Muito o que aprender: inúmeros fundos soberanos pecam pela falta de sofisticação

Esterco de aves marinhas foi responsável pelo boom dos fundos soberanos.

 

O governo colonial britânico da nação-arquipélago de Kiribati, no Pacífico Sul, criou o primeiro fundo soberano em 1956. Na época, Kiribati exportava fosfato — isto é, guano — utilizado na produção de fertilizantes. O governo depositava os royalties obtidos com a venda do fosfato em um fundo de investimento impelido pela idéia de que as gerações futuras deveriam compartilhar os lucros obtidos com essa fonte finita de recursos naturais. Hoje, não há mais guano, mas o fundo, com cerca de 500 milhões de dólares em ativos, é cerca de dez vezes o PIB do país.

 

Os fundos soberanos e seus primos — os fundos de pensão nacionais e os fundos de estabilização de moeda — floresceram nos últimos anos. A exemplo de Kiribati, muitos dos fundos administrados pelos governos têm raízes na riqueza dos recursos naturais de sua pátria natal, especialmente as exportações de petróleo. Com a quadruplicação dos preços do petróleo cru nos últimos cinco anos, países como a Rússia e a Venezuela têm hoje receitas em volume maior do que conseguem investir internamente e com a devida cautela. O Fundo Monetário Internacional calcula que os fundos soberanos controlem cerca de 3 trilhões de dólares, cifra esta que poderá chegar a 12 trilhões até 2012. Acredita-se que o maior deles, o Abu Dhabi Investment Authority and Council, tenha ativos da ordem de 875 bilhões de dólares.

 

Apesar dos montantes astronômicos, a gestão de muitos desses fundos é pouco sofisticada e mal chegou à adolescência, diz Olivia S. Mitchell, professora de seguros e gestão de risco da Wharton e diretora do Centro Boettner de Pensões e de Pesquisa sobre Aposentadoria (Boettner Center for Pensions and Retirement Research).

 

Em um estudo a ser publicado brevemente, “Gestão de fundos de investimentos públicos: melhores práticas e novas questões”, Mitchell, em parceria com dois outros autores, John Piggott e Cagri Kumru, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, observam que muitos fundos não obedecem a normas básicas de gestão financeira moderna. A maior parte deles nem sequer parece se esforçar para tornar suas estratégias de investimentos compatíveis com suas obrigações financeiras futuras. “Com o crescimento dos fundos soberanos, parece haver uma maior disposição da parte deles em correr riscos, com pouca transparência e praticamente nenhuma clareza de objetivos”, observam os três estudiosos.

 

Compatibilizando risco e obrigações

Trata-se de uma atitude preocupante porque, teoricamente, os fundos geridos pelos governos deveriam ter uma conduta semelhante à dos fundos privados no que se refere à compatibilização dos investimentos feitos aos pagamentos futuros, diz Mitchell. “Seu apetite por risco deveria estar de acordo com o volume de fluxo de caixa dos passivos esperados. Até que se faça uma análise satisfatória do fluxo de passivos a cobrir é impossível saber no que investir. Na maior parte dos casos, esses fundos não divulgam informações suficientes para permitir o acompanhamento de seus passivos futuros, portanto não há com saber se os investimentos realizados são compatíveis com as promessas feitas.”

 

Os três estudiosos formularam um sistema de classificação de gestão dos fundos soberanos baseados em indicadores de governança, prestação pública de contas e práticas de investimentos. Os mais bem classificados foram o Fundo de Pensão do Governo da Noruega e o Superannuation Fund da Nova Zelândia, ao passo que a gestão do fundo de Abu Dhabi foi considerada uma das piores no tocante à transparência e prestação de contas. Noruega e Abu Dhabi investem parte da riqueza obtida com a alta do petróleo, enquanto a Nova Zelândia poupa a receita obtida com a arrecadação de impostos para a aposentadoria dos seus cidadãos. “A Nova Zelândia cobra um percentual sobre os ganhos atuais dos trabalhadores jovens, de forma que os jovens da próxima geração não tenha de suportar uma carga fiscal muito pesada no momento em que os trabalhadores atuais se aposentarem”, diz Mitchell. A exemplo de muitas nações desenvolvidas, a Nova Zelândia tem uma população em fase de envelhecimento devido à longevidade alcançada pelo país e à queda na taxa de natalidade.

