O negócio da inovação na área de saúde: como os novos produtos chegam ao mercado

Quando Lawton Robert Burns, professor de Sistemas de Saúde da Wharton, começou a lecionar Gestão de Saúde, descobriu um vazio na literatura acadêmica. Havia muito material sobre médicos, hospitais, regulamentações governamentais e seguros. Contudo, não havia uma única fonte de informação confiável sobre um componente fundamental da indústria — o segmento dos fabricantes de produtos de saúde.

 

Burns pretende preencher essa lacuna com seu novo livro O negócio da inovação na área de saúde (The business of healthcare innovation). O livro analisa quatro setores — produtos farmacêuticos, biotecnologia, equipamentos médicos e tecnologia da informação — e examina os desafios com que cada um deles depara na hora de introduzir novos produtos no mercado.

 

O livro, editado por Burns, traz contribuições suas e de outros professores da Wharton, bem como de líderes da indústria. Seu objetivo é analisar os fatores internos e externos que determinam a disponibilização ou não de um novo comprimido ou marca-passo para pacientes e médicos.

 

Cada um dos setores é responsável pelo fornecimento de bens e serviços cujo objetivo é a melhoria da saúde do paciente — salvando-lhe também a vida. Todavia, tais produtos estão cada vez mais caros. Embora voltado para o negócio de inovação na área de saúde, o livro de Burns não passa ao largo de uma questão crítica: será que o sistema de saúde continuará a arcar com todos os custos?

 

Burns espera que seu livro seja útil tanto na sala de aula quanto fora dela. Os estudantes de administração de saúde, diz Burns, precisam conhecer o lado do produtor nessa equação, não só por causa da dependência cada vez maior da tecnologia médica, mas também por causa das despesas envolvidas. “A parte dos custos hospitalares que cresce mais velozmente é a dos suprimentos”, sejam eles drogas ou produtos cirúrgicos. Os administradores hospitalares precisam de cautela em relação às empresas com que trabalham. “Eles têm de ter papel ativo. Os hospitais precisam entender o que motiva as empresas.”

 

Burns acrescenta que os diferentes setores, sejam da área de biotecnologia ou de equipamentos médicos, precisam compreender de que modo cada um opera, principalmente por causa do movimento de “convergência” da tecnologia. “Uma das razões pelas quais escrevemos este livro é que há uma convergência lenta, porém crescente, no segmento desses produtos. Um setor confiará cada vez mais em outro para o desenvolvimento de novos produtos.” Um bom exemplo disso são os novos dispositivos de metal com cobertura medicinal (drug-coated stents), que são em parte ferramenta médica e em parte produto farmacêutico.

 

Burns, que é diretor do Centro Wharton de Administração de Saúde e Economia, revela o contexto em que o livro foi escrito ao salientar que a indústria de produtos de saúde é a um só tempo enorme e lucrativa. Nove companhias de remédios e quatro empresas de equipamentos médicos estão listadas na Fortune 500 com base nas receitas de 2003 dessas companhias.   Nesse mesmo ano, as companhias farmacêuticas, de biotecnologia e de equipamentos médicos geraram cerca de 600 bilhões de dólares em receitas no mundo todo.

 

Há um espaço considerável no livro para os produtos farmacêuticos redigido por um veterano dessa indústria, Jon Northrup, que explora as complexidades do negócio de remédios. Nos EUA, o faturamento do setor passou de 14 bilhões de dólares, em 1980, para 220 bilhões, em 2003.

 

A indústria de remédios é freqüentemente criticada por pacientes, consumidores e por outras pessoas por cobrar preços altos demais e por ganhar muito dinheiro. Os investidores se queixam de que as empresas não inovam. Contudo, Northrup apresenta uma visão extremamente simpática da indústria que, segundo ele, sabe perfeitamente da “interação existente entre alto risco, prazos excessivamente extensos para o desenvolvimento e para o retorno dos investimentos feitos — indispensáveis para motivar os acionistas a se engajarem nesse modelo de negócios”.

