O negócio de Private Equity: mais trabalho, menos diversão, retornos menores

Os tempos não estão nada fáceis para empresas de private equity, porém, para aquelas capazes de encontrar uma estratégia que funcione, as instituições estarão sempre dispostas a pagar um prêmio pelo retorno que a private-equity pode oferecer, diz Joseph L. Rice III, fundador da Clayton, Dubilier & Rice, durante uma palestra realizada este mês para os membros do Wharton Private Equity Club.

Rice e seus sócios fundaram a CD&R há 25 anos, quando os investimentos em private equity eram ainda incipientes. Desde então, a firma investiu US$ 4 bilhões em 36 companhias, totalizando US$ 18 bilhões em operações e receita de US$ 25 bilhões. O ex-diretor executivo da General Electric Jack Welch é atualmente um dos sócios da empresa.

“É um mercado difícil para uma firma que não tem franquias”, diz Rice. “As regras do jogo mudaram. Os retornos serão diferentes e nunca mais voltarão a ser o que já foram um dia.”

De acordo com um relatório da Thomson Venture Economics e da National Venture Capital Association, os compromissos com fundos de capital de risco caíram drasticamente no ano passado. Em 2002, 108 fundos levantaram US$ 6,9 bilhões. No ano anterior, 331 fundos conseguiram levantar US$ 40,7 bilhões.

Rice diz que uma oferta em excesso de US$ 125 milhões, em capital comprometido por meio de contrato, está causando o aumento dos preços de ativos a um ponto tal que será difícil obter retornos significativos. Ele acrescenta ainda um outro ponto que está contribuindo para a redução dos retornos, que são os requisitos de maior participação. Na década de 80, era possível financiar um negócio investindo somente 10% do capital.  Hoje, é preciso investir de 40% a 50%.

“Só isso já significa uma mudança tão radical nos retornos que é quase impossível de acreditar”, observa Rice. Há pouco tempo, ele recalculou o negócio da CD&R com a Uniroyal que, em 1986, rendeu 125% de retorno. Com os padrões de participação de hoje, o negócio renderia 17%.

Os investidores institucionais tornaram-se mais cautelosos quanto aos mercados de private equity, porém continuarão a recorrer ao setor em busca de retornos mais sólidos para ao menos uma parte de seu portifólio, sugere. “O investidor institucional, que é a nossa força vital, reconheceu que, assim como acontece com todos os instrumentos financeiros, existe uma tendência neste negócio e os retornos que já foram exeqüíveis não são absolutos.”

Os investidores institucionais estão se voltando para o private equity em busca de um retorno de 500 pontos-base acima de outros investimentos, diz ele, o que significa que os negócios de private equity precisam dar um retorno de 15-16% para se manterem acima dos 9-10% esperados no mercado de longo prazo das ações. “Ainda assim, os investidores terão de pagar por esse spread de 500 pontos-base, o que representa um enorme valor para eles.”

Rice não espera melhora a curto prazo nos mercados abertos, essenciais para que os investidores em private equity realizem seu investimento. “Estamos diante de uma economia que fede. Estamos em guerra. Algumas pessoas abusaram de suas posições como executivos de empresa. A combinação de todos esses fatores acabou por enfraquecer os mercados.”

Jogos de golfe e agendas de telefone

Rice formou-se em direito, mas, no início de sua carreira, trabalhou em uma operação de aquisição do controle acionário de uma empresa e ficou interessadíssimo nesse tipo de negócio. Em 1969, fundou uma firma que fazia esse tipo de operação e que faliu, segundo ele, por confiar demais em estratégias financeiras e pouco em conhecimento operacional. Mais tarde, juntou-se a Martin Dubilier e Gene Clayton, que haviam passado sua vida profissional administrando negócios problemáticos para instituições. Iniciaram como consultores, com a idéia de se tornarem, mais tarde, uma empresa especializada em aquisição de controle acionário.

A CD&R, com sede na cidade de Nova York, tem atualmente 15 sócios, sete dos quais com experiência empresarial de alto nível. Rice diz que incluir especialistas operacionais na firma, juntamente com pessoas com experiência financeira, foi uma estratégia revolucionária à época da fundação da CD&R. A experiência operacional permite que a firma compreenda melhor como funcionam os negócios de portifólio e  ajuda a orientar a administração em caso de recuperação. “Por fim, garante a capacidade de assumir a administração da companhia em caso de problemas.”

Embora os profissionais com experiência operacional sejam indicados para uma eventual reviravolta favorável no negócio, eles não ajudam muito na prospecção de novos negócios, diz Rice. Ele descreve os colegas que atuam na área operacional de sua firma como pessoas que têm “agendas de telefones tão interessantes que você faria qualquer coisa para conseguí-las”, porém que relutam em tentar persuadir seus parceiros de golfe a fazer negócios com a firma. Pelo contrário, são os sócios com experiência financeira, como ele próprio, que criam novos negócios: “Os especialistas em finanças são aqueles que estão sempre em atividade”, diz Rice. “O pessoal da área de operações nunca conseguiu desenvolver essa habilidade.”