 

O que distingue a Noruega e a Nova Zelândia dos demais países? Ambos desenvolveram operações que funcionam de maneira parecida com os fundos mútuos americanos.

 

“Os fundos bem geridos são claros em relação à origem do seu dinheiro e aos seus objetivos”, diz Mitchell. “Eles prestam contas da natureza do seu investimento e da diversificação geográfica do fundo. Publicam relatórios trimestrais e blindam os gestores dos fundos de interferências políticas. A Nova Zelândia estabeleceu, inclusive, diretrizes de responsabilidade corporativa, especificando a forma como intervirá, ou não, nas empresas em que investe, e que tipos de ativos se empenhará, ou não, em buscar. O fundo neozelandês dispõe de um manual de ‘política de investimento responsável’, que leva em conta os impactos ambientais e as práticas de direito ao emprego das empresas nas quais investe.”

 

Igualmente importante, os dois países procuram isolar seus fundos de interferências políticas, o que talvez seja o maior perigo para um investidor gerido pelo governo.

 

Isso é possível, em parte, porque uma quantia considerável do dinheiro é investida no exterior, reduzindo assim a pressão feita sobre os funcionários do fundo para que dêem respaldo a amigos e empresas que apóiam o empreendimento, ou a projetos de sua cidade natal. A Noruega, por exemplo, investe 60% dos seus ativos em ações no exterior e 40% em títulos estrangeiros. A Nova Zelândia possui 40,5% em ações no exterior, 7,5% em ações domésticas, 17% em títulos e 35% em outros tipos de ativos, incluindo-se aí bens imóveis, madeira e private equity.

 

Esses dois fundos foram criados por governos democráticos, o que lhes concede status legal para operar abertamente. Com isso, geram também meios que respaldam sua missão financeira. Teoricamente, se os cidadãos entendem os objetivos de um fundo e confiam nele, isto deve levá-los a reivindicar menos cortes de impostos e benefícios adicionais. “A Nova Zelândia deixou claro que os ativos atualmente em processo de gestão deverão ajudar, futuramente, a amenizar os pagamentos com pensões”, observa Mitchell. “É preciso determinação para agir sem ambigüidade no tocante ao toma-lá-dá-cá entre as diferentes gerações.”

 

Tentador demais

Os EUA tropeçaram repetidas vezes em seus esforços de colocar as prioridades financeiras à frente das tentações políticas no que diz respeito à gestão do seu sistema de seguridade social. Na época em que o presidente Franklin Roosevelt defendeu a introdução do plano de pensão pública nacional, ele vislumbrou uma agência que pegaria dinheiro dos trabalhadores, investiria esse dinheiro e, em seguida, pagaria benefícios com base nas contribuições feitas e nos retornos proporcionados pelos investimentos, e não com base nas receitas fiscais correntes, conforme ocorre hoje. “O que aconteceu foi que o conjunto de ativos começou a crescer, tornando-se uma tentação muito grande — os políticos aumentavam os benefícios e reduziam a idade de aposentadoria”, diz Mitchell.

 

De igual modo, durante o governo Clinton, os gestores de políticas federais discutiam a possibilidade de investir parte dos fundos da seguridade social no mercado de ações, o que suscitou todo tipo de crítica e de queixa. “Um grupo não queria que houvesse investimento em empresas que não fossem limpas”, recorda-se Mitchell. “Outro temia investir em empresas que exportavam empregos. Na época, ficou muito claro que seria difícil isolar o conselho de investimentos do governo americano desse tipo de pressão. Este talvez seja um dos motivos pelos quais o Australian Future Fund deverá retirar, futuramente, todo o seu dinheiro do país.”

 

Muitos dos fundos soberanos localizados na parte inferior da classificação dos autores não operam em democracias e, portanto, enfrentam menos pressão de transparência do que seus assemelhados na Noruega e na Nova Zelândia. Abu Dhabi, por exemplo, faz parte dos Emirados Árabes Unidos e é governado por um emir, ou príncipe, que preside o conselho do fundo daquele país.