 

O risco é elevado, diz ele, porque o processo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) é marcado por um número muito maior de “tentativas malsucedidas” do que de “tentativas bem-sucedidas”. É preciso testar cerca de 100 produtos para que uma empresa possa colocar dois ou três remédios no mercado. Os prazos da P&D também são assustadores: para um produto sair da bancada e chegar ao leito do paciente são necessários mais de doze anos.

 

“Portanto, se o produto leva doze anos para ser comercializado, e se há uma possibilidade de 2% de que o projeto chegue ao mercado, o que se tem é um modelo de negócio bastante desafiador para que seja financiado de maneira competitiva”, escreve Northrup. Diante disso, a mentalidade de sucesso que caracteriza a P&D no segmento farmacêutico torna-se compreensível. “É preciso um campeão de vendas (um produto que venda um bilhão de dólares ou mais ao ano) para ter lucro”, observa. Contudo, a maior parte das novas drogas não passa de “sucessos limitados”.

 

Northrup diz que a indústria precisa incrementar o custo-benefício da fabricação de remédios. “É preciso descobrir meios que revelem logo os riscos e apresentem rapidamente as falhas encontradas no processo de desenvolvimento”,  possibilitando assim que projetos questionáveis sejam abortados bem depressa. As companhias de remédios já começam a buscar acordos diversos de negócios, desde a obtenção de licenças junto a empresas de biotecnologia até aquisições propriamente ditas, de modo que haja um fluxo mais eficiente na  linha de produção.

 

Acreditando em seus próprios press releases

Vários dos desafios que se colocam diante da indústria crescem ainda mais no campo da biotecnologia. Sem históricos longos de monitoramento a que se reportar, o sucesso de uma empresa depende em grande parte de convencer os investidores de que há algo novo, interessante e com potencial de venda em estudo.

 

Cary G. Pfeffer, consultor da área de biotecnologia, escreve que esse campo, ainda jovem, pode ser considerado uma decepção ou um sucesso. Ele cita um artigo do Wall Street Journal segundo o qual a indústria já acumulou 40 bilhões de dólares em prejuízos. Por outro lado, há mais de 196 drogas do segmento de biotecnologia no mercado, “muitas das quais tiveram impacto significativo na vida de pacientes em todo o mundo”.

 

Pfeiffer diz que o sucesso das empresas de biotecnologia depende de muitas coisas, inclusive da atuação de gerentes de alto nível e de objetividade. Embora a biotecnologia passe uma imagem de criatividade e flexibilidade, Pfeffer diz que “com freqüência, as empresas do setor começam a acreditar nos seus próprios press releases, o que as impede de interromper ou mudar o curso dos programas em tempo hábil”.

 

Ele também prevê uma convergência ainda maior entre as grandes empresas farmacêuticas e de biotecnologia. “O crescimento do número das companhias farmacêuticas depende da biotecnologia disponível para novos produtos, novas tecnologias e inovação científica”, escreve.

 

A indústria de biotecnologia deverá colher benefícios das novas tecnologias, inclusive da terapia de genes e de produtos de campos novos, como a genômica e a proteômica. Isso, porém, levará tempo. “Embora haja um certo retorno econômico na criação e utilização de ferramentas, os fluxos de caixa antecipados resultantes das vendas de drogas baseadas em descobertas da genômica/proteômica levarão uma década ou duas além do esperado para que se concretizem”, observa em outro capítulo dedicado à biotecnologia Stephen M. Sammut, senior fellow da Wharton e sócio de uma empresa de capital de risco.

 

O capítulo sobre equipamentos médicos é bastante otimista. O autor, Kurt Kruger, que acompanha a movimentação da indústria para Wall Street, diz que o setor é “sob todos os aspectos, um dos mais atraentes  e lucrativos de toda a economia americana”. A margem média de lucro operacional de seis das maiores companhias de instrumentos foi de 26% em 2003.

