O efeito feedback: como os mercados financeiros afetam as decisões da “economia real”

As empresas vendem ações para conseguir dinheiro, portanto é evidente que elas queiram obter os preços mais elevados possíveis. Por que, então, deveriam se importar com o que acontece depois? No momento em que uma ação começa a ser negociada no mercado secundário ela muda de preço, mas isso não tem nenhum efeito direto sobre a empresa que a emitiu. O preço da ação pode chegar a zero no segundo dia de negociação, mas a empresa emissora continuará com o dinheiro levantado no dia anterior.

É claro que não é tão simples assim. Os executivos das empresas geralmente têm ações também, e querem que os preços subam. Eles podem até perder o emprego se os acionistas perderem dinheiro.

Mas há muito mais coisas além disso, conforme mostra um novo estudo de dois professores da Wharton e de um ex-colega da mesma instituição. O estudo, "Os efeitos reais dos mercados financeiros" [The Real Effects of Financial Markets] analisa as relações sutis entre o preço da ação, a saúde da empresa e as decisões tomadas por seus executivos e por outros agentes, como credores, investidores, diretores, empregados e órgãos reguladores. O estudo, que faz uma pesquisa sobre o assunto, constatou que os mercados financeiros, onde são negociados ações, títulos e outros valores mobiliários, desempenham um "papel de meio de informação" vital que afeta as decisões da "economia real" constituída pelas empresas.

Os autores, os professores Itay Goldstein e Alex Edmans, da Wharton, e Philip Bond, ex-professor da Wharton que hoje leciona na Escola de Administração da Universidade de Minnesota, tratam da seguinte questão: o mercado de ações seria simplesmente um show à parte ou será que ele afeta a atividade econômica real? "Cremos que os mercados financeiros não são um espetáculo secundário", disse Goldstein durante uma entrevista. "Pelo contrário, eles têm um papel extremamente importante na economia."

Os analistas de mercado sempre interpretaram o aumento e a queda do preço das ações de uma empresa como um medidor das expectativas do mercado sobre futuros fluxos de caixa da empresa. Contudo, o preço também pode refletir a aprovação ou desaprovação das decisões da administração, e pode, portanto, afetar as decisões tomadas, concluíram Goldstein e seus colegas.

Um gerente que entenda o papel desse feedback pode usar as reações do mercado numa negociação importante — por exemplo, numa fusão. "Você quer que o mercado lhe dê informações, quer saber se ele acredita que a fusão é uma boa ideia", disse Goldstein. O preço da ação, por exemplo, pode subir ou cair depois que uma determinada empresa revela que poderá abrir uma unidade em outro país. Se o preço cair, a administração da companhia concluirá que os investidores detectaram sinais de perigo que a administração não percebeu, o que poderá levá-la a desistir da ideia. Acompanhar o preço das ações pode ser uma forma de tirar proveito do conhecimento, das perspectivas e das análises mais abrangentes de milhares de investidores.

Compreender o processo de feedback que faz o contato do mercado com a empresa elucida também fenômenos que, do contrário, seriam difíceis de explicar, disse Goldstein. Um desses fenômenos é o chamado bear raid, em que os traders que vendem a descoberto apostam que o preço da ação de uma empresa cairá. O efeito de feedback pode contribuir para que isso se torne realidade: as vendas a descoberto aumentam a oferta de ações fazendo com que baixem de preço, desestimulando assim os credores de fornecer capital à empresa, enfraquecendo-a e baixando ainda mais os preços de suas ações. Portanto, quem vende a descoberto sai ganhando mesmo que a situação da empresa fosse muito boa inicialmente. (A venda a descoberto consiste na venda de ações emprestadas na esperança de pagar pelo empréstimo com ações compradas por um valor menor, lucrando no momento em que o preço cai).

Embora se espere do gerente de uma empresa que ele saiba mais sobre suas operações e perspectivas de negócios do que quem está do lado de fora, o fato é que ele nunca tem todas as informações — há pessoas do outro lado que sabem de coisas que o gerente ignora. O mercado, dizem os autores, "reúne informações de muitos especuladores que, coletivamente, estão mais informados' do que os gerentes.

Há também quem se beneficie do efeito de feedback porque não dispõe da informação privilegiada de que dispõem os gerentes, observam no estudo Goldstein e os demais autores. "As agências de classificação de crédito são sabidamente influenciadas pelos preços das ações, e suas decisões têm um efeito significativo sobre a disponibilidade de crédito para as empresas. Os órgãos reguladores, que tomam decisões que afetam o fluxo de caixa das empresas (sobretudo no caso dos bancos), acompanham de perto os preços do mercado […] De igual modo, empregados e clientes podem decidir trabalhar na empresa ou comprar seus produtos com base em informações que colhem no mercado."

Os gerentes cujos salários estão vinculados ao preço das ações através de bônus, opções de ações ou outros vínculos, tomarão suas decisões com base na possibilidade que elas têm de influenciar os preços das ações. Atrelar os salários aos preços das ações é uma forma de desencorajar os "efeitos negativos do agenciamento", em que um gerente coloca seus interesses pessoais à frente dos interesses dos acionistas.

