O bloqueio de Trump ao degelo cubano: oportunidade ou ameaça para as empresas espanholas?

“Não apoiaremos o monopólio militar que oprime o povo.” Com essas palavras, o presidente dos EUA, Donald Trump, recuava em junho deste ano do processo de degelo nas relações entre EUA e Cuba iniciado por seu predecessor, Barack Obama. Se alguém ainda tinha alguma dúvida, Trump foi contundente: “Dou por cancelado o acordo.” Contudo, como tem sido praxe nas declarações do presidente americano, suas mensagens e a realidade nem sempre coincidem. De fato, embora tenha restringido as visitas à ilha, os voos comerciais, pelos menos até agora, não foram proibidos, nem tampouco os cruzeiros. Ainda que o fluxo comercial com a ilha tenha sido reduzido, a embaixada em Havana não foi fechada; também não foi retomada a lei que permitia aos cubanos entrar sem visto nos EUA.

É precisamente essa incerteza que leva os especialistas a desconfiarem do futuro do degelo nas relações bilaterais com Cuba. “Trata-se de uma mudança mais para agradar a plateia do que uma realidade de fato”, disse Agustín Ulied, professor do departamento de economia, finanças e contabilidade da Esade. Para ele, “se existe uma coisa clara na política de Trump é que seu objetivo é beneficiar os empresários”, por isso o professor acha que o discurso de Trump é mais uma declaração de intenções do que uma ruptura total com o caminho inaugurado por Barack Obama. Além disso, Ulied diz que o processo avançou pouco, já que o embargo nunca foi retirado. Contudo, será preciso esperar um ano para que essa incógnita venha ser esclarecida.

É o que pensa também Juan Carlos Martínez Lázaro, economista da Escola de Negócio IE, para quem “a situação continua a mesma, já que o degelo anunciado pelo governo americano foi uma carta de intenções, mas a situação na ilha não mudou muito”. Dois especialistas, portanto, estão de acordo em relação à incerteza que cerca todo o processo. Seja como for que as coisas transcorram, empresas europeias e especialmente as espanholas devem aproveitar o momento para manter suas posições e não dar margem ao avanço das empresas americanas. Além disso, Ulied, da Esade, é bastante crítico em relação aos passos dados nos últimos meses pelas empresas do velho continente. “As empresas agem com lentidão e não têm avançado muito; a Europa continua à margem dos investimentos na ilha e será difícil para elas marcar posição posteriormente”, principalmente levando-se em conta que EUA e Canadá foram muito mais ativos durante o período inicial do degelo.

Massimo Cermelli, professor de economia da Escola de Negócios Deusto, diz que “há anos, ao comentar sobre o desbloqueio das relações entre EUA e Cuba, dizíamos que isso significava claramente a entrada de inúmeros concorrentes na ilha, principalmente de países exportadores como a Alemanha, China, França, México, Rússia, Japão, Canadá e EUA. Com a saída dos EUA do mapa de competidores, diz Cermelli, “temos o desaparecimento, para as empresas espanholas, de um de seus maiores concorrentes em matéria de tamanho e de proximidade geográfica”.

Para Martínez Lázaro, não está muito claro se realmente se trata de uma boa notícia para as empresas espanholas: “O degelo não é um ameaça e o recuo em relação ao processo representa a perda de uma oportunidade.” O economista da escola de negócios IE se refere, sobretudo, ao setor turístico, em que a Espanha está muito bem posicionada, sendo os EUA uma das principais potências exportadoras de turistas, principalmente em direção a Cuba por sua proximidade com os EUA.

Com relação às empresas, seu posicionamento tem sido parecido. A rede de hotéis espanhola Meliá, com grande presença na ilha, disse: “Com relação aos possíveis efeitos dessa declaração, e a possível vantagem competitiva para as empresas espanholas, não é possível dizer nada com segurança atualmente, mas sempre dissemos que a concorrência é positiva para os países que a receberão, e a chegada de companhias americanas seria também positiva para o setor turístico cubano. Por outro lado, sempre deixamos claro que todas as empresas que quiserem trabalhar em Cuba, não importa a nacionalidade, terão de respeitar o plano estratégico de turismo local, que fixa o ritmo e define capacidades para um crescimento sustentável, e por isso não esperávamos um impacto grande, ou mesmo disruptivo.”

