O que está acontecendo com o peso mexicano?

O Banco Central do México pegou a todos de surpresa ao aumentar as taxas de juros em 50 pontos básicos, ou 3,75%, no último dia 17 de fevereiro. Ao mesmo tempo, anunciou uma venda direta de dólares norte-americanos no mercado. Tais medidas têm por objetivo frear a forte desvalorização por que passa o peso mexicano em relação à moeda norte-americana. Por enquanto, parece que a decisão tomada está surtindo efeito. Depois de anunciada a medida, a cotação do peso recuperou em parte o terreno perdido nas últimas semanas. No ano passado, a queda da moeda em relação ao dólar foi de 17%. Até o momento, antes da intervenção do órgão regulador, a perda acumulada era de 10%, atingindo a mínima histórica de 19,4448 dólares na primeira quinzena de fevereiro.

“Desde a última reunião da comissão de política monetária, a volatilidade dos mercados financeiros internacionais cresceu e o cenário atual da economia mexicana continuou a se deteriorar”, observou em entrevista coletiva o presidente do Banco Central, Agustín Carstens. Ao mesmo tempo, ele deixou claro que as decisões tomadas não implicavam o início de um ciclo de contração monetária. “No futuro, a Junta de Governo acompanhará mais de perto todos os fatores determinantes da inflação e suas expectativas para o médio e longo prazos, principalmente a taxa de câmbio e a possível transferência dos aumentos para os preços ao consumidor”, disse.

Uma situação peculiar

O peso mexicano vinha sendo, desde a intervenção do Banco Central, uma das moedas mais castigadas dos mercados emergentes. O caso chama a atenção porque a economia mexicana não apresenta sintomas de debilidade, tendo crescido 2,5% no exercício passado (antes 1% da América Latina) e com previsões para este ano de 2,6%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. Diante disso, o que está acontecendo com o peso? A que se deve esse ataque?

“Na verdade, a desvalorização do peso não reflete a existência de um ataque a essa moeda e tampouco uma preocupação em particular com a moeda mexicana”, observa Eugenio Gómez, professor de ambiente econômico da Escola de Negócios IPADE. Para ele, o que se vê é uma valorização do dólar em relação a muitas outras moedas em virtude da recuperação da economia norte-americana depois da crise financeira e em virtude também da mudança da política monetária dos EUA como consequência dessa recuperação. “É o que observamos também quando examinamos a desvalorização que sofreram outras moedas. Por exemplo, as moedas do Chile e da África do Sul também sofreram desvalorizações semelhantes à da moeda mexicana nos anos de 2014 e 2015, ao passo que em países como Colômbia e Brasil a depreciação da moeda foi duas vezes maior do que no México”, disse.

Seguindo esse mesmo raciocínio, Einar Moreno Quezada, diretor acadêmico do Departamento de Finanças e Contadoria da Universidade de las Américas Puebla, observa que “mais do que uma valorização do peso, estamos diante de uma apreciação do dólar”. Isto é, “a situação atual da economia norte-americana, desde o aumento de suas taxas de juros, é mais atraente para os investidores e, por isso, cresce a demanda por dólares, resultando em sua valorização”. Ao mesmo tempo, ele observa que “o grau de risco dos países cujo orçamento depende significativamente da indústria do petróleo ― como o México ― continua a aumentar em razão da desvalorização do preço do petróleo bruto”.

Os especialistas em mercados financeiros observam que o peso mexicano tem a virtude de ser a moeda mais negociada dos mercados emergentes, o que, ao mesmo tempo, é uma maldição para sua cotação. Os analistas garantem que a atual desvalorização da moeda se deve à sua utilização como cobertura em momentos de alta volatilidade. Os investidores internacionais usam o peso como proteção, sobretudo porque ele é negociado 24 horas por dia durante cinco dias por semana, o que só acontece com duas outras moedas de mercados emergentes: o rand sul-africano e a lira turca.

Gómez não endossa tais teorias e diz que “a evolução atual da moeda mexicana se deve mais ao fato de que o dólar voltou a ser o porto seguro para os investidores em momentos de alta volatilidade, o que o torna mais valioso em detrimento de outras moedas, como o peso”. Moreno Quezada, por sua vez, salienta o fato de que o peso é atualmente uma moeda cotada durante 24 horas, o que a deixa mais vulnerável do que outras moedas emergentes ao vaivém dos mercados que, no momento, passam por grande volatilidade. “Trata-se de uma moeda com que se realizam transações no mundo todo. Desse modo, sua sensibilidade é elevada em relação aos movimentos das demais moedas. É por isso que nada garante que o peso continuará volátil o tempo todo”, disse.

Efeitos sobre a economia

Para Gómez, a desvalorização pode trazer consequências positivas e negativas. “Do lado negativo, a desvalorização pode gerar pressões inflacionárias devido ao aumento dos preços de bens importados, embora tais pressões tenham se mostrado particularmente frágeis recentemente devido, em parte, ao fato de que alguns outros fatores, como a queda internacional do preço das commodities, resultaram em inflações muito baixas em diversos países. Com relação aos efeitos positivos, um peso barato pode favorecer o turismo e algumas exportações”, assinalou.

