O euro ganha força à custa do dólar: seria o adeus à hegemonia da moeda americana?

No último dia 21 de outubro, o euro superou a marca psicológica de US$ 1,50. A última vez que a moeda europeia alcançou esse nível em relação ao dólar foi em 11 agosto de 2008, quando chegou ao valor máximo de US$ 1,5083. Hoje, a moeda americana vive um momento delicado em razão da queda de sua cotação.

Até o momento, o euro se valorizou US$ 1,22% em relação ao dólar. Se for tomada como referência sua cotação mínima anual de US$ 1,25, em fevereiro, o euro terá se valorizado mais de 19%. Contudo, isto não se aplica aqui porque a fragilidade do dólar não se verificou apenas em relação à sua rival europeia. O Índice do Dólar nos EUA, que mede a evolução da moeda em relação aos seis principais sócios comerciais do país, também ficou em seu menor patamar em 14 meses, desvalorizando-se cerca de 7% este ano.

Perspectivas ruins

“As perspectivas do dólar são muito confusas, para dizer o mínimo,”, observa Mauro F. Guillén, diretor do Instituto Joseph H. Lauder de Gestão e Estudos Internacionais da Wharton. “Estamos convencidos de que há certas forças estruturais propensas a golpear a moeda americana”, acrescenta. “Ao mesmo tempo, o dólar mantém a liderança como moeda de reserva mundial e continua a ser um porto seguro para os investidores em situações de incertezas econômicas acentuadas. Por isso, é importante acompanhar sua movimentação a curto prazo, e também observar como a tendência de longo prazo afeta a moeda”, diz.

Em momentos assim, há muita incerteza quanto à evolução da cotação do dólar nos próximos meses. De modo geral, os analistas concordam que a desvalorização continuará. Os especialistas do Goldman Sachs disseram que o euro chegará a ser trocado por US$ 1,55 num prazo de três a seis meses. “No momento, a queda do dólar parece mais acentuada”, observaram em um relatório dirigido aos clientes com data de 18 de outubro analistas como Thomas Stolper, de Londres, Mark Tan, de Nova York e Fiona Lake, de Hong Kong. “A longo prazo, acredita-se que o dólar permanecerá desvalorizado e terá uma pequena recuperação”, observaram os especialistas da instituição americana.

“O dólar continuará a cair nos próximos meses”, garante Rafael Pampillón, professor de ambiente econômico e de análise de países da Escola de Negócios IE. “A causa da queda é a dúvida existente no momento com relação à recuperação dos EUA diante da zona do euro, onde países como a Alemanha e França dão sinais importantes de recuperação econômica”, explica Pampillón, ressaltando também as divergências nas taxas de juros como outro motivo para a desvalorização do dólar. Atualmente, o Federal Reserve dos EUA trabalha com uma taxa de 0,25%, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) fixou a taxa em 1%. “Nos EUA, as taxas continuarão mais baixas por um período maior porque a preocupação com a inflação é menor do que na Europa, onde o BCE tem ordem expressa de manter o aumento dos preços de consumo abaixo de 2%, e estaria mais disposto a elevar as taxas se houver ameaça de inflação”, explica Pampillón.

Federico Steinberg, pesquisador chefe de economia e comércio internacional do Real Instituto Elcano e professor da Universidade Autônoma de Madri, assinala que “diante do pânico dos mercados depois da quebra do Lehman Brothers, houve uma fuga em direção à segurança, o que produziu uma forte valorização do dólar, embora a crise tenha começado nos EUA”. Contudo, prossegue, “uma vez que a normalidade começa a retornar aos mercados financeiros, retomou-se a tendência pré-crise, em que o déficit externo e a acumulação da dívida americana, somados à rigidez da taxa de câmbio da China, fazem com que o peso dos desequilíbrios globais recaia sobre a valorização do euro”.

Fim da hegemonia do dólar?

Steinberg diz que “a desvalorização do dólar, aliada à valorização do ouro e a declarações da China sobre a necessidade de substituir o dólar como moeda de reserva mundial, trouxeram de novo à tona o debate sobre a possibilidade de o euro substituir o dólar como moeda hegemônica global”. Em defesa dessa opinião, cita um estudo recente publicado pela revista Foreign Affairs, em que Fred Bergsten, um dos maiores especialistas em geopolítica de moedas, afirma que os EUA deveriam se dar conta de que promover a manutenção do dólar como moeda única de reserva já não atende mais ao seu interesse nacional, porque dificulta a disciplina interna de que a economia precisa para reduzir seu enorme endividamento.

Alguns analistas, como Jane Foley, da Forex.com, observam que, hoje, o mercado está diante de “um complô contra o dólar como moeda mundial de reserva dominante”. No último dia 6 de outubro, o jornal britânico The Independent publicou que os países árabes do Golfo, a China, Rússia, Japão e França estudam a possibilidade de substituir o dólar nos intercâmbios de petróleo por uma cesta de moedas que incluiria o iene, o euro, o ouro e uma futura moeda comum do Golfo. A veiculação dessa informação — desmentida pelo Kuwait e pelo Qatar — coincidiu com o apelo da ONU em favor de uma nova moeda mundial de reserva que acabe com o “privilégio de se manter déficits externos”, como fazem os EUA devido à supremacia do dólar.

Todavia, isso a que muitos chamam de complô, é coisa mais antiga. A China já havia pedido, em março, que o dólar fosse substituído pela moeda utilizada nas transações do Fundo Monetário Internacional (FMI), cujo valor é determinado pelo dólar, euro, iene e libra esterlina. “A irrupção da crise e seu alastramento pelo mundo todo pôs a nu as vulnerabilidades inerentes e os riscos sistêmicos do sistema monetário internacional em vigor”, observou o presidente do Banco do Povo da China, Zhou Xiachuan, em um ensaio publicado no site da instituição em 23 de março.

