O que acontece aos funcionários quando a área operacional é transferida para o exterior?

Pode ser bom para os empresários transferir suas áreas operacionais para o exterior, mas isso será bom para os funcionários?

 

Os defensores da estratégia no exterior dizem que sim. Os centros de atendimento e as instalações de processamento de transações em locais como a Índia e o México podem oferecer bons empregos aos países pobres, argumentam, além dos

funcionários americanos que ficam desempregados terem a chance de enfim encontrar posições mais qualificadas. Os críticos da estratégia, no entanto, não compram essa versão da globalização. Alegam que os funcionários dos países em desenvolvimento podem ser explorados, e que os funcionários de escritório, contadores e funcionários dos call centers americanos não têm garantia alguma de obter um outro trabalho com remuneração decente. Em vista principalmente do ritmo lento do crescimento econômico em comparação com há alguns anos, o deslocamento das áreas operacionais para o exterior prejudicará os americanos mais vulneráveis, sugere Jeff Faux, economista do Economic Policy Institute. “Isso terá um impacto nas oportunidades das pessoas galgarem posições econômicas nos EUA”, afirma.

 

O debate não é exatamente novo. Dá continuidade às discussões sobre a perda dos postos de trabalho nas indústrias e, mais recentemente, sobre o trabalho em tecnologia de informação nas nações com níveis salariais mais baixos. Em contraposição às controvérsias anteriores, no entanto, as questões trabalhistas envolvidas na transferência das áreas operacionais para o exterior não indignaram muito a opinião pública. Talvez isso se deva ao fato de uma quantia relativamente pequena de atividades das áreas operacionais ter sido transferida para fora dos EUA. Em outubro deste ano, a empresa de pesquisa Gartner descobriu que apenas 5% das corporações americanas com receitas de US$100 milhões a US$4 bilhões terceirizaram ou tinham intenção de terceirizar parte de suas áreas operacionais para o exterior. E embora nomes importantes como General Electric, American Express e Conseco tenham determinado a instalação de suas áreas operacionais em países como Índia, China, México e Jamaica, muitas organizações menores não entraram nesse bonde.

 

Mas talvez o façam em breve. A lógica por trás da globalização da contabilidade, entrada de dados e tarefas de atendimento ao consumidor é obrigatória. Enquanto os funcionários de call centers americanos chegam a ganhar por volta de US$30.000 ou mais por ano, seus pares indianos ganham US$4.000, ou até US$7.000 no caso de um posto em nível de gerência. Incluindo outras despesas, é possível uma economia total de custos de 30% a 40% ao se transferir as áreas operacionais para o exterior. Além do mais, a qualidade do trabalho pode superar as expectativas. Enquanto os postos de serviço de escritório e em call centers nos EUA são freqüentemente vistos como cargos desmotivadores com remuneração medíocre, o mesmo trabalho oferece, em um país em desenvolvimento, remuneração relativamente alta e status, o que se traduz em funcionários mais instruídos e motivados do outro lado do globo. Apostando que cada vez mais empresas com sede nos EUA ou na Europa enxergarão essa luz, as associações de terceirização de processos de negócios estão despontando, especialmente na Índia.

 

A Nasscom (National Association of Software & Services Companies), na Índia, afirma que o setor nacional indiano de call center e terceiração de processos de negócios(BPO, na sigla em inglês) – o que denominam serviços habilitados para TI – cresceu 70% durante o período de 2001 a 2002, alcançando um total de US$1,46 bilhão em receita. A Nasscom também tem perspectiva de crescimento. A receita indiana nos serviços habilitados para TI deverá crescer para US$16,94 bilhões até 2008, captando mais de 10% do mercado global, segundo as previsões da Nasscom. O emprego de indianos no ramo poderia aumentar de cerca de 100.000 para 1,1 milhão de pessoas, ainda segundo a Nasscom.

 

Um estudo realizado no ano passado pela Ovum, empresa de consultoria com sede em Londres, revelou que a capacidade dos call centers no mundo todo quase duplicará dentro de cinco anos, crescendo de 7,3 milhões de postos em 2001 para mais de 13 milhões no começo de 2006. A Ovum também prevê o crescimento particularmente rápido do mercado de call centers na Europa Central e do Leste e nas Américas do Sul e Central (inclusive no Caribe). A fatia da capacidade global de call centers de ambas as regiões saltará de 2% dos postos internacionais de call center em 2001 para 7% em 2006 (um aumento combinado para 14%, saindo de 4%), segundo a Ovum.

 

Mas não está claro se a mudança das áreas operacionais para o exterior é boa para os funcionários dos países em desenvolvimento. Nem todas as instalações indianas têm ar-condicionado, observa Vail Dutto, diretora executiva de uma empresa de terceirização de centros de atendimento com sede nos EUA. Dutto percorreu 20 localidades na Índia no começo deste ano à procura de uma parceria indiana para sua empresa, a InTelegy. Com o clima tropical indiano, a falta de ar-condicionado simplesmente resulta em condições precárias de trabalho. Além disso, algumas instalações de funções de apoio na Índia têm padrões de espaço para o trabalho da equipe menores que os dos escritórios americanos, afirma Chuck McDonough, diretor de contabilidade do Banco Mundial, que transferiu algumas das áreas operacionais para Chennai, na Índia, no ano passado.

