O que as empresas podem fazer para liderar o combate à mudança climática

O anúncio do presidente Trump de que os EUA pretendem se retirar do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas fez com que vários setores ligados ao governo e empresas diversas se posicionassem a favor do acordo ─ com ou sem o envolvimento do atual governo. De acordo com o último levantamento, prefeitos de cerca de 300 cidades e mais de uma dúzia de estados ─ representando 40% da economia americana ─ disseram que continuarão a trabalhar com o propósito de reduzir as emissões de combustível fóssil. O acordo de 2015, assinado por 195 países tem como objetivo limitar o aquecimento global para dois graus centígrados acima do período pré-industrial.

As empresas estão assumindo a liderança nesse processo. Amazon, Apple e outras grandes empresas estão empenhadas em trabalhar para alcançar o parâmetro fixado pelo Acordo de Paris. Estados e governos locais podem preencher o vácuo deixado pela esfera federal? Ou será que esse seria um trabalho mais adequado às empresas?

Não se trata de uma proposta do tipo ou isto ou aquilo, diz Eric W. Orts, professor de estudos jurídicos e ética nos negócios e chefe de departamento do programa Iniciativa de Liderança Ambiental Global [Initiative for Global Environmental Leadership]. Orts observa que antes mesmo de Trump decidir se pronunciar a respeito do Acordo de Paris, a resposta a essa indagação já era conhecida há algum tempo: “Empresa e governo têm um papel a desempenhar nas tratativas sobre mudança climática ─ que é, provavelmente, a questão mais complexa e desafiadora do nosso tempo, com a possível exceção da proliferação e do risco das armas nucleares”, diz Orts. “O Acordo de Paris, na verdade, prevê a necessidade de empresas e consumidores, bem como governo e cidadãos, assumirem suas responsabilidades e propor soluções. Nas últimas décadas, numa tendência que culminou com o Acordo de Paris ─ especialistas passaram a aceitar cada vez mais a visão segundo a qual o governo por si só não poderá resolver o problema da mudança climática. Trata-se de um problema simplesmente grande demais, e as forças do governo ─ e particularmente o direito internacional ─ são excessivamente frágeis.”

A intenção do governo Trump de se retirar significa que uma fatia maior de responsabilidade recai agora sobre as empresas, diz Brian Berkey, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. “As declarações que muitos têm feito expressam um comprometimento com a liderança moral necessária”, diz ele. “Contudo, o que realmente importa é se estão pondo em prática o compromisso expresso por suas declarações para os próximos anos. As empresas têm a oportunidade de assumir a liderança nessa questão importante, e deveriam fazê-lo.”

Orts assinala que a proposta do ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, feita perante as Nações Unidas em nome dos prefeitos, governadores, reitores de universidades e líderes empresariais de participar do Acordo de Paris não significa substituir o governo. “Trata-se de empresas vanguardistas que acreditam na ciência e que farão parceria com o Estado e com os governos locais, além de outras organizações, como grupos ambientais, para coordenar ações de tal forma que os EUA possam atingir os objetivos expressos pelo governo Obama. Em outras palavras, a ideia é contornar Washington e o governo Trump. Uma grande parte dos americanos acredita que a mudança climática é real ─ e que é preciso fazer alguma coisa.”

Um ponto positivo da decisão do governo Trump de se retirar do Acordo de Paris “talvez seja o fato de que ele ajudou a galvanizar um movimento de ampla escala necessário ao progresso de longo prazo de qualquer evento”, diz Orts.

Em busca de um imperativo moral

A necessidade da participação do governo nas tratativas sobre a mudança climática, na opinião de muitas pessoas, e de outros setores do governo, estão ocupando efetivamente no vácuo deixado pelo governo Trump. O Havaí é o primeiro estado a aprovar uma lei com o propósito de atingir os objetivos do acordo, e pelo menos 12 estados, além de Porto Rico, se uniram até o momento à Aliança Climática dos EUA, uma coalização compromissada com a adesão ao acordo.

Contudo, há muita coisa em risco também para o governo federal. Os militares americanos estão preocupados com a mudança climática porque “ela deverá ter impactos geopolíticos desestabilizadores muito significativos, contribuindo para o aumento da pobreza e a escassez de alimentos e água, aumentando desse modo a possibilidade de confrontações armadas entre os países pelo acesso a recursos”, diz Sarah E. Light, professora de estudos linguísticos e ética nos negócios da Wharton em “The Military-Environmental Complex” [O complexo ambiental-militar], publicado pela Boston College Law Review. “O alinhamento excepcional entre a missão militar e a necessidade de conservar energia, de lidar com a mudança climática e de desenvolver recursos renováveis, traz consigo um potencial fabuloso: estimula o desenvolvimento de novas tecnologias, proporciona suporte comercial em larga escala para as tecnologias existentes e ajuda a direcionar mudanças comportamentais em grande escala.”

