O que o governo de Trump significará para a globalização

No momento em que o presidente eleito, Donald Trump, “passar da campanha para o governo”, algumas realidades internas dos EUA e de fora do país se tornarão claras, disse Geoffrey Garrett, reitor da Wharton e professor de administração da instituição. Em primeiro lugar, Trump criticou asperamente acordos internacionais como a Parceria Transpacífico (TPP) e o NAFTA. A saída ideal para Trump seria reescrever o primeiro e fazer as pazes com o último, disse Garrett. Outro desafio diz respeito ao cumprimento das suas promessas aos americanos que têm sofrido com a desigualdade crescente e com a estagnação da renda em décadas recentes em que a globalização e a mudança tecnológica impulsionaram o crescimento econômico.

Daqui por diante, é preciso convencer as pessoas de que a globalização é boa para os EUA, mas que deve ser inclusiva, disse Garrett. Ao mesmo tempo, os EUA experimentariam um “impacto positivo” substancial se conseguissem atingir uma taxa anual de crescimento sustentável do PIB de 3% ou mais, acrescentou. Garrett discorre sobre alguns desafios e opções de Trump no programa da Knowledge@Wharton transmitido pela Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM.

“Há menos certeza em relação às prioridades internacionais do programa de Trump”, disse Garrett. Ele assinalou que boa parte do programa doméstico do presidente eleito, tendo à frente a promessa de redução de impostos, faz parte do cardápio “republicano convencional”.

Garrett descreveu os comentários de Trump sobre assuntos internacionais como, basicamente, “afirmações generalizadas” críticas às políticas dos EUA. Ele se referiu ao argumento de Trump segundo o qual os EUA não têm tido um “custo/benefício” satisfatório na relação com seus aliados no Oriente Médio, e que o país também está “perdendo para a China e no comércio em geral”.

TPP, NAFTA: das palavras à ação

Das várias questões internacionais na agenda de Trump, “a mais quente de todas e a mais urgente é a que diz respeito ao TPP”, diz Garrett. “A estratégia ideal, na minha opinião, consistiria em não assinar o acordo da TPP do jeito que ele está redigido hoje, e sim reformular praticamente tudo.”

Colocando o TPP em perspectiva, Garrett disse que a ideia por trás do plano era importante porque defendia um acordo de livre comércio de ambos os lados do Pacífico, unindo EUA, Canadá e México aos grandes países da Ásia Oriental. O acordo, conforme defendido por Obama, não era exatamente econômico, mas geopolítico, acrescentou. “Foi um esforço feito pelo atual presidente para dizer ao mundo que éramos nós, e não os chineses, quem ditava as regras para o século 21.”

Contudo, Garrett disse “que o TPP, basicamente, já nasce morto conforme redigido por Washington”. Ele acrescentou que a aplicação do TPP do jeito que o acordo está formulado hoje “criará, possivelmente, alguns desafios reais para a Ásia, uma vez que boa parte dos países asiáticos que assinaram o TPP o fizeram porque os EUA pediram que eles assinassem”.

Uma falha muito grave do acordo em sua forma atual é que ele não inclui a China, embora seja o país com maior volume de transações comerciais do mundo e a maior economia da Ásia, disse Garrett. Ele acrescentou que a China deveria fazer parte do acordo.

Trump terá de criar alguma alternativa ao TPP, “e uma alternativa que, na minha opinião, inclua a China”, disse Garrett. “Trump disse que sabe negociar. Os chineses são comerciantes. Eu o encorajaria a tentar fechar um acordo comercial que fosse vantajoso para os dois lados.”

Por que fazer um acordo com a China?

Garrett disse que são fortes os argumentos para que a China seja incluída no TPP. “Obviamente, a Ásia se tornou um motor de crescimento importante para o mundo, não nos esqueçamos disso”, disse. “Mas, no caso da China, os americanos terão de se dar conta de duas realidades muito importantes. Uma delas é a centralidade do mercado chinês e dos consumidores chineses para as empresas americanas.” Ele disse que a Apple monta seus aparelhos na China e que o país responde por ¼ do mercado mundial da empresa. “Trata-se de um mercado de consumo de massa, e as empresas americanas se beneficiam enormemente disso.”

A segunda realidade que os americanos precisam levar em conta são os investimentos chineses em empresas dos EUA, disse Garrett. Os investimentos externos chineses nos últimos 20 anos aproximadamente foram feitos em empresas americanas cobiçosas do mercado doméstico chinês, acrescentou.

“Daqui para frente, vamos ter de lidar com uma porção de investimentos externos chineses”, disse Garrett em relação ao que o governo Trump terá de levar em conta. “É claro, já vimos esse filme antes”, acrescentou, citando os investidores japoneses nos EUA na década de 90. “Demorou um pouco para que os americanos lidassem com a questão, mas a possibilidade de ter muitos Toyotas ─ carros bons fabricados a bons preços nos EUA ─ acabou beneficiando grandemente os EUA. Espero que isso aconteça também com os investimentos chineses; talvez não amanhã, mas se pensarmos no que pode acontecer daqui a dez anos, essa poderá se tornar uma nova realidade importante para nossa economia.”

Comparado com o TPP, talvez sejam bem menores as chances de Trump de abandonar o NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) firmado entre EUA, Canadá e México. “Seria muito difícil desfazer o NAFTA, e igualmente tolo fazê-lo”, disse Garrett.

