“Modelos mentais” imperfeitos resultam em preparo deficiente para desastres

Os furacões Isaac e Sandy avançavam sobre as costas sul e leste dos EUA, respectivamente, no verão e no outono de 2012. Robert Meyer, professor de marketing da Wharton, e sua equipe de pesquisas, fizeram um levantamento pelo telefone para saber das pessoas na área afetada pelas tempestades quais eram, na sua opinião, as maiores ameaças que teriam de enfrentar, e como estavam se preparando para elas.

Através desse estudos, e de vários outros, Meyer — que é também diretor adjunto do Centro de Gestão de Riscos e de Processos de Decisão da Wharton —, juntamente com alguns colegas, constataram que a maior parte das pessoas não compreendem como reagir às ameaças que enfrentam decorrentes de desastres naturais e de outros tipos e, com frequência, os “modelos mentais” precários de que se valem resultam em um preparo insuficiente. As descobertas foram apresentadas no estudo “A dinâmica da percepção de risco em casos de furacões: evidências em tempo real da temporada de furacões no Atlântico em 2012” [The Dynamics of Hurricane Risk Perception: Real Time Evidence from the 2012 Atlantic Hurricane Season], de Meyer, Jay Baker, da Universidade Estadual da Flórida, Kenneth Broad, da Universidade de Miami e Ben Orlove, da Universidade de Colúmbia, a ser publicado no Bulletin of the American Meteorological Association; e também “Simulação dinâmica como método para a compreensão da resposta de risco a furacões: insights de um laboratório de visualização de tempestades” [Dynamic Simulation as an Approach to Understanding Hurricane Risk Response: Insights from the Stormview Lab], de Meyer, Broad, Orlove e Nada Petrovic da Universidade de Colúmbia, publicado em Risk Analysis, e ainda o artigo de Meyer, “Por que não conseguimos aprender com os desastres” [Why We Fail to Learn from Disasters], publicado no livro “O economista irracional: vencendo as decisões irracionais em um mundo perigoso” [The Irrational Economist: Overcoming Irrational Decisions in a Dangerous World].

Em entrevista concedida a Knowledge@Wharton, Meyer discute suas descobertas e oferece diversas sugestões para mudar a maneira pela qual as autoridades e os cidadãos pensam em riscos desse tipo e reagem a eles. Ele também identifica o próximo grande desafio com que terá de se defrontar o mundo da gestão de risco: a mudança climática.

Segue abaixo a versão editada da conversa da Knowledge@Wharton com Meyer.

Três tendências que influem nos preparativos para desastres:

Boa parte do trabalho que faço, e muito do que fazemos no Centro de Gestão de Risco e de Processos de Decisão da Wharton, diz respeito ao modo pelo qual as pessoas tomam decisões quando se preparam para situações de perigo — seja um terremoto ou um furacão ou, por exemplo, um possível ataque terrorista etc. Muito do que já fiz tem como interesse primordial descobrir por que razão as pessoas, via de regra, cometem erros quando fazem esses preparativos.

Muitas vezes, quando os desastres ocorrem, muita gente costuma dizer “Bem, se pelo menos aquelas pessoas tivessem feito isto ou aquilo”, ou “Por que as pessoas deixam seus carros em regiões de alagamento se foram avisadas tantas vezes que haveria uma enchente?” Basicamente, o que descobrimos ao longo de vários anos através da combinação de inúmeras pesquisas de campo e trabalhando com pessoas em laboratórios é que, de fato, os indivíduos são suscetíveis a três grandes tendências. Uma delas, em termos bem simples, é a tendência de subestimar o futuro ou se preocupar pouco com ele ou com suas consequências. Em segundo lugar, as pessoas esquecem depressa demais o passado, ou se lembram muito lentamente dos eventos negativos que ocorreram anteriormente. Por fim, em caso de dúvida, as pessoas muitas vezes seguem o conselho de outras que, para piorar ainda mais as coisas, também estão propensas a cometer os mesmos tipos de erros que elas.

