O “gasolinaço” no México não chega no melhor momento, mas será positivo para a economia a longo prazo

O México, uma das maiores economias da América Latina, passa por momentos de inquietação do ponto de vista social e econômico, embora ambos os aspectos estejam estreitamente ligados. À incerteza gerada pela chegada de Donald Trump à Casa Branca nos EUA, com sua agressividade em relação aos mexicanos, à intenção de construir um muro na fronteira e de impor impostos elevados a todos os produtos mexicanos, somam-se as decisões tomadas pelo governo do presidente Enrique Peña Nieto no mercado de gasolina, que deflagrou o descontentamento dos mexicanos.

O Executivo mexicano decidiu aumentar em 14,2% e 20,1% o preço da gasolina a partir do dia 1º. de janeiro último como parte de um programa de liberalização progressiva do mercado de energia do país. Conforme o plano, o governo permitiu no ano passado que o setor privado importasse gasolina e abrisse postos de serviços, algo impossível até então, já que a empresa estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) detinha o monopólio desse mercado.

O encarecimento dos combustíveis, o maior ocorrido no país em mais de 20 anos, foi o estopim para a ira dos cidadãos, que tomaram as ruas em protesto. Foram fechadas estradas e postos de gasolina e houve saques em lojas. Foi uma manifestação contra a decisão do governo que resultou em vários mortos e centenas de feridos. O descontentamento poderá prosseguir nos próximos meses, já que o aumento dos preços terá efeitos secundários sobre a economia do país.

“O aumento do preço da gasolina terá, sem dúvida, um efeito inflacionário que já começamos a ver”, observa Osmar Zavaleta Vázquez, professor doutor e diretor da especialidade em administração energética da Escola de Negócios EGADE do Instituto Tecnológico de Monterrey. “É evidente que quase tudo o que consumimos terá um aumento, já que tudo tem de ser transportado do local de produção até o ponto de consumo, por isso será inevitável que haja uma alta nos preços de todos os produtos. É importante mencionar que os aumentos não ocorrerão na mesma proporção que o aumento da gasolina, já que dentro da estrutura de preços dos produtos, o transporte é somente uma parte”, explica.

Zavaleta Vázquez diz que os efeitos do aumento dos preços da gasolina não ficarão só nisso. Ele espera que, como consequência da inflação, as taxas de juros tendam a subir, o que fará com que as linhas de financiamento para as empresas tenham um custo maior, o que pode incidir sobre a competitividade de muitas empresas. “Isso pode ser um problema sério para a agenda econômica do México somado a outros eventos do contexto internacional que pressionarão o peso mexicano e que também se traduzirá em inflação.”

Para Rafael Ramírez de Alba, professor e diretor da área acadêmica de ambiente econômico da Escola de Negócios IPADE e diretor do MBA executivo, “a curto prazo, a elevação dos preços da gasolina terá efeitos negativos importantes”. Em primeiro lugar, diz ele que haverá impacto sobre a inflação, que poderá chegar a 6% ao ano, um nível que não se via no México desde 2009. “Certamente será um efeito passageiro, contanto que não continue a haver aumentos da magnitude dos que tivemos no início do ano”, explica. Por outro lado, ele crê que haverá um efeito negativo nos custos das empresas com alto consumo de gasolina e, de igual modo, o poder aquisitivo dos consumidores será afetado, podendo ser um fator que fará diminuir o dinamismo do consumo privado que, segundo seu critério, tem se mantido relativamente alto nos últimos meses.

Para que se tenha uma ideia da magnitude do impacto do aumento dos preços da gasolina na vida do México, é importante assinalar que o país é o quarto maior consumidor de combustível do mundo por pessoa, já que com uma população de 120 milhões de habitantes, o consumo é de 190 milhões de litros por dia. Se ao consumo elevado somarmos os salários, bastante baixos, o resultado é que os mexicanos se acham em primeiro lugar no mundo no tocante ao percentual total de receitas anuais destinadas ao consumo de gasolina, que é de 3,5%, de acordo com dados recolhidos pela Bloomberg em 59 países.

