O blockchain será a próxima grande esperança ou simples moda?

Criptomoedas, como o bitcoin, talvez tenham conquistado a imaginação do público ─ e também engendrado uma dose saudável de ceticismo ─, mas é a tecnologia por trás dela que tem se mostrado ser um benefício prático para as empresas: o blockchain. Muitas indústrias estão explorando seus benefícios e testando suas limitações. Nesse processo, os serviços financeiros aparecem à frente, liderando a tendência, na medida em que as empresas acompanham atentamente possíveis retornos inesperados em decorrência da capacidade do blockchain de melhorar a eficiência em coisas como transações comerciais e liquidação de títulos. A indústria imobiliária também vê potencial no blockchain para a construção de casas ─ até mesmo partes de casas ─ bem como a comercialização e transferência de outros ativos ilíquidos mais facilmente.

Comenta-se ainda que o blockchain subverte as cadeias de suprimentos ao acelerar a velocidade das transações em outras fronteiras e melhorar a transparência.

Esses usos são simplesmente a ponta do proverbial iceberg para uma tecnologia nascente cujo estágio de desenvolvimento foi comparado aos primeiros anos da Internet. “É tudo ainda muito recente”, disse Brad Bailey, diretor de pesquisas de mercados de capitais da Celent em recente Cúpula de Oportunidades para Blockchain em Nova York. Ele comparou o atual status do blockchain à Internet no início dos nos 90, anunciando uma onda de novas ideias e usos. “Será um impacto no mundo.”

A tecnologia de blockchain surgiu, inicialmente, como forma de garantir as transações do bitcoin online e para permitir que duas partes pudessem fazer negócios sem ter de conhecer uma à outra e sem precisar confiar uma na outra. Essa tecnologia foi projetada sem uma autoridade central em mente, como um banco ou um governo, que supervisionasse as transações. Basicamente, o blockchain é um livro-razão público virtual compartilhado em que transações criptografadas são confirmadas por partes externas. No mundo do bitcoin, essas partes externas são chamadas de “mineradoras” ─ computadores que resolvem problemas matemáticos complexos para confirmar as transações e ganhar comissões. As transações confirmadas são colocadas em um “bloco” e somadas à cadeia. Uma vez que o livro-razão é compartilhado com todos, acredita-se que seja praticamente impossível remover ou mudar os dados ─ uma premissa que se revelou falsa em alguns casos.

Hoje, o conceito de blockchain se expandiu para além do seu uso nas criptomoedas.

Os benefícios do livro-razão compartilhado e seus registros aparentemente imutáveis de transações acessíveis por várias partes estão sendo explorados por uma série de indústrias. Os especialistas disseram que não haverá uma “blockchain-mãe”, e sim inúmeros livros-razão com diferentes propósitos. Surgiram também diversas versões de blockchain: enquanto o blockchain de bitcoins original era aberto a todos, o blockchain de algumas empresas era privado e usado mediante permissão ─ o acesso era restrito às partes aprovadas. Essa última estratégia é a preferida de empresas que receiam ser penalizadas com multas e ações judiciais se foram hackeadas, disse Sarab Sokhey, participante da cúpula de bitcoin e diretor-chefe de tecnologia de inovações de novos produtos da Verizon Wireless. Elas continuarão privadas até que a tecnologia amadureça e os padrões da indústria sejam fixados.

Embora as aplicações dos negócios com blockchain estejam claras, há implicações sociais também. Por exemplo, o blockchain pode criar identidades para indivíduos diferentes daquelas sancionadas pelos governos e sem restrições geográficas. O blockchain também permite que países menos avançados tecnologicamente participem mais facilmente de transações globais. “Os blockchain são empolgantes, não há dúvida”, disse Saikat Chaudhuri, diretor-executivo do Instituto Mack de Gestão da Inovação (Mack Institute for Innovation Management), que foi parceiro oficial da cúpula. “Os blockchains proporcionam muito mais do que eficiência na negociação ou flexibilidade. O blockchain vai além disso. Ele pode dar identidade aos que não a têm, ou promover a inclusão oficial. É aí que está o poder do blockchain.”

