O caminho da recuperação da economia argentina 

Mauricio Macri chegou à presidência da Argentina com o importante objetivo de recuperar a economia do país. Em que direção deve ele concentrar seus esforços? Para os especialistas, restaurar a confiança dos investidores internacionais no país é fundamental para que se consiga o capital necessário à melhora das infraestruturas, da produção e da competitividade. Contudo, esse será simplesmente o começo de um caminho provavelmente longo e cheio de desafios e dificuldades.

A argentina passou por uma reviravolta política e histórica em novembro do ano passado ao eleger Mauricio Macri para a presidência do país pondo fim a 12 anos de kirchnerismo, período iniciado com o primeiro governo de Néstor Kirchner em 2003 e que prosseguiu com dois mandatos de sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner. Contudo, o que todos realmente esperam com essa mudança é um impulso na economia. De fato, Macri chegou à Casa Rosada com promessas de transformar o país em referência econômica para a América Latina, em uma nação próspera que atraia os investidores internacionais para que façam negócios ali.

O primeiro passo, e o mais importante, nessa direção foi dado em 21 de abril, quando o novo Executivo pagou os US$ 9,3 bilhões que a Argentina devia aos chamados fundos abutres, isto é, 7% dos credores que se recusaram a aceitar a reestruturação negociada da dívida do país em 2004 e 2010, optando por reclamar seu dinheiro nos tribunais de Nova York. Com essa decisão, a Argentina pôs fim a 14 anos de default regressando aos mercados internacionais da dívida.

O objetivo do país então era que o governo voltasse a ser competitivo em um mundo totalmente globalizado. Depois de seis meses no poder e de análise da situação, a equipe econômica de Macri chegou à conclusão de que, para isso, a Argentina precisa de investimentos em torno de US$ 100 bilhões (ou 90 bilhões de euros).

“Além do volume de investimentos (que é sempre uma coisa discutível, já que o volume exato depende de como a estimativa é feita, o que depende substancialmente de pressupostos  que quase nunca podem ser considerados como algo perfeitamente sabido), o mais importante é como aplicar esses fundos”, observa Enrique Lucio Kawamura, professor da Universidade San Andrés de Buenos Aires. O professor se refere tanto aos setores produtivos nos quais o investimento é realizado, quanto, principalmente, ao tipo de investimento: “Não é a mesma coisa investir um certo montante na aquisição de um novo know-how de processos de produção que aumentem discretamente a produtividade e investir esse montante, simplesmente, na substituição do maquinário depreciado, por exemplo”, disse.

Martín Simonetta, professor titular de economia política I na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES) e diretor executivo da Fundação Atlas para uma Sociedade Livre, evita falar de números concretos e se concentra no que considera vital nesse processo: a confiança. “É um desafio enorme reverter décadas de desordem econômica, política e institucional e o consequente desinvestimento por que passou a economia argentina. Por isso, é fundamental recuperar a confiança perdida na economia do país.” E, para isso, ele considera necessário refundá-lo sobre as bases da previsibilidade e da transparência, de modo que seja possível fazer previsões a médio e a longo prazos que não esgotem no governo de plantão. “Se conseguirmos reconstruir esse marco de confiança e de credibilidade, a recuperação do investimento será uma consequência natural. Contudo, a confiança perdida, lamentavelmente, não se cria de um dia para o outro”, disse.

Primeiros passos

Com o objetivo de restaurar a confiança no país desaparecida na última década, a equipe de Macri criou um organismo chamado Agência Argentina de Investidores e de Comércio Internacional, que se encarregará de divulgar as mudanças que estão em curso na Argentina e oferecer uma imagem atraente para os investidores internacionais. A primeira iniciativa da instituição consistirá em organizar uma reunião de cúpula entre os dias 12 e 15 de setembro que deverá ter a participação de 2.000 empresários, investidores e líderes econômicos do mundo todo. O objetivo é que essa reunião seja o ponto de encontro dos gestores políticos do país onde se debaterá se a Argentina está à altura do que os investidores internacionais exigem do ponto de vista da segurança jurídica ou do capital humano.

Do ponto de vista dos investimentos, o Executivo argentino tem como principais prioridades modernizar a infraestrutura rodoviária e ferroviária e aumentar os recursos para a agricultura, mineração e energias renováveis. Uma das iniciativas mais ambiciosas é o Plano Belgrano, que tem como meta impulsionar o desenvolvimento da região norte do país investindo-se aí US$ 2 bilhões em infraestruturas. Ao mesmo tempo, há projetos de criação de 250.000 moradias e o pagamento de incentivos fiscais e trabalhistas às empresas que se estabelecerem na região.