 

Kruger diz que um princípio da economia — segundo o qual a demanda cai no momento em que os preços sobem   — parece não se aplicar aos instrumentos médicos. “No segmento de produtos médicos, o crescimento é sustentável porque é impelido por tendências demográficas, pelo predomínio constante de doenças e pelo fato de que há uma capacidade praticamente infinita de absorção da tecnologia médica no âmbito da medicina”, observa.

 

Kruger cita como exemplo o desfibrilador implantável, que monitora o batimento cardíaco e transmite um choque, quando necessário, que pode salvar a vida do usuário. Cerca de 125.000 desses dispositivos, a um custo de aproximadamente 25.000 dólares cada um, foram implantados nos EUA em 2003. Outro exemplo são os dispositivos de metal (stents). Cerca de 1,2 milhão de stents simples foram implantados nos EUA em 2002. Em seguida, vieram os stents com cobertura medicinal, cujo objetivo é evitar que as artérias sejam obstruídas novamente. O produto é vendido por cerca de 3.000 dólares cada — o triplo do preço dos stents comuns — mas ninguém parece se intimidar por causa disso.

 

O modelo de negócio difere no caso das empresas de dispositivos porque o usuário não é o paciente, e sim um grupo definido de médicos que seleciona os produtos, diz Kruger. Cerca de 1,5 milhão de stents são implantados anualmente; entretanto, apenas 14.000 cardiologistas com especialização nesse tipo de intervenção escolhem as marcas. Milhares de pacientes recebem implantes de quadris nos EUA todos os anos; contudo, os procedimentos necessários estão nas mãos de 17.000 cirurgiões ortopédicos apenas. As empresas de equipamentos direcionam suas campanhas de marketing diretamente para os médicos, evitando o trabalho de ter de convencer os pacientes de que um marca-passo é melhor do que o outro.

Para o futuro, Kruger observa que a convergência entre produtos e equipamentos médicos, tais como os stents com cobertura medicinal, deverá aumentar. Um dispositivo combinado para utilização em cirurgias lombares, por exemplo, consiste em uma cobertura de metal para a espinha acompanhada de um remédio para promover o crescimento do osso.

 

O último setor associado à saúde analisado pelo livro de Burns é o da tecnologia da informação. Segundo seus defensores, os registros dos pacientes, no futuro, serão totalmente eletrônicos e poderão ser consultados em qualquer lugar. Os pedidos dos médicos e enfermeiras  serão feitos diretamente no computador, e não em blocos de papel. O objetivo é melhorar o tratamento dispensado e reduzir o número de erros. Os pacientes  das unidades de tratamento intensivo e de outras áreas do hospital serão monitorados de longe por especialistas.

 

Apesar de tal promessa, o autor do capítulo, Jeff C. Goldsmith, diz que a receptividade da TI na indústria de saúde é “glacial”, ficando muito atrás de outras  indústrias.  As razões são muitas. As organizações de saúde são complexas e os sistemas de TI não podem ser aplicados indiscriminadamente. Há também o fator humano que pode impedir o progresso: os profissionais da área hospitalar — médicos, enfermeiras, farmacêuticos — podem resistir às mudanças, optando por fazer as coisas do jeito que sempre fizeram. “Acho que a promessa da TI é exagerada a curto prazo, porém subestimada a longo prazo”, disse Burns.

 

No fim, o livro permite tanto a estudantes quanto a profissionais da saúde avaliar de que modo uma série de produtos poderá afetar o tratamento dos pacientes hoje e amanhã. Trata-se de um mercado que merece ser acompanhado de perto.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O negócio da inovação na área de saúde: como os novos produtos chegam ao mercado." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [31 May, 2006]. Web. [08 December, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-negocio-da-inovacao-na-area-de-saude-como-os-novos-produtos-chegam-ao-mercado/>

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O negócio da inovação na área de saúde: como os novos produtos chegam ao mercado. Universia Knowledge@Wharton (2006, May 31). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-negocio-da-inovacao-na-area-de-saude-como-os-novos-produtos-chegam-ao-mercado/

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"O negócio da inovação na área de saúde: como os novos produtos chegam ao mercado" Universia Knowledge@Wharton, [May 31, 2006].
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