O conflito entre a Sacyr e o Canal do Panamá: a importância da gestão de riscos

O conflito entre o consórcio liderado pela construtora espanhola Sacyr e a Autoridade do Canal do Panamá (ACP) no tocante aos elevados custos adicionais nas obras de ampliação do maior projeto de engenharia do século 21 deixou evidente a importância de se ter planos de gestão de riscos na hora de lidar com megacontratos desse tipo, onde estão em jogo desde a geopolítica até dificuldades financeiras,  passando ainda por implicações sociais e legais.

A ampliação do Canal do Panamá consiste na construção  de uma terceira via que permitirá a passagem de embarcações com até 12.600 contêineres, praticamente triplicando a capacidade atual. O consórcio, formado pela Sacyr, a italiana Impregilo, a belga Jan de Nul e a panamenha Constructora Urbana (CUSA), venceu em 2009 a licitação para a construção do terceiro conjunto de eclusas com um lance de US$ 3,118 bilhões, dos quais a ACP declarou ter pago US$ 2,831 bilhões, US$ 784 milhões em antecipações reembolsáveis, além de pelo menos  US$ 160 milhões em custos extras.

A crise se deve ao fato de que o consórcio alega ter ficado sem fluxo de caixa devido aos custos elevados da obra — que somam mais de US$ 1,6 bilhão — em razão de problemas geológicos não detectados. A ACP recusa-se a aceitá-los porque os considera "desproporcionais e infundados". No último dia 4 de fevereiro, venceu o prazo proposto pelas partes para que se chegasse a um acordo que impedisse a suspensão da construção do terceiro conjunto de eclusas. As obras foram suspensas pela empreiteira devido à falta de fundos, embora antes do fechamento desta edição tenha se anunciado um princípio de acordo para a retomada das obras. Isto não impedirá, entretanto, atrasos no projeto, já que ele deveria estar pronto em outubro de 2014. Contudo, já antes da crise, o consórcio havia advertido de que sua conclusão seria adiada para junho de 2015.

A inexistência de um plano que previsse situações desse tipo tem não só consequências negativas para a reputação das empresas envolvidas, como tem também um impacto econômico significativo tanto nas contas das empresas como, no caso da Sacyr, no seu desempenho na bolsa. A companhia espanhola acumula até esta altura do ano uma valorização de suas ações de cerca de 7%, porém houve pregões ao longo do conflito em que ela sofreu perdas de cerca de 10% do seu valor em bolsa.

"Acho espantoso que se tenha castigado tanto a Sacyr pelo projeto do Canal do Panamá, já que não conheço nenhum megaprojeto em que não haja desvios do orçamento previsto", observa Manuel Romera, diretor do setor financeiro da Escola de Negócios IE. Romera diz que a Sacyr foi criticada por causa de um desvio de 1,2 bilhão de euros, ou US$ 1,6 bilhão, num projeto de 2,3 bilhões de euros, ao passo que o Eurotúnel sob o Canal da Mancha foi licitado por 5,8 bilhões de euros porém seu custo final foi 18,3 bilhões de euros. Na ocasião,"a imprensa local apoiou a realização do projeto pelo consórcio anglo-francês", diz. Já no caso do Canal do Panamá, a imprensa internacional culpa o consórcio responsável pela construção da obra dizendo que ele venceu a licitação com um lance muito inferior ao da concorrência e que os custos não foram calculados como deveriam ter sido. A Autoridade do Canal tampouco ficou isenta de críticas, tanto no que diz respeito à escolha da construtora quanto da gestão econômica do projeto.

Os especialistas consultados são unânimes em afirmar que o desvio no orçamento, assim como qualquer outro tipo de contingência, deveria ter sido previsto antecipadamente, tanto por parte do governo panamenho quanto do consórcio.

Oriol Iglesias, professor de marketing da Esade, assinala que "no momento de se propor um projeto de grande envergadura no exterior, seria imprescindível que houvesse sempre um estudo detalhado do contexto do país onde se planeja o investimento, para que se saiba quais os possíveis fatores de risco e o que se deveria levar em conta no processo de planejamento da estratégia". É o que pensa também Eugenio Belinchón, professor de gestão de riscos empresariais da Cunef (Espanha) e Los Andes (Colômbia). Para ele, as empresas "devem ter um modelo que permita identificar, analisar e planejar os riscos dentro do projeto, de modo que sejam levados em conta na hora de se tomarem decisões". Além disso, Belinchón acrescenta que é muito importante que o sistema "esteja ativo ao longo de todo o projeto", de modo que possa ser revisado à medida que a obra evolui sendo atualizado sempre que forem detectados novos riscos ou possíveis problemas.