Ele se referiu ao “modelo de gravidade do comércio” na economia internacional que explica de que modo funciona o comércio bilateral com base no tamanho da economia dos parceiros comerciais e a distância entre eles. “Faz mais sentido ter um volume de comércio maior com países mais próximos de você”, disse. “O fato de que os EUA compartilham uma extensa fronteira com o Canadá e com o México faz com que o comércio entre esses três países seja algo absolutamente natural.” Garrett previu que, apesar da retórica contrária ao NAFTA na campanha, o acordo comercial provavelmente persistirá.

O desafio do crescimento do PIB

Muitos comentaristas falam de uma taxa de crescimento do PIB de 4% durante o governo Trump. Contudo, Garrett não acredita que esse percentual seja sustentável. No passado, o crescimento do PIB nos EUA depois da Segunda Guerra Mundial ficou entre 3.25% e 3,5%, disse. “Se os EUA pudessem voltar a esse índice […] isso teria um enorme efeito positivo, não apenas economicamente, mas também politicamente para o país”, disse. “Eu não contaria com um crescimento sustentável de 4% do PIB: pode-se reforçar esse valor com algum tipo de estímulo de curto prazo.”

O crescimento econômico é a galinha dos ovos de ouro desejada pelos mercados que saúdam a vitória de Trump. Segundo Garrett, eles o saudaram por dois motivos. Um deles é a perspectiva de cortes de impostos para as empresas, e o outro é sua promessa de investir em melhorias de infraestrutura. “Essas duas coisas estimulam a economia a curto prazo”, disse. “Contudo, a questão crucial é de longo prazo: será possível manter a taxa de crescimento acima de 3%?”

Essas indagações colocam no centro da discussão os grandes impulsionadores do crescimento, de acordo com Garrett. “Os grandes impulsionadores dos últimos 20 anos aproximadamente são a tecnologia e a globalização”, disse. “O desafio que acompanha ambos se deve a seu efeito restritivo ─ e não de ampliação ─ em se tratando da distribuição de renda. Se os impulsionadores do crescimento também restringem os benefícios, isso coloca um grande desafio político e social, que é também um desafio econômico.”

O que Trump pode fazer para garantir que todos sejam beneficiados com a globalização? “Em primeiro lugar, é importante aproveitar a visibilidade do cargo”, disse Garrett. “Na minha opinião, a coisa mais importante a ser dita é que todos nos EUA se beneficiam, sim, da globalização. Nós nos beneficiamos porque as coisas que consumimos diariamente são muito mais baratas. ‘Made in USA’ é um belo slogan, mas se comprássemos, produzíssemos e vendêssemos tudo neste país, os preços das coisas que compramos seriam muito mais elevados.”

As semelhanças entre os dois impulsionadores do crescimento, a mudança tecnológica e a globalização, constituem um dos maiores desafios que Trump tem pela frente. “Uma semelhança é que ambos reduziram a demanda da mão de obra menos preparada”, disse Garrett. “Vimos isso nos estados que formam o Cinturão da Ferrugem [ou da manufatura], que oscilaram em direção a Trump. Portanto, agora, o presidente eleito não pode ignorar o assunto.”

O que ajudou Trump a ganhar?

Quando se analisa a vitória de Trump, vemos que “a história por trás dela é muito mais econômica do que social”, disse Garrett. “A tentação de priorizar a singularidade de Donald Trump é evidente. Mas o que ele estava fazendo de fato era surfar na grande onda estrutural de mudanças nos EUA.”

Essa “onda estrutural” girava em torno da desigualdade e da estagnação da renda, e “a personalidade ímpar de Trump deve ter catalisado esse sentimento”, explicou Garrett. “Pense na desigualdade, por exemplo: temos a tendência de associá-la à crise financeira que se seguiu à crise de 2008, mas a desigualdade nos EUA começou a se acentuar drasticamente no final dos anos 80 e cresceu muito no governo de Bill Clinton nos anos 90.” De igual modo, os americanos tiveram de lidar com a estagnação da renda nos últimos 15 anos aproximadamente, disse.

Agora, para levar adiante o que disse durante a campanha, Trump terá de “passar do palanque dos comícios para o governo real”, disse Garrett. “Isso também cria a agenda a ser seguida por ele: aumentar o crescimento, mas de um modo que inclua mais gente nele.”

Os primeiros 100 dias

Será que podemos esperar alguma ação política em relação a essas questões nos primeiros 100 dias de governo Trump? “Os primeiros 100 dias são mais simbólicos do que qualquer outra coisa”, disse Garrett. Eu esperaria uma série de coisas simbólicas que deverão dar o direcionamento do que vem por aí. As realidades do governo tendem a levar muito mais tempo do que isso. O teatro político de alto nível é sempre parte fundamental do jogo. E Trump tem se mostrado incrivelmente apto para isso.”

Além de ações simbólicas, Garrett previu que Trump enviará também “alguns sinais internacionais muito significativos” em seus primeiros 100 dias. Entre eles, declarações de que os EUA vão endurecer com o terrorismo e que desaprovam o acordo nuclear que o governo Obama fez com o Irã. Garret acredita ainda que o novo governo repudiará o atual acordo de Parceria Transpacífico (TPP), mas espera também que “haja sinais de uma nova estratégia” para o acordo.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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