Moreno Quezada acredita que ainda não se observam efeitos palpáveis de inflação, embora “certamente haja impactos positivos e negativos”. Ele especifica que, por um lado, poderá haver crescimento econômico em razão das remessas e, por outro, é preocupante o estrangulamento financeiro das empresas que têm dívidas em dólares e que não previam o comportamento da moeda nos níveis em que ela se acha atualmente. “Quem recebe hoje em dia as chamadas remessas, maximiza seu poder aquisitivo ao converter seus dólares em mais pesos do que antes. Por outro lado, as empresas que têm créditos em dólares, mas cujas transações são feitas em pesos, têm a desvantagem de ter de cobrir com uma maior quantidade de pesos os pagamentos de juros”, diz.

Assim, com efeitos positivos de um lado e negativos de outro, o Banco Central do México se vê diante de uma encruzilhada. Finalmente, ele optou pela intervenção elevando as taxas de juros, uma decisão que já era objeto das ponderações de alguns economistas no início do mês de fevereiro. Os analistas que apoiavam essa decisão disseram que as vantagens competitivas conquistadas pelo país ao baratear suas exportações e serviços de turismo estão sendo superadas pelo perigo de que a inflação aumente significativamente e prejudique a estabilidade econômica do México.

Contudo, a maior parte dos especialistas consultados pelo Banco Nacional do México (Banamex) no final de janeiro, haviam adiado suas previsões de aumento das taxas de juros para o período entre maio e junho. Alguns economistas acreditam que os dados econômicos atuais não respaldam esse movimento. Em primeiro lugar, porque poderia afetar o crescimento. E, em segundo lugar, porque a inflação não dá sinais de aceleração. Os preços ao consumidor (IPC) no México subiram 0,38% em janeiro e sua taxa anual é de 2,61%, muito próxima dos mínimos históricos e da meta de 3% do Banco Central. Com relação à evolução do PIB, o Banco Mundial prognosticou um aumento de 2,8% para este ano, acima dos 2,5% de 2015. Apesar disso, a instituição se mostrou cautelosa porque a economia do país está sendo inevitavelmente afetada pela forte queda dos preços do petróleo e pelas mudanças na política monetária dos EUA, um de seus principais parceiros comerciais.

Pedro Javier Uriz Borrás, economista do BBVA Bancomer, o maior banco do país, disse em 15 de fevereiro a Reuters, em uma entrevista concedida por telefone, que embora as condições monetárias propiciem uma alta das taxas, ele não crê que seja necessariamente uma solução mágica para a apreciação do peso mexicano. Carlos Capistrán, economista chefe do Bank of America Merrill Lynch no México, disse a Reuters que as prováveis elevações das taxas de juros no México teriam como objetivo impedir um possível aumento do preço da moeda por parte do Federal Reserve. Isso é algo cada vez menos provável diante da debilidade da economia mundial e da força do dólar. “Quando o cenário mundial começar a dar sinais de melhoras, a taxa de câmbio fará o mesmo”, previu Capistrán.

O que acontecerá a médio prazo? 

A opinião mais generalizada entre os analistas é que o peso ganhará força no decorrer do ano apoiado nos bons fundamentos da economia mexicana. É o que pensa também o próprio Agustín Carstens na entrevista já mencionada, em que se mostrou convencido de que a taxa de câmbio será mais favorável para a moeda mexicana, na medida em que a volatilidade que sacode os mercados for se atenuando.

De acordo com Gómez, “o peso se desvalorizou mais do que seria de esperar em vista dos fundamentos da economia mexicana”. Ele diz que se trata de um processo típico de overshooting, comum em períodos de desvalorizações desse tipo. “Nesse sentido, é de se esperar que a moeda mexicana se recupere passando o período de volatilidade. Contudo, é difícil saber quando isso acontecerá. Até o final de 2016, o dólar poderá voltar a um patamar de 17 pesos, mas isso dependerá de vários fatores, sendo o mais importante deles a condução da política externa dos EUA”, prevê.

Moreno Quezada não é tão otimista no tocante à evolução da moeda mexicana nos próximos meses. Ele diz que “independentemente dos pontos fortes da economia do país, o dólar continua ganhando força e embora as condições de equilíbrio façam com que, a médio prazo, o peso mostre seu verdadeiro valor em relação à moeda norte-americana, passará um bom tempo até que os investidores reavaliem as vantagens de investir em pesos mexicanos”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"O que está acontecendo com o peso mexicano?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 February, 2016]. Web. [26 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-esta-acontecendo-com-o-peso-mexicano/>

APA

O que está acontecendo com o peso mexicano?. Universia Knowledge@Wharton (2016, February 24). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-esta-acontecendo-com-o-peso-mexicano/

Chicago

"O que está acontecendo com o peso mexicano?" Universia Knowledge@Wharton, [February 24, 2016].
Accessed [March 26, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-esta-acontecendo-com-o-peso-mexicano/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far