O escândalo da carne no Brasil: golpe mortal para o setor ou oportunidade para outros produtores da América Latina?

A economia e o setor empresarial brasileiros não vivem seu melhor momento. Enquanto as estruturas políticas do país continuam estremecidas com os casos de corrupção da Petrobrás e da Odebrecht, um novo escândalo ganhou as manchetes do mundo todo, mas desta vez no setor alimentício, com suas delicadas implicações para a saúde das pessoas.

No último mês de março, a polícia brasileira deflagrou uma operação conhecida como “carne fraca” e que afetou 20 frigoríficos do país. Entre as empresas investigadas estão a JBS e a BRF, dois dos maiores produtores de carne do mundo. As forças de segurança acusaram a mais de 100 pessoas, entre elas muitos inspetores sanitários que aceitaram subornos para permitir a venda de produtos em mau estado de conservação e a falsificação de documentos de exportação.

A operação da polícia federal, que contou com mais de 1.000 agentes, revelou que as empresas envolvidas usavam produtos químicos (alguns considerados cancerígenos) para dissimular o mau estado de conservação das carnes, em muitos casos carnes podres e em situação não propícia para o consumo humano. As empresas pagavam aos funcionários públicos para que não as denunciassem e, em vários outros casos, para que estendessem a data de validade dos produtos que não haviam sido vendidos.

Golpe duro

As consequências pra o Brasil serão imediatas, conforme explica Juan Pablo Subercaseaux, professor do departamento de economia agrária da Universidade Católica do Chile. “O país sofrerá fortes prejuízos econômicos (de centenas de milhões de dólares) ao se ver impedido de exportar carne para seus mercados mais importantes, o que gerará um excesso de oferta no mercado interno provocando uma queda de preços no Brasil a curto prazo com impactos negativos para o setor”, disse.

Manuel Alvarado Ledesma, professor do mestrado em agronegócios da Universidade do CEMA, na Argentina, assinala que “a crise denegriu a imagem do Brasil, o maior exportador mundial de carne bovina e de frango, e o quarto de carne suína, e fez com perdesse mercado no mundo”. Para Ledesma, a magnitude do escândalo é de tal proporção que, até a presenta data, “é difícil mensurar o tamanho do prejuízo a curto prazo”.

Para se ter uma ideia da dimensão do impacto que pode ter o bloqueio das exportações de carne do país, Alvarado Ledesma ressalta que, em 2016, o Brasil exportou um total de US$ 4,344 bilhões de carne bovina e US$ 5,946 bilhões de carne de frango. “Essas exportações se encontram entre as dez principais fontes de receitas do país”, observa. Ao mesmo tempo, acrescentou que para preservar sua imagem, “redes internacionais famosas de fast food podem retirar os produtos brasileiros do seu cardápio”. Ele lembra ainda que não apenas o mercado externo será impactado: “O interno também ─ embora em grau muito menor ─ sofre o impacto da desconfiança em relação à carne. Do total de carnes produzidas pelo país, 80% se destina ao mercado interno.”

Fechamento de mercados

O escândalo ganhou dimensões internacionais porque o Brasil é um dos maiores exportadores de carne de mundo. Seus produtos chegam a 150 países, sendo a União Europeia e a Ásia seus principais mercados. O setor representa 7,2% das exportações do país, de acordo com dados do Ministério do Comércio Exterior.

As reações internacionais não se fizeram esperar. A União Europeia, China, Coreia do Sul, Hong Kong e Chile barraram a importação de carnes brasileiras. No total, calcula-se que mais de 20 mercados fecharam parcial ou totalmente suas portas aos produtos oriundos do Brasil. Enquanto isso, o Departamento de Agricultura dos EUA começa a analisar todas as importações de carne crua e produtos prontos para o consumo procedentes do Brasil.

Passadas algumas semanas, porém, e graças à gestão diplomática do governo brasileiro, alguns países como China e Hong Kong suspenderam o veto imposto à carne brasileira; outros, como a União Europeia, mantêm a proibição.

Subercaseaux acredita que o melhor que podem fazer as autoridades brasileiras para frear o possível impacto do escândalo consiste em ser o mais transparente possível, “separando os lugares onde o problema foi identificado (frigoríficos, matadouros, empresas), isolando assim as empresas que não estão envolvidas no escândalo e que hoje são tratadas da mesma forma que as investigadas”. Ele diz que ao separar e garantir o trabalho de parte importante da indústria da carne, diminui-se a discriminação que hoje faz o mercado internacional em relação à marca Brasil. “É preciso trabalhar a rastreabilidade da carne, inspirando confiança no consumidor, mandando a mensagem de que há boa parte da indústria sem problemas, empresas que realizam um bom trabalho e que não merecem ser punidas por algo que outros fizeram.”

