O que o referendo da Itália significa para a Europa

A economia da Itália mergulhou novamente na incerteza depois que os eleitores, no domingo, dia 4 de dezembro, rejeitaram uma plataforma favorável a reformas liderada pelo primeiro-ministro Matteo Renzi. O sistema bancário do país está com sérios problemas: oito grandes bancos têm um volume enorme de empréstimos de amortização duvidosa; além disso, o referendo reduziu as esperanças de recapitalizá-los e salvá-los. A economia italiana cresceu pouco nas duas últimas décadas, e com a rejeição das políticas de Renzi simpáticas ao mercado, as perspectivas de novos investimentos, tanto de fontes domésticas quanto de fontes estrangeiras, também diminuíram. Segundo especialistas, as repercussões serão sentidas na Europa, particularmente no que diz respeito à estabilidade do euro e aos esforços de integração econômica no continente.

O voto no referendo da Itália foi interpretado por muita gente como sinal negativo no contexto do crescente sentimento populista contrário à imigração e à globalização na Europa. Posições semelhantes contribuíram para a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA e para o voto favorável ao Brexit em junho, abrindo caminho para que o Reino Unido deixasse a União Europeia. No dia 5 de dezembro, a Suprema Corte do Reino Unido passou a avaliar uma demanda que determinará se o governo da primeira-ministra Theresa May ou o parlamento tem poder para deflagrar as negociações do Brexit com a UE.

O populismo de direita também poderá influenciar as próximas eleições na França, Alemanha e Holanda. O movimento populista, porém, foi golpeado no domingo, dia 4 de dezembro, por ocasião das eleições na Áustria que resultaram na vitória de Alexander Van der Bellen, de tendência esquerdista, sobre Norbert Hofer, candidato da extrema direita do Partido da Liberdade.

Um sistema bancário abalado

Em relação à economia, a grande preocupação na Itália é com o futuro do seu sistema bancário. Os bancos italianos têm cerca de 360 bilhões ou 385 bilhões de euros de dívidas suspeitas, de acordo com uma reportagem do New York Times. Antes da eleição, o Financial Times havia informado que até oito bancos italianos corriam risco de abrir falência se o referendo não fosse aprovado. Entre eles estão o Banca Monte dei Paschi di Siena, o terceiro maior banco italiano em volume de ativos e que hoje está sendo recapitalizado e negocia com o fundo soberano do Catar e outros em busca de financiamento.

A recapitalização do Banca Monte dei Paschi di Siena é crítica. “Se esse esforço malograr, tal insucesso será motivo de ansiedades e dúvidas profundas para o contribuinte italiano, isto é, se ele terá de ajudar a socorrer o banco, ou se os problemas do banco chegarão, ou não, a uma solução bem administrada”, disse Brendan O’Leary, professor de ciências políticas da Universidade da Pensilvânia. O’Leary disse que a nova união bancária da UE está em andamento e que, pelas suas regras, não haverá socorro por parte do contribuinte ou do Banco Central Europeu.

“Renzi estava renegociando a transição dos bancos com problemas para uma situação mais sadia”, disse Gemma Dipoppa, doutoranda da Universidade da Pensilvânia na área de política comparativa e natural da Itália. Agora, a ausência de um governo “criaria um vácuo” e as negociações estagnariam, disse. Poucos esperavam que Renzi vencesse, disse ela, acrescentando que ficou surpresa com o placar de 68%. Dipoppa espera que a transição para o novo governo seja suave, evitando-se assim qualquer instabilidade.

O’Leary e Dippopa discorreram sobre as implicações do voto italiano, do desafio do tribunal em relação ao Brexit e questões afins no programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM.

“O referendo da Itália veio em má hora”, disse Mauro Guillén, professor de administração da Wharton. Os maiores bancos do país “precisam fazer alguma coisa” para se livrar dos empréstimos incobráveis, já que isso afeta a estabilidade da zona do euro, acrescentou. “A ausência de governo na Itália significa que as ações a serem executadas para garantir que os bancos não entrem em colapso serão postergadas.” Embora Renzi tenha apresentado sua renúncia, o presidente italiano Sergio Mattarella pediu a ele que esperasse até que o orçamento de 2017 fosse aprovado.

Guillén disse que a Itália teve 63 governos nos últimos 70 anos. Tal situação se deve, em parte, à “paralisia” no sistema de governo do país em que o senado tem “muito poder, assim como o parlamento”. A plataforma de Renzi tinha propostas de mudança na constituição italiana e facilitava a realização de reformas econômicas e tomadas de decisão mais rápidas pelo governo.

