Miami, capital econômica da América Latina?

A cidade de Miami se converteu em um enclave estratégico para as economias da América Latina. Os dados e as opiniões dos especialistas endossam uma afirmação que a cada ano que passa ganha mais força. As fontes diferem quanto às cifras exatas, contudo, de modo geral, calcula-se que entre 1.250 e 1.400 empresas multinacionais tenham escritórios centrais para a América Latina nessa cidade. De acordo com números divulgados pela Universidade de Miami, a cidade é sede de 121 representações bancárias, 25 escritórios de comércio exterior e 64 consulados.

São vários os setores econômicos com grande força nessa região dos EUA. O porto de Miami é grande. Estima-se que 40% das exportações dos EUA para a América Latina passem pelos portos da Flórida, inclusive pelo porto de Miami. De acordo com os últimos dados oficiais divulgados pelo condado de Miami (2012), dos 20 países com maior volume de intercâmbio comercial com a cidade, 15 eram da América Latina. O Brasil ocupava o primeiro lugar seguido da Colômbia. Os intercâmbios comerciais com a América do Sul chegaram este ano a US$ 41,177 bilhões (30,2 bilhões de euros pelo câmbio atual) e a US$ 23,33 bilhões (17,1 bilhões) com a América Central e o Caribe.

Jorge Salazar-Carrillo, professor titular do Departamento de Economia da Universidade Internacional da Flórida diz que, atualmente, o volume de intercâmbio de exportações e importações entre Miami e a América Latina chega a US$ 100 bilhões. “É como se o porto da cidade fosse um grande armazém de produtos sul-americanos, por isso é fundamental para as economias da região”, diz. De acordo com Salazar-Carrillo, há várias razões pelas quais o porto de Miami ganhou tanta importância. “Trata-se do maior porto próximo ao Canal do Panamá. Com sua última reforma, ele está preparado para acolher navios grandes e modernos de transporte de mercadorias. O porto tem excelentes conexões férreas com outras grandes cidades americanas, como Atlanta e Chicago. É mais competitivo do que os portos da Califórnia, com custos muito mais baixos para as transportadoras devido, entre outras coisas, a custos salariais menores. De fato, Miami também começa a atrair as exportações procedentes da Ásia, razão pela qual a rota comercial e de distribuição do leste dos EUA está ganhando força”, explica.

Miami é também o lar de uma das maiores e mais vibrantes indústrias de mídia e de entretenimento em espanhol. Ali está sediada a Telemundo e a Univision, entre outras empresas de mídia. Além disso, a gigante mexicana Televisa tem ali um de seus principais escritórios internacionais.

Vale lembrar ainda que as praias da região de Miami, sua vida noturna e seus centros comerciais fazem com que a cidade seja um destino atraente para os turistas da América Latina. Isso também tem permitido ao setor de moradia experimentar um forte crescimento, recuperando-se depois da crise que estourou nos EUA em 2007. O relatório Candy GPS Report, da Savills, Deutsche Asset e Candy & Candy, informa que Miami é atualmente um dos destinos internacionais mais atraentes para investimentos em imóveis e acrescenta que se trata de um hot spot que vem crescendo e que tem o potencial de elevar fortemente os preços nos próximos meses. A consultoria de imóveis Condo Vultures assinala que a indústria residencial no sul da Flórida passa por uma febre de construção com mais de 80 planos de novos projetos anunciados, sendo que as construtoras latino-americanas estão envolvidas em praticamente 1/3 deles. A Universidade Internacional da Flórida acredita que os investidores da América Latina sejam responsáveis por 25% do total de compras de imóveis realizadas em Miami atualmente.

A importância do setor financeiro

Por trás de tudo isso está o setor financeiro, que cresce com muita força na cidade. “Miami se tornou o centro de intercâmbio de ideias, finanças, comunicações, capacitação, logística pessoal e de entretenimento da América Latina. Além disso, é o centro de decisões para mais de 1.300 multinacionais com sede regional na cidade”, observa Joseph Ganitsky, professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade de Miami.

“Centenas de bancos do mundo todo têm suas operações de captação e de gestão de riqueza aqui. É o segundo centro financeiro mais importante dos EUA depois de Nova York, também é o que cresce mais rapidamente”, observa Ganitsky. “Por isso mesmo, os bancos mais importantes da América Latina, ou que operam nessa região, também têm escritórios aqui. Eles são importantes porque captam fundos obtidos formalmente na região, bem como os procedentes da fuga de capital, e nesse processo estabelecem relações com seus clientes que se tornam cada dia mais importantes, uma vez que são atendidos por executivos com quem conversam em seu idioma e entendem muito bem sua cultura e principais preocupações”, acrescenta. Além disso, Ganitsky salienta que “em Miami, são atendidos muitos empresários da América Latina que decidiram ter na cidade uma segunda casa (de férias ou para os filhos que estudam no país)”.

