Novos métodos de pagamento concorrem com os antiquados cheques e cartões de crédito

Enquanto aguarda na fila da Starbucks, você provavelmente deseja que a mulher que pede um cafezinho à sua frente não fique procurando troco, use um cartão de crédito que exija autorização e uma assinatura, ou, o que é pior, puxe um talão de cheques. Não, será melhor se aquela pessoa tiver um cartão da Starbucks. Com uma passada deste cartão de “valor armazenado” pré-pago, o dinheiro será automaticamente deduzido de seu saldo, sem necessidade de assinatura. E, quando voltar ao escritório, ela poderá adicionar online mais créditos a seu cartão.

 

O cartão de valor armazenado — assim como seu primo mais sofisticado, o cartão inteligente, onde o valor é armazenado no chip de computador do cartão, e não em um servidor — é apenas uma das novas tecnologias que estão ganhando impulso enquanto o uso do cheque de papel está em declínio, de acordo com novo estudo do Federal Reserve. Até agora, acreditava-se que os americanos preenchessem cerca de 60 a 70 bilhões de cheques por ano. Na verdade, esse número está mais próximo dos 50 bilhões (incluindo os cheques de empresas e do governo), sendo a maioria deles emitida pelos consumidores. Já os pagamentos eletrônicos — que incluem cartões de crédito, cartões de débito, transferências eletrônicas, pagamento de contas online, cartões de valor armazenado e cartões inteligentes — respondem por 30 bilhões do total das transações anuais. O estudo, que se baseou em dados coletados pelo Federal Reserve System e ficou conhecido como Projeto de Pesquisa sobre Pagamentos Eletrônicos e Cheques, é a primeira análise abrangente sobre o mercado de pagamentos ao varejo em mais de 20 anos.

 

Os resultados não surpreendem muitos economistas, que há anos vêm vaticinando a morte do cheque de papel e prevendo o crescimento dos pagamentos eletrônicos. Em sua publicação de caráter informativo sobre a história dos cartões de pagamento, Paying With Plastic: The Digital Revolution of Buying and Borrowing, os autores David Evans, vice-presidente sênior da National Economics Research Associates, e Richard Schmalensee, reitor da Sloan School of Management, mostram quão ineficientes são os cheques em comparação com as formas eletrônicas de pagamento — especialmente os cartões de débito e de crédito. Os autores imaginam um futuro onde o dinheiro será coisa do passado, os cheques estarão obsoletos e os “cartões inteligentes” permitirão que você faça o download de dinheiro em um caixa eletrônico. A pergunta que está na cabeça de todos não é quando essa tecnologia existirá, uma vez que algumas destas formas de pagamento já existem, mas quando ela ganhará a aceitação de consumidores e comerciantes. De certa maneira, esse problema é o mesmo de “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?” enfrentado pelos primeiros programas de cartões bancários e cartões de débito: os comerciantes só querem aceitar as formas de pagamento que os consumidores usam; e os consumidores não aceitarão métodos de pagamento que não poderão utilizar.

 

Enquanto os cartões de débito, também conhecidos como “cartões de cheque”, e os métodos de pagamento eletrônico, como o depósito direto, estão claramente substituindo os pagamentos em cheque, não há um substituto predominante para o dinheiro em espécie. Os cartões inteligentes têm feito muito mais sucesso na Europa, onde chips foram adicionados a eles em 1990. De acordo com Loretta Mester, vice-presidente sênior e diretora de pesquisa do Federal Reserve Bank da Filadélfia, isso foi mais uma resposta a um problema tecnológico do que uma prova do avanço dos europeus. Nos Estados Unidos, “o serviço telefônico é bom e não é caro, portanto a autorização do cartão de crédito é relativamente barata”, diz ela. “Na Europa, quando surgiu o cartão inteligente, as linhas de telefone eram relativamente escassas e caras, de modo que as transações offline com cartão inteligente eram vantajosas…”

 

Nos EUA, os cartões inteligentes não corresponderam  completamente às expectativas. Apesar dos milhões de cartões inteligentes atualmente em circulação, Carl Pascarella, presidente da Visa USA, falou recentemente ao The New York Times que “esses cartões não têm tanta utilidade”. Testes com cartões inteligentes em Manhattan e no Canadá, no fim da década de 90, apresentaram resultados desanimadores: os consumidores mostraram pouco interesse por eles e, para conseguir a adesão dos comerciantes, era preciso oferecer-lhes incentivos.

 

Ao mesmo tempo, de acordo com Mester, os consumidores estão ficando mais espertos a respeito de suas opções de pagamento, pois as pressões econômicas forçam-nos a passar a usar os métodos eletrônicos. “Até recentemente, eu não pagava explicitamente pelo uso do talão de cheques. Hoje em dia, posso ir ao banco e ver quanto terei que pagar pelo privilégio de usar cheques. O cliente está começando a perceber que os pagamentos eletrônicos são mais baratos”, diz.

 

Idade, renda e grau de instrução são fatores que influenciam a escolha do método de pagamento pelo consumidor, acrescenta Mester. Não causa surpresa o fato dos serviços bancários online serem mais populares entre os mais jovens, os mais ricos e os de formação universitária, porém, tem aumentado o número de famílias que utilizam pelo menos uma forma de pagamento eletrônico. Uma outra observação: enviar um cheque pelo correio tem custos, principalmente depois dos recentes ataques com Antraz, que provocaram atrasos no Correio norte-americano. E, embora o fantasma do Antraz já tenha ficado para trás, ele serviu para evidenciar nossa dependência do sistema de Correio.

