Mercados emergentes de private equity: exageros e oportunidades concretas

Dez anos atrás, o segmento de private equity simplesmente não existia na China. Hoje, Chang Sun, sócio-gerente da Warburg Pincus, de Hong Kong, sabe de histórias de empresas que levantaram "fundos bilionários" em questão de meses, e não em um ano, ou um ano e meio, conforme é de praxe.

E o fenômeno não ocorre apenas no escalão superior da população chinesa. Em um painel sobre private equity em recente Fórum Global de Ex-alunos da Wharton, em São Francisco, Sun contou sobre uma visita que fez ao barbeiro: "Meu barbeiro me disse que estava investindo em private equity e que esperava um retorno 20 vezes maior sobre o pequeno capital investido em uma empresa local de private equity pouco conhecida e com um histórico total de operações de cerca de 30 dias."

Histórias desse tipo indicam a enorme oportunidade — e o perigo em potencial — que existe atualmente no cenário global de private equity. Como as economias da Europa e dos EUA continuam a enfrentar dificuldades, o fluxo de riqueza está migrando para o leste, em direção à China e à Índia, e para o sul, em direção à América Latina. As empresas de private equity estão acompanhando de perto esse deslocamento adaptando seu modelo de negócios para enfrentar o crescimento mundial da concorrência e prosperar no novo clima de investimento pós-crise financeira.

Quando Frederick Goltz, sócio da KKR de São Francisco, entrou para a empresa em 1995, a companhia tinha 22 executivos, um fundo e dois escritórios. Hoje, há 14 escritórios nos quatro continentes e mais de 300 funcionários que administram produtos diversos distintos do negócio de private equity da empresa.

Outras empresas cresceram de forma semelhante. "A concorrência ficou mais acentuada. Fomos forçados a repensar nosso jeito de fazer negócios. Passamos de um modelo bastante oportunista para outro em que nos empenhamos de modo objetivo e proativo em conquistar um grupo de indústrias específicas no âmbito particular de um espaço geográfico", disse Goltz, que participou do painel juntamente com Sun, Josh Harris, sócio-fundador sênior da Apollo Management de Nova York, e Otavio Lopes, sócio da GP Investments de São Paulo, Brasil.

Repensar o modelo de negócios da empresa exigiu uma "mudança de mentalidade", acrescentou Goltz. "À medida que passamos de empresa de private equity de caráter mais geral para outra de caráter mais específico, constatamos que havia mais oportunidades do que era possível assimilar nos parâmetros estreitos de um negócio de private equity (PE). A menos que os astros se alinhem favorecendo uma mudança de controle, a realidade é que a transação de PE é um negócio com pouco histórico de sucesso. Fiz muita coisa que foi guardada numa pasta e ali ficou para sempre."

O veículo de criação de valor na indústria também mudou, diz Goltz. "Há 15 ou 20 anos, tudo consistia em tirar vantagem das oportunidades de arbitragem ou de participar de negócios alavancados. O modelo de hoje é muito diferente […] Não quero fazer pouco da engenharia financeira, mas a realidade é que — em vista da concorrência no setor — esse não pode ser mais o único mecanismo de criação de valor. Quem é líder no setor de PE se concentra sistematicamente na melhora contínua das empresas do seu portfólio."

Outro desafio consiste em compreender o ambiente "supervalorizado" dos investimentos de hoje em dia, disse Harris. "Todas as vezes que concordo com um investimento, penso na crise financeira e em tudo o que passamos, mas não foi esse o caso do mercado de títulos."

Por que os mercados estão em alta? "O Fed, a CE (Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia) e outros governos estão imprimindo dinheiro, portanto há uma grande quantidade de dinheiro no mercado", disse Harris. "O segmento de PE está supervalorizado. A montanha de dinheiro está chegando a todos esses mercados e o segredo consiste em você se diferenciar pelo know-how que tem e […] fazer negócios onde essa supervalorização […] não esteja realmente afetando seus interesses."

Essa "montanha de dinheiro" está mascarando os pontos fracos da recuperação econômica dos EUA e o risco inerente de muitos investimentos, assinala Harris. "Não acreditamos de forma alguma que vários dos negócios oriundos do nosso modelo tenham um retorno de 20%. Não estamos fazendo muito com o ritmo normal de PE que temos hoje. Em outras recessões, em crises financeiras passadas, o ambiente financeiro voltou ao que era e os preços de compra não acompanharam a retomada. Hoje vemos que, devido à montanha de dinheiro, os preços de compras se recobraram imediatamente ou nem sequer chegaram a cair, por isso esse é um ambiente traiçoeiro para a empresa de PE."