Instituições financeiras “nervosas”

De acordo com uma pesquisa do Instituto IBM de Valor Econômico e da Economist Intelligence Unit, uma em sete empresas consideradas “desbravadoras” esperam ter produção de blockchain em escala comercial em 2017. Os entrevistados estavam interessados em aproveitar os inúmeros benefícios do blockchain, entre eles: redução de custos, imutabilidade dos registros, transparência das transações e potencial de criação de novos modelos de negócios. Por exemplo, o blockchain eliminaria a necessidade de guardar numerosos registros em bancos e outras partes através da compra e venda de moedas. O levantamento monitorou as respostas de 200 instituições de mercados financeiros globais.

De acordo também com o levantamento, as empresas “desbravadoras” estavam concentrando seus esforços nas seguintes áreas empresariais: compensação e liquidação, pagamentos no atacado, ações e emissões de títulos de dívida e dados de referência. O relatório acrescentou que em anos recentes as instituições financeiras “convergiram em massa para programas-piloto de blockchain e validações do conceito” ─ abrindo laboratórios de inovação, realizando hackathons, fazendo parcerias com start-ups de tecnologia financeira, unindo-se a consórcios e colaborando com órgãos reguladores.

Evidentemente, os bancos têm interesse especial em participar dessas coisas. “Os bancos fornecem basicamente serviços de depósitos para transferência de valor e aqui entra a tecnologia que ameaça eliminar esse serviço”, disse Chris Ballinger, CEO global de inovação estratégica da área de Serviços Financeiros da Toyota. “Portanto, eles estão nervosos, porque se trata de um fluxo enorme de receitas” que pode desaparecer. Como? “Com o blockchain, você pode gerir uma rede que transfere valor entre nós não confiáveis e, desse modo, eliminar o intermediário e todos os custos associados a ele”, disse. “Basicamente, você está transformando ativos em algo parecido com dinheiro que você poderá passar para alguém que o aceitará. Isso torna a transferência de ativos extremamente eficaz.”

Outra vantagem excepcional do blockchain é que ele separa a identidade da pessoa da transação que ela está realizando. Em geral, um blockchain usa uma assinatura digital ─ e não nomes reais e outras informações pessoais ─ que é ativada por uma chave particular ou código secreto em poder de quem faz a transação. Compare essa transação com as transações bancárias ou com cartão de crédito, que vinculam informações pessoais como nome e endereço a compras e outras atividades financeiras. Essa separação melhora a segurança dos dados da pessoa. “Hoje, as informações e a identidade do indivíduo estão atreladas ao pagamento feito. Essa combinação é uma tentação para os hackers”, disse Ballinger. “Ao separar as informações financeiras da identidade, acaba a tentação, não há um ponto central a ser hackeado, nenhum incentivo que estimule o hacker.”

Em dezembro de 2015, a Nasdaq realizou a primeira transação de um blockchain através do seu Linq Ledger. A Bolsa informou que o blockchain promete agilizar a compensação e a liquidação ─ os passos necessários para transferir o ativo de um vendedor para um comprador inclusive com o registro da transação ─ de três dias para dez minutos apenas. Isso ocorre porque as transações acabam com muitos processos manuais e evitam terceiros. Desse modo, “a exposição ao risco de liquidação pode ser reduzida em mais de 99%, diminuindo drasticamente os custos de capital e o risco sistêmico”, de acordo com a Nasdaq. Há outras bolsas que lidam com o blockchain na Austrália, Mianmar, Alemanha, Japão, Coreia, Londres e Toronto.

