O microcrédito avança na Argentina, mas a passos lentos

Estima-se que, em 2012, o microcrédito na Argentina chegue a 715 milhões de pesos (cerca de 230 milhões de dólares) e seja utilizado por 540.000 pessoas de baixa renda. Esse crescimento lento, porém constante, ficou evidente durante a crise econômica e social de 2001. Contudo, em comparação com o restante da região, o país está longe de se equiparar ao montante total e ao desenvolvimento alcançados pelo setor, que deverá melhorar a qualidade de vida da população de baixa renda.

 

“Em abril de 2001, Maria José deu o primeiro passo para a produção de pão em casa. Hoje, ela e seu marido — antes desempregado — e sua filha, comandam uma padaria que construíram juntos.” Esse é um dos exemplos de sucesso do Projeto Mulheres 2000, voltado para as mulheres de modo geral e para as que se tornaram chefes do lar. Iguais a essa há milhares de histórias de empreendedorismo que se tornaram realidade graças ao sistema de microcrédito, cujo objetivo é atender às necessidades financeiros a pessoas e famílias à margem do sistema bancário devido à sua condição social e econômica.

 

Na Argentina, o microcrédito começou a ganhar força principalmente durante a grave crise econômica de 2001, mas ainda é uma atividade muito recente e distante dos níveis de profissionalismo e de difusão alcançados em outros países da região. De acordo com dados da Fundação Andares — especializada em pesquisas e iniciativas de apoio ao microcrédito — enquanto em 2005 foram concedidos microcréditos no valor de 21 milhões de pesos (cerca de 7 milhões de dólares) a 15.000 pessoas, no final de 2006, na Argentina, havia 100 instituições de microfinanças que emprestaram 40 milhões de pesos (cerca de 13 milhões de dólares) a 30.000 indivíduos.

 

“O desenvolvimento do microcrédito na Argentina ainda é muito incipiente se comparado, por exemplo, com a Ásia ou com outros países da América Latina”, observa Marta Bekerman, professora da Universidade de Buenos Aires (UBA) e presidente da Organização Não-Governamental (ONG) Avançar, que trabalha sobretudo com setores excluídos por meio de atividades de capacitação e do microcrédito. Na verdade, explica, “a Argentina e o Brasil, os países maiores da região, são os que menos avançaram nesse segmento; ao passo que na Bolívia houve um crescimento muito grande graças ao Banco Sol, o mesmo acontecendo no México e na Colômbia”.

 

Até 2005, o Banco Sol da Bolívia contava com uma carteira ativa de 60.000 clientes, e a associação civil Crecer, também boliviana, oferecia serviços financeiros a 37.000 mulheres em mais de 1000 comunidades. No entanto, na Ásia, o Banco Grameen, de Bangladesh, criado pelo prêmio Nobel Muhammad Yunus — também conhecido como “banqueiro dos pobres” — conta com mais de 1092 agências em mais de 40.000 localidades rurais.

 

Nas experiências realizadas em todo o mundo, tanto os bancos, as ONGs como os próprios países aparecem como protagonistas principais do microcrédito. Contudo, na Argentina, as ONGs foram, até o momento, as que mais desenvolveram o setor. “O sistema avança lentamente, já que não se trata de política pública, e sim de política conduzida por organizações civis com as dificuldades próprias para conseguir financiamento, e também por entidades bancárias, com dificuldades específicas, já que não atingem os trabalhadores da economia informal”, observa Beatriz Berasategui, coordenadora da Fundação Sagrada Família, cujos fundos são destinados à reforma das casas da população de baixa renda.

 

Com relação ao Estado, Bekerman não crê que seja “ele quem deva estar à frente do microcrédito, já que de acordo com estudos feitos por nós, esse esquema não funciona bem; a não ser que se formem equipes compostas por indivíduos capacitados. Em todo caso, melhor seria que o Estado trabalhasse e fortalecesse as ONGs, para que fossem mais transparentes e eficazes. Com relação aos bancos, creio que seu papel é outro, de caráter comercial, e são sempre uma complicação a mais porque precisam dar lucro”.