Robert Hughes, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, destaca que em artigo publicado no Business & Professional Ethics, “Empresas, ética e mudança climática global” [Business, Ethics and Global Climate Change], Denis G. Arnold e Keith Bustos “argumentam de forma contundente que quando os governos deixam de regular as emissões adequadamente, as empresas têm a responsabilidade moral de limitá-las voluntariamente. A emissão de gases de efeito estufa afeta a todos”, diz Hughes. “Para muita gente, inclusive muitos dos pobres do mundo de hoje e muita gente que viverá no futuro, os prejuízos trazidos pela mudança climática resultantes de níveis elevados de emissões superam em larga medida os benefícios dos métodos de produção da economia que resultam em níveis muito altos de emissões.” As preferências econômicas das pessoas que hoje moram nos EUA e em outros países ricos não justificam os enormes prejuízos líquidos para os que viverão no futuro e para os pobres do mundo, observa Hughes. “Até que ponto se deve exigir das empresas que limitem suas emissões é uma questão difícil e que é tópico de debate na ética ambiental”, acrescentou. “Um aspecto do debate: as empresas com um longo histórico de produção de gases de efeito estufa têm uma responsabilidade maior do que outras no que se refere à limitação das emissões futuras?”

As regulamentações do governo, na verdade, não têm oferecido soluções fáceis para muitos dos problemas ambientais mais desafiadores da atualidade, escrevem Light e Orts em “Paralelos na governança ambiental pública e privada” [Parallels in Public and Private Environmental Governance], publicado no Michigan Journal of Environmental & Administrative Law. Os autores dizem que a mudança climática, a perda da biodiversidade, o desflorestamento, a perda de terra agricultável, a fertilização nitrogenada excessiva, a destruição das áreas de pesca oceânicas e a escassez de água potável requerem estratégias jurídicas variadas que combinem leis públicas locais, regionais, nacionais e internacionais. “A aceitação de formas paralelas de governança pública e privada é importante para a busca de soluções de problemas ambientais globais porque representa um conjunto diverso de instrumentos cujo uso pode levar a estratégias novas e surpreendentes. Entre esses instrumentos, temos opções como os sistemas privados de comércio de emissões, tarifas de carbono privado, gestão de cadeia de suprimentos privada e seguro privado, bem como seus resultados no direito público.”

Orts diz que o sonho de uma solução abrangente de políticas centralizadas para a mudança climática também são utópicas. Em Climate Contracts [Contratos climáticos], publicado no Virginia Environmental Law Journal, Orts diz que “a complexidade dinâmica do problema da mudança climática é sinal de que as melhores soluções alavancarão movimentos sociais de ampla base favorecendo a produção e a manutenção de muitos tipos de acordos jurídicos, econômicos e políticos envolvendo diversas instituições ─ não apenas os Estados-nações que negociam tratados internacionais, mas também outros acordos de governos regionais e municipais, organizações sem fins lucrativos (entre elas grupos educacionais, religiosos e ambientalistas), empresas e grupos de consumidores”. Contudo, diz Orts: “É verdade que o caminho para que os EUA cumpram os alvos do Acordo de Paris sem a ajuda do governo federal torna as coisas muito mais difíceis.”

Precisa-se: mais do que excelentes relações públicas

Seria tarde demais? O ex-secretário de Estado John Kerry, que ajudou a dar forma ao Acordo de Paris, diz que com a participação das empresas, estados e cidades, os EUA atingirão os alvos estabelecidos pelo acordo, apesar da decisão de Trump. “Acredito que os EUA cumprirão os padrões do Acordo de Paris”, disse ele recentemente em Oslo. “Portanto, não quero que as pessoas desanimem.”

O Protocolo de Montreal sobre substâncias que empobrecem a camada de ozônio é um bom lembrete ─ tanto do que pode ser alcançado mediante uma resposta contundente do governo e das empresas a um problema aparentemente intransponível, bem como da resiliência da terra. Em 1987, alarmados com a notícia de que a camada de ozônio estava em processo de esgotamento, praticamente todos os países do mundo assinaram o protocolo, que bania o uso de clorofluorcarbonos, fonte de cloro atmosférico que estava devorando a camada de ozônio. Deu certo. Uma equipe de cientistas do MIT descobriu recentemente que o buraco na camada de ozônio da Antártida encolheu mais de quatro milhões de quilômetros quadrados desde 2000, ocasião em que o esgotamento de ozônio chegou ao seu pior nível.

