O desafio de Nadella é “reinventar a produtividade” e a Microsoft

Satya Nadella, CEO da Microsoft, chegará no próximo dia 4 de agosto ao sexto mês à frente da empresa e, até o momento, muitos observadores lhe deram notas altas pela comunicação da estratégia da companhia, por imprimir sua marca na gigante do software e pôr em marcha um esforço de reestruturação muito bem recebido. A parte mais difícil, porém, consistirá em executar e definir especificamente os objetivos mais abrangentes da Microsoft: “Ser uma empresa de produtividade e de plataforma para um mundo essencialmente móvel e que opera na nuvem”, disse Nadella em um memorando de 3.200 palavras dirigido aos funcionários da companhia.

O memorando foi divulgado no momento em que a empresa anunciava que planejava cortar 18.000 postos de trabalho — cerca de 14% da sua força de trabalho — no decorrer de 2015. A maior parte dos cortes a serem efetuados pela Microsoft, empresa com sede em Redmond, estado de Washington, é decorrência da integração com o negócio de celulares da Nokia, comprada em abril. “Nadella tem amplos poderes e tem condições de comandar a mudança”, observa David Hsu, professor de administração da Wharton. “Ele criou uma estratégia e se concentrou depois na eficiência operacional.”

No memorando enviado aos empregados da empresa em dez de julho, Nadella estabeleceu uma direção para a Microsoft, delineando a perspectiva tecnológica da empresa e diferenciando sua estratégia da que fora estabelecida por seu antecessor, Steve Ballmer. Nadella, que veio das fileiras da empresa, onde ingressou em 1992, assumiu a direção executiva da companhia em 4 de fevereiro. Foi ele o responsável, antes disso, pelos esforços da Microsoft no segmento de nuvem, bem como na divisão de servidores e ferramentas, o mais rentável da empresa.

Para Nadella, a Microsoft é uma empresa que vai além do Windows e do PC. Afinal de contas, ela pôs o Office, sua suíte processadora de texto, no iOS e no iPad da Apple, e planeja criar versões do seu software de produtividade para o Android. Essas versões serão disponibilizadas antes da criação de tablets e celulares com uma versão do Office para Windows.

Nadella disse ainda que a visão histórica da Microsoft de colocar um PC em cada mesa deixará de ser válida no futuro. “Dispositivos e serviços” era o mantra de Ballmer, o que foi “útil para começar nossa transformação”, mas não bastou para diferenciar a empresa da concorrência, observou Nadella.

“Reinventaremos a produtividade para permitir que todos, e todas as empresas do planeta, façam mais e alcancem melhores resultados”, disse Nadella. “Pensamos em produtividade para pessoas, equipes e processos empresariais de organizações por inteiro em que haverá um único substrato digital interconectado. Pensamos também em plataformas interconectadas para indivíduos, TI e desenvolvedores.”

Se a Microsoft quiser preservar seu status de empresa essencial no setor de tecnologia, terá de voltar sua atenção para a nuvem e o segmento móvel, avalia Lawrence Hrebiniak, professor emérito de administração da Wharton. Contudo, embora a Microsoft tenha dominado o mercado de PC com o Windows e outros softwares, a empresa “não lidera o setor móvel e a nuvem”, observa o professor. “Trata-se de um mercado difícil para quem chega atrasado e tem de enfrentar a concorrência da IBM, Apple, Google e Amazon.”

Nadella acrescentou em seu memorando que a plataforma de videogame Xbox é importante para a empresa, embora não se encaixe muito bem na estratégia de ênfase à produtividade. “Como empresa de grande porte, creio que é fundamental definir nosso negócio principal, mas é importante fazer escolhas inteligentes nos outros negócios nos quais podemos ter um impacto e um sucesso importantes”, disse. “A categoria mais decisiva da vida digital num mundo decisivamente móvel, segundo os parâmetros de tempo e dinheiro gastos, são os jogos. Sentimo-nos felizes de ter o Xbox na família Microsoft e de explorar essa oportunidade movidos pela ousadia de uma inovação muito especial.”

Redução de escala

Além das demissões anunciadas em 17 de julho — que incluem 12.500 posições associadas a Nokia — a Microsoft planeja também diminuir a escala de suas operações na China e transferir sua fabricação para o Vietnã, onde os custos são mais baratos. Um operário de fábrica em Hanói ganha US$ 145 por mês, ante US$ 466 em Pequim, de acordo com a Organização de comércio Exterior do Japão (JETRO).

Contudo, Hsu diz que os outros cerca de 6.000 empregados da Microsoft afetados pela reestruturação — gerentes, engenheiros e trabalhadores diretos — talvez sejam mais importantes para a forma como a empresa opera. Ballmer tinha mais camadas de administração, ao passo que Nadella está revertendo essa estrutura para deixar a Microsoft mais ágil, observa Hsu. “As equipes da Microsoft devem descobrir formas de simplificar as coisas e de se mover mais depressa, de maneira mais eficiente”, escreveu Nadella em seu memorando. “Aumentaremos a fluidez da informação e das ideias tomando medidas para achatar a empresa e criar processos de negócios mais enxutos.”

