Martin Boehm, reitor da Escola de Negócios IE: “Como você prepara alguém para um trabalho que ainda não existe?”

As escolas de negócios enfrentam uma revolução em seu modelo, tanto pela entrada de novos concorrentes quanto pela irrupção da tecnologia nas salas de aula. Há instituições mais flexíveis e centradas na formação de seus alunos em novas competências para profissionais que ainda nem sequer existem. Martin Boehm, reitor da Escola de Negócios IE, discorre sobre os desafios de um setor em que, apesar das mudanças, continua apostando no futuro do MBA, seu principal programa durante as últimas décadas.

Universia Knowledge@Wharton: Em que situação se encontram neste momento as escolas de negócios? Que desafios enfrentam?

Martin Boehm: O mundo em que vivemos se caracteriza por uma mudança constante. Experimentamos mais mudanças nos últimos vinte anos do que no último século. O mais provável é que esse ritmo de mudanças continue a aumentar. Nosso maior desafio como instituição educativa consiste em preparar nossos alunos para este mundo de mudanças constantes. A pergunta que se deve fazer de fato é a seguinte: como você prepara seus alunos para um trabalho que ainda não existe?

UK@W.: O que estão fazendo instituições como a Escola de Negócios IE para se adaptar aos novos desafios?

M.B.: As pesquisas mostram que o sucesso profissional depende sobretudo das habilidades do funcionário como, por exemplo, sua habilidade de trabalho em grupo, de comunicação ou habilidades de gestão e de projetos, e não tanto do seu conhecimento técnico. Em um mundo de mudanças constantes, a importância das habilidades deverá aumentar. Portanto, dedicamos uma grande parte dos nossos programas não só ao desenvolvimento do conhecimento em matérias distintas, mas também ajudamos nossos alunos a se desenvolver como profissionais e seres humanos.

UK@W.: Existe uma guerra entre as escolas mais prestigiosas para atrair os melhores profissionais? Que tipo de oferta esses alunos reivindicam?

M.B.: De modo semelhante a outras indústrias, tivemos um grande crescimento de ofertas no mercado. Atualmente, os alunos têm uma oferta muito mais ampla de escolas e de programas. Isso significa que temos de ter uma diversificação muito maior. As escolas e programas devem ser diferentes e oferecer um valor agregado para um segmento específico de candidatos. É isso exatamente o que estamos tentando conseguir. Em vez de competir por um grupo de estudantes, procuramos encontrar aqueles que se enquadram melhor no nosso modelo educacional e que possam agregar valor à nossa comunidade de estudantes e antigos alunos.

UK@W.: Para os níveis de direção e empresarial, que tipo de habilidades são mais demandadas em sua formação?

M.B.: Algumas habilidades cognitivas como a solução de problemas complexos e o pensamento crítico serão fundamentais no futuro. Assim como as habilidades interpessoais, a gestão de pessoal ou a negociação são fundamentais, especialmente no âmbito da empresa. Contudo, não devemos nos esquecer de habilidades interpessoais como a criatividade.

UK@W: Fala-se muito em novas habilidades, como trabalho em equipe ou pensamento crítico, mas é possível ensinar essas duas competências em sala de aula?

M.B.: O segredo na hora de desenvolver essas habilidades é a aprendizagem experimental. Habilidades desse tipo não podem ser ensinadas em um ambiente de ensino tradicional. Elas requerem, em vez disso, um treinamento intenso e a participação em workshops, ou a aprendizagem mediada pela tecnologia, para que os alunos possam desenvolver realmente essas habilidades.

UK@W: Qual o futuro do MBA? Continuará ser o programa mais importante na próxima década?

M.B.: Durante décadas ouvimos a profecia do fim do MBA. São profecias que nunca se cumpriram e a demanda pelo MBA hoje é maior do que nunca. Pessoalmente, creio que o MBA continuará a ser o programa preferido ainda por muitos anos.