O investimento mínimo da firma é da ordem de US$ 250 milhões, que, segundo Rice, ajuda a manter o portifólio focado em um número menor de empresas. Mas isso também torna mais difícil varrer os problemas para debaixo do tapete. “Sou mais humilde hoje do que há três anos. Até 1999, a esta altura eu teria me levantado e dito que somos a organização mais bem-sucedida neste setor. Porém, nos últimos três anos, tivemos algumas perdas consideráveis.”

Rice disse que um colega da área operacional foi extremamente infeliz, por duas vezes, ao avaliar sua capacidade de promover a recuperação de uma empresa de portifólio. “Por ser o membro mais antigo da firma, eu era o mais indicado para supervisionar meus colegas. Hoje em dia, olho para trás e pergunto: “Será que realmente fiz aquilo que deveria ter feito?”

Casos bem-sucedidos

De acordo com Rice, algumas empresas de private equity têm se saído melhor na conjuntura atual diversificando sua linha de produtos em fundos imobiliários, fundos de hedge ou mezzanine (financiamento no estágio de desenvolvimento de uma empresa e que precede a abertura do capital). “As estratégias utilizadas por essas pessoas demonstraram ser eficientes – estratégias melhores que as nossas, falando francamente. Elas têm uma linha de produtos com bom desempenho nos mercados em baixa e que se dá bem em mercados em alta. Nós somos uma empresa com um produto apenas.”

Uma estratégia baseada em diversos produtos requer um número maior de pessoas e é mais difícil de ser implementada, sugere, acrescentando que sua intenção era  manter a CD&R pequena e focada. “Ao mesmo tempo em que admiro as estratégias de pessoas que diversificam sua linha de produtos, não era isso que eu queria – exceto quando estamos passando por um período como o atual. Aí, então, eu adoraria ter diversos produtos para oferecer.”

O maior sucesso da firma, de acordo com Rice, foi a aquisição do controle acionário do negócio de impressoras Impact da IBM, em 1991, que se transformou na Lexmark International, uma empresa atualmente de capital aberto. Pessoalmente, seu negócio favorito foi a aquisição do controle acionário da Harris Graphics, em 1983, no valor de US$ 250 milhões, que foi a pedra fundamental para a formação do primeiro fundo da empresa. “Quando se vive de negócio em negócio, sem geração de receita, exceto aquela gerada pelos negócios, trata-se de uma mudança muito significativa passar a ter um fundo que remunera a cada trimestre. Isso torna a empresa um negócio totalmente diferente”.

Atualmente, a CR&D tem participação na Kinko’s, Guidance Solutions (incubadora de negócios online) e na Remington Arms (fabricante de artigos esportivos).

Private Equity no Exterior

As empresas de private-equity podem ter oportunidades de investir no exterior,  principalmente na Europa, sugere Rice, acrescentando que a Europa é atualmente um local melhor para investir do que os Estados Unidos, uma vez que as empresas européias não passaram pelo enxugamento ocorrido na América, onde essas reestruturações foram provocadas pela concorrência global e pelo ativismo dos acionistas, acrescenta Rice. O setor (lá fora) necessita de racionalização e reestruturação, mas o fato é que se trata de uma necessidade que já existe há 20 anos.”

A Europa precisa passar por uma evolução cultural e política para poder romper o contrato social que garante aos trabalhadores benefícios substanciais do governo, para que as indústrias sejam capazes de se reestruturar, diz ele. “Vai ser um mercado melhor, porém um mercado em que será preciso ter uma enorme dose de paciência.”

Para que as aquisições de controle acionário no exterior sejam bem-sucedidas, é preciso investir em um país com estado de direito e estabilidade, diz Rice. A América Latina preenche o primeiro critério, porém talvez não o segundo, enquanto a Ásia é um mercado imaturo e precisará de um bom tempo até que os investidores comecem a ganhar dinheiro lá. “Trata-se de um mercado dominado por relacionamentos pessoais. Isso só é bom se você tem os relacionamentos certos.”

Enquanto isso, diz Rice, o próprio investimento em private equity amadureceu nesses anos todos desde a fundação da empresa. “Private equity não era um negócio de fato e foi muito divertido transformá-lo em um, Mas isso agora faz parte do passado.”

A natureza dos negócios em private equity continuará a evoluir, crescendo em tamanho e em complexidade, prevê. “Ainda é possível ter uma carreira bastante interessante e financeiramente recompensadora. Só que não vai ser mais o que foi no passado.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O negócio de Private Equity: mais trabalho, menos diversão, retornos menores." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 June, 2003]. Web. [09 March, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-negocio-de-private-equity-mais-trabalho-menos-diversao-retornos-menores/>

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O negócio de Private Equity: mais trabalho, menos diversão, retornos menores. Universia Knowledge@Wharton (2003, June 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-negocio-de-private-equity-mais-trabalho-menos-diversao-retornos-menores/

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"O negócio de Private Equity: mais trabalho, menos diversão, retornos menores" Universia Knowledge@Wharton, [June 04, 2003].
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