Em uma entrevista na semana passada ao programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio transmitido pela SiriusXM, Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, disse que Nadella imprimiu uma marca própria na empresa, uma vez que ela foi dirigida anteriormente por seus dois fundadores, Bill Gates e Ballmer. Disse ainda que Nadella passou por um período de lua de mel, mas que agora enfrenta “desafios realmente importantes” com os quais terá de lidar.

Analistas de Wall Street reagiram à reestruturação de Nadella, maior do que a esperada. “A pecha de ‘funcionário de carreira’ que boa parte da imprensa pôs em Nadella naturalmente subestimava sua disposição em imprimir uma marca própria na Microsoft, conforme mostra sua carta aos empregados da empresa”, disse em uma nota de pesquisa Kirk Materne, analista da Evercore.

Daniel Ives, analista da FBR, escreveu em uma nota de pesquisa que Nadella está revelando, em parte, que a aquisição da Nokia talvez não tenha sido uma decisão muito sábia. “Embora os cortes sejam dolorosos para os funcionários, eles são necessários, em nossa opinião, e apontam para a tentativa de Nadella de limpar parte da confusão que Ballmer deixou para trás em Redmond”, disse Ives, que no programa da Wharton comparou as decisões de Nadella à criação de um novo começo depois de dez anos de reinado de Ballmer.

À espera de detalhes

“Talvez tudo se resuma à produtividade e plataforma,” diz Hsu. “O desafio  de Nadella consistirá em comunicar o que significam exatamente produtividade e plataforma e alinhar a empresa a elas. Ele terá de ser muito mais específico. No momento, tudo o que ele em é uma visão panorâmica.”

Hrebiniak acrescenta que se Nadella não for mais específico rapidamente, deixando claro o que significa ênfase na produtividade e nas plataformas dos vários produtos da Microsoft, Wall Street não tardará em ficar impaciente. Além disso, os empregados da empresa precisam de mais detalhes sobre a mudança que ocorrerá em seu trabalho e seus processos sob o novo regime.

Em seu memorando, Nadella prometeu que a Microsoft “modernizará [seus] processos de engenharia para que se tornem obcecados pelo cliente, impulsionados por dados e com foco na qualidade”. Esse objetivo “parece maravilhoso”, assinala Hrebiniak, e se distancia da antiga Microsoft, porém introduzir mudanças desse tipo não será nada fácil. “Contudo, ele está dizendo as coisas certas”, observa Hrebiniak. “Nadella terá de apresentar detalhes mais específicos rapidamente. Preciso saber mais. Sua afirmação básica é muito genérica.”

Werbach disse durante o programa da Knowledge@Wharton que Nadella talvez tenha dificuldade em comunicar sua visão, ressaltando que em uma empresa com mais de 100.000 funcionários, é difícil ter visibilidade e influência.

Na conference call de 22 de julho, em que a Microsoft divulgou os lucros do quarto trimestre fiscal da empresa, Nadella deu um pouco mais de detalhes sobre como a ênfase da empresa na produtividade e em plataformas impulsionaria investimentos futuros. “Mobilidade para nós vai além dos aparelhos apenas. Embora estejamos preocupados em produzir celulares e tablets de excelente qualidade, cremos que a mobilidade seja algo mais amplo”, disse Nadella. “Cremos que a oportunidade […] virá da experiência que tivermos com a produtividade observada em aparelhos com Windows, iOS e Android.”

Com relação às plataformas, Nadella disse que a Microsoft vê seu software como um sistema que opera na nuvem e que pode ser usado para gerir centros de dados ou pode ser disponibilizado como serviço. “Temos um objetivo específico para vários aplicativos da Microsoft que estarão disponíveis nas telas de todos os lares”, disse ele, acrescentando que a empresa “deixará muito claro o que pretende em relação a seus negócios essenciais” que dão suporte à missão da empresa e que tomará decisões difíceis em relação a investimentos futuros.

Desafios culturais pela frente?

O principal desafio para Nadella, disse Werbach, consiste em estruturar uma mensagem de caráter geral, e em seguida disseminá-la por todas as partes da empresa, de modo que sirva de estopim para o seu crescimento. “A Microsoft não é uma empresa fácil; é difícil chegar ao topo, ficar lá e ser bem aceito”, disse Werbach. “Internamente, Nadella tem uma reputação sólida. Os empregados são a comunidade que ele precisa convencer.”

Para competir de fato com empresas do porte da Apple e do Google, Nadella terá de simplificar e reestruturar a Microsoft para deixá-la mais enxuta e mais eficiente, diz Hrebiniak. O CEO da Microsoft terá também de responder a várias perguntas. “O que significa exatamente modernizar a engenharia? Como é que se inova?”, observa Hrebiniak.

