A Microsoft conseguirá virar o jogo com a aquisição da Mojang?

O que há por trás da aquisição, por US$ 2,5 bilhões pela Microsoft, da Mojang, a produtora de videogames que criou o Minecraft, um ambiente de construção aberto? Quando a compra foi anunciada em 15 de setembro, Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse que o negócio daria um impulso nos esforços da empresa no segmento móvel, além de fortalecer sua posição no setor de videogames. “Os jogos são uma atividade muito importante porque transpõem os aparelhos, de PCs a console, tablets e outros aparelhos móveis, sendo que, todo ano, gastam-se bilhões de horas neles”, declarou Nadella.  Com mais de 100 milhões de downloads do jogo no PC desde que foi lançado m 2009, e mais os dois bilhões de horas jogadas no sistema de jogos Xbox 360 da Microsoft, Nadella disse que o Minecraft “oferece inúmeras oportunidades”, salientando ainda que se trata de “mais do que uma franquia fantástica — é uma plataforma aberta ao mundo”.

Em entrevista concedida ao programa da Knowledge@Wharton na Rádio Wharton Business da SiriusXM, canal 111, Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, disse que as origens do Minecraft o distinguem de outros jogos de sucesso. “O Minecraft é diferente. Ele não é produto de empresas de jogos como a Electronic Arts, King ou Zynga”, observou Werbach. “O Minecraft foi criado por uma empresa pequena e por um desenvolvedor que a construiu juntamente com alguns amigos. Uma razão pela qual uma grande empresa não criou o Minecraft se deve ao fato de que nenhuma delas imaginou que uma coisa tão simples pudesse durar tanto tempo. O Minecraft não é linear. É fácil de entender, mas é sofisticado.” (Ouça a entrevista completa usando o player no topo da página).

Sob vários aspectos, o principal desafio da Microsoft consiste em não “estragar” o Minecraft. Depois que a notícia da venda se tornou pública, vários fãs mais fervorosos lamentaram a notícia na Internet, preocupados com a possibilidade de que a Microsoft mexa indevidamente no jogo. O sucesso da aquisição da Mojang depende das perspectivas de longo prazo da plataforma: o Minecraft estaria próximo do fim de sua trajetória de crescimento? Ou será que pode vir a se tornar uma franquia semelhante ao Lego, cultivando as habilidades de aprendizado, engenharia e programação de crianças e adultos por vários anos?

“Se você analisar o ciclo de vida do produto e onde o Minecraft se encaixa, não fica claro se as crianças migrarão para uma coisa diferente”, diz Kevin Werbach, professor emérito de administração da Wharton. “O Minecraft pode durar bastante, mas lá no fundo acho que é um videogame a meio caminho do fim do seu ciclo de vida.”

Quando a Microsoft anunciou a aquisição, a Mojang detalhou de que maneira os cofundadores Markus “Notch” Persson, Carl Manneh e Jakob Porsér sairiam da empresa no momento em que o negócio estivesse concluído. A Microsoft colocará outra pessoa para substituir o CEO Manneh e preservará os demais desenvolvedores. Persson disse que a venda da Mojang foi algo que se deveu mais a uma questão de bom senso do que de dinheiro: o negócio do Minecraft havia crescido muito além do jogo que ele desenvolvera e havia criado vida própria.

“Tornei-me um símbolo”, disse Persson em um post de blog muito pessoal. “Não quero ser um símbolo, alguém responsável por uma coisa grandiosa demais que não entendo, na qual não desejo trabalhar e que está sempre me requerendo. Não sou empreendedor. Não sou CEO. Sou um programador de computador nerd que gosta de dar palpite no Twitter. Se, por caso, criei alguma coisa que parece ter ‘pegado’, é bem provável que eu a abandone rapidamente.”

Um encaixe estratégico

Do ponto de vista da estratégia, a aquisição da Mojang permite a Microsoft reforçar o conteúdo do Xbox e sua divisão de desenvolvedores de jogos. O Minecraft também faz sucesso nas plataformas móveis múltiplas, entre elas a iOS da Apple e o Android. A estratégia de Nadella para a empresa está voltada para a computação em nuvem, plataformas móveis e para a produtividade. A Microsoft está cada vez mais interessada em vender seu software através de assinatura, mesmo que não seja usado no sistema operacional Windows da empresa.

O Minecraft, principal jogo do Xbox e líder do ranking de aplicativos pagos em iOS e Android nos EUA, poderá juntar-se ao Microsoft Office na condição de peso pesado de multiplataforma. Além disso, a aquisição da Mojang garante que o Minecraft terá uma versão para o sistema operacional móvel do Windows Phone.

Além disso, com a aquisição do Minecraft a Microsoft tem a chance de se tornar uma empresa relevante para uma geração mais jovem que, por enquanto, deu pouca atenção aos produtos da empresa além do Xbox. “Para a Microsoft, a faixa etária dos usuários do Minecraft teria sido um fator muito importante”, disse Kartik Hosanagar , professor de gestão de operações e informações da Wharton. “O Minecraft é muito requisitado por crianças com menos de 15 anos. Para a Microsoft, essa é uma maneira formidável de permanecer relevante para essa faixa etária e até mesmo para apresentar a muitos deles o Xbox.”

Werbach disse que a faixa etária ideal do Minecraft são as crianças de oito a 15 anos. “Daqui a cinco anos, essa faixa ideal abrigará pessoas totalmente distintas”, ressaltou Werbach durante a entrevista na SiriusXM. “Não há razão para imaginar que não haverá interesse pelo Minecraft no futuro, e quando esses clientes forem mais velhos, eles migrarão para o Halo, Surface [tablet] e para o Microsoft Word.”