UK@W: Qual o papel das ferramentas digitais na formação dos futuros diretores?

M.B.: A tecnologia é e continuará a ser essencial para a educação. Atualmente, nós a usamos de duas maneiras muito distintas. Por exemplo, a Escola de Negócios IE oferece há 15 anos programas mistos, programas que combinam classes online e presenciais. É claro que tivemos muitos avanços nesse segmento. Recentemente, lançamos o WOW Room, que é uma revolução completa no ensino online. O WOW Room é um novo passo na aposta da imersão tecnológica da nossa instituição de ensino. O #IEWOWRoom é uma revolução na experiência de aprendizagem graças à inteligência artificial, simulações em tempo real, análise de big data, robôs interativos, sistemas de reconhecimento emocional e presença de especialistas através de hologramas, entre outros recursos.

Por outro lado, a tecnologia é cada vez mais importante para melhorar a experiência educacional dos alunos, inclusive na aula tradicional. Através da tecnologia, podemos garantir que a aprendizagem se torne mais interativa, dinâmica e até mesmo divertida ─ por exemplo, através de jogos e simulações ─ e, como consequência disso, mais eficaz. A digitalização do setor educativo também nos permite nos beneficiarmos da chamada “analítica de aprendizagem” (learning analytics), que nos permite personalizar cada vez mais a aprendizagem.

UK@W: Um dos motivos pelos quais muitas pessoas fazem um MBA ou um EMBA se explica, além do conhecimento, pelo networking que proporcionam. Como combinar essa necessidade com a formação online? Chegaremos a ver um MBA completamente online nos primeiros postos dos rankings internacionais competindo com os programas físicos?

M.B. O IE é a escola de negócios número 1 do mundo no ranking do MBA Online do Financial Times, posição que ocupa há três anos. Acreditamos nessa combinação de aulas online e presenciais. Nos programas exclusivamente online, é mais difícil para estudantes e professores estabelecer uma relação. Isso faz com que o networking seja mais difícil. Contudo, constatamos que as conexões dos estudantes nos programas mistos são inclusive mais fortes do que as observadas nos programas puramente presenciais. A principal razão disso é que os alunos estão constantemente conectados a seus companheiros e através do programa compartilham a vida com eles.

UK@W: E o futuro dos MOOC [Cursos Online Abertos e Massivos] ? As escolas deverão seguir em direção a essa plataforma ou será ela apenas uma moda passageira?

M.B.: Os MOOC chegaram para ficar. A IE foi a primeira escola de negócios da Espanha a introduzir cursos no Coursera, plataforma líder no mundo de formação online aberta, com programas dos quais já participaram mais de 200.000 pessoas de mais de 150 países. Os MOOC não substituirão a educação tradicional das escolas de negócios; eles a complementarão. Nós, sem dúvida alguma, continuaremos a desenvolver os MOOC; contudo, ele jamais será um enfoque central do nosso negócio.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Martin Boehm, reitor da Escola de Negócios IE: “Como você prepara alguém para um trabalho que ainda não existe?”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [15 March, 2017]. Web. [20 September, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/martin-boehm-reitor-da-escola-de-negocios-ie-como-voce-prepara-alguem-para-um-trabalho-que-ainda-nao-existe/>

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Martin Boehm, reitor da Escola de Negócios IE: “Como você prepara alguém para um trabalho que ainda não existe?”. Universia Knowledge@Wharton (2017, March 15). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/martin-boehm-reitor-da-escola-de-negocios-ie-como-voce-prepara-alguem-para-um-trabalho-que-ainda-nao-existe/

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"Martin Boehm, reitor da Escola de Negócios IE: “Como você prepara alguém para um trabalho que ainda não existe?”" Universia Knowledge@Wharton, [March 15, 2017].
Accessed [September 20, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/martin-boehm-reitor-da-escola-de-negocios-ie-como-voce-prepara-alguem-para-um-trabalho-que-ainda-nao-existe/]


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