Para a Iberia, o fluxo turístico dos EUA é uma via de crescimento para os grupos espanhóis. A companhia aérea declarou que “em outros setores, se os investimentos americanos forem limitados em Cuba, obviamente os espanhóis poderão desfrutar de uma fatia maior do bolo ─ esse sempre foi o caso devido ao embargo americano ─, porém o bolo agora é menor “. Por isso, diz a empresa que “é mais positivo” participar de um mercado maior, embora com uma participação menor, do que ter uma cota maior em uma economia menor e limitada. “De modo geral, a Espanha ou a Europa não serão particularmente beneficiadas com a ‘retirada’ de Trump. Empresas espanholas e europeias se beneficiariam muito mais globalmente do crescimento da economia cubana gerada por uma verdadeira abertura econômica com os EUA”, declarou a empresa. Em sintonia com o que dizem os especialistas, a empresa alerta que atualmente qualquer tipo de previsão se baseia em meras especulações, já que “ainda não está muito claro se as medidas de Trump reduzirão o número de turistas americanos em Cuba”.

Cermelli, da Deusto, vê com mais otimismo os passos dados por Trump e diz que os mais afetados pelas consequências dessa política serão as próprias empresas americanas: “Do ponto de vista do negócio, é positivo para as empresas espanholas e representa um retrocesso para as empresas americanas, algo parecido com o que ocorreu com a saída dos EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TTP) no início de 2017. Toda oportunidade de reforçar a colaboração econômica e comercial entre os países gera benefícios coletivos para ambos a longo prazo; já uma perspectiva mais isolacionista só tem sucesso a curto prazo.”

Setores fundamentais

Em relação aos setores com maiores chances futuras para as empresas espanholas, os especialistas estão de acordo: o turismo é essencial. Agustín Ulied, da Esade, diz que há outros setores, como o de infraestrutura, onde poderia haver oportunidades de negócios e onde as empresas espanholas têm muito prestígio no plano internacional, mas ele acha que é “complicado entrar agora devido ao sistema jurídico” e incertezas que ainda pairam sobre a ilha, por isso diz que, para esses grupos, “é muito arriscado se aventurar ali”. O mesmo ocorre com o setor de saúde, onde poderiam surgir outras oportunidades.

Martínez Lázaro aposta também no turismo, e diz que “embora a concorrência acabe chegando cedo ou tarde”, o número de visitantes aumentará “de forma espetacular”, algo de que poderiam tirar proveito as empresas espanholas, “que contam com uma posição forte e com relações já solidificadas na ilha”. Contudo, para ele o futuro em outros setores é mais complicado, entre outros motivos, porque a “economia cubana sofrerá” a curto prazo, independentemente do que Trump faça em relação ao degelo das relações com Cuba. De acordo com Martínez Lázaro, do IE, “Cuba depende muito da Venezuela”, mas ali a situação se complicou e a ilha não disporá mais dos fundos que tinha em anos anteriores (graças ao petróleo, principalmente) e que contribuíam com o desenvolvimento da economia cubana através da compra de serviços. Desse modo, o turismo deverá se converter, se não na única fonte, na fonte principal de receitas para Cuba. Portanto, na hora de falar em oportunidades, Martínez Lázaro é prudente e recorda que se trata de “um mercado não muito grande que, além disso, se acha empobrecido”. Para ele, as restrições orçamentárias do governo não permitem um grande investimento em infraestrutura e, além disso, “o entorno não estimula o investimento estrangeiro”, e por isso conclui que Cuba “ainda não é uma oportunidade para as empresas, a não ser que sejam do setor turístico”.

Para Agustín Ulied, da Esade, antes de Cuba ser uma alternativa real para as empresas, é preciso que se esclareçam inúmeras incógnitas, desde a sucessão [do atual governo] cubano até a materialização das intenções de Donald Trump. Contudo, seja como for, Ulied considera fundamental que a “Comissão Europeia acelere as negociações com Cuba depois de vinte anos ignorando a ilha”. Só assim essa região do Caribe poderá se converter em verdadeira oportunidade para as companhias europeias e, de modo especial, para as espanholas, permitindo-lhes passar à frente das grandes multinacionais americanas se, algum dia, houver de fato um degelo definitivo entre EUA e Cuba.

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"O bloqueio de Trump ao degelo cubano: oportunidade ou ameaça para as empresas espanholas?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [31 July, 2017]. Web. [12 December, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-bloqueio-de-trump-ao-degelo-cubano-oportunidade-ou-ameaca-para-empresas-espanholas/>

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