 

Quem são os necessitados de ajuda econômica? “Na Argentina, há um segmento da população que perdeu o emprego e partiu para projetos de outros tipos”, explica Robinzon Piñeros, assessor do projeto FortaleSer, uma iniciativa criada em 2006 em Vicente López, província de Buenos Aires, entre a Fundação PepsiCo e a Associação Consciência, para ajudar as famílias da região. Por outro lado, acrescenta, “há uma grande quantidade de mulheres, mães de família ou chefes do lar, que gostariam de cuidar dos filhos enquanto fabricam ou vendem algum tipo de produto. Nos dois casos, o empreendimento é uma forma de contribuição às receitas da economia familiar afetada pelo desemprego, pela inflação e por outros fatores locais”.

 

Consciência e Fundação PepsiCo

De acordo com a Fundação Andares, há mais de um bilhão de pessoas no mundo todo que sobrevive com uma renda inferior a 6 pesos ao dia (menos de 2 dólares), das quais mais de 150 milhões estão na América Latina. Na Argentina, apesar da melhora conjuntural trazida pelo forte crescimento econômico dos últimos 4 anos, ainda assim um de cada quatro argentinos é pobre.

 

Nesse contexto, prosperaram uma centena de instituições dedicadas ao microcrédito. Entre elas, o Projeto Mulheres 2000, nascido em uma cátedra da Universidade Católica Argentina (UCA) com o propósito de adaptar o modelo do economista bengali Muhammad Yunus à realidade local. Hoje, a iniciativa conta com o apoio da ONG Associação Civil Dignidade e é voltada para mulheres ou chefes de lar (que assumem parcial ou totalmente o sustento dos filhos). “Atualmente, temos cerca de 185 beneficiárias ativas distribuídas em três bairros de General Pacheco, província de Buenos Aires”, observa Gastón Mascías, Coordenador Geral de Mulheres 2000. Trata-se, diz, “de mulheres entre 18 e 75 anos que desenvolvem as mais variadas tarefas comerciais, de produção e serviços: compra e venda de roupa, fabricação de tecidos, oficinas de costura, produção de artesanatos, lavagem de carro, trabalho em quiosques e armazéns, entre outras atividades”.

 

A Fundação Sagrada Família trabalha também na região da Grande Buenos Aires, uma das áreas mais pobres da Argentina. Neste caso, os fundos se destinam ao conserto das casas. “Nos últimos dez anos, 1.800 famílias foram beneficiadas com microcréditos entre 500 e 1.000 pesos (de 160 a 318 dólares) para a execução de melhorias sanitárias, no teto, na divisão de cômodos, inclusive na construção de casas de famílias que possuem terreno próprio. De modo geral, trata-se de famílias com baixo nível de escolaridade e sem acesso ao crédito formal”, observa Beatriz Berasategui.

 

No caso da Avançar, ONG dirigida por Marta Bekerman, “estamos trabalhando com créditos entre 400 e 2.000 pesos (130 e 635 dólares) em locais da capital federal onde há diferenças grandes de nível de renda em relação aos demais cidadãos, principalmente nos bairros da região sul como Villa Soldati. Observamos que os principais bolsões de pobreza são os mais indicados para receber ajuda das ONGs. Especialmente nas áreas de conurbação da província de Buenos Aires ou nos bairros em formação na capital federal. O mesmo acontece nas províncias pobres como Formosa, no norte do país, isto é, em todos os bolsões de pobreza.”

 

Outra metodologia recorrente no trabalho das ONGs consultadas é a exigência de que os beneficiários participem de um “grupo de responsabilidade” juntamente com várias famílias ou mulheres do bairro, já que, de modo geral, não se pedem avais ou recibos de pagamento. “Criam-se espaços de confiança entre grupos de empreendedores, já que a metodologia dos grupos solidários congrega vários deles, garantindo a seus integrantes a formação de cadeias de solidariedade caso não seja possível pagar a cota ou parte do microcrédito”, observa Piñeros, da FortaleSer. “Realizamos uma primeira entrega de 5.050 pesos (1.600 dólares) para dez microempreendedores e hoje já distribuímos 29.950 pesos (8.265 dólares) para 42 microempreendimentos”, observa Johanna Rodríguez silva, da equipe técnica da FortaleSer.