 

Além da perspectiva de escritórios abafados e apertados, uma outra preocupação é a capacidade dos trabalhadores nos países mais pobres de organizar sindicatos independentes, sugere Candice Johnson, porta-voz do sindicato Communication Workers of America (CWA). Os líderes sindicais no México, por exemplo, foram demitidos e espancados. “Ainda é algo muito difícil um funcionário exercer os direitos de organização”, afirma Johnson.

 

Rebecca Scholl, analista da Gartner, fez um tour pelos call centers filipinos e refletiu sobre o custo das condições de trabalho para os funcionários que trabalhavam até tarde da noite. Muitos funcionários não tinham seu próprio meio de transporte, conta, o que fazia com que ficassem várias horas extras no local até que o serviço de transporte público começasse. Embora houvesse quartos para dormir e karaokê disponíveis, Scholl questiona o impacto de longo prazo dessa rotina: “É possível trabalhar até tão tarde somente até que seu corpo entre em colapso”.

 

Por outro lado, Scholl relata que as instalações que visitou eram tão boas quanto em qualquer outra parte do mundo em termos de conforto, ergonomia e serviços de bar. Outras organizações com áreas operacionais no exterior também afirmam tratarem seus funcionários adequadamente. O Banco Mundial, por exemplo, usou seus escritórios em Washington, D.C. como padrão para o tamanho do local de trabalho em sua instalação de processamento de transações na Índia, que atualmente emprega 110 pessoas. Cada funcionário indiano conta com cerca de 27 metros quadrados de espaço. Dutto, cuja empresa InTelegy realizou uma parceria com a HCLL Technologies, empresa com sede na Índia, afirma que o call center com 400 postos em Nova Délhi, usado para atender seus clientes, dispõe de ar-condicionado e fornece transporte para os funcionários.

 

Daksh, uma empresa de terceirização de processos de negócios com sede na Índia, importou equipamentos de escritório para garantir que seus espaços de trabalho sejam ergonomicamente corretos. Seus cerca de 2.300 funcionários trabalham em escritórios com ar-condicionado, dispõem de transporte de ida e volta para o trabalho e têm uma folga das tarefas, às vezes tediosas dos call centers, para assumir postos como o de bibliotecário da empresa. Os funcionários também podem se qualificar às stock options.

 

O mesmo ocorre com os funcionários da Spectramind, uma outra grande empresa indiana de terceirização de processos de negócios, agora 90% propriedade da empresa de tecnologia de informação indiana Wipro. Os quase 3.100 funcionários da Spectramind também dispõem de ar-condicionado, bem como serviços de transporte e benefícios de seguro-saúde.

 

A Daksh e a Spectramind podem tratar seus funcionários tão bem quanto as melhores empresas americanas, mas e os funcionários americanos cujos empregos são transferidos para a Índia e outras localidades? As demissões já começaram. Em abril deste ano, a empresa de serviços financeiros Conseco anunciou que planejava transferir 2.000 postos de trabalho para a Índia dentro de 21 meses, embora tenha enxugado seu objetivo para um total de cerca de 1.500 postos de trabalho até o final de 2003. Até agora, cerca de 1.100 estão trabalhando nas operações da Conseco em sua subsidiária indiana, Exlservice.com. O Banco Mundial, por sua vez, eliminou 40 postos de trabalho de sua sede em Washington ao transferir algumas áreas operacionais para a Índia.

 

Essas demissões em massa provavelmente se tornarão cada vez mais delicadas, dada a possibilidade de um quadro duplamente recessivo e o ritmo lento do crescimento da taxa de emprego nos EUA. Em julho, por exemplo, a economia americana produziu meros 6.000 postos de trabalho líquidos não agrícolas com carteira assinada, e a taxa de desemprego permaneceu em 5,9%. Enquanto isso, a opinião pública se indignou com a ganância corporativa na esteira dos escândalos em empresas como a Enron, a Tyco International e a WorldCom.


“Se os funcionários de suporte aos processos de negócios americanos estão perdendo seus empregos para funcionários de colarinho branco menos dispendiosos na Índia e nas Filipinas, é provável que essa se torne uma séria questão política e de relações públicas para as empresas que considerarem a possibilidade de terceirização no exterior”, segundo relatório de julho da Gartner. A empresa de pesquisa sugere que uma abordagem sábia poderia incluir empresas de terceirização com sede nos EUA que tenham operações globais e ofereçam planos de recolocação para os funcionários prejudicados.