 

Resta saber se os cartões de propriedade de lojas — que são uma mistura de cartão de crédito com vale-presente — vão “decolar”, ou se os cartões inteligentes emitidos pelas redes de cartão de crédito irão dominar. Algumas lojas estão experimentando ambos: a Target oferece um cartão de presentes que armazena até US$ 1.000, bem como um novo cartão inteligente Target Visa. A empresa atualmente está presenteando os usuários com leitoras de cartão inteligente para ajudá-los a conectar os cartões aos seus PCs.

 

“Meu palpite é que o cartão inteligente universal tem mais chances de dar certo, assim como o cartão de crédito universal superou os cartões de crédito específicos de lojas de varejo”, diz o professor de finanças da Wharton Nicholas Souleles, que realizou ampla pesquisa sobre crédito ao consumidor. “Se você voltar 20 ou 30 anos, verá que os cartões de crédito das lojas de varejo eram importantes, mas foram gradualmente sendo superados pelo cartão de crédito universal. De certa forma, é simplesmente uma questão de praticidade. Digamos que você compre em 10 lojas de varejo. Quem deseja portar 10 cartões diferentes? Hoje em dia, com os cartões inteligentes pré-pagos, quem quer ter que carregar até 10 cartões de débito? Outra vantagem dos cartões universais é que eles permitem que as pessoas façam pequenas transações mais facilmente na banca de jornal ou no carrinho de lanches. Para estas pequenas transações, a universalidade de uso parece ser particularmente importante.”

 

No entanto, de acordo com  o estudo do Fed, os cartões de crédito predominam no campo dos pagamentos eletrônicos, respondendo por cerca de metade de todas as transações. Mas o crescimento contínuo do volume de cartões de crédito pode diminuir à medida que surgirem novos esquemas de pagamento eletrônico. Peter Burns, diretor do Payment Cards Center no Federal Reserve Bank da Filadélfia, acredita que as pequenas transações constituirão os maiores desafios para as redes de cartão de crédito. “Esses pagamentos precisam de algo menos complicado e mais barato que a rede de cartão de crédito.”

 

A Visa e a MasterCard enfrentaram vários problemas legais nos últimos meses, o que poderá resultar em importantes alterações na evolução dos cartões de pagamento. Em outubro, a Justiça Federal de Nova York ordenou que a Visa e a MasterCard permitissem aos bancos associados distribuir cartões de empresas rivais, como a American Express e a Discover. A Visa e a MasterCard entraram com recurso, mas, se a decisão for mantida, elas terão mais concorrência em termos de emissões dos bancos. Em outra ação judicial, a Wal-Mart e outras grandes empresas varejistas acusam as associações de cartões bancários de usar suas posições dominantes no mercado para forçar os comerciantes a aceitar seus cartões de débito, que são relativamente mais caros. Sob ordens de “honrar todos os cartões”, os comerciantes deverão aceitar os cartões de débito com o logo Visa ou MasterCard, se aceitarem seus cartões de crédito. Os varejistas gostariam de restringir o uso de cartões de débito pelo consumidor àqueles oferecidos pelas redes rivais, que oferecem taxas de administração substancialmente mais baixas. O caso ainda tem que ser ouvido, mas coloca algumas das empresas varejistas mais poderosas da nação contra as duas maiores associações de pagamento, culminando talvez com uma importante batalha legal. “O setor de cartões de crédito fez um excelente trabalho ao conseguir a aceitação do dinheiro de plástico”, diz Burns. “Mas os bancos estão perdendo o poder. Os comerciantes querem poder decidir o que eles pagam.”

 

Para o estudo do Federal Reserve, concluído em novembro de 2001, com versão final programada para o fim de janeiro, aproximadamente 1.300 instituições financeiras, incluindo bancos, instituições de poupança, cooperativas de crédito e 89 processadoras de pagamento eletrônico responderam a três pesquisas sobre métodos e volumes de pagamento ao varejo.

 

“Os Federal Reserve Banks realizaram o estudo para conhecer melhor a dinâmica do sistema de pagamentos ao varejo”, explicou Roger W. Ferguson Jr., vice-presidente do Federal Reserve Board, em comunicado à imprensa em novembro último. “Acreditamos que os resultados indicam claramente que o sistema de pagamentos está em migração. Os dados mostram sólido crescimento dos pagamentos eletrônicos desde o início da década de 80, e volumes de cheques menores que o esperado.”

 

Desde 1979, o número total de pagamentos ao varejo sem o uso de dinheiro em espécie passou de 37 para 80 bilhões. O número de cheques cresceu cerca de 55% a partir da estimativa de 32 bilhões em 1979. Segundo o estudo, embora continuem predominando, nos últimos 20 anos os cheques vêm sendo rapidamente substituídos pelos pagamentos eletrônicos.

 

Entre outras descobertas do estudo temos:

  • Os cheques caíram de cerca de 85% do total de pagamentos sem o uso de dinheiro em espécie, em 1979, para aproximadamente 60%.
  • Os consumidores emitem quase 50% de todos os cheques e as empresas recebem cerca de metade de todos os cheques. Um número maior de cheques é emitido para pagamento de contas do que para qualquer outra finalidade (25,7% do volume dos cheques); em segundo lugar vêm os cheques emitidos nos pontos de venda (19% dos cheques emitidos) e depois os pagamentos de salários e benefícios de empresas e governos ao consumidor (cerca de 17,8% de todos os pagamentos em cheque).

As transações com cartão de crédito representam cerca de metade dos pagamentos eletrônicos (15 bilhões de pagamentos, correspondendo a US$ 1,23 trilhão). Os cartões de débito aparecem em segundo lugar, com 8,3 bilhões de transações e US$ 348 bilhões.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Novos métodos de pagamento concorrem com os antiquados cheques e cartões de crédito." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 January, 2003]. Web. [31 October, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/novos-metodos-de-pagamento-concorrem-com-os-antiquados-cheques-e-cartoes-de-credito/>

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