Sobre as causas (e consequências) de “modelos mentais ruins”:

Estamos muito interessados em estudar por que as pessoas cometem esses erros. Por que não analisam o futuro com a seriedade que ele requer? Por que se esquecem tão depressa do passado? E por que procuram outras pessoas quando têm dúvidas? A coisa mais importante que descobrimos é que, não raro, diante de inúmeros perigos, as pessoas têm péssimos modelos mentais de como as coisas deveriam acontecer.

Por exemplo, na iminência de um furacão, o indivíduo tem de tomar uma decisão sobre a maneira como pretende se preparar para: quantas pilhas comprar, se deve ou não evacuar o local onde se encontra. É preciso reconstruir mentalmente como esse vento irá se desenrolar. Por exemplo: a que altura a água poderá chegar? Quando o vento vier, que força terá? O que ele poderá fazer à minha casa? Em seguida, é preciso simular mentalmente como tudo irá se passar — e aí, com base em tudo isso, tomar uma decisão em relação aos preparativos certos como, por exemplo, calcular quantos dias poderá faltar energia elétrica e se preparar para isso.

As pessoas, em geral, têm modelos mentais muito ruins, por isso elas os processam de forma muito precária. O que elas acham que vai acontecer é, com frequência, muito diferente do que acontece de fato. Uma das coisas que descobrimos com as pesquisas que fizemos sobre indivíduos que foram afetados pelo furacão Sandy foi que quando ele se aproximava da Costa Leste, as pessoas subestimaram em grande medida uma série de coisas — uma delas dizia respeito à duração dos efeitos posteriores da tempestade.

Muitas vezes, na cobertura que a mídia faz desses eventos, ouvem-se coisas como “Vem vindo aí um furacão esta noite”, e a partir disso as pessoas concluem que têm de dar um jeito de atravessar incólumes a noite. A imagem que lhes vêm à mente é de uma ventania por todos os lados, o teto arremessado longe etc. No caso do furacão Sandy, não foi isso o que estava previsto para a maior parte das pessoas afetadas. O que estava previsto, principalmente para quem estava mais no interior, era uma possível falta de energia elétrica durante duas semanas. E, nesse caso em especial, as pessoas haviam se preparado para suportar uma noite — tinham bastante cerveja, pizza e lanches para aguentar a noite de tempestade, mas não estavam preparadas para as duas semanas que lhes sobreviriam.

Antes da tempestade, perguntamos às pessoas: “Vocês têm planos de onde ir se tiverem de evacuar o local onde estão?” Constatamos que somente 23% das pessoas situadas nas proximidades imediatas da costa — gente que seria muito afetada pelo Sandy — havia feito planos sobre o que fazer se tivessem de evacuar suas casas.

Sobre os perigos da água x vento:

Uma das conclusões a que chegamos graças aos estudos feitos com o Sandy, por exemplo, mostrou como eram ruins os resultados dos modelos mentais das pessoas. Os indivíduos que moravam nas proximidades da costa realmente subestimaram os impactos com que teriam de se preocupar.

Elas deveriam ter se preocupado com inundações, ou com prejuízos causados pela água, e não pelo vento […] Em certo sentido, inundação é o que mata as pessoas nos furacões, e não o vento. As enchentes são mais nocivas. Contudo, quando conversávamos com as pessoas [durante o Sandy] que viviam a uma quadra da água e lhes perguntávamos “O que mais preocupa vocês?”, elas diziam: “O vento, estamos preocupados com o vento” — quando, na verdade, a água era a coisa com que eles realmente tinham de se preocupar. E, de fato, a maior parte das mortes na cidade de Nova York [em decorrência dos Sandy] foi por afogamento devido às inundações. Cerca de 250.000 carros foram danificados por causa das enchentes. Eram todos prejuízos que poderiam ter sido evitados; bastava as pessoas recuarem um pouco mais para o interior e colocar os carros em um terreno mais elevado.

No entanto, se você acha que tem de se preocupar com o vento, a coisa sensata a fazer é ficar onde está. Existe um ditado sempre lembrado quando nos preparamos para um furacão que diz: fuja da água e esconda-se do vento. A ideia é que o indivíduo procure abrigo onde está em caso de tempestade de vento. Portanto, o que as pessoas estavam fazendo estava mais ou menos certo — se você acha que é com o vento que tem de se preocupar, não deve mesmo sair de onde está. Deve ficar em casa, não deve ir à parte alguma e deixar o carro onde está. Mas o que tinham de enfrentar era uma grande enchente, ou um desastre causado pela água , mas elas estavam totalmente preparadas para o evento errado. Deviam ter saído de onde estavam, mas ficaram lá.