Os bancos regulados pelo estado da Flórida situados ao sul do estado teriam mais de US$ 14 bilhões (10,3 bilhões de euros pelo câmbio atual) em depósitos de cidadãos estrangeiros, de acordo com a última pesquisa realizada pelo Escritório de Regulação Financeira da Flórida, em 2011. Esse número corresponde a 41% de todos os depósitos desses bancos. Isso não inclui os depósitos no exterior em bancos controlados pelo governo federal, que são substancialmente maiores do que esses US$ 14 bilhões, uma vez que se trata de bancos maiores e que, não raro, têm agências no exterior.

Brian Gendreau, professor do departamento de finanças, seguros e bens imóveis da Universidade da Flórida, aponta duas razões principais para o grande volume de dinheiro latino-americano captado pelos bancos com sede em Miami. Em primeiro lugar, Gendreau nota que a cidade conta com um grande contingente de população que fala espanhol, “e, como consequência disso, essas pessoas podem facilmente contratar para seus escritórios profissionais que dominam esse idioma. Assim, para os latino-americanos que vêm ao país fazer negócios ou simplesmente de férias, a comunicação se torna muito mais fácil”.

Os últimos dados oficiais correspondentes ao censo de 2011 mostram que 64,5% da população do condado de Miami é latina (em números absolutos são 1,65 milhões de pessoas). Desse total, 35% é originária de Cuba; 3,7% de Porto Rico e 2,4% do México. Os que têm o espanhol como primeiro idioma totalizam 69,4% dos habitantes. Já o inglês é a primeira língua de 25,45% da população. Além disso, Miami tem um dos maiores percentuais da população americana cujos moradores falam outra idioma em casa diferente do inglês: 74,54%.

Em segundo lugar, Gendreau destaca a regulação como outro dos fatores mais importantes para a captação de fundos procedentes da América Latina. “Os EUA proporcionam um entorno normativo estável e oferecem proteção para os depositantes. Também oferece a possibilidade de segredo bancário em alto grau. De fato, o país ocupa o quinto lugar no Índice de Segredo Financeiro (Financial Secrecy Index) elaborado pela Tax Justice Network. Esses são dois pontos importantes que fizeram com que Miami se tornasse o destino de um grande volume de capital oriundo da América Latina.”

De acordo com números fornecidos pela Universidade de Miami, os países mais presentes na economia da cidade, levando-se em conta a nacionalidade, são Cuba, Colômbia, Venezuela, Brasil, México e Argentina. Os setores econômicos mais fortes com origem na América Latina são o financeiro, comércio internacional, construção e serviços de transporte (tanto aéreo quanto marítimo) e afins.

Essa tendência persistirá?

Com relação aos próximos anos, os especialistas acreditam que a importância de Miami para as economias da América Latina será cada vez maior. Surgirão, inclusive, novos protagonistas que atualmente começam a emergir com força na cidade, como as novas tecnologias ou tecnologias da informação.

Para Joseph Ganitsky, “a relação de Miami com as economias latinas continuará crescendo em todos os segmentos já presentes, e inclusive terá um papel mais preponderante no desenvolvimento de softwares e novas tecnologias, tanto da área de informática quanto de outra ordem, na medida em que se converter em vínculo vital e ponte de intercâmbio de conhecimentos e de informação entre o mundo desenvolvido e as habilidades e necessidades crescentes do mercado em desenvolvimento na América Latina”.

Ganitsky destaca também a imigração. “Miami é uma cidade de imigrantes. Cada qual com uma cultura. Essa é uma de suas grandes vantagens. Contudo, é também uma de suas limitações, porque isso pode ser um bom freio para a cidade, na medida em que ainda não se acham fortalecidas as instituições e normas comuns decorrentes da mútua confiança para a realização e conquista de objetivos comuns. Portanto, ainda não há uma cultura comum que sirva de fundamento para a formação de empresas e acumulação de capital que fique na cidade para a construção de novos projetos. Infelizmente, boa parte do capital presente ali segue outros rumos, e isso continuará a acontecer enquanto não houver uma comunidade comprometida com seu desenvolvimento, tanto na esfera comunitária quanto no que se refere à formação de novas empresas”, adverte.

Para Salazar-Carrillo, embora as taxas de crescimento de troca de mercadorias entre Miami e os países latinos tenha recuado nos últimos anos devido à crise econômica mundial, o porto da cidade continuará ganhando importância comercial no plano internacional, tirando o protagonismo dos portos da costa oeste dos EUA.

Brian Gendreau, por sua vez, prefere falar do futuro do setor mais importante para as relações da cidade com seus vizinhos do sul do continente. Ele cita as mudanças regulatórias financeiras aprovadas no ano passado nos EUA, e que exigem agora que os investidores estrangeiros declarem os juros obtidos em seu mercado, uma informação que poderia ser compartilhada com outros países. “Isso fez com que Miami deixasse de ser interessante como destino de capitais em fuga da América Latina em comparação com os centros financeiros extraterritoriais como o Panamá e as Ilhas Cayman. Contudo, na minha opinião, é pouco provável que isso produza sérias dificuldades para a concorrência de modo geral em Miami como centro financeiro internacional, já que outros centros financeiros (sobretudo a Suíça) estão sob pressão das autoridades fiscais de outros países”, diz.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Miami, capital econômica da América Latina?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 June, 2014]. Web. [21 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/miami-capital-economica-da-america-latina/>

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