 milhões de euros através de sua filial Mapfre América. A compra dessa participação pressupõe que a empresa integrará suas operações no Equador, passando a empresa latino-americana a se chamar Mapfre Atlas. Com essa operação, a Mapfre reforça sua posição no Equador, onde começou a operar em 2007 com a abertura de uma filial em Quito.

 

Manuel Martínez anunciou em 17 de junho que a vantagem da seguradora poderia crescer este ano a um ritmo de dois dígitos e que seria sensivelmente superior ao do ano passado, quando atingiu a marca de 731 milhões (um crescimento estimado de 20%), e que mantém sua previsão de receitas de 17,2 bilhões de euros, ou cerca de 18% a mais.

 

Com relação às compras, o presidente da empresa ressaltou que, havendo uma oportunidade, esta poderá ser analisada, uma vez que a Mapfre dispõe de liquidez para isso. “A empresa poderá comprar”, salientou, mas teria de ser uma operação “de estratégia muito clara”. Contudo, assinalou que “o normal” seria que não se comprasse nada nos próximos dois anos, já que o objetivo é integrar as últimas aquisições, como no caso da Commerce. Contudo, Martínez ressaltou que a empresa está interessada em desenvolver seu negócio de seguro direto na China, e que está analisando várias alternativas com diferentes empresas, mas que será “praticamente impossível” começar do zero, já que isso acarretaria muito trabalho. Por outro lado, lembrou que não há planos de desenvolver esse tipo de atividades na Índia.

 

“A Mapfre está se convertendo, pouco a pouco, em uma grande multinacional do seguro. A empresa está presente em 43 países e é uma sociedade muito sólida”, observa Mauro Guillén. Nessa mesma linha de pensamento, Romera diz que a Mapfre é “uma seguradora magnífica, com um negócio perfeitamente definido, uma rede comercial ampla e profissional e com uma grande capacidade de fidelização de sua clientela”. Além disso, elogia o fato de que a empresa tem um “rating muito bom em vista da delicada situação por que passa o setor”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mapfre: seguradora espanhola, decidida a crescer, aposta nos EUA e em outros países." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 June, 2008]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mapfre-seguradora-espanhola-decidida-a-crescer-aposta-nos-eua-e-em-outros-paises/>

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"Mapfre: seguradora espanhola, decidida a crescer, aposta nos EUA e em outros países" Universia Knowledge@Wharton, [June 25, 2008].
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