Nova política de privacidade do Google: quando os mundos dos consumidores colidem, a empresa sai lucrando

George Costanza odiaria a nova política de privacidade do Google. O personagem da série "Seinfeld" ficou profundamente perturbado quando sua noiva fez amizade com a amiga de um amigo, colocando assim em contato partes de sua vida que antes eram independentes, provocando uma "colisão de mundos". "Será possível que você nunca ouviu falar da teoria dos mundos?", diz ele furioso para Jerry, responsável pela nova amizade da noiva de George. "É tão óbvio! Todo o mundo sabe que os mundos têm de ficar separados!"

Parece que o Google não sabia. No dia 1º. de março, a empresa de Internet de Mountain View, na Califórnia, lançou mais de 60 políticas de privacidade diferentes e consolidou seus serviços sob um único conjunto de diretrizes. A harmonização acaba com a separação entre o YouTube, Google+, Gmail, Google (motor de busca) e outros produtos da empresa. Em outras palavras, o Google pode agora pegar os dados que coleta de diferentes usuários em uma área e usá-los em todas as demais plataformas da empresa. O objetivo, segundo a própria empresa, é "permitir que o usuário tenha uma experiência bela e intuitiva" tornando-o "usuário único de todos os nossos produtos".

"A razão pela qual a notícia não é nem um pouco trivial se explica pelo fato de que agora nossos dados podem ser usados fora do contexto esperado na ocasião em que foram fornecidos pela primeira vez", observa Anindya Ghose, professor visitante da Wharton e diretor adjunto do Centro de Pesquisa de Economia Digital da Universidade de Nova York [Center for Digital Economy Research]. "Em outros termos, as informações fornecidas em um determinado cenário podem agora ser usadas em outro. É precisamente esse compartilhamento de dados em contextos diferentes que coloca em dúvida a privacidade do usuário."

A decisão do Google é o lance mais recente de um jogo disputado entre as plataformas online e os consumidores que as utilizam. À medida que as redes sociais se expandem, a coleta de informações melhora e os anunciantes da Web criam novas maneiras de atingir o consumidor. Para competir, empresas como o Google precisam coletar um volume de dados sempre mais diversificado. Isso coloca a empresa numa posição cada vez mais desconfortável em relação a alguns usuários que se sentem invadidos em sua privacidade.

A tensão chegou a tal ponto que algumas empresas já tratam suas políticas de privacidade como estratégia de mercado. Pouco depois que o Google anunciou as mudanças, a Microsoft saiu em campanha para atrair os usuários da concorrente para os seus serviços. "As mudanças anunciadas pelo Google dificultam, em vez de facilitar, o controle que o consumidor tem sobre suas informações", disse Frank X. Shaw, vice-presidente de comunicações corporativas da Microsoft no blog oficial da empresaem que informava sobre a colocação de anúncios nos meios de comunicação chamando a atenção para a política de privacidade da Microsoft. "Nosso enfoque é diferente — trabalhamos para que o usuário se sinta sempre seguro online, para dar a ele controle sobre seus dados e lhe oferecer a opção de salvar a informação fornecida no disco rígido do seu computador, na nuvem ou em ambos."

O Google contra-atacou imediatamente em seu blog: "Nossos controles de privacidade não mudaram. Ponto final", diz o post. "Nossos usuários podem: editar e deletar seu histórico de pesquisa; editar e deletar seu histórico de visitas no YouTube; usar vários de nossos serviços logados ou não; usar o painel [dashboard]  do Google e nosso gerenciador de preferências de anúncios para ver quais dados coletamos e gerenciar o modo como os utilizamos; pode ainda tirar proveito do nosso recurso de liberação de dados se quiser remover alguma informação dos nossos serviços."

Essa retaliação assinala uma virada interessante nas guerras de privacidade cuja última batalha foi vencida pelo Google. O apelo inicial do Google+ "se deveu ao fato de que as políticas de privacidade do Facebook não eram muito boas", ressalta Ghose. "As pessoas deixaram o Facebook pelo Google+ [...] Entretanto, quem migrou com muita antecedência para o Google+ ficará desapontado."