Enquanto isso, os empregados da Microsoft enfrentarão uma certa insegurança em relação ao futuro próximo. “Os 5.500 demitidos na esfera administrativa da Microsoft é onde está a incerteza”, diz Hsu, acrescentando que Nadella terá de fortalecer o moral dos funcionários que permanecerem na empresa depois dos cortes. Uma vez concluídas as demissões, e definida a estrutura da nova empresa, a Microsoft terá de mostrar a seus empregados “como a produtividade e a plataforma [enquanto estratégia] criarão um diferencial em relação ao que a empresa foi anteriormente”, observa Hsu. “É claro que as coisas não acontecerão mais como antes, mas toda vez que você está mudando uma estratégia, haverá quem imagine se você não mudará novamente de estratégia daqui a um certo tempo.”

Outro item da lista de tarefas de Nadella consiste em elaborar um plano para ganhar terreno no setor móvel. “A Microsoft entrará sem problemas na nuvem, mas ela não é muito forte no segmento móvel. A empresa não está acostumada a avançar num terreno já ocupado por outros”, diz Hrebiniak.

Werbach observou que a Microsoft está perdendo terreno para o Android e para a Apple e está, atualmente, num distante terceiro lugar. “A empresa tem de ser forte” no segmento móvel, disse Werbach, acrescentando que não se sabe ainda se a reorganização da linha de produção da Nokia com o objetivo de reduzi-la e torná-la mais objetiva poderá ajudar.

Um possível elemento de diferenciação da Microsoft consistiria em priorizar o futuro do segmento móvel, em vez de privilegiar o atual mercado de smartphones, disse Werbach. O iPhone da Apple foi lançado há sete anos apenas, disse, e o mercado de tablets amadureceu rapidamente. A Microsoft poderia se concentrar em itens de tecnologia que o consumidor poderia usar no corpo ou em uma categoria emergente. “Os desafios são grandes, mas existe também a possibilidade de se alcançar uma posição forte no futuro”, disse Werbach. “Não há como a Microsoft escapar disso.”

O papel do Xbox

Os principais pontos fortes da Microsoft — um negócio empresarial forte e uma plataforma de nuvem em rápido crescimento (Azure) — mostram de que maneira os negócios de modo geral podem funcionar. Contudo, Nadella terá também de ser disciplinado e libertar a Microsoft de ativos que podem não se conformar à estratégia de produtividade e de plataforma, observam os professores da Wharton. “Um problema maior talvez o fato de que a Microsoft trabalhe com um modelo antigo, tenha negócios como o Bing, chamada por vídeo e publicidade na Web. Algumas coisas terão de desaparecer”, observa Hrebiniak.

Apesar dos comentários de Nadella em seu memorando, Hrebiniak acredita que o Xbox talvez seja uma distração para a Microsoft. Ele acrescenta que ficou surpreso com o fato de que Nadella tenha defendido o papel do Xbox e o tenha incluído na estratégia de produtividade e de plataforma.

De acordo com Hrebiniak, o argumento de que as tecnologias do Xbox possam ser transferidas para outros produtos da Microsoft faz um certo sentido, mas a empresa poderia abrir mão de parte da divisão pondo-a sob os cuidados de uma administração independente e ainda assim conservar as conexões de tecnologia.

Para Werbach, porém, o Xbox é um item fundamental para que a Microsoft se torne um elemento dominante na sala de estar digital. “O Xbox é importante como ponta de lança para a sala de estar. É uma grande oportunidade, embora desafiadora e que requer um conjunto específico de habilidades. O Xbox representa para a Microsoft a oportunidade de um crescimento explosivo, mas não será nada fácil trabalhar esse segmento.”

Por fim, Nadella terá de criar um plano para o papel do Xbox na Microsoft e, possivelmente, desinvestir em ativos que não cabem em sua estratégia mais ampla. Uma coisa é certa: Nadella tem à sua disposição uma pilha enorme de dinheiro da Microsoft e um cargo para que faça mudanças. Werbach observou que a Microsoft chegou a uma encruzilhada: a empresa precisa encontrar meios para crescer e mudar o mundo, ou então estagnará. O atual desafio da Microsoft consiste em “se tornar um divisor de águas na indústria de tecnologia”, disse Werbach.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O desafio de Nadella é “reinventar a produtividade” e a Microsoft." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 August, 2014]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-desafio-de-nadella-e-reinventar-produtividade-e-microsoft/>

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O desafio de Nadella é “reinventar a produtividade” e a Microsoft. Universia Knowledge@Wharton (2014, August 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-desafio-de-nadella-e-reinventar-produtividade-e-microsoft/

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"O desafio de Nadella é “reinventar a produtividade” e a Microsoft" Universia Knowledge@Wharton, [August 04, 2014].
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One Comment So Far

antonio santos

Trilhar no caminho do crescimento e expansão hoje requer mas que produtos a trilha pode e deve ser focada nas veias do ouvir os sons externos e com estes afiar bem os internos…ai a musica começa a brotar como algo natural ao maestro..portanto ousa.ousa.e boa afinação para você. Sr. Nadella.