Hrebiniak, porém, vê com ceticismo esse potencial de venda cruzada da base de clientes do Minecraft. “Se o alvo da Microsoft é a base de clientes pré-adolescentes, nada indica que, ao crescer, eles busquem outros produtos.”

Nós culturais

As questões culturais que toldam o negócio foram ressaltadas tão logo ele foi anunciado. A Mojang emitiu uma declaração segundo a qual os fundadores deixariam a empresa, mas ressaltava que “há apenas alguns compradores em potencial com os recursos necessários para que o Minecraft cresça na escala que merece”. A liderança da Mojang declarou também que vem trabalhando em parceria próxima com a Microsoft desde 2012 e que ficou impressionada com “dedicação persistente ao nosso jogo e ao seu desenvolvimento”.

Mas será que a Microsoft pode expandir o jogo sem ser acusada de arruinar o que o torna tão especial? “A Microsoft mostrou no passado que se envolve quando adquire uma empresa. Está no DNA dela interferir”, diz Hrebiniak.

Werbach acrescentou que a Microsoft mudará, inevitavelmente, o Minecraft, mas ela o fará de modo suave. “A história da Mojang está associada à ideia de esnobar [a concorrência] e de permanecer fiel à sua visão. É difícil para as grandes empresas agir desse modo.” Por exemplo, se a Microsoft tornasse o Minecraft um produto exclusivo do Xbox, “ela poria fim à sua credibilidade” junto aos fãs do jogo. “A Microsoft manterá o Minecraft em outras plataformas”, prevê Werbach. “Lembre-se, a Microsoft está tentando ser ‘descolada’ aqui porque quer ganhar a simpatia de crianças que logo estarão na faculdade e, depois, no mercado de trabalho.”

James McQuivey, analista da Forrester, disse em uma nota que a Microsoft terá muita dificuldade em permitir que “os usuários do Minecraft continuem a fazer dele o que bem entendem”. Ele disse que o “o Minecraft é o que é porque seus usuários são livres para mexer nele como quiserem. Será que a Microsoft permitirá que as pessoas rodem livremente o Minecraft tal como fizeram e continuam a fazer seus fundadores? A resposta certa, para preservar o valor da propriedade, é sim”, explicou McQuivey. “Contudo, não é assim que as empresas costumam se comportar, seja a Microsoft ou qualquer outra.”

A dificuldade de integração do Minecraft pela Microsoft se deve, em parte, ao modo como a empresa está organizada, observa Hosanagar. Como ela tem muitas unidades de software e hardware, o negócio do Minecraft mostra claramente como uma multiplataforma pode causar conflitos internos, diz Hosanagar, acrescentando que a Microsoft tem interesse em vender os celulares da Nokia com o sistema operacional do Windows Phone, mas o Office se beneficia de estar presente no Android e no iOS. Portanto, um produto vai bem à custa de outro.

“De igual modo, o Minecraft está disponível em aparelhos que concorrem com os da Microsoft: no PlayStation da Sony que concorre com o Xbox, bem como no Android e iOS, ambos concorrentes do Windows Phone”, diz McQuivey. “Portanto, isso coloca, basicamente, duas divisões uma contra a outra.”

O futuro do Minecraft

Embora a aquisição do Minecraft comporte riscos, os US$ 2,5 bilhões pagos por ele foram uma quantia razoável em relação a outras compras. A Microsoft pagou US$ 9,5 bilhões pela Nokia. A receita da Mojang foi de aproximadamente US$ 290 milhões ao ano, sendo que o Minecraft gerou mais de US$ 100 milhões em lucros, de acordo com notícias veiculadas na imprensa. A Microsoft disse que a compra seria neutra em comparação com os lucros da empresa no ano fiscal de 2015.

“O Minecraft é um produto de sucesso, mas é assustador que esteja em alta há tanto tempo”, diz Hrebiniak. “Será que vai aparecer outra coisa?” Werbach observa que há várias imitações do Minecraft, e que a Microsoft terá de defender a franquia, além de acrescentar novos recursos ao jogo.

Contudo, para Werbach o Minecraft é mais do que um simples jogo — é também uma comunidade e uma rede social. Ele disse que muitas escolas estão usando a plataforma para ensinar conceitos que vão da arquitetura à programação. Os usuários do Minecraft criaram vários vídeos instrutivos e conseguiram inúmeros seguidores online.

Se tudo der certo, o DNA do Minecraft se encaixará em todas as unidades da Microsoft, disse Werbach. Em dez anos, é possível que o Minecraft seja usado em empresas para treinamento e educação. Afinal de contas, o Second Life, um mundo virtual online que foi perdendo popularidade depois de um breve surto de empolgação, foi visto inicialmente como uma ferramenta colaborativa para as empresas. “O Minecraft poderá ser um novo tipo de plataforma de ambiente virtual”, disse Werbach. “O primeiro passo a ser dado pela Microsoft consiste em descobrir um jeito de não matá-lo e, em seguida,  imaginar uma maneira de fazê-lo crescer, se desenvolver e avançar.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A Microsoft conseguirá virar o jogo com a aquisição da Mojang?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 October, 2014]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/microsoft-conseguira-virar-o-jogo-com-aquisicao-da-mojang/>

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A Microsoft conseguirá virar o jogo com a aquisição da Mojang?. Universia Knowledge@Wharton (2014, October 14). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/microsoft-conseguira-virar-o-jogo-com-aquisicao-da-mojang/

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"A Microsoft conseguirá virar o jogo com a aquisição da Mojang?" Universia Knowledge@Wharton, [October 14, 2014].
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