Mondragón: uma cooperativa que dá lições de democracia

A democracia e o sucesso de uma empresa são coisas compatíveis? É o que indaga Francisco Javier Forcadell Martínez, professor de Economia da Empresa da Universidade Rey Juan Carlos de Madri em seu trabalho de pesquisa Democracia, cooperação e sucesso: implicações práticas do caso Mondragón, publicado pelo Universia Business Review. O próprio Forcadell soluciona o mistério ao assinalar que a espanhola Mondragón Corporación Cooperativa (MCC), considerada por muitos a líder mundial no segmento de cooperativa, representa melhor do que nenhuma outra organização o êxito da aplicação de métodos de gestão de caráter democrático e participativo.

 

MCC, exemplo de cooperativismo

A diferença entre cooperativas e empresas de propriedade de investidores é que, no caso das primeiras, não há assalariados e nem sindicatos, os trabalhadores são sócios e empresários, e as decisões são tomadas na Assembléia Geral, uma vez que não há Conselho de Administração. Contudo, de modo geral, quais seriam as vantagens de contar com um modelo de gestão democrática? De acordo com a pesquisa de Forcadell, a gestão democrática permite que a organização seja “mais eficiente, obtenha níveis mais elevados de inovação e de resultados, potencialize a geração de valor a longo prazo e torne compatíveis objetivos econômicos, sociais, ambientais e individuais”.

 

Prova disso é o sucesso da MCC. A organização foi fundada em 1956, em Mondragón (Guipúzcoa), por iniciativa de um jovem sacerdote chamado José Maria Arizmendiarrieta, e congrega atualmente mais de 100 cooperativas independentes, conta com ativos no valor de 18,593 bilhões de euros e mais de 70.000 funcionários distribuídos em 65 países do mundo todo. Trata-se do maior grupo  cooperativo do mundo e o sétimo grupo empresarial da Espanha com presença de destaque nos setores financeiros, industrial e de distribuição. Recentemente, a MCC decidiu dedicar-se com força total à expansão internacional.

 

Em 2003, a cooperativa foi apontada pela revista Fortune como uma das dez melhores empresas para trabalhar na Europa, graças à ausência de uma atmosfera hierárquica dentro da organização, à flexibilidade de horários e ao compromisso com a qualidade e a internacionalização, entre outras coisas. Outra revista de prestígio internacional destacou a Irizar, cooperativa integrada à MCC e que se dedica à produção de ônibus, como uma das mais eficientes do mundo.

 

É evidente que a Mondragón se saiu muito bem com seu modelo de administração democrática. Contudo, é possível aplicá-lo a outras organizações? Em que consiste exatamente esse modelo?

 

Aspectos fundamentais da MCC

O modelo da MCC se desenvolveu em torno de três áreas: cultura cooperativa, estrutura organizacional e processo de planificação estratégica democrática, explica Forcadell em sua pesquisa. A primeira delas se traduz pelo seguinte pensamento: “Todo trabalhador tem direito a voto, seja qual for sua participação no capital”. Em outras palavras, a cultura da MCC baseia-se na idéia  de superação do confronto entre capital e trabalho, “convertendo os indivíduos em donos da empresa e participantes da tomada de decisões e dos lucros”, escreve o autor.

 

Por outro lado, a estrutura organizacional segue o modelo federativo de organização. Isto significa que o poder de cada cooperativa está em sua base social, o que faz com que cada uma delas desfrute de autonomia legal e funcional. Os trabalhadores delegam o poder a um dos órgãos de governo que os representam na cooperativa individual e na empresa como um todo. Assim, “a hierarquia exerce o poder por delegação”, explica Forcadell.

 

Além disso, o autor observa que a estrutura baseia-se em um princípio de caráter subsidiário, “de modo que nos diferentes níveis hierárquicos corporativos ficam proibidas as tarefas que podem ser realizadas pelos níveis inferiores”. Na estrutura atual, acrescenta, “as cooperativas cedem determinadas funções a grupos setoriais, e estes a divisões a que pertencem; estas, por sua vez, ao Conselho Geral”. Embora a MCC tenha colhido bons resultados com essa estrutura, Forcadell explica que a organização planeja conferir maior poder às cooperativas porque “chegou-se à conclusão que a estrutura como um todo fica impotente se os níveis inferiores recusam-se a participar do processo”.

 

Por fim, o plano estratégico é elaborado democraticamente com a participação de todas as cooperativas e por um período determinado de tempo. Para que seja aprovado, deverá ser debatido nos diferentes níveis corporativos e somente depois de transcorrido um ano de trabalhos é aprovado pelo Congresso Cooperativo, formado por 650 delegados cooperados,  cuja função consiste em fixar critérios estratégicos.

 

O desafio da internacionalização

Para Forcadell, esse modelo pode ser aplicado a outras organizações empresariais, permitindo com isso melhorar as práticas democráticas dentro delas, além de fomentar o desenvolvimento de grupos empresariais em pequenas e médias empresas em conformidade com os princípios democráticos. A implantação e o desenvolvimento de um modelo de gestão desse tipo constitui um genuíno desafio, inclusive para a própria MCC, que se viu obrigada a reproduzir suas próprias práticas democráticas no crescente número de participações que possui no mundo todo.

 

A Mondragón optou pela internacionalização como meio de sobrevivência. Contudo, tal decisão representa um dilema importante para a cooperativa, que deve decidir entre “conservar a identidade do grupo e ser conseqüente com ela, ou perdê-la e avançar mais rapidamente”, observa Forcadell.

