O crescimento vertiginoso das redes sociais na América Latina

Quando estourou no início do ano o conflito entre a presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner e o setor agrário por causa da cobrança de impostos sobre as exportações, surgiram grupos de apoio e de oposição à primeira mandatária do país no Facebook, uma das redes sociais mais populares do mundo. Com declarações do tipo “Odeio Cristina” ou “Cristina, estou com você”, a Web 2.0 permitiu às pessoas discutir o assunto e se expressar sem censura.

 

As redes sociais já somam mais de 230 milhões de usuários em todo o mundo. Na América Latina, espera-se um grande crescimento para 2008, devendo atingir 12% de todos os usuários no mundo inteiro, conforme dados da Internet World Stats, site de estatísticas internacionais. Já os dados da consultoria online comScore revelaram em março quantos são os usuários da Internet nos cinco principais países da região: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México, num total de mais 47,5 milhões. Se somarmos a esse número os usuários de Internet de Porto Rico e os hispânicos dos EUA, o total de hispanofalantes será superior a 67,5 milhões.

 

Christian D. Doyle, professor de tecnologias da informação da Universidade Austral, na Argentina, explica que “o objetivo principal das redes sociais virtuais é o de agrupar indivíduos com necessidades semelhantes, sejam elas profissionais, sentimentais, sociais, lúdicas etc. Em outras palavras, tudo depende da rede da qual o indivíduo participa. Portanto, de forma gratuita e bastante econômica, as redes ajudam seus membros a conseguir o que procuram ou aquilo que desejam”.

 

O que aconteceu a Cristina Kirchner não é novidade alguma, tampouco o fato de que sua filha Florencia tenha um Fotolog com todas as imagens de sua vida social. Até o candidato à presidência dos EUA, Barack Obama, tem seu perfil no Facebook, tendo se esforçado bastante para difundir sua mensagem pela Internet. Essa parece ser uma das vantagens do futuro da Internet, já que os políticos argentinos, de olho nas próximas campanhas para o legislativo em 2009, certamente colocarão seu perfil nas redes sociais. Para isso, já estão contratando jornalistas especializados no assunto.

 

Martín Becerra, professor da Universidade de Quilmes e pesquisador do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), da Argentina, salienta que “os políticos utilizam essa ferramenta como forma de afinidade seletiva, isto é, terceirizam a capacidade de relação e obtêm acesso mais fácil a outros perfis, como os dos jovens”.

 

A rede social Sonico, nascida na Argentina com o propósito de se espalhar pela América Latina, Portugal e Espanha, conecta mais de 26 milhões de usuários. Tomás O’Farrel, sócio e CMO [diretor de marketing] da empresa, explica que “a equipe responsável pela Sonico está convencida de que faz falta uma rede exclusiva de cultura latina que atenda aos hábitos característicos de seus membros na Web. A particularidade do nosso público é que ele utiliza a Sonico como suporte online de sua vida fora da Internet. Os amigos que têm em suas contas são em sua imensa maioria os mesmos do dia-a-dia. Em outras palavras, são amigos reais, e não o resultado de uma acumulação de contatos”.

 

É o que pensa também o professor Becerra: “Embora nós, latinos, tenhamos a tendência de nos encontrarmos pessoalmente, nós argentinos, somos os que mais usam essa forma de comunicação, porque gostamos de manter contato. Portanto, as redes sociais complementam nosso estilo de socialização. É pela Internet que marcamos nossos encontros pessoais como, por exemplo, a ida a um recital”.

 

Contudo, Becerra chama a atenção para um efeito negativo das comunidades virtuais: “Trata-se de uma concepção hipergenerosa e exagerada do conceito de amizade. Acho que escrever em uma semana a 500 contatos é o bastante para não se fazer outra coisa. É impossível.”

 

Uma das tendências no âmbito das comunidades virtuais é a especialização ou a caracterização por temas, como nas comunidades que agrupam pessoas que compartilham iniciativas solidárias. Contudo, as que crescem a um ritmo acelerado são as que agregam profissionais, como a Linkedin, criada há 5 anos. “Na minha opinião”, disse Doyle, “o maior efeito ou resultado positivo de uma rede que agrega contatos profissionais é a oferta de emprego e de projetos. O meio permite que as pessoas se associem independentemente da cidade ou do país onde vivem; possibilita o desenvolvimento de novas idéias de negócios e também a geração de empregos virtuais ou à distância. Creio que esse tipo de rede está mudando a estrutura da relação de trabalho de uma forma extremamente positiva”.

 

No caso da Sonico, “trata-se de uma rede vertical, também muito útil como ferramenta de trabalho. Estamos trabalhando para que todos os usuários possam segmentar seu perfil entre contatos ‘de trabalho’ e contatos ‘pessoais’”, afirma O’Farrel.

 

Sobre a rentabilidade

Além de utilizadas como meio de contato, as redes sociais mais conhecidas como Facebook, MySpace, Hi5, Orkut e outras, procuram um meio de ser rentáveis. Doyle, da Universidade Austral, diz que “quanto mais membros estiverem vinculados a uma rede, e quanto maior o número de dados agregados, tanto maior a possibilidade de se obter um faturamento interessante, principalmente através da venda de espaço publicitário (banners, pop-ups etc.). Talvez isso aborreça alguns usuários, sobretudo os que preferem navegar ou interagir tranqüilamente e não gostam de ser ‘molestados’ pela publicidade; talvez agrade a outros, já que toparão com ofertas interessantes. Tudo depende da pessoa”.