Ajudando as pessoas a se prepararem melhor para os riscos:

O problema básico consiste em saber o que fazer para que as pessoas tenham um  modelo mental melhor, ou para que possam simular melhor mentalmente o que vai acontecer a elas, de modo que possam juntar o que lhes sobrevirá com o modo pelo qual vão se preparar para o que vier. No momento, o verdadeiro problema é que as pessoas não têm informações específicas sobre o que vai acontecer a elas em sua casa.

Quando o furacão se aproxima, as pessoas tendem a se sentar e assistir à televisão — até mesmo quem normalmente passa muito tempo na Internet e se informa pelo Twitter e pelo Facebook. Elas assistem ao Canal do Tempo, à CNN, e a informação que obtêm é uma visão muito monolítica do que vai acontecer durante a tempestade. Em geral, se você vive no litoral de New Jersey, verá um repórter transmitindo do Central Park ou do Battery Park de Nova York, portanto não terá uma percepção clara do que poderá lhe sobrevir pessoalmente.

Um dos desafios nesses casos consiste em descobrir meios que permitam comunicar às pessoas em locais específicos a experiência real pela qual vão passar — sei que o Centro Nacional de Furacões […] está tentando dar conta disso. Outro desafio, que é também realmente difícil de vencer, consiste em saber como fazer com que as pessoas entendam o problema que a água representa. Sabemos que as pessoas não costumam comprar seguro contra enchente — inclusive pessoas que moram em regiões sujeitas a inundações. A Agência de Gestão de Emergências Federais (FEMA, na sigla em inglês) tem muita dificuldade em convencer as pessoas a fazer seguro contra enchente, porque é algo que elas têm dificuldade em imaginar. Se você vive há muito tempo em um lugar e nunca viu a água subir, a ideia que sua casa possa ficar embaixo da água um dia é extremamente difícil de imaginar.

Normalmente, quando falamos sobre furacões, a ideia que temos é de uma tempestade de vento e, de fato, o Centro Nacional de Furacões classifica o grau de severidade das tempestades com base em categorias, e essas categorias estão atreladas à velocidade do vento. Portanto, quando as pessoas pensam em furacão, elas naturalmente pensam que furacão é sinônimo de vento, e não pensam muito de fato sobre os efeitos da água. Uma das maiores dificuldades nesses casos é saber como comunicar esse fato às pessoas e como corrigir esse problema. Por exemplo, muitas previsões dizem coisas do tipo: “Quando vier a tempestade, a maré poderá chegar a 10 pés [3 metros].” Mas, temos então de perguntar: quantas pessoas sabem a que altura acima do mar sua casa está? Ninguém sabe isso. É difícil fazer a ligação entre essa informação e o impacto pessoal sobre o indivíduo. É preciso […] que as previsões deixem de explorar o nervosismo associado a possíveis prejuízos causados pelo vento e passem a priorizar realmente muito mais o prejuízo pessoal que pode sobrevir devido às inundações.

Quando as pessoas não sabem o que fazer em uma determinada situação e não sabem que atitude tomar, elas, com frequência, caem no que os psicólogos chamam de “tendências padrões” — isto é, se você não sabe o que fazer, faça o que for mais fácil, ou faça o que você está acostumado a fazer. No contexto dos preparativos, a tendência padrão é não fazer coisa alguma. É ficar em casa, não comprar suprimentos a mais e coisas parecidas.

Muitas vezes, as pessoas se preocupam com o que pode acontecer se tiverem de tomar precauções e nada acontecer. Se as autoridades disserem que elas têm de se abastecer de água, e que devem comprar cinco caixas de água para duas semanas, as pessoas começam a pensar: “Bem, quanto tempo vou ficar sem água? Eles disseram duas semanas, mas podem ser dois dias, e eu me lembro de uma ocasião no passado em que a tempestade veio e nada aconteceu.” E depois de um tempo, o indivíduo simplesmente não consegue tomar uma decisão, e acaba não fazendo coisa alguma. Portanto, outra possibilidade é pensar em maneiras de fazer preparativos ou tomar precauções que sejam a ação padrão, e não a ação que requeira esforço.