Para onde direcionar os esforços

Para Kawamura, a prioridade do governo, especialmente no que diz respeito ao investimento privado, deve ser o aumento da produtividade nos setores “dinâmicos” de alta potencialidade exportadora (como os segmentos de software e os produtos manufaturados altamente diferenciados) e no desenvolvimento de uma indústria agroexportadora que atenda às demandas dos mercados asiáticos garantindo divisas “sustentáveis”. Nesse sentido, considera-se “importante um plano estratégico que pense de forma concreta políticas que introduzam os incentivos apropriados ao investimento privado tendo em vista esse objetivo”. No que se refere ao investimento público, é preciso “ter políticas de investimento em infraestrutura que reduzam os custos de logística e de transporte por meio de um projeto integrado e coordenado de investimentos em transportes que assegurem a redução de custos de forma mais eficiente com o objetivo de tornar independentes o máximo possível essas decisões de distorções que gerem pressões por parte dos sindicatos e outros tipos de stakeholders [isto é, todas aquelas pessoas ou instituições que possam afetar ou que são afetados pelas atividades de uma empresa] e que conspirem contra tal eficiência”.

Mais além do ponto de vista econômico, Kawamura menciona a importância de dispor de uma estrutura confiável de tomada de decisões públicas. Para ele, é preciso que haja uma discussão muito mais profunda sobre o sistema político, isto é, se o modo como ele funciona hoje não atenta contra os objetivos econômicos, “uma vez que seu funcionamento pode produzir uma distorção de curto prazo que não ajuda na introdução de iniciativas importantes com algum grau de credibilidade mínima que garanta retornos razoáveis aos setores que devam ter investimentos importantes durante muito tempo”, diz.

É o que pensa também Simonetta: “A prioridade passa pelo institucional, com a conquista de um marco político que permita tomar decisões e planejar com objetivos de médio e longo prazos e, como consequência disso, investir.” De igual modo, diz Simonetta que as “potencialidades do país não têm limites”. Ele vê uma oportunidade enorme no setor agropecuário, onde há uma grande quantidade de recursos em um contexto nunca visto de crescimento da população mundial e, por conseguinte, de demanda de alimentos.

Os sócios do futuro

Outro ponto fundamental na estratégia do novo Executivo argentino é sua integração ao mercado sul-americano. Macri está se distanciando das diretrizes estabelecidas pelo governo anterior, que havia apostado em impulsionar, como modelo de desenvolvimento regional, a unidade do Mercosur formado pelo Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela e Bolívia, além da própria Argentina. Cristina Kirchner se distanciou da Aliança do Pacífico (que, formada por Chile, Colômbia, México e Peru, corresponde a 40% do produto interno bruto da América Latina) com receio de que sua intenção de promover a livre circulação de capitais e de serviços pudesse prejudicar alguns dos setores nacionais. Houve um direcionamento total nesse sentido a ponto de a Argentina já ter se convertido em membro observador da Aliança do Pacífico como primeiro passo para uma eventual entrada no grupo. Macri disse que seu objetivo é que o Mercosul tenha uma visão de convergência com a aliança do Pacífico. Para ele, o grande desafio a longo prazo é que os países que formam ambos os grupos integrem suas infraestruturas e desfrutem de uma “matriz energética única”.

Simonetta considera “fundamental” que a Argentina se integre ao mundo, embora não creia que o Mercosul seja o melhor meio de se posicionar na América Latina. “O Mercosul foi uma ferramenta útil no passado, mas o processo de integração foi suspenso. Hoje, o Pacífico é a região do Planeta que mais cresce, e a Argentina deverá pegar carona nesse trem. Devemos ser parte dos processos de integração dinâmicos e que alimentem o crescimento das economias deixando para trás ‘fortalezas’ protecionistas”, diz.

“O livre comércio por si só não garante uma maior competitividade”, observa Kawamura. É preciso que haja uma maior participação nos mercados internacionais, “porém, da perspectiva de um plano integral de incentivos ao investimento que gerem aumentos de produtividade que garantam que a maior participação implique também um aumento substancial das exportações de produtos que não sejam necessariamente matérias-primas agropecuárias”, diz.

É importante, acrescenta, “analisar o poder de negociação do nosso país diante de um possível ingresso na Aliança do Pacífico em relação a outros países membros, bem como saber quais as vantagens comparativas para que se evite que a entrada em grupos desse tipo acarretem problemas complexos de resolver para a balança de pagamentos”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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