O mais novo livro de Jeremy Siegel mostra o que o futuro reserva aos investidores

Em seu best-seller de 1994, Stocks for the long run [Ações para o longo prazo], Jeremy Siegel, professor de Finanças da Wharton, mostrou aos investidores que as ações, mais do que títulos ou dinheiro, são os investimentos mais rentáveis a longo prazo. Ele endossou na ocasião o investimento feito com base em índices. Os investidores, porém, queriam saber mais. “Dei inúmeras palestras por todo o país sobre meu livro Ações para o longo prazo”, recordou-se Siegel recentemente. “As duas perguntas mais freqüentes eram: Que ações para o longo prazo seriam essas? e ainda: E quanto à onda de envelhecimento e ao baby boom?

 

A resposta de Siegel consistiu em uma volumosa pesquisa para seu novo livro, The future for investors: Why the tried and true trumph over the bold and the new [O que o futuro reserva aos investidores: por que o que já foi testado, e demonstrou ser verdadeiro, triunfa sobre o ousado e do novo]. A conclusão foi surpreendente: as ações “quentes” das novas indústrias não são a melhor opção para o investidor. Muitas vezes, é melhor investir em empresas comedidas e tradicionais  que vendem cigarros, bombeiam petróleo ou distribuem bebidas e chicletes. Siegel concluiu que os investidores podem melhorar os investimentos baseados em índices por meio de ações com baixos índices de preço/lucro  e dividendos de alta rentabilidade, além de investir 40% da carteira de ações em títulos estrangeiros. “Tomar os índices como referência é uma excelente idéia”, disse Siegel em uma entrevista. “Mas agora, depois de muito pesquisar, acho que é possível um resultado melhor.” Uma boa combinação pode aumentar os retornos anuais em um ou dois pontos percentuais acima dos retornos proporcionados pelo referencial dos índices, observou.

 

Em seu novo trabalho, Siegel analisou o Índice Standard & Poor’s 500 em busca de padrões que estabelecessem uma linha divisória entre ganhadores e perdedores. “Foi um choque descobrir que a ação com melhor desempenho era da Philip Morris”, disse o autor. “Eu jamais teria imaginado uma coisa assim. Se fosse a IBM, por exemplo, eu não estranharia” De 1925 até o final de 2003, a companhia de tabaco Philip Morris, atual Altria Group, teve um retorno médio anual de 17%, partindo-se do pressuposto de que todos os dividendos foram reinvestidos em ações da empresa. Com isso, as ações da empresa sobrepujaram as demais por uma margem de 7,3 pontos percentuais ao ano.  Um investimento de 1.000 dólares feito na Philip Morris, em 1925, equivaleria hoje a mais de um quarto de bilhão de dólares.

 

Também é o caso, por exemplo, de um investimento feito em 1950, ocasião em que o investidor poderia ter aplicado seu dinheiro na empresa mais avançada na época: a fabricante de computadores IBM, ou em uma empresa convencional e sem muito brilho, como a Standard Oil, de New Jersey. Mesmo hoje muita gente diria que a IBM teria sido a aposta certa. E o fato é que, de acordo com os parâmetros de crescimento mais aceitos, a IBM sagrou-se vencedora nos 53 anos seguintes, superando de forma espetacular a Standard Oil no que diz respeito ao crescimento da receita, dos dividendos e lucros por ação.

 

Contudo, quem tivesse investido na Standard Oil estaria em melhor situação, com retornos médios anuais de 14,42%, ante 13,83% da IBM. Essa diferença de meio ponto, acumulada no decorrer de 53 anos, coloca os acionistas da empresa petrolífera na primeira posição com um diferencial de mais de 25%. Um investimento de 1.000 dólares na Standard Oil teria rendido 1,26 milhão de dólares em relação a menos de 1 milhão de dólares no caso de um investimento de igual valor feito na IBM. 

 

Siegel deparou com resultados semelhantes inúmeras vezes. Desde 1950, as empresas de melhor desempenho foram a National Dairy Products (atual Kraft Foods), com um retorno de 15,47% ao ano; a R. J. Reynolds Tobacco, 15,16%; Standard Oil, de New Jersey (atual ExxonMobil), 14,42%; e a Coca-Cola, 14,33%. Um investimento de 4.000 dólares nas quatro principais teria se convertido em 6,29 milhões de dólares, ante 1,11 milhão de um investimento similar feito no mercado acionário como um todo.

 

A “armadilha do crescimento”

O que faz com que as ações tão prosaicas e antigas superem em muito outras mais empolgantes e inovadoras? “A resposta é simples”, diz Siegel. “Embora os ganhos, vendas e até mesmo o valor de mercado das novas empresas cresçam mais rapidamente do que o das antigas companhias, o preço pago pelos investidores por essas ações foi simplesmente alto demais para que permitisse retornos significativos. Esses preços mais elevados deprimiram o rendimento dos dividendos, portanto foi menor o número de ações acumuladas por meio do seu reinvestimento.”