Defendendo o território

Os mundos estão em colisão não apenas no universo do Google, mas também offline, na medida em que legisladores e órgãos reguladores do mundo todo se esforçam para entender o significado da fusão das políticas do Google em seus respectivos territórios. No dia 26 de janeiro, oito congressistas americanos escreverama Larry Page, CEO do Google, pedindo esclarecimentos sobre os efeitos da nova política do Google. Alguns dias depois, órgãos reguladores da União Europeia pediram ao Google que "interrompesse" a fusão de suas políticas até que o grupo, isto é, a Comissão de Trabalho para a Proteção de Dados conforme o Artigo 29, tivesse a oportunidade de investigar o impacto das mudanças sobre os cidadãos americanos. O Google se recusou dizendo que já havia notificado 350 milhões de assinantes e que a questão já havia sido discutida com os órgãos reguladores. Em resposta aos órgãos reguladores da União Europeia e aos legisladores americanos, o Google informou que sua nova política não afetaria as configurações de privacidade existentes, e que não estava coletando mais dados; estava apenas combinando-os de novas maneiras.

Às vezes, o problema é exatamente o volume coletado, diz Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Wharton. Antigamente, era difícil reunir no mesmo lugar todos os dados pessoais disponíveis há vários anos em meios de acesso público — arquivos públicos, listas telefônicas e atas de tribunais. Hoje não, uma vez que todo registro público pode agora ser consultado mediante um clique na Internet. "Todos esses itens são informações públicas válidas, mas no momento em que são reunidas num mesmo lugar, provocam calafrios", observa Whitehouse.

A maior parte das plataformas online diz que não compartilha com anunciantes informações pessoais que possam identificar o usuário, porém estudos feitos demonstraram que grandes quantidades de dados sobre uma mesma pessoa — inclusive dados anônimos — podem, às vezes, ser usados para identificar o indivíduo. "Na medida em que as informações do usuário são reunidas num único lugar, ele se torna mais transparente [...] Ao atingir um certo nível de agregação, o anonimato desaparece", diz Whitehouse. A fusão das políticas de privacidade do Google suscita dúvidas sobre a extensão que deve tomar essa coleção de informações. "A agregação de dados numa determinada escala realmente muda as coisas e, possivelmente, exige um maior grau de supervisão", acrescenta Whitehouse.

A fusão das políticas do Google será uma espécie de "divisor de águas" para a regulação da privacidade de dados e dos bancos de dados, prevê Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. "O consumidor não esperava esse grau de integração de dados e, embora não tenha processado muito bem a extensão das consequências, sente-se desconfortável com o que houve."

Matwyshyn diz que a nova política do Google chama a atenção para o fato de que há "uma tensão crítica no âmbito das empresas no que se refere à existência de bancos de dados para a armazenagem de informações, ao modo pelo qual os dados são transformados em dinheiro e ao grau de proteção de privacidade a que tem direito o consumidor, se é que ele tem algum". Restam dúvidas sobre o grau de privacidade que o consumidor pode esperar, sobre seus direitos legais no que diz respeito à agregação e ao compartilhamento de informações públicas, e também se lhe cabe fazer alguma coisa legalmente para evitar que um mundo online colida com outro.

"Há questões importantes sobre identidade" que não foram respondidas, observa Matwyshyn. Assim com o "George Costanza que tinha uma relação" ameaçava destruir o "George Costanza independente" quando seus mundos colidiam, um professor de primeiro ano que passe o fim de semana tocando em uma banda de rock talvez tenha de esforçar muito para preservar ambas as identidades no mundo real no momento em que elas começarem a se misturar online. "Todos temos identidades diferentes em momentos diferentes da vida", ressalta Matwyshyn. "Talvez seja nossa intenção manter uma identidade segmentada." À medida que a coleta de dados se intensifica e um mundo online se liga a outro, "estamos, na verdade, tirando a possibilidade do indivíduo de escolher que papel deve ele desempenhar nas variadas situações".