“Os líderes europeus, de modo geral, gostavam de Renzi”, acrescentou. “Eles achavam que a Itália finalmente começaria a fazer reformas.” Agora, não se sabe ao certo se o referendo foi um voto contrário a Renzi, ao governo que queria ampliar seus poderes ou contra o programa de reformas, disse Guillén. “Acredito que seja uma mistura dessas três coisas.”

A única possibilidade visível de ajuda aos bancos italianos seria um socorro emergencial à zona do euro, disse Guillén. Tal estratégia adviria do programa de compra de títulos do Banco Central Europeu. Seriam comprados então títulos do governo e de empresas. “O BCE tem poder de fogo suficiente para tanto. O problema, porém, é que apesar da expansão monetária, a economia italiana não se recupera.” Guillén identificou dois sinais que apontam para perspectivas futuras da Europa ─ uma positiva e outra negativa. Do lado positivo, o euro está se desvalorizando em relação ao dólar americano, o que ajudaria as exportações a se tornarem mais competitivas e as economias da região a se recuperarem. O ponto negativo é a possibilidade de instabilidade nos mercados emergentes que seriam impactados pelo aumento da taxa de juros do Federal Reserve. “Os investidores seriam tomados pelo pessimismo com a consequente depressão da demanda global”, acrescentou.

Embalado do jeito errado e mal calculado

O chamado ao referendo foi interpretado por muita gente como um erro de cálculo do humor público, algo muito parecido com o que se passou quando o ex-primeiro-ministro David Cameron convocou um referendo sobre o Brexit em junho passado, disse O’Leary. “Renzi mereceu esse resultado. Ele colocou de maneira tola sua posição na linha de fogo prontificando-se a renunciar se os eleitores não apoiassem suas propostas. Não era preciso ter feito tal coisa.”

Renzi deu a seus adversários “um presente” quando disse: “Se vocês não me apoiarem, renunciarei”, disse O’Leary. Isso permitiu que seus oponentes se mobilizassem, embora muitos não fossem populistas, acrescentou. “Renzi maximizou seu número de possíveis inimigos.”

Ele teria conseguido apoio suficiente para suas propostas se não as tivesse acomodado num pacote, se as tivesse vendido individualmente, disse O’Leary. Ele atribuiu o fracasso de Renzi ao “excesso de confiança e à crença de que a centralização do poder era imprescindível para a imposição de algumas reformas, além do receio de que seu governo e sua respectiva popularidade estavam em processo de estagnação”.

O’Leary lembrou que Renzi assumiu o poder com base em uma plataforma que desafiava os programas de autoridade da União Europeia e buscava restaurar a autonomia do país na criação de políticas, especialmente no âmbito fiscal. “Suspeito que ele receasse estar ficando sem tempo, por isso tinha de agir por meio de um pacote rápido.” Contudo, ele disse que as propostas de Renzi estavam sobre a mesa antes da derrota de Cameron na votação do Brexit em junho. “Ele deveria ter entendido a derrota de Cameron como um sinal e assim talvez pudesse ter escolhido uma maneira de recuar àquela altura, mas não o fez.”

Guillén culpou Renzi pelo “fracasso das partes estabelecidas em controlar a situação e os políticos oportunistas que lhe deram apoio”. Na Áustria, a pressão populista veio do Partido da Liberdade, que é sobretudo contrário aos imigrantes, disse. “O que aconteceu na Áustria foi uma coisa boa porque evitou que um populista fosse eleito. Contudo, é muito desanimador ver isso na Itália.”

Repercussão na Europa 

Os líderes da União Europeia gostaram da ideia de Renzi sair em busca de um referendo para suas propostas, disse Dipoppa. “A Itália, de modo geral, é um país fortemente pró-europeu e sua população não quer abandonar o euro”, acrescentou. Embora os efeitos da globalização fossem uma preocupação na Itália, não foram esses efeitos que motivaram a recente votação, disse.

De acordo com O’Leary, a perspectiva mais desestabilizadora vem do principal movimento populista da Itália, o Movimento Cinco Estrelas. Segundo o movimento, se ele um dia tiver a possibilidade de constituir um governo, fará um referendo para sair da zona do euro e retornar à lira. Será uma escolha séria para os italianos, disse. “A maioria dos italianos gosta do euro em comparação com a lira, mas não gostam do ‘remédio’ que acompanha a moeda única.” Se o Movimento Cinco Estrelas chegasse ao poder num futuro próximo e propusesse um referendo sobre a participação da Itália na zona do euro, “seria um cenário de pesadelo para o restante da Europa”, acrescentou.