 

Siegel refere-se a essa situação como “armadilha do crescimento” — isto é, a disseminação de uma tendência que se verifica entre os investidores e que os leva a pagar um preço alto demais por ações de empresas em franco crescimento —, em grande parte porque tinham uma expectativa muito grande em relação ao futuro. De 1950 a 2003, as ações da IBM foram negociadas a um preço médio 26,76 vezes o seu ganho anual, ao passo que no caso da Standard Oil esse valor foi de 12,97 vezes. O rendimento dos dividendos (dividendos anuais divididos pelo preço da ação) foi de 2,18%, enquanto o da Standard Oil foi de 5,19%.

 

O rendimento mais elevado dos dividendos permitiu aos acionistas da Standard Oil acumular um número muito maior de ações, proporcionando com isso um retorno incomparavelmente maior. “Os dividendos são muito importantes”, diz Siegel. “Reinvesti-los é crucial para que a maior parte das ações mais bem-sucedidas contem com uma vantagem adicional em relação às demais a longo prazo […] O retorno sobre as ações não depende do crescimento dos ganhos; é igualmente importante saber se o crescimento dos ganhos supera a expectativa dos investidores. Tais expectativas estão embutidas no índice preço/lucro. Carteiras com investimentos em ações de índices P/L baixos no S&P 500 tiveram um retorno de quase 3% ao ano acima das ações do índice, enquanto os investimentos em ações de índice P/L elevado tiveram uma queda de 2% ao ano em relação ao índice.”

 

Será que os padrões identificados por Siegel nos últimos 50 anos persistirão no futuro? O autor acredita que sim, embora os investidores do mercado acionário estejam diante de grandes desafios, conforme Siegel explica na segunda metade do livro.

 

Diversos especialistas temem, por exemplo, que não haja americanos jovens em número suficiente para dar conta de todos os títulos que os baby boomers colocarão à venda para financiar sua aposentadoria; além disso, o excesso de oferta deverá empurrar para baixo o preço das ações, bem com os ganhos. Na verdade, a maior parte das nações industrializadas terá contingentes populacionais mais velhos, sobretudo por causa das baixas taxas de fertilidade e de expectativas de vida mais longas. Em 1950, havia sete trabalhadores americanos para cada aposentado de 65 anos ou mais.  Hoje, são 5,9, e em 2050, serão apenas 2,6. No Japão, havia 10 trabalhadores por aposentado em 1950; hoje, esse número é de 3,1, e será 1,3 em 2050.

 

Uma maneira de lidar com o problema seria aumentar paulatinamente a idade para a aposentadoria nos EUA para 73 anos até 2050. Com isso, o número de anos que o americano médio desfruta de sua aposentadoria seria reduzido em um terço — caindo dos atuais 14,4 anos para 9,2 anos. Outra solução possível: a esperança de que o aumento da produtividade permita com que menos trabalhadores financiem um número maior de aposentados. Siegel, porém, acha essa última possibilidade pouco realista, já que exigiria que a produtividade americana crescesse a um ritmo de 7% ao ano, ou seja, mais do que três vezes o índice histórico registrado, o que é praticamente impossível para uma economia já bem desenvolvida.

 

Contudo, o autor acredita que a solução desse dilema virá do mundo em desenvolvimento: haverá na China um número enorme de jovens abonados, assim como na Índia e em outros países, dispostos a comprar as ações que os americanos desejam vender. “Se o mundo em desenvolvimento puder aumentar sua produtividade a uma taxa de 6% ao ano nas próximas décadas —um índice, aliás, já superado pela China e pela Índia — teríamos que a idade de aposentadoria  para a população dos baby boomers aumentaria apenas um pouco, proporcionando-lhes ainda uma aposentadoria confortável”, observa.

 

Os avanços econômicos em países como a China e a Índia deverão conferir um enorme poder de compra às suas respectivas populações, cuja média de idade será inferior à das nações desenvolvidas. As nações em desenvolvimento fornecerão os bens de que terão necessidade os americanos aposentados; também comprarão os títulos que os baby boomers colocarão à venda, criando um volume de demanda suficiente para dar sustentabilidade aos preços das ações, disse Siegel, acrescentando que a economia chinesa terá o dobro do tamanho da americana em meados do século, caso a renda per capita da China chegue a 50% da americana. Não é uma façanha impossível: no século passado, o Japão, Hong Kong, Cingapura e vários outros países atingiram taxas de crescimento superiores a essa. “O futuro da economia mundial é brilhante”, assinala Siegel.