Manuel Romera enfatiza a ideia de que a premissa na hora de lidar com esses megacontratos — para que não haja riscos — consiste em "tentar trabalhar com a melhor previsão possível, mas não com o objetivo de conseguir o projeto, e sim com o objetivo de torná-lo rentável e viável". A partir disso, pode-se começar a analisar os futuros obstáculos que podem aparecer pelo caminho.

Plano de contingência

Contudo, como são elaborados os planos de gestão de contingência? Oriol Iglesias explica que os diferentes fatores que, em geral, são levados em consideração na hora de se avaliarem os riscos do contexto são políticos, e dizem respeito à situação política do país e à abertura democrática existente; são também econômico-financeiros e estão relacionados com o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), com a inflação ou com a taxa de desemprego, bem como com a previsão da tendência futura desses indicadores; são ainda sociais, porque deve ser levado em conta o nível socioeconômico do país, os níveis de formação da população, bem como a existência, ou não, de tensões sociais; são legais, porque é preciso considerar também as particularidades legislativas do país, as quais poderiam ter um forte impacto na obra e em futuras iniciativas legais que poderiam afetar o projeto.

Iglesias, professor da Esade, acrescenta que não basta analisar os aspectos possivelmente conflitantes. É preciso saber também de que modo enfrentar os principais riscos caso surjam. "Ter um plano de ação bem definido previamente ajuda a gerir os imprevistos, já que ele dispõe de uma rota que permite reduzir o tempo necessário para reagir e tomar decisões operacionais", diz Iglesias.

Eugenio Belinchón vê a situação de um plano mais abrangente e diz que os modelos de gestão de contingências "devem levar em consideração  todos os tipos de riscos possíveis e que podem afetar tanto a consecução técnica quanto a rentabilidade ou a reputação". Para ele, há alguns aspectos fundamentais  que precisam ser levado em conta. Por exemplo: "É preciso identificar quais são as partes que têm algum envolvimento com o projeto (empresas, comum etc.), bem como os interesses e objetivos de cada um". Para Belinchón, os planos de ação a serem definidos devem levar em conta aspectos como os custos a serem assumidos nos casos em que se produzam alguns dos cenários adversos previstos.

Seguros e cauções

Exatamente para tentar limitar ao máximo o impacto econômico, pode-se recorrer a diferentes fórmulas, como a contratação de seguros. Manuel Romera explica, por exemplo, que "o risco político é coberto pelas chamadas ECAS (agências de crédito à exportação, na sigla em inglês), como a Cesce espanhola ou a Coface francesa". Eugenio Belinchón acrescenta que "essas instituições, originalmente vinculadas aos governos dos respectivos países, emitem créditos, seguros e garantias para operações no exterior e grandes projetos".

Além disso, pode-se contratar outra série de garantias, como as cauções, "que são necessárias, mas que quase nunca cobrem todos os riscos do projeto", já que foram criadas mais para contingências financeiras e de câmbio, como a desvalorização de uma moeda, conforme explica o especialista da Escola de Negócios IE. No caso do Canal do Panamá, por exemplo, há uma caução de 295 milhões de euros, ou cerca de US$ 400 milhões, depositada através da seguradora Zurich, e que tinha como propósito original um imprevisto financeiro. Contudo, esse valor está longe de compensar os cerca de US$ 1,6 bilhão de desvio no orçamento.

"Cada setor tem uma exposição ao risco que terá de cobrir mediante um programa adaptado de seguros", observa Thierry Planet, diretor da área internacional da corretora March JLT. O setor que mais necessita de cobertura na América Latina atualmente, sem dúvida alguma, é o setor de construção. "As necessidades no segmento são tanto de capacidade quanto de cobertura. Alguns projetos de infraestrutura realizados em países como o Peru, Colômbia e Brasil exigem investimentos que superam US$ 1 bilhão, o que implica recorrer a seguradoras de grande porte, assim como ao mercado internacional de resseguro sem violar as disposições legais de risco do país que, por vezes, dificultam o projeto e a introdução de um programa de seguros", explica Planet.

De acordo com esse especialista, ter uma apólice que cubra qualquer imprevisto nesse tipo de megaprojeto nem sempre é fácil: "Para as empresas espanholas que investem na América Latina, a dificuldade consiste em combinar uma boa cobertura de risco com o cumprimento da legislação local." Alguns países, como o Brasil, exigem que o risco seja coberto por empresas de seguros legalmente constituídas no país. Contudo, essas mesmas seguradoras, por vezes, não podem outorgar as coberturas necessárias devido às características do projeto ou à soma elevada a ser segurada. "É um caso que suscita inúmeros problemas, e cuja solução passa por elaborações complexas que devem se manter no âmbito de um marco legal muitas vezes extremamente restritivo. Na hora de implementar um programa internacional de seguros com riscos na América Latina, a regulação é, sem dúvida, o obstáculo mais difícil com que lidar. Todavia, a dificuldade pode variar de acordo com o país. O Chile e o Peru, por exemplo, são países menos restritivos do que o Brasil."