Harris disse que algumas das oportunidades de investimentos mais sólidas atualmente estão nos setores em dificuldades, ou em indústrias com um número significativo de empresas postas à venda à força. "Há muitas mudanças em processo nas grandes empresas de energia. As grandes companhias de siderurgia estão vendendo segmentos específicos do seu portfólio. Há uma grande oportunidade na liquidação de ativos dos bancos europeus. Muitos países da Europa acordaram para os problemas da Irlanda, por isso há grandes bancos vendendo de tudo — de empréstimos a dívidas de amortização duvidosa e até empresas."

Há também o que Harris classificou de "tremenda" oportunidade no mercado imobiliário americano, onde os preços continuam a cair. "Os bancos ainda não se deram conta das medidas que precisam tomar. Há muita dívida em poder deles, e à medida que forem aumentando suas receitas e, com isso, reduzindo o valor dessa dívida, ela desaparecerá e o mercado imobiliário voltará a operar sem alavancagem."

Ignorando os exageros

Todos os participantes do painel concordaram que as oportunidades não estão mais nos EUA e na Europa. "O setor de PE não está imune ao fluxo em direção ao leste e às oportunidades", ressaltou Harris. "Nossos investidores, as oportunidades, nossas equipes estão todos agora em lugares distantes, como o Oriente Médio, China e o resto do Pacífico. São esses lugares do mundo que estão crescendo. Não há crescimento na Europa e nos EUA."

Contudo, Harris observou que na maior parte dos mercados emergentes, "as grandes empresas globais estão diante de uma situação em que há muito capital atrás de poucas oportunidades de negócios". Ele acrescentou que "há um certo clima de bolha" em muitos desses países. "No Brasil, na China e na Índia, há muita gente sendo financiada, mas que não deveria estar sendo, e os perigos são inúmeros."

Na América Latina, os primeiros grandes fundos de PE começaram a emergir em meados dos anos 90, de acordo com Lopes, da GP Investments do Brasil. "Havia muito interesse pela Argentina e pelo Brasil […] Havia provavelmente cinco grandes empresas investindo na América Latina, além dos bancos de investimentos tradicionais. A maior parte das pessoas perdeu todo o dinheiro que tinha na crise econômica brasileira de 1999, o que quase levou ao desaparecimento da indústria no fim dos anos 90 e princípio dos anos 2000."

Contudo, à medida que a economia brasileira e outras economias latino-americanas começaram a crescer, a indústria voltou a respirar novamente. Os fundos estão se espalhando, e o volume de investimentos tem crescido. Contudo, Lopes disse que as atividades de sua empresa seguem o modelo bastante tradicional de private equity. "Compramos empresas tradicionais de porte razoável — em torno de US$ 100 milhões a US$ 300 milhões (em receitas anuais) — com problemas de má administração ou com os acionistas, ou então problemas de estrutura de capital. Em geral, não nos envolvemos com empresas bem administradas ou que estejam realmente bem, porque são sempre caras, e hoje mais do que nunca isso é verdade."

Lopes disse que o número de alvos de investimentos com esses requisitos cresceu de maneira significativa nos últimos cinco anos. Por um lado, muitas empresas latino-americanas são familiares e já estão na segunda ou terceira gerações, um momento em que os conflitos de sucessão e os feudos do escalão executivo são mais comuns. Por outro lado, as empresas brasileiras estão se tornando mais valiosas. "Provavelmente metade das empresas pelas quais temos interesse atualmente nos eram desconhecidas há cerca de cinco anos, porque eram pequenas demais", disse Lopes. "Hoje há empresas que há cinco anos tinham receitas de US$ 100 milhões, e hoje têm receitas entre US$ 300 e US$ 400 milhões", mas não dispõem de equipes de administração e de tecnologia que possam efetivamente lidar com essa expansão. "Esse é o nosso tipo preferido de empresa, em que há necessidade de muita mudança. Em relação aos alvos, nunca vi um cenário tão positivo quanto o de hoje."