 

O autor descobriu que, no passado, o principal fator responsável pelo crescimento da produtividade foram os avanços na área da comunicação — a escrita, a imprensa, o telégrafo, o telefone e a Internet. As melhorias no setor de comunicações devem estimular o crescimento da produtividade em grande escala  no mundo desenvolvido, disse Siegel. “A Internet pode desempenhar hoje um papel semelhante ao da invenção do papel por Ts’ai Lun no século primeiro, ou ainda, ao da invenção da imprensa por Johannes Gutenberg no século 15”, observa Siegel. “A revolução das comunicações preparou o cenário para que o mundo todo possa experimentar um crescimento econômico vigoroso.”

 

Os níveis elevados de crescimento nos países em desenvolvimento estimularão o retorno igualmente elevado das ações em muitos países, tornando atraentes as ações estrangeiras para os americanos, disse Siegel. O autor, porém, adverte sobre a possibilidade de se cair na armadilha do desenvolvimento. Uma vez que muitos investidores  esperam desde já um bom desempenho das ações na China e na Índia, as ações desses países talvez já estejam em patamares altos demais para que possam proporcionar retornos excelentes nas próximas décadas — assim como as ações da IBM permanecem em um nível elevado demais há 50 anos.

 

A China cresceu de forma espetacular nos anos 90; entretanto, o entusiasmo exacerbado dos investidores inflou os preços das ações chinesas. Um investimento de 1.000 dólares em um índice acionário chinês em 1992 estaria reduzido a 320 dólares no fim de 2003. Enquanto isso, um investimento de igual valor no Brasil, que entrou nos anos 90 em meio a tumultos políticos e econômicos, tendo sido marginalizado pela maior parte dos investidores, hoje estaria em 4.781 dólares. “A idéia tão disseminada de que os investidores deveriam adquirir ações em países com ritmo de crescimento acelerado é equivocada, assim como equivocados estão os que compram empresas que apresentam crescimento acelerado”, diz Siegel.

 

Investir em nações em desenvolvimento é arriscado. Não há como os investidores se certificarem de que outros países com dificuldades terão recuperação semelhante à do Brasil, ou que as flutuações da moeda não acabarão por eliminar os ganhos dos americanos nos mercados acionários estrangeiros. Em vez de investir exageradamente em uma região ou país, Siegel recomenda diversificar o portfólio com base na participação mundial dos países nos mercados acionários — EUA e Canadá comparecem com 54,9%; a Europa, com 27,8%; o Japão, com 9,1%; outros países asiáticos (Austrália, Hong Kong, Cingapura e Nova Zelândia), com 3,2%.

 

De modo geral, os países emergentes devem perfazer um total de 4,9% — Coréia, 0,9; Taiwan, 0,5%; China, 0,4%; Brasil, 0,4%; México, 0,3%; Índia, 0,3%; Rússia, 0,2%; outros países emergentes, 1,9%.

 

Diversas empresas de fundos mútuos oferecem fundos indexados bem como fundos do tipo exchange-traded (isto é, fundos mútuos caracterizados por um processo de negociação dupla, o que permite às ações do fundo serem sempre negociadas a um valor próximo do seu valor patrimonial líquido) para ações americanas e estrangeiras, permitindo aos investidores uma ampla variedade de ações em diversos países a um custo extremamente baixo, disse Siegel.

 

Os investidores devem continuar a confiar nos índices como base de suas carteiras, acrescentou, mas devem também dedicar cerca de 50% do seu portfólio a “estratégias que promovam o aumento dos retornos” calcadas em suas descobertas sobre os benefícios gerados pelo rendimento elevado dos dividendos e pelos baixos índices de preço/lucro. As estratégias de altos dividendos, por exemplo, compreendem, entre outras coisas, o investimento em grupos de ações, como os do Dow 10 e S&P 10, voltados para ações desses índices com as maiores taxas de rendimento de dividendos. A securitização de imóveis e empréstimos por eles garantidos  são também atraentes em razão do elevado índice de dividendos apresentado.

 

O investidor deve também levar em consideração as ações de empresas que operam em todo o mundo, como as que fazem parte do índice S&P Global 100 e do Dow Jones Global Titans Index. Vale a pena levar em conta setores responsáveis por bons resultados a longo prazo que surpreenderam os investidores — companhias petrolíferas e de recursos naturais, companhias farmacêuticas e outras responsáveis pela produção de itens bastante conhecidos dos consumidores e de demanda constante. “Ao evitar a armadilha do crescimento, apegando-se ao que conhece e ao que já foi testado, o investidor tem a garantia de bons resultados”, conclui Siegel. “Não há por que tais estratégias não continuem a servir, e muito bem, aos investidores no futuro.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O mais novo livro de Jeremy Siegel mostra o que o futuro reserva aos investidores." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [06 April, 2005]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-mais-novo-livro-de-jeremy-siegel-mostra-o-que-o-futuro-reserva-aos-investidores/>

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