"Os acionistas preferem resolver os problemas de agenciamento com o gerente da empresa atrelando seu salário ao preço das ações, porque acreditam que o preço delas contém informações sobre o valor da companhia", dizem os autores. "Se os preços das ações não trouxessem informação alguma, os acionistas não atrelariam os salários dos gerentes aos preços delas, que seriam então ignoradas por eles."

Traders irracionais

De acordo com a visão tradicional de eficiência do mercado, acredita-se que os investidores digiram todas as informações disponíveis sobre uma empresa e, através do movimento de influência e atração da oferta e da demanda, cheguem a um preço que reflita o verdadeiro valor da empresa. Contudo, as pesquisas mostram que várias forças podem interferir nesses processos. Goldstein e seus colegas citam diversos exemplos, como é o caso da "sobrevivência dos traders irracionais".

"Conforme a visão tradicional, os traders irracionais, que negociam com base em considerações não relacionadas com os indicadores da empresa, perderão dinheiro e, com isso, desaparecerão do mercado com o passar do tempo", dizem. Portanto, "os mercados serão ocupados somente por negociantes racionais. Desse modo, os preços serão mais eficientes, refletindo corretamente os indicadores das empresas".

Contudo, o processo de feedback permitirá que os traders irracionais sobrevivam, porque sua visão de negócios afeta efetivamente os fluxos de caixa das empresas e cria as condições para que se tornem realidade. Uma avalanche de perspectivas positivas entre os traders, mesmo que irracionais, pode aumentar os preços das ações ampliando a demanda, fazendo com que a empresa pareça mais saudável do que é incentivando assim decisões da administração que, do contrário, não seriam tomadas. Os traders irracionais podem, portanto, ganhar dinheiro, em vez de perder, e assim sobrevivem para negociar mais uma vez no dia seguinte. "Isso demonstra, mais uma vez, que as definições tradicionais de eficiência de mercado pouco valem quando se leva em conta o feedback dado pelos preços na tomada das decisões", observam os autores.

Outro exemplo: a corrida aos mercados financeiros. Isso ocorre quando os investidores vendem uma ação somente porque outros estão vendendo. Com isso, pode-se empurrar o preço de uma ação para baixo do nível exigido pelos indicadores — por exemplo, pelos ganhos. Isso não aconteceria num mercado de eficiência perfeita, porque os investidores baseariam suas decisões de compra e venda nos indicadores da empresa. Uma vez que o preço caia abaixo do nível apropriado, outros investidores veriam ai uma barganha e comprariam as ações. Essa demanda faria com que o preço se estabilizasse ou subisse, evitando a corrida ao mercado. Contudo, o efeito de feedback pode impulsionar a corrida ao desencorajar os credores, levando-os a não concederem empréstimos a uma determinada empresa, debilitando-a e estimulando um número maior de vendas.

Entender o processo de feedback também pode ajudar as empresas a fazer uma sintonia fina em suas estratégias de levantamento de capital, observam os autores. Uma empresa que queira maximizar o feedback dos mercados, de modo que possa direcionar melhor suas decisões, por exemplo, poderá optar por atrair capital através da emissão de ações, e não de títulos. Os preços dos títulos são menos sensíveis ao feedback, uma vez que a principal preocupação dos investidores consiste na capacidade da empresa de produzir os juros e o pagamento dos principais prometidos. Enquanto a empresa for saudável o bastante para isso, fatores como ganhos, o ambiente regulatório e as escolhas das empresas não terão tanta importância assim para os portadores de títulos. Todavia, todos esses fatores podem influenciar os preços das ações, portanto elas oferecem um melhor feedback.

Boa parte da pesquisa se debruça sobre a teoria do feedback, disse Goldstein, e dá exemplos claros disso. "O circuito do feedback serve para amplificar os choques, e foi isso que todos vimos na crise financeira", disse.

No entanto, ainda há muita pesquisa a ser feita, acrescentou. Poucos modelos financeiros dão conta completamente dos efeitos do feedback. Embora essa teoria pareça sólida, é difícil mensurar os resultados dela no mundo real, porque são inúmeros os fatores que obscurecem os dados. O preço de uma ação pode cair, por exemplo, simplesmente porque um fundo mútuo vendeu uma grande quantidade de ações para atender aos resgates de um investidor, uma mudança de preço que nada tem a ver com as informações que circulam pelo mercado. Se as informações circulassem ao mesmo tempo, seria muito difícil saber quanto cada fator teria influenciado o preço da ação.

Pesquisas futuras analisarão também de que modo as informações sobre os preços das ações podem ser usadas mais eficazmente por órgãos reguladores, credores, clientes e outros preocupados com a solidez de uma empresa, disse Goldstein. O estudo do feedback é só o primeiro passo. "Eu diria que ele foi negligenciado durante algum tempo, mas agora está ganhando força."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O efeito feedback: como os mercados financeiros afetam as decisões da “economia real”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 November, 2012]. Web. [21 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-efeito-feedback-como-os-mercados-financeiros-afetam-as-decisoes-da-economia-real/>

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