Rafael Pampillón acredita que “no comércio internacional, o dólar é uma moeda imbatível, apesar da desvalorização por que vem passando nos últimos tempos”, e considera tal hegemonia “difícil” de mudar. Apesar disso, acredita também que a tendência é que o dólar continue a perder hegemonia mundial e o euro a se valorizar. Pampillón acha que para o euro tomar definitivamente o lugar do dólar, é preciso tempo para mostrar aos mercados que se trata de uma moeda confiável. Ele cita alguns estudos segundo os quais o euro se converterá na moeda mundial por excelência em 2015.

“O mais provável é que o euro vá se valorizando aos poucos e ganhando mercado nas reservas e transações internacionais, não chegando, porém, a questionar a hegemonia do dólar”, prevê Federico Steinberg, que acrescenta: “Embora desde sua criação o euro sempre tenha tido um peso internacional maior do que as moedas nacionais anteriores, o dólar continua a dominar de forma clara os mercados internacionais de ativos.” Steinberg, especialista em economia e comércio internacional, afirma também que em fins de 2008, 45% dos títulos da dívida eram denominados em dólares e apenas 32% em euros, embora o euro tivesse se valorizado 12% desde sua criação e o dólar se desvalorizado 5%. O dólar, porém, é a moeda dominante das reservas dos bancos centrais: 64% ante 27% em euros, embora a moeda única tenha ganho aproximadamente 10 pontos percentuais desde sua criação.

“È provável que o euro seja uma moeda cada vez mais forte e tenha hegemonia regional, mas não será a moeda mundial única. Daqui a duas ou três décadas, o mais provável é que o mundo conviva com três moedas de reserva: o dólar, o euro e o iuane, sem que nenhuma predomine claramente sobre as demais”, observa Steinberg.

Uma das regiões do planeta em que o dólar tem mais peso é a América Latina, portanto os países da região teriam de trocar de moeda diante do fim hipotético da moeda americana como reserva mundial. “Se isso acontecesse, creio que a região tomaria o caminho iniciado pela China e pelo Brasil, deixando de usar o dólar em seus intercâmbios comerciais, optando pela realização de acordos diretos com outros países”, diz Pampillón. O presidente do Banco Popular da China, Zhou Xiaochuan, e o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, chegaram a um princípio de acordo na reunião anual do Banco para Pagamentos Internacionais (BIS), na Basiléia, celebrada no final de junho, pelo qual o comércio entre os dois países seria feito por meio de suas respectivas moedas, deixando de lado assim a moeda americana. Apesar disso, Pampillón lembra “a importância que tem para os países latinoamericanos o intercâmbio comercial com os EUA”, seu principal mercado exportador e importador.

O problema de um euro forte

O fato de que o euro começa a despontar como alternativa à hegemonia do dólar faz com que a moeda europeia se valorize, e o faz em um contexto de crise internacional. “As autoridades europeias não fizeram declaração alguma que indique sua intenção de viabilizar o uso do euro, porque para a mentalidade europeia, tradicionalmente alheia ao discurso da hegemonia geopolítica, os custos associados a uma valorização do euro a curto prazo superam em muito os possíveis, porém incertos, benefícios futuros”, observa Steinberg.

Os países da zona do euro e o Banco Central Europeu (BCE) se disseram preocupados com a valorização do euro porque ela é prejudicial aos exportadores da comunidade e coloca em risco a recuperação econômica. A evolução da taxa de câmbio do euro “é um problema que nos preocupa”, admitiu o primeiro-ministro luxemburguês e presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, em entrevista coletiva de 20 de outubro ao término da reunião mensal de ministros da Economia da zona do euro. Até o momento, porém, a declaração mais clara a esse respeito foi proferida pelo executivo do BCE e também presidente do banco central da Eslováquia, Ivan Sramko: “O dólar está fraco atualmente, a tendência é clara e evidente de que a força do euro pode começar a causar problemas na região”, disse em entrevista de 23 de outubro. “É preciso coordenar as atividades relativas às taxas de câmbio”, advertiu.

Pampillón diz que “o euro forte prejudicará as exportações da região, embora alguns países como a Alemanha venham a sofrer menos devido ao alto valor tecnológico de seus produtos, ao passo que outros países, como a Espanha, seriam mais afetados”. De igual modo, Steinberg crê que “um euro forte pode ajudar a conter a inflação e baratear o preço do petróleo, mas em uma situação como a atual, com pressões inflacionárias e demanda fraca, uma moeda forte pode pôr a perder a recuperação ainda incipiente da zona do euro”.

Praticamente a mesma situação pode ocorrer na América Latina com a debilidade do dólar, que poderia trazer vantagens para as economias da região, mas também sérios inconvenientes. “As exportações latinoamericanas para os EUA perderão competitividade porque as moedas latinas estão se valorizando em relação ao dólar, o que também faz com que suas remessas em dólares — oriundas de emigrantes —tenham menos valor em moeda local”, explica Pampillón. Segundo o professor, a dívida desses países, em sua maior parte em dólares, “será menor em moeda local e com as taxas em baixa nos EUA, pagarão menos juros”.

Seja como for, tanto os países da zona do euro quanto os da América Latina terão de se acostumar a conviver com o dólar fraco, conforme diz Guillén, que aposta em um cenário de contínua depreciação do dólar, até que haja no mercado internacional de moedas um ajuste gradual, de modo que os EUA possam reduzir sua dívida colossal.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O euro ganha força à custa do dólar: seria o adeus à hegemonia da moeda americana?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 November, 2009]. Web. [19 December, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-euro-ganha-forca-a-custa-do-dolar-seria-o-adeus-a-hegemonia-da-moeda-americana/>

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