Tanto legal quanto culturalmente, a tensão se manifesta em lados opostos do Atlântico. "A Internet, é claro, é um espaço inerentemente transnacional, porém os regimes regulatórios, sobretudo no que diz respeito à privacidade dos dados, sempre variaram de um país para o outro", observa Matwyshyn. Na Europa, "a relação entre um usuário e seus dados se rege por conceitos fundamentalmente distintos, em termos culturais, dos conceitos empregados nos EUA". Na Europa, o indivíduo tem mais direitos sobre seus dados. Por exemplo, em alguns países escandinavos, um post de blog sobre um amigo que esteja em busca de tratamento médico é considerado violação da lei da privacidade. "Nos EUA, se um amigo seu colocar em seu blog que você precisa de tratamento médico, tal atitude será considerada, possivelmente, imprópria e indelicada, nada mais do que isso. Portanto, trata-se de um ponto de partida cultural e jurídico muito diferente."

No passado, nos EUA, os dados que as empresas coletavam não eram considerados coisa de valor da qual se tivesse de abrir mão. A preocupação com a privacidade está começando a mudar isso. "Agora, sabemos sem dúvida que, nos EUA, os dados têm valor, e que a transferência de informação do consumidor para a empresa é, em si mesma, a transferência de algo de valor", avalia Matwyshyn. "Os EUA estão se deslocando cada vez mais em direção ao paradigma da EU, em que a privacidade é vista como algo intrínseco à identidade do usuário e ao seu domínio, ao passo que a UE está se deslocando em direção a uma postura mais próxima da adotada tradicionalmente pelos EUA."

Resta saber onde esses dois enfoques vão se encontrar, diz Matwyshyn. Uma coisa, porém, é certa: o Google não vai parar de coletar dados tão cedo.

"Acho que a mudança nas políticas de privacidade é exemplo de uma área em que a empresa decidiu que era preciso enfrentar a realidade", observa Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. "Serviços como o do Gmail e Google+, que utilizam informações pessoais de forma mais ativa, não são mais secundários; eles são parte fundamental dos serviços oferecidos pelo Google."

Com a ênfase nas redes sociais através do Google+, "a empresa fez uma meia volta decisiva", diz Werbach. "É mais fácil para um motor de busca, do que para uma rede social, tomar uma posição decidida em favor da privacidade do usuário. A ênfase nas mídias sociais resulta na coleta de grandes volumes de informações pessoais, e a utilização dessas informações está intimamente relacionada à funcionalidade oferecida aos usuários. Significa também alavancar o 'gráfico social' em todos os outros serviços, o que requer um volume maior de compartilhamento de informações. Esse tem sido sempre o argumento do Facebook."

O Google merece crédito pela transparência demonstrada em sua decisão de mudar sua política de privacidade e pela perspectiva de fidelidade que continua a garantir a seus usuários, ressalta Werbach. "O Google compete com empresas como o Facebook, Microsoft e Apple, que são maiores do que ela sob alguns aspectos e muitos mais determinadas a se impor a seus usuários", diz ele. "É difícil pedir ao Google que ignore a pressão comercial para que não faça as mudanças anunciadas."

Shawndra Hill, professora de gestão de operações e de informações da Wharton, diz que o Google não tinha muita escolha, a não ser usar melhor os dados de que dispunha. "Estrategicamente, se a empresa quiser competir com o Facebook, terá de tirar proveito dos dados de que dispõe." Ao combinar as informações coletadas em várias plataformas, o Google se valorizou perante seus anunciantes, diz Hill. "A receita da empresa provém basicamente de anúncios. Isso também é verdade em relação aos seus concorrentes e, por isso mesmo, eles vão sempre imaginar um meio de coletar mais dados do usuário [...] utilizando-os da melhor maneira possível", disse. "Isso é o que eles fazem — tentam sempre imaginar um jeito de seduzir mais o usuário através dos anúncios que veiculam. Enquanto for essa a situação, a discussão em torno da privacidade e do valor obtido pelo consumidor por meio dos serviços oferecidos girará sempre em torno desses dois elementos conflitantes.       

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Nova política de privacidade do Google: quando os mundos dos consumidores colidem, a empresa sai lucrando." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [07 março, 2012]. Web. [22 October, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/nova-politica-de-privacidade-do-google-quando-os-mundos-dos-consumidores-colidem-a-empresa-sai-lucrando/>

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"Nova política de privacidade do Google: quando os mundos dos consumidores colidem, a empresa sai lucrando" Universia Knowledge@Wharton, [março 07, 2012].
Accessed [October 22, 2014]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/nova-politica-de-privacidade-do-google-quando-os-mundos-dos-consumidores-colidem-a-empresa-sai-lucrando/]


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