Implicação governamental

Em algumas ocasiões, em se tratando de grandes contratos, conforme ocorre habitualmente no âmbito das infraestruturas, são os governos que apoiam as empresas do seu país para que vençam a licitação, assumindo assim parte dos riscos, já que podem oferecer garantias, inclusive econômicas, para que uma empresa vença uma licitação. Uma vantagem é que se houver uma contingência severa que possa pôr em risco o projeto, o governo de plantão pode se constituir como intermediário e negociar com a administração pública local que licitou o contrato. Por exemplo, no caso da Sacyr, representantes do Ministério de Obras Públicas da Espanha, incluída aí a própria titular da carteira, Ana Pastor, intervieram em algumas das reuniões entre a Autoridade do Canal do Panamá e o consórcio encarregado das obras de ampliação na tentativa de fazer a mediação entre as empresas privadas e o governo de Ricardo Martinelli. Além disso, o governo de Mariano Rajoy financiou a Sacyr em 160 milhões de euros, ou US$ 220 milhões, através da Companhia Espanhola de Seguros de Crédito à Exportação (Cesce).

"Sem dúvida, nesse tipo de projeto, em que há inúmeras partes envolvidas (stakeholders), são os governos e as grandes instituições que, de algum modo, representam as partes do conflito. Seja por interesses econômicos ou políticos, ou pelo simples impacto na reputação e na imagem do referido país, é extremamente recomendável e desejável que eles tomem parte da resolução do conflito como partes afetadas", observa o professor da Cunef. Para Romera, a administração pública não participa apenas quando há um problema, mas, em geral, "é normal que os governos participem de maneira ativa dessas operações, tanto para a obtenção da ordem para o desenvolvimento das operações".

Na hora de gerir os riscos de um projeto, é comum levar em conta a possibilidade  de que um conflito possa ter mais de uma ramificação e muitos desdobramentos que vão além das negociações, por exemplo, de um simples desvio de orçamento e que, portanto, há diferentes formas de lidar com os obstáculos. "A existência de órgãos de arbitragem integra as possíveis soluções em face de uma situação de conflito, embora terceiros envolvidos em grandes projetos prefiram um sistema complexo de cláusulas contratuais que dê cobertura total a qualquer evento que impacte seus respectivos interesses. Essas cláusulas podem ser desde exigências típicas de prazos e qualidade dos eventos dos projetos até a obrigação de manter um rating financeiro enquanto se executa o projeto", explica Belinchón. No caso da Sacyr, por exemplo, além das negociações para garantir a continuidade das obras de ampliação do Canal do Panamá iniciou-se, paralelamente, uma arbitragem para reembolso de custos adicionais, o que pode estar solucionado em junho deste ano.

Sejam quais forem as fórmulas que cada empresa escolha para gerir seus riscos, os especialistas são unânimes em ressaltar a importância de se ter um plano para contingências desse tipo, principalmente em se tratando de grandes projetos. Não é uma questão apenas de contratar um ou vários seguros que cubram dificuldades financeiras pontuais. Para Oriol Iglesias, da Esade, "é evidente que um dos riscos mais importantes diz respeito ao impacto que o abandono ou a perda de um investimento possa ter sobre a reputação da empresa. A marca e a imagem são, certamente, o ativo mais importante de qualquer empresa, porque dizem respeito à confiança que são capazes de instilar em seus clientes ou investidores. Se essa confiança se rompe, então a capacidade futura da empresa de atrair clientes e investidores também será afetada".

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"O conflito entre a Sacyr e o Canal do Panamá: a importância da gestão de riscos." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [05 March, 2014]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-conflito-entre-a-sacyr-e-o-canal-do-panama-a-importancia-da-gestao-de-riscos/>

APA

O conflito entre a Sacyr e o Canal do Panamá: a importância da gestão de riscos. Universia Knowledge@Wharton (2014, March 05). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-conflito-entre-a-sacyr-e-o-canal-do-panama-a-importancia-da-gestao-de-riscos/

Chicago

"O conflito entre a Sacyr e o Canal do Panamá: a importância da gestão de riscos" Universia Knowledge@Wharton, [March 05, 2014].
Accessed [March 24, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-conflito-entre-a-sacyr-e-o-canal-do-panama-a-importancia-da-gestao-de-riscos/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far