Para Alvarado Ledesma, o problema é que o Brasil sofre uma crise generalizada de autoridade. “A confiança por parte da sociedade no governo é muito frágil. Se o poder político não for reestruturado com base na democracia, fica muito difícil atacar a praga da corrupção que afeta muitos setores, inclusive a indústria da carne”, diz. Por isso mesmo, ele sugere às autoridades que reforcem os controles sanitários e criem um órgão de auditoria supervisionado por inspetores oriundos não apenas do país, mas também de fora.

Os beneficiados

Mas, como em toda crise, há sempre um lado positivo ou alguém que vê a situação como oportunidade. É por isso que muitos se perguntam se o impacto sofrido pelo Brasil não seria benéfico para outros grandes produtores de carne do mundo, entre eles os países latino-americanos.

Subercaseaux acredita que os primeiros beneficiados serão, pelo menos a curto prazo, os produtores locais de carne de países importadores de produtos brasileiros, onde a oferta diminuirá. “Isso se traduzirá em aumentos momentâneos de preços que variarão de acordo com a especulação gerada pela notícia em cada país”, diz. Seja como for, Subercaseaux crê que as importações serão substituídas rapidamente por produtos de outros países (do Uruguai, por exemplo). As importações de carne brasileira voltarão a ser feitas na medida em que o país der a conhecer a procedência do produto e as empresas que não participaram da fraude, o que, segundo acredita o professor, permitirá que o setor volte aos preços anteriores à crise. “Esse é um problema muito pontual no tempo e não acarretará mudança de condições ou de preços a médio prazo”, prevê.

Carlos Steiger, professor do Centro de Agronegócios e de Alimentos da Universidade Austral da Argentina, admite que existe a possibilidade de que seu país possa aproveitar parte do enorme déficit provocado pela saída do Brasil do comércio de exportação. Contudo, ele ressalta que o país foi perdendo desde 2006 a participação nos mercados internacionais devido a políticas internas que criavam um conflito entre o consumo local e a exportação, portanto a possibilidade de tirar proveito do escândalo brasileiro é bastante limitada.

“A curto prazo, a Argentina só poderá aproveitar uma parte muito restrita do espaço deixado pelo Brasil pela insuficiência de oferta de exportação, embora o governo esteja sinalizando com a possibilidade de deixar funcionar livremente os mercados de rebanhos argentinos, o que poderia levar à recuperação das posições perdidas. Esse processo poderá levar tempo se pensarmos nos horizontes temporais dos ciclos de rebanhos, que são mais longos do que os agrícolas”, disse.

De acordo com Alvarado Ledesma, a curto prazo alguns países como Argentina e Uruguai poderiam se beneficiar das dificuldades brasileiras, embora acredite que o façam de forma limitada, exportando mais carne, mas nunca chegando a alcançar as toneladas exportadas pelo Brasil. Ele explica que isso acontece porque a disponibilidade imediata do produto para preencher o vazio gerado no mercado é muito limitado. Por outro lado, ele ressalta que os preços dos produtos desses países são superiores aos do Brasil, o que também seria um impedimento para que ocupassem um lugar no mercado.

Outro grande problema, segundo Alvarado Ledesma, é que a região compreendida pelo Mercosul fica sob suspeita. “Por isso, é muito importante que exportadores como Argentina, Paraguai e Uruguai se distanciem da imagem do Brasil perante o mundo. Nesse sentido, o marketing (além dos controles sanitários) deverá aumentar. O Uruguai (especialmente) e a Argentina têm um sistema de controle eficiente. No ano passado, por exemplo, a Argentina passou por inspeções dos EUA, China e União Europeia com resultados positivos para o país”, disse.

Alvarado Ledesma explica que os países que mais poderão se beneficiar da situação, em vista da oferta que dispõem, da estrutura sanitária que os caracteriza e os custos menores, são os EUA e a Austrália.

Contudo, ele acredita que o impacto do escândalo brasileiro terá efeitos em todo o setor. “Toda novidade oriunda do setor de inspeção sanitária é negativa para a demanda de carne. É provável que a partir de agora o preço do produto aumente, não por causa do crescimento da demanda, mas por causa do aumento dos custos. O receio por parte do mercado de importação endurecerá os controles de qualidade”, explica.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O escândalo da carne no Brasil: golpe mortal para o setor ou oportunidade para outros produtores da América Latina?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 April, 2017]. Web. [19 November, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-escandalo-da-carne-no-brasil-golpe-mortal-para-o-setor-ou-oportunidade-para-outros-produtores-da-america-latina/>

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O escândalo da carne no Brasil: golpe mortal para o setor ou oportunidade para outros produtores da América Latina?. Universia Knowledge@Wharton (2017, April 12). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-escandalo-da-carne-no-brasil-golpe-mortal-para-o-setor-ou-oportunidade-para-outros-produtores-da-america-latina/

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"O escândalo da carne no Brasil: golpe mortal para o setor ou oportunidade para outros produtores da América Latina?" Universia Knowledge@Wharton, [April 12, 2017].
Accessed [November 19, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-escandalo-da-carne-no-brasil-golpe-mortal-para-o-setor-ou-oportunidade-para-outros-produtores-da-america-latina/]


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