E como prognosticam os professores, o aumento dos preços dos combustíveis já começou a ser repassado para os demais produtos da cesta de compras dos mexicanos. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi), a inflação quinzenal do país ficou em 1,51% em janeiro, a cifra mais alta desde 1999, quando os preços subiram 1,62%. O dado do primeiro mês do ano ficou muito acima do esperado pelos economistas. Os 13 especialistas consultados pela Reuters esperavam, em média, uma taxa de 1,16%, ao passo que os analistas consultados pela Bloomberg prognosticaram um percentual de 1,27%.

De olho no longo prazo

Apesar do impacto previsivelmente negativo a curto prazo, os especialistas são otimistas em relação aos resultados que poderão advir da liberalização do mercado de energia a médio e a longo prazos. Zavaleta Vázquez acredita que a alta da gasolina poderia ser um incentivo para que as pessoas deixem de usar o carro de maneira indiscriminada e, com isso, impactar favoravelmente a diminuição de poluentes. Por outro lado, ele diz que esse cenário desfavorável talvez propicie, em maior grau, a definição de estratégias de poupanças criativas, inovadoras e diferentes nas empresas e nas famílias. “Cenários como os que estamos vivenciando muitas vezes propiciam o predomínio da análise no interior das empresas, a reflexão e o convencimento de que a coisas podem ser feitas de melhor maneira e de formas diferentes. Isso poderia fazer com que as empresas produtivas do México, capazes de participar do comércio mundial, diversifiquem mais os destinos internacionais para potencializar sua atividade comercial”, diz Zavaleta Vázquez.

Do ponto de vista do mercado de energia em geral, ele diz que a liberação dos preços da gasolina, em que o preço é determinado pelo mercado, “é sempre positivo, já que gera concorrência e a concorrência induz à qualidade nos serviços e produtos, coisas que não ocorrem necessariamente quando há práticas monopolistas”.

De igual modo, Zavaleta Vázquez acha que com a reforma energética criaram-se as condições para que haja investimento na infraestrutura de refinação, o que, a longo prazo, deverá resultar na diminuição da importação de gasolina. Ele lembra que cerca de 57% da gasolina consumida no México é importada, o que, a seu ver, implica em seu encarecimento no momento atual devido à desvalorização por que passa o peso em relação ao dólar. É importante mencionar que uma parte significativa do preço atual da gasolina (cerca de 30%) no México é de impostos. O restante se refere a aspectos relacionados ao transporte, armazenamento e à margem de uso da empresa que distribui a gasolina. “Quando os preços do petróleo baixarem naturalmente e o preço da gasolina for liberado, os preços baixarão e o resto será vantajoso para a economia das famílias e das empresas”, prevê o professor.

Para Ramírez de Alba, apesar dos custos a curto prazo, o aumento da gasolina era uma “medida necessária” no processo de liberalização do mercado de gasolinas no México. “Sem dúvida, a médio e a longo prazos, essa liberalização é muito importante para que as gasolinas tenham um preço fixado pelo mercado, que permita aos distribuidores e donos de postos de serviços levar a cabo os investimentos necessários para o abastecimento oportuno e para que os consumidores ajustem o consumo de combustível de acordo com sua escassez relativa refletida nos aumentos ou diminuições dos preços”, diz. Por outro lado, ele salienta que era importante que fossem eliminados os subsídios que até 2015 eram utilizados para manter os preços baixos, com um enorme custo para as finanças públicas, “já debilitadas pelo aumento no gasto e na dívida do governo”.

Trump e o dólar

Seja como for, Ramirez de Alba tem consciência de que o aumento do preço dos combustíveis chegou em um “momento complicado” para a economia mexicana. Em sua opinião, as finanças públicas se deterioraram consideravelmente nos últimos anos com forte aumento da dívida do governo com níveis próximos a 50% do PIB. “Isso é consequência de um crescimento importante no gasto e que não foi compensado com um aumento da mesma magnitude na arrecadação. Será preciso esperar para ver se o Executivo cumprirá seu objetivo de ter um superávit primário nas contas fiscais, já que em anos passados, apesar do anúncio de cortes, o orçamento previsto não foi atingido e o gastos serão cada vez maiores”, disse.

