O que faz com que a Southwest Airlines continue operando

Qual é o segredo da Southwest Airlines para continuar faturando? Afinal das contas, o setor das companhias aéreas em geral está caindo aos pedaços. A US Airways e a United Air Lines estão se reorganizando depois de falirem e a mesma sorte espera a American Airlines. Em conjunto, as maiores empresas aéreas do país perderam dez milhões de dólares durante os últimos anos, sem esperança de recuperação imediata à vista.

 

Segundo o presidente da Southwest, Herb Kelleher, durante uma palestra na Wharton em 22 de abril, o segredo do sucesso dessa empresa pode ser percebido por quem quiser ver, inclusive seus concorrentes. É a obsessão em manter preços baixos, tratar bem os funcionários e o empenho em gerenciar a empresa em tempos de vacas gordas, com um olho nos tempos de vacas magras que inevitavelmente virão.

 

Façam isso, disse Kelleher, e o resto será mera conseqüência. “Para ter sucesso nos negócios são necessários conhecimentos de história e de futurologia”, disse ele. “O que isso significa? Sei lá, mas vem a calhar. Sem brincadeira, o que eu quero dizer é: preparem-se para os maus tempos que estão por vir. Em nosso setor, já aconteceu duas vezes na última década, duas vezes na penúltima e duas, na antepenúltima.”

 

Embora Kelleher tenha se depreciado durante a palestra – ele é famoso por fazer piadas sobre seu fraco por uísque –, vangloriou-se por sua empresa ter se preparado para o recente colapso do setor das companhias aéreas. “Depois de 11 de setembro, não cancelamos nenhum vôo”, disse ele. “Não dispensamos nenhum funcionário.”

 

A Southwest pôde fazer isso porque tinha os custos mais baixos e o balanço patrimonial mais forte do setor, de acordo com Kelleher. Na segunda-feira, a empresa de Dallas divulgou um relatório comunicando seu 48º trimestre consecutivo de resultados positivos, com lucros de US$ 24 milhões ou 3 centavos por ação, registrando um aumento de 14% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Suas ações fecharam a US$ 15,67 na terça-feira passada. Durante os últimos cinco anos, essas ações subiram 67%, período em que o Índice Dow Jones referente às companhias aéreas registrou queda de 61%. Kellleher declarou que a empresa registrou lucros nos últimos 30 anos.

 

O cuidado extremo com os custos foi responsável por esses resultados, observou ele. “Mesmo nas melhores épocas mantivemos nossos custos baixos e verificamos cada gasto. Durante vários anos eu costumava aprovar todo gasto acima de US$ 1.000. Por quê? Para incentivar uma cultura de consciência de custos. Eu não podia examinar todos eles, naturalmente. Mas os examinava de modo seletivo e isso fazia com que as pessoas ficassem atentas.”

 

Os custos baixos deram à Southwest seu nicho de mercado – e uma vantagem competitiva: o de ter as tarifas mais baixas do país. E isso, por sua vez, criou um fenômeno conhecido no setor de companhias aéreas como o “efeito Southwest”. Os aeroportos servidos pela Southwest têm as tarifas médias mais baixas do que os demais, porque as outras empresas se sentem compelidas a reduzir suas tarifas para competir com as da Southwest.

 

Comparem, por exemplo, Raleigh-Durham e Charlotte, na Carolina do Norte, duas áreas metropolitanas semelhantes em certos pontos, menos em um: a Southwest opera em Raleigh, mas não em Charlotte, e as tarifas de Raleigh correspondem normalmente à metade das de Charlotte, base principal da US Airways. E compare ambas com Love Field em Dallas, que tem as tarifas médias mais baixas do país. “O que há de especial com Love Field?”, Kelleher perguntou. “É servida somente pela Southwest. Uma companhia aérea que pratica tarifas baixas, deve mantê-las assim mesmo quando não há concorrência.”

 

A preocupação com os custos também é o motivo para a Southwest manter seu débito no nível mais baixo do setor das linhas aéreas, com uma proporção dívida/patrimônio de 25% (40%, incluindo-se o leasing de aviões). “Os juros são ferozes”, disse ele. “Os bancos querem receber, mesmo em tempos ruins.”

 

Se um diretor executivo souber incutir a cultura correta, os funcionários trabalharão com empenho, inclusive para manter os custos em patamares baixos, disse Kelleher. Veja o caso do atendente da Southwest em Los Angeles que emprestou um grampeador ao colega de outra companhia aérea. “Nosso atendente o seguiu até o outro balcão e disse, ‘Quero ter certeza de que o grampeador vai ser devolvido porque, se não, nossa parte dos lucros será prejudicada’.”

 

A segunda razão pela qual Kelleher acredita que sua companhia obtém sucesso é o tratamento dado aos funcionários. “Às vezes, isso é considerado um dilema nos negócios – ‘O que vem primeiro, funcionários, clientes ou acionistas?’ Jamais consideramos isso um dilema. Se os funcionários são bem tratados, tratarão bem os clientes. Se os clientes forem bem tratados, eles voltarão e os acionistas ficarão contentes.”