 

Jeff Faux, no entanto, sugere que o treinamento para recolocação é apenas um band-aid para a enorme ferida da exportação de empregos. Na sua opinião, as corporações enganaram os funcionários ao dizerem que apenas os trabalhos menos qualificados seriam transferidos para o exterior. As funções mais qualificados também foram transferidas, dada a capacidade de treinamento de pessoal nos outros países, afirma. De fato, alguns funcionários do call center da InTelegy na Índia estão realizando trabalho de suporte ao cliente para o programa de pequenos negócios da empresa de software Oracle, trabalho que requer conhecimentos técnicos.

 

Faux também questiona a lógica de que os trabalhos em call centers americanos são, por definição, indesejáveis. Se os empregos não estivessem sendo transferidos para a Índia e outros países, os funcionários americanos teriam oportunidade de receber mais treinamento e benefícios, afirma. “É um ciclo vicioso”, argumenta Faux. “Está-se deixando esses empregos cada vez mais sem saída”.

 

O ponto de vista de Faux é apoiado pela experiência do CWA, que representa funcionários de empresas como a Verizon Communications, a AT&T e a SBC Communications. Graças aos esforços conjuntos de sindicatos e gerência, os funcionários representados pelo CWA podem participar de vários programas de treinamento, inclusive os cursos com certificado em tecnologia da Cisco Systems. Além disso, os funcionários de call centers representados pelo CWA podem ganhar de US$40.000 a US$45.000 por ano realizando trabalhos de atendimento ao cliente, declara Johnson.

 

Segundo Faux, para que possam gerar empregos, os governos estaduais e o governo federal têm de dispor de meios para limitar a terceirização no exterior. Cita um caso em que beneficiários do serviço social de Nova Jersey que fizeram ligações a respeito de questões sobre seus benefícios foram atendidos por agentes localizados na Índia. Quando a situação veio à tona este ano, causou indignação o fato destes empregos não estarem nos EUA. No entanto, Faux sugere que a legislação de livre comércio possa minar a capacidade dos órgãos do governo de evitar a privatização e a transferência de postos de trabalho para o exterior. “Se não for possível dar ao Estado de Nova Jersey a liberdade de criar oportunidades no setor público para seus habitantes pobres e desempregados, é improvável que se seja capaz de fazer qualquer coisa a respeito da transferência pela GE de suas áreas operacionais para o oriente”, afirma Faux.

 

Os defensores da estratégia no exterior não compartilham da visão catastrófica de Faux sobre exportação de empregos. As organizações, argumentam, provavelmente manterão uma parte de suas áreas operacionais nos EUA para evitar ficarem nas mãos de empresas de terceirização e para estarem preparadas para situações desastrosas. Além disso, defendem a mudança das áreas operacionais para o exterior como boa para a maior parte dos americanos a longo prazo. Dutto, da InTelegy, afirma que a exportação de postos de serviço em call centers para o exterior pode estimular a mão-de-obra americana a aumentar suas qualificações. Segundo ela, “Nós nos tornaremos os funcionários especializados. Os empregos com baixos salários e remuneração por hora ficarão onde podem ser melhor  realizados”.

 

David Lewis, vice-presidente associado de desenvolvimento de negócios para a América do Norte da Spectramind, afirma que ajudar as empresas americanas em dificuldade para poupar dinheiro as ajudará a aumentar seus lucros e, finalmente, reinvestir em mais empregos. “Não é do interesse de ninguém que as empresas com sede nos EUA sofram como está ocorrendo agora”, declara. Lewis sugere que as taxas de remuneração salarial acabarão por se equilibrar, com o aumento dos padrões da mão-de-obra nos países mais pobres, em vez de os padrões americanos caírem.


O Banco Mundial tinha esse objetivo ao transferir suas operações para a Índia. O Banco decidiu pagar a seus funcionários um salário acima da média – numa porcentagem de 75% – ao contratar sua equipe indiana. Além disso, vários outros funcionários afetados em Washington encontraram outros empregos no Banco, diz McDonough. De qualquer modo, se alguns trabalhadores americanos perderam seus empregos enquanto trabalhadores de um país mais pobre foram beneficiados, o resultado líquido ainda é satisfatório, sugere. “Nossa missão é livrar o mundo da pobreza”, afirma. “Estamos aumentando o padrão de vida no estado-membro em que nos encontramos. Nossa visão é mais global do que local”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O que acontece aos funcionários quando a área operacional é transferida para o exterior?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 dezembro, 2002]. Web. [20 August, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-acontece-aos-funcionarios-quando-a-area-operacional-e-transferida-para-o-exterior/>

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O que acontece aos funcionários quando a área operacional é transferida para o exterior?. Universia Knowledge@Wharton (2002, dezembro 03). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-acontece-aos-funcionarios-quando-a-area-operacional-e-transferida-para-o-exterior/

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"O que acontece aos funcionários quando a área operacional é transferida para o exterior?" Universia Knowledge@Wharton, [dezembro 03, 2002].
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