 

A forma de devolução dos créditos — cujos juros são de pelo menos 20% — é semanal. No tocante aos atrasos, a média das ONGs é baixa, entre 15% e 25%. Contudo, é importante ressaltar que os microcréditos não se limitam exclusivamente à contribuição financeira, já que são complementados basicamente com ações de capacitação, assessoria e acompanhamento. “Com isso, as famílias melhoram sua condição de moradia e, por conseguinte, sua qualidade de vida (identidade, saúde, higiene, lazer, controle familiar etc.). Essas ações permitem às pessoas realizar projetos, associações, e lhes dá a oportunidade de assumirem a responsabilidade de gerar renda, de compartilhar com outros seus sonhos, sentindo-se apoiados e compreendidos pela organização”, observa Beatriz Berasategui.

 

Em sua maior parte, as mulheres são as que mais parecem dispostas a solicitar esse tipo de empréstimo. “Do total de microempreendedores beneficiados, 80,5% são mulheres”, reconhece Rodríguez silva, da FortaleSer.

 

Assim, para Marta Bekerman, da Avançar, “as mulheres são as que mais buscam essa oportunidade porque são mais abertas, mas também os homens vêm demonstrando um interesse crescente. Nos setores em que trabalhamos, 30% se dedicam ao ramo têxtil, e outros 30% ao gastronômico, mas há vários outros empreendimentos produtivos. Já apoiamos um total de 1.000 famílias com montantes superiores a 2,2 bilhões de pesos (700.100 dólares)”.

 

Desafios para o futuro

Graças ao microcrédito, as famílias de baixa renda podem realizar seus sonhos e progredir, mas existem ainda vários outros desafios para que o sistema se fortaleça e chegue a um número maior de lares.

 

“Os principais problemas dizem respeito à dificuldade de ganhar escala, o que dificulta a sustentabilidade dos programas; a obtenção de fundos para as ONGs; capacitação dos setores de recursos humanos”, observa Beatriz Berasategui. Por isso, para a professora, “em primeiro lugar vem o trabalho. No momento em que as pessoas têm trabalho garantido, o microcrédito pode ser uma ajuda valiosa, mas não a única, para que continuem crescendo.”

 

De acordo com Gastón Mascías, coordenador geral do Mulheres 2000, para chegar a um número maior de cidadãos, é preciso reduzir o custo do crédito, isto é, as taxas de juros: “O dilema está entre transportar, ou não, os custos para o serviço. De que maneira é feito esse transporte? Elevando a taxa de juros, o montante do microcrédito (elegendo, por conseguinte, um setor menos vulnerável, de menos risco e com melhor capacidade de pagamento). Outra opção consiste em se ater ao enfoque social e aprender a dar sustentação aos custos operacionais de estrutura, seja através de doações e de patrocínios do setor provado, seja através de subsídios do setor público.”

 

As ONGs são financiadas por doações, patrocínios, investimentos empresariais, mas os créditos do Estado e das entidades internacionais andam cada vez mais escassos. “Na Avançar, nós nos empenhamos para que as organizações internacionais estejam a par do nosso trabalho e façam contato conosco”, diz Maria Bekerman.

 

O certo é que o microcrédito não é o único instrumento viável para a erradicação da pobreza. “O microcrédito é um instrumento que colabora para com a erradicação da pobreza, mas não é o único. Na Argentina, falta todo um desenvolvimento social de fundo que incluiria bens públicos, educação e saúde. As pessoas precisam, por exemplo, de uma boa infra-estrutura e de casas dignas para suprir suas necessidades”, observa Marta Bekerman.

 

Além disso, ainda há muito espaço para a expansão do microcrédito. “Estima-se que haja no país uma demanda atual de 440.000 candidatos ao microcrédito produtivo na área de conurbação de Buenos Aires”, conclui Mascías.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O microcrédito avança na Argentina, mas a passos lentos." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [17 October, 2007]. Web. [26 May, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-microcredito-avanca-na-argentina-mas-a-passos-lentos/>

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"O microcrédito avança na Argentina, mas a passos lentos" Universia Knowledge@Wharton, [October 17, 2007].
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