Por exemplo, um dos meus colegas do Centro de Risco defende que uma maneira de garantir que as pessoas renovem seu seguro contra enchente consiste em fazer com que uma pessoa que compra uma casa em uma área sujeita a enchentes incorpore o seguro à hipoteca. Desse modo, todo ano, a pessoa o renova naturalmente — não é uma decisão que o indivíduo tenha de tomar conscientemente. Eu, particularmente, tive a seguinte ideia: como parte dos impostos sobre propriedade num ano específico, o indivíduo pagaria automaticamente por um kit de proteção contra furacões. Em áreas sujeitas a furacões, a comunidade disponibilizaria um kit de proteção para as pessoas, cujo dinheiro seria devolvido pela comunidade caso elas não quisessem o kit. Portanto, seria preciso raciocinar conscientemente — isto é, em vez de pensar se deve tomar alguma medida, que é comportamento padrão, o indivíduo se veria diante da decisão de não tomar medida alguma, ou então tomar. Creio que as pessoas estão mais inclinadas à segurança em circunstâncias desse tipo.

Por que os “modelos mentais” não falham apenas durante os furacões

Embora boa parte do nosso trabalho tenda a se concentrar em preparativos contra furacões, muitas das tendências que observamos no contexto dos motivos pelos quais as pessoas cometem erros quando se preparam para enfrentar furacões podem ser efetivamente observados em muitos outros contextos.

É o caso, por exemplo, da proteção contra o terrorismo. Há uma imagem muito forte que remete aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Nessa imagem famosa, Mohamed Atta passa pela segurança do aeroporto, e vê-se um atendente no balcão que simplesmente deixa esse indivíduo passar. Essa é uma cena emblemática, porque simboliza os problemas reais de tentar se preparar para eventos que acontecem com muito pouca frequência, mas que, quando acontecem, têm consequências drásticas incríveis: a maior parte das vezes, há um reforço para que não façamos coisa alguma. O número de vezes que tomamos alguma medida que exigiu de nós um grande esforço para nos proteger de alguma coisa e o  número de vezes com que topamos efetivamente com um desastre é extremamente escasso. Por exemplo, uma pessoa que trabalha na revista nos aeroportos, com que frequência ela se depara realmente com um terrorista? Isso quase nunca acontece.

Aprendemos pelo método de tentativa e erro. Quando você faz um esforço a mais e trabalha dobrado, quando você reflete mais, se protege mais e se prepara para uma tempestade, ou fica mais atento em relação a um possível ataque terrorista, na maior parte das vezes não recebe recompensa alguma. É por essa razão que, com frequência, as pessoas, por exemplo, cancelam o seguro contra enchente. Na maior parte das vezes, quando compram seguro contra enchente, as pessoas fazem um cheque gordo pelo produto, mas não há enchente alguma. No ano seguinte, fazem outro cheque polpudo — e, mais uma vez, nada acontece. De repente, elas começam a pensar: “Bem que eu podia usar esse dinheiro para comprar uma televisão melhor […] mas estou desperdiçando com esse seguro contra enchente.” Depois do furacão Katrina, que provocou inundações em Nova Orleans cobertas de forma eletrizante pela imprensa, houve um aumento significativo no número de pessoas em todo o país que adquiriram seguro contra enchente. Foi interessante observar que um ano depois do Katrina, de repente muitas dessas pessoas cancelaram seu seguro porque não perceberam nenhuma recompensa associada a ele. Isso é o tipo de coisa que acontece por toda parte.