 

Dependendo da fonte de pesquisa, as receitas mundiais com publicidade na Internet ficarão entre 50 e 80 bilhões de dólares ao ano em 2010. A possibilidade de segmentar a comunidade por idade, sexo e localização, entre outras opções, faz com que as redes sociais sejam um grande atrativo para os anunciantes e para as agências de publicidade. Até o momento, as estratégias mais utilizadas são a publicidade online, as recargas online de celular, os serviços de valor agregado (criação de álbuns personalizados e solicitação de impressão) e serviços móveis (alerta de aniversário via SMS, presentes virtuais etc.).

 

Seja como for, o circuito econômico da Internet está em fase de adaptação e não são todas as empresas que o vêem como negócio. Doyle diz que “falta muito ainda para que as empresas se adaptem em grande parte, ou totalmente, a esse mercado. Muitas multinacionais já o estão fazendo. A Nike, por exemplo, já reservou 70% de sua verba com publicidade para a Internet”. Nesse sentido, acrescenta Doyle, “já se percebe uma tendência liderada pelas grandes empresas. O fato, porém, é que falta muito para que isso se concretize, principalmente aqui na Argentina, onde um grande número de empresas continua a encarar a Internet como um mercado de bugigangas muito básicas, minimizando a importância que ela realmente tem, e a que terá”.

 

A experiência da Sonico, explica O’Farrel, mostra que “as empresas e agências estão descobrindo aos poucos o potencial e a generosidade das redes sociais como meio e canal de contato com seu público. Este ano assistiremos a grandes avanços nesse campo”.

 

Guillermo Riera, diretor da We Media Buenos Aires — evento organizado com o objetivo de analisar novas formas de comunicação — acrescenta outra característica da publicidade online: “Algumas empresas conseguiram dar a ela um uso inteligente, adequando os anúncios ao perfil do usuário ou aos seus interesses. Isto acrescenta um benefício a mais ao usuário, já que poderá encontrar nos anúncios uma ferramenta a mais para a realização de suas tarefas.”

 

Por outro lado, muitas redes sociais receberam apoio econômico de investidores privados que apostam no futuro promissor dessa nova forma de comunicação. O MySpace foi comprado em 2005 pela News Corp. por 580 milhões de dólares. Em 2007, 1,6% do Facebook foi comprado pela Microsoft por 240 milhões.

 

A ponta do iceberg

Depois do e-mail, do bate-papo, do fotolog, do blog pessoal, entre outras ferramentas de comunicação virtual, as redes sociais aparecem como uma nova forma de interação planetária. Essas “janelas para o mundo” permitem que uma pessoa possa comunicar tudo o que deseja sobre sua vida e exibi-la no ciberespaço.

 

De acordo com Guillermo Riera, essa é apenas a ponta do iceberg: “Pela primeira vez na história da humanidade, qualquer um de nós pode se comunicar de várias formas. Trata-se de uma mudança histórica, porque agora são inúmeras as fontes de informação (de qualidade variada, é claro) e vários os leitores que podem também produzir informação.”

 

“Eu faria uma analogia com os velhos clubes sociais em que os homens, por exemplo, se reuniam com a desculpa de jogar tênis. Hoje, essa socialização ocorre em nível mundial e não se limita mais a um sexo ou a uma classe social”, diz Becerra. Para ele, é preciso integrar outras camadas da população às redes, já que “nem todos os setores sociais têm acesso à Internet. Com o tempo, porém, a penetração da Web será maior, por isso o potencial de crescimento das redes sociais é muito grande”. Só para se ter uma idéia, a penetração da Internet na Argentina atinge apenas 22% da população.

 

A tendência é de que, no futuro próximo, as comunidades do tipo horizontal dêem lugar às do tipo vertical (mais específicas e segmentadas). “A Sonico se insere no segundo grupo, já que se dirige a usuários hispanofalantes e procura atender seus costumes”, diz O’Farrel.

 

Para Doyle, “o futuro das redes sociais é promissor. Na verdade, elas estão em constante expansão. Creio que nos próximos anos assistiremos ao nascimento de novos núcleos de socialização virtual com ênfase na diversidade e congregando indivíduos em seu interior. Estamos diante de uma verdadeira revolução tecnológico-social como nunca antes se viu na raça humana […] e olhe que ainda não vimos nada”.

 

O diretor da We Media pensa como Doyle e diz que até alguns anos atrás “ninguém imaginava algo parecido com o Facebook, Linkedin ou YouTube. Hoje, parece a coisa mais natural que existam. O certo é que o número de usuários das redes sociais na região continua aumentando. Nos países do primeiro mundo, o crescimento parece ter diminuído um pouco, mas a utilização continua intensa. Não sabemos se continuarão a ser o que são hoje, ou se elas se transformarão em outra coisa. O certo é que as   novas ferramentas tecnológicas abriram uma porta de comunicação a mais entre as pessoas de uma forma extremamente interessante e com um potencial inimaginável”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O crescimento vertiginoso das redes sociais na América Latina." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 October, 2008]. Web. [09 March, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-crescimento-vertiginoso-das-redes-sociais-na-america-latina/>

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"O crescimento vertiginoso das redes sociais na América Latina" Universia Knowledge@Wharton, [October 29, 2008].
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