Uma das razões pelas quais a empresa de Lopes não investe em empresas fortes, de modo geral, se deve ao fato de que isso o obrigaria a competir com multinacionais ávidas por um pedaço do mercado brasileiro em rápido desenvolvimento. "Para uma empresa internacional, o ambiente no Brasil oferece mais facilidades do que na Ásia", ressaltou Lopes. "É um país muito ocidental. Os clientes costumam ser parecidos com os do Ocidente. As leis trabalhistas são complicadas, porém semelhantes às existentes nos EUA."

Na China, um "paradigma de mudança"

As esperanças do barbeiro de Sun são um exemplo das expectativas elevadas em torno do mercado privado de private equity na China. De acordo com Sun, a indústria tinha poucas opções na China antes de 2003, "principalmente porque o setor privado não estava desenvolvido, e a maior parte das oportunidades disponíveis estava no setor das empresas estatais, cujo objetivo era dar emprego e não lucro".

As possibilidades de saída do negócio também eram limitadas porque eram muito poucas as empresas chinesas listadas em bolsa. "Na China, a história do capitalismo começou no final dos anos 70 e princípios dos anos 80", disse Sun. "Havia poucos gerentes disponíveis que pudessem se tornar gerentes de private equity."

Nos últimos oito anos, porém, o setor privado floresceu na China e criou uma nova classe de empreendedores que construíram fortunas em indústrias do segmento imobiliário e de tecnologia, por exemplo. Três décadas de investimentos estrangeiros na China resultaram em um conjunto de profissionais qualificados que compreende o modelo de private equity privado. As companhias chinesas têm procurado, cada vez mais, listar suas ações na Nasdaq e em outras bolsas internacionais.

Por fim, o PE se tornou mais aceito pela comunidade de negócios na China como alternativa viável de financiamento. "Antes de 2003, havia na China uma preferência por investimentos estratégicos na Alcoa, Coca-Cola e IBM, porque essas empresas proporcionam tecnologia e capital", disse Sun. "Hoje, as empresas chinesas apresentam uma tecnologia inovadora e querem mais ajuda do lado administrativo e menos do lado técnico."

O private equity na China atravessa hoje na China o que Sun chamou de "mudança de paradigma", em que as empresas chegam ao país e tentam levantar fundos em moeda local, o renminbi, bem como em dólar. "O governo chinês está se tornando mais confiante e já resiste ao capital estrangeiro. As empresas chinesas começam a dar preferência aos fundos domésticos em detrimento dos estrangeiros', disse Sun. "Os fundos estrangeiros estão sentindo a pressão, e a maior parte das empresas internacionais do setor procura criar fundos em moeda local."

O governo chinês adotou também políticas para desestimular a listagem de empresas chinesas no exterior. Foi criada, por exemplo, a Nasdaq chinesa como alternativa. "Empresas como a nossa costumavam levantar fundos no exterior e investir na China; em seguida, saíam do negócio abrindo o capital em Nova York, Cingapura e Hong Kong", lembra Sun. "Agora, tudo isso pode ser feito na China. É possível levantar capital no próprio país, investir em empresas chinesas e abrir o capital na China e em moeda local. Isso é mudança de paradigma, e todo o mundo tem de se adaptar."

É fundamental nesse ajuste manter a cabeça fria e não se deixar levar pela mentalidade da "corrida do ouro" que medrou no setor, observou Sun. "Estão todos atrás de retornos 50 vezes o valor investido […] mas essa era está chegando ao fim. É preciso entender que a China ainda é, essencialmente, uma economia planejada. Ainda é um país comunista tentando fazer as coisas do jeito capitalista."

Sun disse ainda que é importante que o investidor estrangeiro faça a devida due dilligence antes de fazer negócio na China. "As pessoas descem do avião, veem uma porção de sinais de riqueza e ficam animadas", disse. "O tempo que levamos para fazer um negócio é de seis a nove meses. Gastamos a maior parte do tempo na companhia dos empresários, saímos de férias com eles, participamos de reuniões de equipe. A empresa pode enganá-los com números, contudo, se você passar bastante tempo com os colegas de trabalho descobrirá o que eles pensam."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mercados emergentes de private equity: exageros e oportunidades concretas." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [22 July, 2011]. Web. [22 May, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mercados-emergentes-de-private-equity-exageros-e-oportunidades-concretas/>

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Mercados emergentes de private equity: exageros e oportunidades concretas. Universia Knowledge@Wharton (2011, July 22). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mercados-emergentes-de-private-equity-exageros-e-oportunidades-concretas/

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"Mercados emergentes de private equity: exageros e oportunidades concretas" Universia Knowledge@Wharton, [July 22, 2011].
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