Outra tendência frequente que acomete as pessoas é o que os psicólogos chamam de “tendência otimista”. Isto significa que a pessoa sabe que há um certo perigo por aí, e são boas as chances que ele se torne realidade, mas a tendência é pensar que mesmo que ele ocorra, o perigo real é uma ameaça para outra pessoa, e não para ela. Creio que todo pai e mãe cujo filho adolescente tenha começado a dirigir já lhe fez uma advertência muito séria: “Se dirigir, não envie mensagens de texto.” Contudo, você sabe que, no fundo, isso vai acontecer — ele sabe que é perigoso, mas há um instinto que lhe diz: “Sei que vai acontecer, mas não comigo. Serei cuidadoso; se acontecer, vai ser com outra pessoa.” Então, do nada, ocorre um acidente — sem consequências trágicas, assim espero.

Vemos isso com muita frequência em várias áreas diferentes, em casos de ataques terroristas e incêndios florestais, terremotos, furacões etc. Creio que a pesquisa também reforçou para mim […] como as pessoas tomam consciência das consequências desse tipo de coisa. Elas não aprendem com base em coisas que aconteceram pessoalmente a elas; elas aprendem ao ver imagens dessas coisas acontecendo em outros lugares. Por exemplo, quando há um furacão a caminho, ou quando estou preocupado com um terremoto — nunca presenciei um terremoto em casa — mas já vi vídeos sobre terremotos no Chile; já vi vídeos de inúmeros terremotos na China , e acho que é nesses lugares que eles ocorrem. Portanto, me preocupo com terremotos, mas não creio que vá presenciar algum perto da minha casa. Se acontecer, talvez seja na região da baía de São Francisco; no Chile; no Japão ou na China.

Sobre a possibilidade de previsão bloco a bloco:

Creio que estamos efetivamente  muito mais próximos disso tudo do que possa parecer. Certamente, hoje em dia, os dados de elevação via satélite têm resolução elevada, e as informações bloco a bloco a que têm acesso os planejadores de emergências — por exemplo, se a maré atingirá um certo nível — permite-lhes saber o que acontecerá a uma casa especificamente. Eles têm realmente essas informações.

Temos uma porção de dados desse tipo. Contudo, um dos problemas com que deparamos consiste em saber como levar essa informação a uma pessoa de um modo que possa compreender sua importância para ela. Não creio que estejamos longe de usar a tecnologia dos aplicativos e dos smartphones. No entanto, creio que, com frequência, as pessoas não respondem a uma mensagem genérica que diz: “Todos no oeste da Filadélfia deverão agir desse modo”, porque quando você pensa: “Bem, isso não é para mim aqui no oeste da Filadélfia; é para outra pessoa aqui da região, porque é a casa dela que estará em perigo.” Se, por outro lado, recebo uma mensagem que diz basicamente: “Robert Meyer, esta é uma mensagem dirigida especialmente a você: tal coisa acontecerá à sua casa, neste seu endereço”, de repente posso me identificar muito mais com essa informação, porque não se trata de algo genérico; ela foi dirigida diretamente a mim.

Sobre a importância de exemplos da vida real e de simulações:

Creio que o verdadeiro desafio de tentar imaginar como produzir mensagens melhores e como estudar de que modo as pessoas se preparam para enfrentar desastres consiste no fato de que não há muitas oportunidades de estudar essas coisas no mundo real. Felizmente, não estamos em uma situação em que a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) fará uma experiência controlada do tipo: “Não vamos avisar algumas pessoas sobre o desastre, mas vamos avisar outras, para ver o que acontece”. É óbvio que não podemos fazer isso.

Um grupo de pesquisas com que trabalho está desenvolvendo simulações bastante realistas em que uma pessoa é colocada em uma sala de estar virtual com acesso à televisão, Internet, ou pode sair de casa e conversar com os vizinhos. O objetivo é que, no contexto das simulações, elas possam experimentar, por exemplo, um furacão virtual que se aproxima e possam assistir ao feed de notícias que vai sendo atualizado, tudo isso hipoteticamente. O fantástico nisso tudo é que podemos usar essas coisas como laboratório natural para testar de que maneira as decisões das pessoas nesse ambiente simulado seriam alteradas se déssemos a elas diferentes tipos de mensagens. E se o tom da transmissão da TV fosse ligeiramente modificado? Ou o que aconteceria se as pessoas com quem esses indivíduos conversassem fossem experts x novatos em relação a furacões?