 

Além disso, aplicar a experiência da MCC em países com culturas diferentes, que em alguns casos talvez nem sequer disponham de um sistema democrático ou leis cooperativas, e converter o modelo cooperativo em algo universal é, sem dúvida, um desafio a mais. Por enquanto, a Mondragón decidiu implantar um sistema duplo de empresa, em que as sociedades cooperativas convivem com as sociedades anônimas. Tanto é que, de acordo com o estudo, atualmente entre 40% e 50% dos empregados da MCC não são sócios.

 

Agora, a MCC enfrenta o desafio “de criar uma empresa multinacional democrática” de acordo com seus princípios e valores cooperativos. Forcadell observa como o cooperativismo é mais fácil de implementar em organizações pequenas do que em outras maiores e mais distantes. Para José Maria Aldekoa, vice-presidente da MCC, tentar transformar as empresas participantes em cooperativas acarreta uma grande dificuldade, porque o processo de formação desse tipo de organização ocorre de baixo para cima, isto é, não se trata de um modelo que se possa impor a empresas já criadas. Portanto, a MCC optou “pela introdução, nas sociedades anônimas, de práticas democráticas que incrementem o grau de democracia existente”, observa o estudo.

 

Incrementar a democracia das organizações

Contudo, de que modo outras organizações poderão implantar um sistema democrático de administração?  Forcadell propõe o seguinte:

 

  • Criar uma cultura democrática que privilegie um sistema de valores com aspectos tais como a comunicação livre e total entre todos os níveis da organização, ênfase sobre a confiança, em vez de coerção, e influência decorrente da competência técnica.

 

  • Democratizar a propriedade e o poder para que os integrantes da organização possam participar em maior ou menor medida da propriedade e da gestão, das decisões e do governo da empresa. Além disso, Forcadell recomenda a instauração de uma relação democrática entre todas as partes que, de algum modo, estejam envolvidas com a empresa (os chamados stakeholders) e, como exemplo, destaca como algumas cooperativas da MCC permitem aos clientes e fornecedores participarem do desenvolvimento de novos produtos.

 

Por outro lado, acrescenta, também é necessário incentivar a liderança compartilhada, isto é, uma liderança que permita a participação de todos os membros da organização. Contudo, Forcadell crê que seja necessário combinar essa liderança com outra vertical, “que encarne e transmita os valores, e que ajude a introduzir a democracia na organização”.

 

  • Elaborar uma estrutura organizacional orgânica baseada na associação. Para isso, é fundamental aprofundar o nível de democracia em toda a organização, de modo que cada um se envolva no processo de gestão para a consecução dos objetivos da empresa. Muito embora as pequenas empresas seja mais abertas à participação, isto não significa que organizações maiores não possam adotá-la também. Para Forcadell, a MCC mostrou que é possível “desenvolver grandes empresas baseadas na associação e na democracia, de modo que os órgãos comuns representem e sirvam todas as unidades, criando assim uma grande comunidade”.

 

Além disso, é necessário constituir grupos de trabalho autogeridos que funcionem como microempresas e que colaborem com outras equipes, inclusive fora da organização.

 

  • Estabelecer processos democráticos de decisão que sejam abertos, tanto no plano da tomada de decisões quanto no plano operacional. “Esta é uma maneira de incluir a todos na evolução da organização”, escreve o autor. Para Forcadell, a MCC mostrou que, ao elaborar um plano estratégico conjunto, “é possível construir um futuro comum em todos os níveis de uma organização composta por 100 cooperativas e 150 unidades de negócios”. No caso da Irizar, “a atividade é organizada com base em processos desenvolvidos por equipes autogeridas, o que permite aos membros da organização melhorar e modificar os processos em função das necessidades e de acordo com outros grupos”.

 

  • Fomentar a liberdade de informação e a transparência. Isto significa compartilhar a informação e realizar pesquisas com freqüência para mensurar o grau de satisfação ou a opinião dos líderes, fornecedores e clientes.

 

  • Utilizar a educação e a formação como meios para o desenvolvimento da democracia. Trata-se não apenas da educação profissional útil para a organização, é preciso educar também para a convivência em uma organização democrática. Em outras palavras, é preciso que os empregados saibam assumir e respeitar as opiniões de outros nas tomadas de decisões etc.

 

  • Além disso, na hora de selecionar o pessoal, é preciso muita cautela para não cair em nenhum tipo de discriminação, sem esquecer que é preciso informar adequadamente os direitos e obrigações típicos de uma organização desse tipo em que há, por exemplo, deduções salariais para a formação do capital, obrigatoriedade no que diz respeito à participação na tomada de decisões, além da aceitação do parecer da maioria.

 

  • Forcadell recomenda também a aplicação da autocrítica e a necessidade de dinamismo no processo de democratização. Isto é, há necessidade de se revisar continuamente o sistema para o aprimoramento da prática democrática, adaptação às mudanças do meio, ou para satisfação daqueles grupos que desejam mudanças.

 

  • Por outro lado, o autor destaca ainda que a democracia não deve ser imposta. Exemplo disso são as cooperativas que integram a MCC, as quais, em muitos casos, não compartilham das mesmas práticas democráticas. “A transição para um sistema democrático deve ser feita de maneira gradual e com o maior consenso possível entre os membros da organização”, diz o autor.

 

Forcadell conclui advertindo que a introdução dessas medidas deve levar em conta a situação específica da empresa onde serão aplicadas, bem como o grau de democracia que se pretende alcançar. Tornar democráticas as organizações não é nada fácil. O autor destaca alguns dos maiores obstáculos: “centralização excessiva, burocracia e autocracia características de várias das maiores empresas, nas quais o poder se acha distribuído de forma heterogênea entre os diferentes stakeholders”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mondragón: uma cooperativa que dá lições de democracia." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 December, 2005]. Web. [19 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mondragon-uma-cooperativa-que-da-licoes-de-democracia/>

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