A pergunta mais urgente que se faz na Itália é quem substituirá Renzi. Já se observam os primeiros movimentos nesse sentido. No dia 12 de dezembro, o presidente da República, Sergio Mattarella, passou a Paolo Gentiloni, ministro das Relações Exteriores, a incumbência de formar um novo governo.

De acordo com Dipoppa, os principais candidatos à função de primeiro-ministro são Pier Carlo Padoan, ex-ministro das finanças no conselho ministerial de Renzi, e Pietro Grasso, ex-chefe da Comissão Antimáfia da Itália. Os mercados apoiariam Padoan, disse Dipoppa, acrescentando que ele e Renzi têm defendido a flexibilização do grau em que a Comissão Europeia supervisiona os orçamentos e as políticas fiscais dos Estados membros.

O’Leary disse que as eleições na Alemanha e na França em 2017 podem fortalecer a tendência populista. Na França, ele esperava que Marie Le Pen, presidente da Frente Nacional e, “sem dúvida alguma, adversária da UE”, fosse para o segundo turno, embora não esperasse que ela ganhasse no turno final. Na Alemanha, ele disse que o apoio ao populismo vem aumentando, mas esperava que ele, “paradoxalmente, aumentasse o poder dos partidos de centro-esquerda” devido à coalizão entre a Democracia Cristã, partido da chanceler Angela Merkel, e os Sociais Democratas. O’Leary previu uma redução no tamanho da Democracia Cristã na coalizão.

Na Alemanha, o assunto principal é a decisão de Merkel de permitir que um milhão de refugiados entrem no país, o que alguns têm descrito como uma atitude “brava e corajosa” e outros como “inconstitucional e feita com o mínimo preparo”, observou O’Leary. A Alemanha registrou um crescimento econômico superior ao de seus vizinhos, ainda que irregular, ressaltou. “Além disso, o crescimento do país não tem sido espetacular, e nem todo o mundo prosperou durante um período de crescimento econômico significativo, porém não muito longo.”

A Europa também lida com a incerteza do Brexit. Na segunda-feira, dia 5 de dezembro, a Suprema Corte iniciou uma sessão de quatro dias para avaliação das demandas do governo britânico, favorável ao Brexit, e outros que querem barrá-lo. O que está na berlinda é se o governo ou o parlamento tem o direito de deflagrar negociações para o Brexit com a UE. O caso decorre de uma sentença de novembro da Alta Corte britânica segundo a qual o governo de Theresa May terá de consultar o parlamento antes de proceder ao Brexit ─ uma decisão que freia os planos de May de dar início ao processo de saída da UE. 

O’Leary espera que a Suprema Corte do Reino Unido exija do governo britânico que consulte o parlamento a respeito das negociações sobre o Brexit, garantindo assim o consentimento do parlamento escocês e das assembleias do País de Gales e da Irlanda. “A saída mais fácil para May consiste em manter o Reino Unido no mercado comum europeu, o que agradaria aos escoceses, que assim preservariam seus benefícios e direitos na Europa”, disse. Tal decisão agradaria também a Irlanda do Norte, acrescentou.

Por que a Itália é importante

Guillén disse que a derrota das plataformas populistas na eleição presidencial da Áustria “foi um bom sinal”, mas observou que se trata de um país pequeno com impacto limitado na região. O que acontece na Itália é muito mais importante, disse. “Se as coisas não caminharem bem na Itália, a repercussão disso será muito séria. É mais um episódio dessa saga da Europa iniciada em 2009, com a crise da dívida soberana, e que chega num momento ruim porque fortalece o respaldo aos partidos populistas contrários às reformas. Essa é uma tendência ─ o Brexit, a eleição de Trump e agora isso na Itália. O próximo grande teste será a eleição na França.”

Para que o crescimento na Itália prospere, Dipoppa disse que o governo deve investir mais em inovação e educação, bem como introduzir medidas para a melhoria da competitividade das pequenas empresas. Além disso, as reformas iniciadas pelo governo de Renzi para melhorar a competitividade do país e para agilizar os processos burocráticos do governo devem continuar, acrescentou. O’Leary disse que a classe política italiana sabe que a formulação da sua política econômica fica “extremamente limitada” pela política europeia. “Eles têm todos os elementos de uma crise econômica bancária emergindo na frente deles”, acrescentou. “Como lidarão com isso? Como interagirão com a Europa para resolver isso de uma maneira que seja crível?”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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