Não podemos fazer essas experiências controladas em campo. Uma das reservas óbvias que temos no que diz respeito a simulações é que há uma diferença de fato entre o indivíduo se sentar diante do computador num laboratório e responder a uma ameaça hipotética de furacão e experimentar de verdade um furacão ou um terremoto real. Contudo, o que achamos surpreendente é que a forma como as pessoas se comportam nesses dois ambientes é notavelmente semelhante — portanto, se essas simulações forem projetadas com bastante realismo, os instintos naturais das pessoas, que ditam a forma como elas agiriam caso essas coisas acontecessem na vida real, vêm à tona.

Por exemplo, na simulação em que um indivíduo foi colocado na sala de estar virtual, nosso receio foi que as pessoas tentassem fazer coisas ali que não fossem naturais, só porque se tratava de uma simulação. Contudo, o que descobrimos foi que nessas simulações de furacão, as pessoas tendiam a ligar a televisão. E é isso exatamente o que elas fazem na vida real […] Quando relacionamos a utilização da mídia na simulação com sua utilização em campo, conforme  observamos em nossos estudos sobre furacões, deparamos com um paralelo impressionante. Notamos uma porção das mesmas tendências aparecendo em um ambiente e no outro. Portanto, isso nos enche de muito otimismo porque, de fato, podemos começar a testar veículos de comunicação e outros aparelhos no laboratório, o que significa, assim esperamos, que poderemos futuramente transportá-los para o mundo real. É possível calcular melhor o impacto individual dos desastres. Uma das coisas que podemos fazer em nossas simulações é permitir que os participantes nas salas tenham acesso a uma mesa onde há um aparelho de telefone. Com isso, podemos manipular o tipo de mensagem que elas receberão.

 O que virá a seguir:

Uma das coisas nas quais estamos realmente interessados ultimamente, e que é um item imprescindível para muita gente — não apenas para quem está se preparando para enfrentar um perigo, mas também para os indivíduos nas empresas — consiste em saber como responder à mudança climática. Os cientistas realmente não sabem ao certo como isso afetará, por exemplo, o impacto dos furacões, a frequência dos tornados e das secas etc. Contudo, creio que há um sentimento generalizado de que as coisas serão diferentes no futuro em relação ao que são agora. E boa parte da atenuação do impacto da mudança climática é algo que requer investimentos de longo prazo em proteção por parte dos indivíduos e das comunidades.

A cidade de Nova York, por exemplo, depois do furacão Sandy, agora pensa da seguinte maneira: “Bem, o que podemos fazer para nos proteger contra a elevação do nível do mar?” O problema da elevação do nível do mar é que para se proteger contra ela não bastam alguns sacos de areia, e sim investimentos em infraestrutura de bilhões de dólares, que é algo que as comunidades não gostam de fazer. E, infelizmente, é o tipo de coisa que quando você olha para o orçamento do governo em um ano determinado, lá está: “Bem, queremos levar esse projeto adiante, queremos segurança, mas, em certo sentido, não temos efetivamente o dinheiro para fazê-lo este ano. Vamos deixar para o ano que vem.” E aí então, o ano que vem chega e a coisa é adiada para o outro ano e assim por diante até que, de repente, aparece outro Sandy e mais uma inundação.

Também estamos interessados em estudar como essas comunidades se adaptarão à mudança climática — em particular, à elevação do nível do mar. E que tipos de mensagens e coisas podemos fazer para que as pessoas entendam os benefícios de investir hoje em algo que é realmente de longo prazo — em que, de fato, as pessoas talvez jamais vejam esses benefícios durante a vida. Por mais difícil que seja fazer com que as pessoas ajam, preparando-se para ameaças imediatas como furacões, o que sabemos que não é fácil, fazer com que elas entendam os benefícios de tomar medidas de proteção contra a elevação do nível do mar ou contra o aquecimento global é ainda mais difícil.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"“Modelos mentais” imperfeitos resultam em preparo deficiente para desastres." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [05 August, 2014]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/modelos-mentais-imperfeitos-resultam-em-preparo-deficiente-para-desastres/>

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"“Modelos mentais” imperfeitos resultam em preparo deficiente para desastres" Universia Knowledge@Wharton, [August 05, 2014].
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