 

Na Southwest, tratar bem os funcionários não significa pagá-los com cheques polpudos. Na verdade, os salários da empresa são mais baixos do que os dos concorrentes. Mas a companhia coloca as opções de ações à disposição dos funcionários – assim, todos eles – não apenas os executivos – podem compartilhar do sucesso financeiro da empresa.

 

A Southwest pratica até uma política de aumento de ordenados de diretores proporcionalmente igual à de outros funcionários. “E em tempos difíceis, fazemos reduções”, disse Kelleher. “Todos os diretores da Southwest Airlines recebem atualmente menos do que em 2001.”

 

O bom tratamento também se converte em várias medidas não financeiras. A mais importante delas é a política da companhia de não dispensar empregados. Kelleher afirma que acaba servindo como forma de disciplina financeira porque evita que os gerentes contratem pessoal em excesso quando o setor está em alta. Manter os funcionários felizes economiza dinheiro, também. Essa política poupou muitos litígios trabalhistas à Southwest, apesar de ser a companhia aérea com o maior número de funcionários sindicalizados do país. “Quando os líderes trabalhistas percebem que seu pessoal está sendo bem tratado, as negociações sobre contratos ficam menos tensas.”

 

Embora a estratégia da Southwest seja fácil de ser explicada, é comprovadamente difícil de ser copiada. A US Airways, por exemplo, fez uma tentativa, por meio de sua subsidiária, a MetroJet, mas fracassou. “Disseram que seria uma companhia aérea com tarifas baixas, mas não conseguiram ser uma empresa com custos baixos.” O empreendimento fracassou.

 

A JetBlue Airways and Song com sede em Nova York, uma nova subsidiária da Delta Air Lines de Atlanta com tarifas baixas, está tentando a mesma estratégia. Kelleher não se preocupa. “A única coisa que a JetBlue oferece, além do que oferecemos, são TVs a bordo, porém, nossos custos são mais baixos.”

 

A Southwest nunca deixou de fazer as coisas a sua maneira. Antigamente isso significava voar com jatos Boeing 737, de modo que todos os pilotos, membros da tripulação e mecânicos estivessem familiarizados com todos os aviões da frota. Ultimamente significa não deixar que suas tarifas sejam publicadas em sites de viagem, como Orbitz, Expedia e Travelocity. A Southwest não quer que os outros controlem sua distribuição de bilhetes, declara Kelleher. Além disso “a Orbitz é um consórcio pertencente aos nossos concorrentes. E eles cobram por esse serviço; não é de graça.”

 

Alguns analistas do setor prevêem que uma companhia de transporte aéreo de grande porte deverá encerrar as operações antes de as empresas restantes voltarem a ter lucro novamente. A idéia é que o setor simplesmente tem capacidade em excesso – assentos demais para viajantes de menos.

 

Kelleher discorda. Para ele, como sempre, a chave de tudo está nos custos. “O tráfego depende dos níveis das tarifas”, disse ele. “E você não pode dar propinas para os passageiros voarem.” Em outras palavras, se as tarifas forem bem baratas, mais gente irá preferir o avião. A Southwest descobriu isso depois de ter começado a fazer a rota Baltimore-Chicago. Desde então, o tráfego geral entre os dois aeroportos aumentou em mais de 2.000%.

 

Mas ele ressalta que, para as companhias aéreas ganharem dinheiro com tarifas baixas, terão que diminuir os custos. E isso pode ser difícil. Afinal de contas, os negócios envolvendo as companhias aéreas são os mais difíceis dos Estados Unidos. Dependem muito de capital, porque os aviões são caros. Dependem de mão-de-obra e requerem trabalhadores altamente capacitados.

 

E oferecem pouco espaço de manobra porque seus bens – assentos vazios – expiram a cada dia quando o avião decola. O setor obedece também a muitos regulamentos – da Federal Aviation Administration e agora da Transportation Safety Administration – e sofre muita taxação. As taxas que recaem sobre as companhias aéreas respondem por um terço do preço de um bilhete da Southwest, disse Kelleher. “Vou a Washington e digo a eles, ‘Nós estamos sendo mais taxados do que os cigarros e o uísque, e isso para mim é uma situação triplamente ruim’.”

 

Mas mesmo em um setor difícil e cíclico como este, uma empresa bem operada pode dar lucro a seus acionistas, insiste Kelleher. A revista Money do ano passado considerou a Southwest a empresa americana que rendeu o maior retorno aos acionistas nos últimos 30 anos. De acordo com Kelleher, “quem tivesse investido US$ 100.000 em 1972, teria US$ 102 milhões em 2002”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"O que faz com que a Southwest Airlines continue operando." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 June, 2003]. Web. [24 July, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-faz-com-que-a-southwest-airlines-continue-operando/>

APA

O que faz com que a Southwest Airlines continue operando. Universia Knowledge@Wharton (2003, June 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-faz-com-que-a-southwest-airlines-continue-operando/

Chicago

"O que faz com que a Southwest Airlines continue operando" Universia Knowledge@Wharton, [June 04, 2003].
Accessed [July 24, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-faz-com-que-a-southwest-airlines-continue-operando/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far