A Overstock.com está prestes a emitir seu primeiro título usando o blockchain. “Estamos em processo de testar a primeira transação pública de um título de blockchain”, disse Ralph Daiutro Jr., consultor jurídico geral da tØ, uma subsidiária da varejista de comércio eletrônico. Embora a empresa tenha preservado sua firma de compensação, ela está usando carteiras digitais para a transferência efetiva de ativos em liquidação da transação. “O objetivo é diminuir o ciclo e evitar tudo o que possa dar errado nele.” Ele acrescentou que a empresa poderá cortar seus custos de negociação de ações em 70% usando o blockchain.

A Overstock conseguiu aprovação dos órgãos reguladores para seu negócio de blockchain através de “passos incrementais de validação da tecnologia nos casos de sua utilização e pela demonstração de que há aplicação no mundo real para a tecnologia de blockchain”, disse Daiuto. “Foi literalmente um processo educacional mensal, ou semanal, com nossos principais órgãos reguladores.” Foi preciso cerca de dois anos para que o lançamento dos alicerces da Overstock chegasse a esse ponto.

Imóveis e contratos inteligentes

Uma área especialmente promissora para o blockchain é o mercado imobiliário. “O blockchain resolve boa parte dos problemas que temos no setor de imóveis” no que diz respeito à fraude, taxas e problemas com intermediários, due dilligence sem transparência, descoberta lenta de preços, processo complexo de transação e outros problemas, disse Ragnar Lifthrasir, presidente da International Blockchain Real Estate Association. “Sob muitos aspectos, nossa tecnologia ainda está no século 17 ─ os tabeliães ainda usam selos.” O blockchain promete simplificar e acelerar o processo acrescentando, ao mesmo tempo, transparência aos registros.

Por exemplo, quando vendem uma casa, as pessoas ainda têm de assinar um papel timbrado para a transferência da escritura para o novo dono. A escritura tem de ser inserida no registro público. Isso significa que alguém, fisicamente, tem de ir a um escritório local do governo. “É um sistema lastreado em papel que é um prato cheio para fraudes”, disse Lifthrasir. A solução do blockchain é muito mais objetiva e usa escrituras digitais. “Quando quero transferir uma propriedade, eu simplesmente a transfiro da minha carteira para a carteira do comprador.”

Com relação à inserção da posse da propriedade no registro público, Lifthrasir disse que a lista já está no blockchain, portanto não será difícil registrá-la. Ele acrescentou que a validação da propriedade seria fortalecida. “É muito difícil negar quem é o dono de uma propriedade que consta de uma rede pública.” Sua start-up, a Velox, trabalha com o condado de County, em Chicago, onde usa o blockchain para transferência e registro de títulos de propriedade. Ela também está trabalhando em um modo que mostrará as garantias existentes no blockchain.

Os chamados contratos “inteligentes” do blockchain podem ser revolucionários. “Eles representam programaticamente um contrato”, disse Mark Smith, CEO da Symbiont e presidente adjunto do Conselho de Contratos Inteligentes. Por exemplo, um contrato inteligente de um carro poderia estar vinculado em tempo real a pagamentos feitos pelo seu comprador. Se ele deixar de pagar, o contrato é informado da violação e tem início o processo de nova posse. Em Delaware, a empresa de Smith está trabalhando com o estado para criar registros “inteligentes” dos arquivos públicos para, entre outras coisas, facilitar o acesso a eles.

As operações da australiana EY puseram em prática um programa-piloto de um ecossistema de blockchain imobiliário que hoje está sendo usado no mercado para negociação plena, e até mesmo fragmentária, de posse de propriedades. Empresas imobiliárias e instituições financeiras aprovadas pela EY gostaram da ideia de usar o blockchain, mas na hora da implantação, “houve medo e a incerteza”, disse James Roberts, sócio e líder do blockchain na Austrália. A EY teve de garantir, basicamente, a comprovação dos participantes e as negociações para a construção de um clima de confiança. “Decidimos que resolveríamos o problema de identidade das pessoas e instituições. Introduziríamos o elemento de confiança no sistema e provaríamos que a manutenção dos registros é verdadeira e exata e pode ser usada para a negociação de instrumentos financeiros como propriedade ou dívida.”