Por outro lado, ele observa que a chegada de Donald Trump à presidência dos EUA, com retórica protecionista, teve como consequência o fato de que muitos planos de investimentos no país foram colocados em compasso de espera até que se conheçam as medidas reais que serão tomadas pelo governo americano. Além disso, Ramirez de Alba acredita que se houver cobrança de impostos sobre as importações mexicanas, conforme sugeriu de diversas maneiras tanto Trump como os líderes republicanos no Congresso, o peso será novamente desvalorizado com consequente queda de dinamismo nas exportações mexicanas para os EUA.

Para enfrentar esses desafios, Ramirez de Alba afirma que o governo deve tomar uma atitude proativa e defender as vantagens da abertura comercial unilateral, independentemente da atitude protecionista dos representantes do governo dos EUA. “Afinal de contas, o acesso a produtos e a serviços importados, sejam de consumo ou de capital, com uma melhor relação entre o preço e a qualidade, é um enorme benefício tanto para consumidores quanto para os produtores mexicanos.”

Por outo lado, Ramirez de Alba diz que “o Banco Central do México deverá ficar atento ao aumento esperado da inflação mas, ao mesmo tempo, deve ter cuidado para não reagir exageradamente aos aumentos temporais dos preços com aumentos significativos na taxa de juros básica que possam constituir um freio adicional à atividade econômica, cujo crescimento, embora positivo, deverá diminuir nos próximos meses”.

De acordo com Zavaleta Vázquez, um dos pontos que mais preocupam atualmente a economia mexicana talvez seja a recuperação econômica dos EUA e o consequente aumento das taxas de juros. Com isso, muitos investidores institucionais poderão fechar suas posições em outros mercados (principalmente nos mercados emergentes) para investir nos EUA. Isso fez com que praticamente todas as moedas do mundo se desvalorizassem em relação ao dólar e, conforme explica Vázquez, particularmente para o México, a depreciação do peso trará, de maneira natural, certos níveis de inflação, o que também pressionará as taxas de juros. “A chegada de Donald Trump provocou a desvalorização considerável do peso. Para mim, a taxa de câmbio real deveria ser de aproximadamente 18 pesos por dólar. Isso significa que teremos entre 3 e 4 pesos de distorção ocasionados pela incerteza gerada por Donald Trump”, diz. Vázquez garante que o novo presidente dos EUA é sinônimo do nervosismo que tomou conta dos investidores e pode se refletir na diminuição da demanda de instrumentos denominados em pesos.

Vázquez diz que para fazer frente a essa situação econômica, o governo deverá criar incentivos fiscais suficientes para dar apoio, principalmente, às pequenas e médias empresas. “Ele deverá fazer uso eficiente dos recursos (destiná-los ao pagamento da dívida, por exemplo, e não ao gasto); realocar capital aos bancos de desenvolvimento para deflagrar projetos em áreas prioritárias; e fazer um esforço maior para diversificar os destinos comerciais internacionais para os produtores mexicanos, entre outras medidas.” Com relação ao Banco Central, ele diz que a instituição “deve continuar com sua política monetária responsável, com aumento gradual da taxa básica para fazer frente à taxa de câmbio e ao processo inflacionário”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O “gasolinaço” no México não chega no melhor momento, mas será positivo para a economia a longo prazo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [01 February, 2017]. Web. [12 November, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-gasolinaco-no-mexico-nao-chega-no-melhor-momento-mas-sera-positivo-para-economia-longo-prazo/>

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"O “gasolinaço” no México não chega no melhor momento, mas será positivo para a economia a longo prazo" Universia Knowledge@Wharton, [February 01, 2017].
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