“A ciência foi importante ao mostrar o caminho; diplomatas, países e a indústria souberam, de forma espetacular, mapear uma direção que nos distanciasse dessas moléculas, e hoje já podemos observar que o planeta começa a melhorar. É uma coisa maravilhosa”, disse a MIT News Susan Solomon, cientista de destaque em sua área. Hoje, o que se pode fazer de importante em relação ao aquecimento global é agir. “A resposta de boa parte da comunidade empresarial é, pelo menos em certa medida, encorajadora”, diz ela. “Várias empresas fizeram pronunciamentos fortes em oposição à decisão do governo e anunciaram seu compromisso de trabalhar com o objetivo de limitar as emissões do gás de efeito estufa.”

Se as empresas conseguirem reduzir suas emissões, ou as que decorrem de suas cadeias de suprimentos, é o que farão ─ mesmo que isso reduza de algum modo seus lucros, diz Berkey. “Elas deverão também respaldar os esforços do governo no sentido de introduzir políticas que contribuam para o combate à ameaça da mudança climática onde existam tais esforços. No mínimo, deverão deixar de fazer lobby contra esses esforços.”

Em alguns casos, somas significativas de dinheiro de grandes empresas dão sustentação a ideias de combate à mudança climática. Bill Gates e um grupo de mais de uma dúzia de bilionários se uniram e formaram a Coalizão para a Revolução na Energia [Breakthrough Energy Coalition] com o objetivo de investir em novas tecnologias energéticas. O grupo, do qual fazem parte Jeff Bezos, Richard Branson, Jack Ma, Mark Zuckerberg e Priscilla Chan ─ se comprometeu a contribuir com bilhões de dólares. Eles trabalharão com a Mission Innovation, um consórcio de 22 países, entre os quais os EUA e a União Europeia, cujos gastos chegarão a US$ 30 bilhões ao ano em pesquisa e desenvolvimento de energia limpa até 2021.

Em outros casos, porém, a resposta das empresas poderá não ir muito além de lances de relações públicas, disse Berkey. O apoio público ao Acordo de Paris é muito forte, com pouca oposição. Dar apoio ao acordo sem fazer nada de concreto não custa nada para muitas empresas, dado o sentimento público em relação ao assunto. “Algumas empresas que deram apoio ao Acordo de Paris, porém, continuam a se opor às regulações que também ajudariam a lidar com a ameaça da mudança climática, tais como padrões mais rigorosos de emissões para veículos”, ressalta Berkey.

Outras, como a Exxon, têm fortes razões para parecer simpáticas ao combate à mudança climática, uma vez que a empresa está sendo investigada atualmente em Nova York por envolvimento em assuntos ambientais, disse. “Será interessante ver o que as empresas que anunciaram seu apoio ao acordo farão nos próximos anos”, disse Berkey. “Algumas têm interesses nitidamente econômicos que se alinham aos seus esforços para atenuar a mudança climática, porém outras talvez se vejam diante da necessidade de tomar decisões que exijam priorizar um volume maior de lucros ou emissões reduzidas. Se as ações do governo tornarem mais atraentes para as empresas reduzir seus esforços de combate à mudança do clima, resta ao menos aos líderes dessas empresas o confronto com suas escolhas morais. Suas ações indicarão até que ponto eles estão comprometidos com o apoio que muitos expressaram recentemente de lutar contra a deterioração do clima.”

Para muitos cientistas e outros especialistas, o Acordo de Paris é flexível demais, porque o mundo precisa se comprometer muito mais com alvos rigorosos para passar do combustível fóssil para a economia de baixo carbono, disse Orts. “Não creio que o consenso geral acerca da severidade do problema climático mudará”, diz ele. “Os EUA ficarão de fora…”

Orts acredita que a posição de Trump em Paris será vista como uma aberração menor a longo prazo. “O Acordo de Paris seguirá em frente, e os EUA acabarão voltando a ele. Será que o farão tarde demais? Talvez. Contudo, de acordo com o professor Martin Seligman, vale a pena ser otimista e nos esforçarmos o máximo possível por um amanhã melhor para nossos filhos e netos. Hoje, o futuro dos EUA depende da liderança dos estados, das cidades e das empresas ─ bem como das organizações sem fins lucrativos.”

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O que as empresas podem fazer para liderar o combate à mudança climática." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [19 July, 2017]. Web. [20 August, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-empresas-podem-fazer-para-liderar-o-combate-mudanca-climatica/>

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