O ecossistema de blockchain passa por diversos estágios. Primeiro, os indivíduos que usam o blockchain têm de ser validados por meio de verificações de identidade e até biometria. Eles criam registros no blockchain através de chaves únicas geradas aleatoriamente que permitem a EY fazer outras verificações em relação a vários bancos de dados do governo e de outras instituições. Em seguida, a transação é negociada em uma bolsa de blockchain. Os ativos em processo de negociação são verificados. O ecossistema inteiro é particular e o acesso é liberado. Além disso, a EY armazena as chaves únicas offline dos indivíduos por medida de segurança. Além disso, as funções administrativas do tipo back-system da EY ─ apesar da premissa de o blockchain não ter uma autoridade central ─ têm como objetivo deixar os participantes mais à vontade ao usar o sistema. Contudo, para ser um sistema viável, é preciso escala. “Precisamos de milhões e milhões de pessoas em nosso sistema, e isso vai exigir muito esforço”, disse Roberts.

Desafios e riscos

A segurança ainda é o maior desafio para o blockchain. “A verdade é que, no momento em que você dá a alguém acesso à rede, na maior parte das vezes, a pessoa acaba facilmente ganhando acesso total a ela”, disse Joe Ventura, CEO da AlphaPoint. “Esse é um problema enorme de segurança.” Contudo, se instalarmos uma porção de proteções para impedir ataques de hackers, o blockchain ficará engessado e perderá seu propósito. “Seria preciso saltar muitos nós para passar a mensagem de uma parte à outra.” E embora os registros do blockchain, teoricamente, não possam ser mudados, há formas de contorná-los. Smith citou uma recente decisão controversa da Fundação Ethereum ─ a organização por trás da criptomoeda de código aberto Ethereum ─ depois que um hacker aproveitou uma falha do software e se apossou de fundos. A fundação decidiu voltar atrás e devolver o dinheiro das pessoas. Ela criou duas versões do livro-razão. “Imagine se você é uma empresa e a direção decide voltar atrás um dia”, disse Ventura. “Isso é totalmente inaceitável.” Além disso, ao criar duas versões, houve pessoas que tiraram vantagem disso. “Algumas dobraram o montante de dinheiro que tinham”, disse Smith.

Para compensar, os órgãos reguladores podem, ao menos, ter um nó no blockchain em que as empresas definem seu acesso aos dados, disse Sandeep Kumar, diretor gerente da Synechron. Desse modo, os órgãos de regulação não teriam de esperar dias para que um banco enviasse os documentos para indicar sua conformidade ao que foi prescrito por esses órgãos. “É possível ver em tempo real o que está acontecendo.”

No fim das contas, cabe às empresas avaliar se um determinado blockchain é adequado. “Seria o caso de uso de um blockchain ou de um banco de dados?”, disse Tyler Mulvihill, diretor da Consensys. “Se for uma empresa que dispõe de muita informação internamente e que não negocia com muitos fornecedores, e não há muita gente que precise usar suas informações ou fazer negócios com ela, um banco de dados pode ser suficiente para uma porção de coisas. É quando se trabalha com muitas partes que se precisa de confiança, de acesso a certas informações e de auditoria ─ e é aí que vejo os principais casos de uso.”

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"O blockchain será a próxima grande esperança ou simples moda?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [31 January, 2017]. Web. [19 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-blockchain-sera-proxima-grande-esperanca-ou-simples-moda/>

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O blockchain será a próxima grande esperança ou simples moda?. Universia Knowledge@Wharton (2017, January 31). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-blockchain-sera-proxima-grande-esperanca-ou-simples-moda/

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"O blockchain será a próxima grande esperança ou simples moda?" Universia Knowledge@Wharton, [January 31, 2017].
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