 

Mitchell diz que compreende o desejo dos administradores de portfólio de operar clandestinamente. “É normal que os investidores queiram manter em sigilo suas estratégias, de modo que não sejam frustradas”, observa. É dessa maneira que os fundos de hedge justificam sua discrição. Contudo, os fatos podem desmentir tais instintos. Pesquisas feitas anteriormente por Mitchell constataram que “um maior volume de informações sobre a situação das pensões, inclusive a emissão de relatórios anuais de finanças, atuária, estatísticas e informações sobre investimentos aos acionistas, podem melhorar os retornos em 2,1 pontos percentuais anualmente”, conforme dados obtidos por Mitchell e seus colaboradores.

 

Deixando os outros de fora

Tal política complica, sob vários aspectos, o funcionamento dos fundos soberanos. Em termos bem simples, eles são controvertidos e, para alguns, chegam a meter medo. Portanto, há governos que restringem os investimentos feitos por fundos estrangeiros, ou que cogitam em fazê-lo. “A comissão européia está elaborando um plano que proíbe países que não pertençam à União Européia de investir no setor de energia”, observam os autores. “A chanceler alemã Ângela Merkel referiu-se à criação de um sistema semelhante ao implantado nos EUA, em que um comitê governamental de investimentos estrangeiros avalia e aprova, ou não, investimentos de origem externa que sejam considerados possíveis ameaças à segurança nacional. Esse protecionismo financeiro poderá ser evitado se esses vários investimentos geridos pela esfera pública forem mais transparentes, mais claros em seus objetivos e mais responsáveis em relação a seus diversos acionistas.”

 

Xenofobia e ressentimentos diversos podem exagerar as preocupações. Vários dos fundos, de crescimento mais acelerado, são controlados por países como a China, com ideologias que, em geral, são antagônicas às dos países ocidentais; ou então países como o Irã e Venezuela, cujos líderes se opõem tenazmente aos EUA e à sua influência em todo o mundo.

 

“Essas reservas públicas de ativos geridas por governos estão em franco crescimento num momento em que os mercados financeiros parecem sobremodo frágeis”, explica Mitchell. “Teme-se que possam ser prenúncio do retorno a um socialismo financeiro global. Quando os governos detêm o controle de grandes somas de dinheiro sem que haja transparência sobre seus objetivos ou métodos, tal situação deixa sobressaltados numerosos políticos e especialistas em finanças.”

 

Apesar de tais receios, há pouca evidência de que os governos tenham tentado usar seus fundos para manipulação política ou qualquer tipo de ardil. Na verdade, o comportamento recente de alguns fundos soberanos poderia ser considerado mais inábil do que sinistro. No ano passado, por exemplo, um fundo chinês comprou um total de 3 bilhões de dólares em ações do Blackstone Group, uma empresa americana de private equity. O valor das ações do Blackstone caiu desde então, despencando com o restante do setor financeiro americano. Hoje, as ações valem cerca de 2 bilhões de dólares.

 

De igual modo, em novembro, o fundo de Abu Dhabi despejou aproximadamente 7,5 bilhões de dólares no Citigroup. A exemplo de muitos bancos americanos, o Citigroup se viu prejudicado por apostas infelizes em títulos de hipotecas, o que fez com que suas ações caíssem 40% este ano.

 

Outros investimentos feitos igualmente em momentos inoportunos podem estar prejudicando alguns fundos soberanos. Contudo, dada a inclinação deles para operar em sigilo, especialistas independentes como Mitchell não têm base para afirmações mais concretas. “Não sabemos quantos desses fundos possuem títulos lastreados em hipotecas; caso possuam, não há como contabilizar o prejuízo imposto aos diversos ativos públicos”, diz ela. “O que vemos é apenas a ponta do iceberg, mas acredita-se que tenha havido, sim, algum prejuízo.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Muito o que aprender: inúmeros fundos soberanos pecam pela falta de sofisticação." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 September, 2008]. Web. [16 November, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/muito-o-que-aprender-inumeros-fundos-soberanos-pecam-pela-falta-de-sofisticacao/>

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"Muito o que aprender: inúmeros fundos soberanos pecam pela falta de sofisticação" Universia Knowledge@Wharton, [September 03, 2008].
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