O salto inovador do cobre e sua aplicação na indústria da saúde

Tradicionalmente conhecido como um dos melhores condutores de eletricidade, o cobre se consolidou como insumo por excelência da indústria eletroeletrônica exatamente por isso. No entanto, ele começou a brilhar com luz própria no campo da saúde dadas as suas propriedades bactericidas e sua capacidade de limitar a propagação de microorganismos patógenos.

 

Atento a esse novo benefício, o Programa de Inovação para o Cluster Mineiro do Chile — iniciativa público-privada cujo objetivo é possibilitar o desenvolvimento de minérios locais e que, anualmente, promove concursos de inovação — decidiu premiar este ano o projeto de utilização do cobre no hospital de Calama, na II Região do país.

 

A iniciativa contou com o apoio da principal produtora estatal de cobre do país, a Codelco, e consiste em aplicar o cobre e ligas de cobre a equipamentos médicos de utilização freqüente, como porta-soros, lápis para introdução de dados em telas de computador, mesas de refeição para pacientes, alavancas reguladoras e braços de cama, além de poltronas para visitas. Tudo isso com o propósito de combater as infecções hospitalares.

 

O presidente executivo da Codelco, José Pablo Arellano, salienta que “a EPA — principal instituição ambiental dos EUA — reconheceu o cobre como primeiro metal bactericida do mundo, o que permite usos e possibilidades variadas para ele nos hospitais”. Já a presidente de Finanças, Promoção e Sustentabilidade da mineradora de cobre local, Isabel Marshall, disse recentemente que “no período de 2008 a 2012, a Codelco investirá cerca de 1,5 bilhão de dólares em diversos projetos de sustentabilidade baseados no efeito bactericida do cobre”.

 

Tudo isso só se tornou possível porque o Chile é um dos principais produtores do metal vermelho e, de acordo com um relatório recente emitido pelo banco central do país, as exportações de cobre totalizaram 25,059 bilhões de dólares em agosto deste ano, o que significou um crescimento de 8,9% nos últimos 12 meses.

 

“A mineração de cobre contribui, em média, com 20% do PIB e representa mais de 60% das exportações chilenas”, observa Vivian Araneda., diretora do ProChile em Los Angeles, nos EUA. O ProChile é uma entidade dependente do Ministério de Relações Exteriores do país, cujo objetivo é dar visibilidade à política comercial do Chile.

 

“Os lucros resultantes das exportações de minérios do cobre equivalem hoje a todas as transações realizadas pelo varejo chileno. Atualmente, o setor de mineração exporta, em média, mais toneladas de cobre do que a indústria do salmão e da uva juntas”, observa Juan Carlos Guajardo, diretor executivo do Centro de Estudos do Cobre e da Mineração no Chile (Cesco), organismo que contribui com o modelo e com o debate em torno das políticas públicas voltadas à atividade mineradora do país.

 

Redução das infecções hospitalares

No entender de Rubén Polanco, professor da Escola de Bioquímica da Universidade Andrés Bello, “o impacto e os benefícios do projeto bactericida do cobre para o setor de saúde têm grande potencial, conforme indica um artigo recente publicado pela Revista Chilena de Infectologia. De acordo com o artigo, há 70.000 infecções hospitalares no país todos os anos a um custo estimado de 70 milhões de dólares para o país”.

 

Guillermo Figueroa, chefe do laboratório de Microbiologia e Probióticos da Universidade do Chile, acrescenta que “um número significativo de pessoas que recorrem ao hospital acabam vítimas de uma patologia que não tem relação alguma com a que apresentavam no momento de sua internação”. De igual modo, o especialista garante que entre 6.000 e 7.000 pessoas morrem todos os anos no Chile em decorrência de infecções contraídas em hospitais.

 

Polanco ressalta que “se a introdução de instrumentos de cobre em hospitais reduz, de fato, a sobrevida de microorganismo patógenos, certamente isso poderá contribuir para a diminuição das infecções hospitalares, repercutindo positivamente nos custos relacionados a infecções desse tipo”.

 

O professor explica também que a iniciativa da Codelco pode ser o começo de uma nova indústria no Chile dedicada à produção de utensílios de cobre ou de ligas do metal vermelho para hospitais. “Essa indústria produziria peças tão simples e rotineiras quanto maçanetas de portas até material clínico mais especializado, como instrumental cirúrgico”, observa.

 

É o que pensa também Fernando Acevedo, professor da Escola de Bioquímica da Universidade Católica de Valparaíso. Acevedo ressalta que “a aplicação do cobre ou de ligas de cobre na área da saúde poderia ser imediata, uma vez que se trata de fato comprovado que o metal é realmente bactericida”.

 

Novos produtos à base de cobre

Polanco adianta que “o setor alimentício local também pode se converter em outra indústria favorecida, já que poderia utilizar o metal vermelho nas superfícies de produção e manipulação de alimentos, reduzindo assim os riscos de propagação de bactérias e garantindo à população um controle melhor da qualidade dos seus processos”.

 

Além disso, diz Fernando Acevedo, “a utilização do cobre poderia não só se estender ao processamento de alimentos em escala industrial, mas também ao seu uso doméstico”.

 

Contudo, Rubén Polanco vai ainda mais longe e diz que “a indústria têxtil tem um desafio interessante pela frente, uma vez que poderia incorporar o cobre à fabricação de tecidos e diversificar sua produção passando a produzir, em grande escala, roupa de cama para hospitais, fronhas de travesseiros e vestuário para o pessoal médico que trabalha nos edifícios hospitalares, além de cortinas”.

 

Rodolfo Mannheim, professor do departamento de Engenharia Metalúrgica da Universidade de Santiago do Chile (USACH), diz a esse respeito que “o estudo do cobre como agente bactericida produziu resultados satisfatórios mostrando que o metal age, de fato, como agente antimicrobiano em meias, toalhas e roupas íntimas”. Com o desenrolar de outras pesquisas, observa o professor, crescerá o raio de aplicação do cobre e de suas ligas no campo hospitalar, “estendendo-se também ao lar, sobretudo em banheiros e cozinhas”.

 

Outro segmento que poderá tirar proveito da função bactericida do cobre, prevê Polanco, são os filtros dos sistemas de ar condicionado, que poderiam ser revestidos com cobre. “Ficou comprovado que certas cepas de bactérias e fungos se desenvolvem rapidamente em ambientes úmidos e escuros, como dutos de ventilação dos equipamentos de ar condicionado. A circulação de ar através desses sistemas facilita a disseminação de microorganismos em forma de aerossóis.”

 

Diante disso, explica o professor, poderá haver sérias infecções, especialmente em pacientes cujo sistema imunológico esteja comprometido. “Diversas pesquisas mostram que os filtros à base de cobre têm um efeito bactericida extraordinário.”

 

Falta de estudos: um obstáculo

Para Rubén Polanco, é extremamente importante que a empresa chilena entenda a mudança “do uso tradicional do cobre para o seu novo uso” e aproveite as oportunidades que vêm surgindo. “Sem dúvida, o projeto da Codelco representa uma grande oportunidade para o desenvolvimento de novos mercados, criação de novas empresas e, sobretudo, para o desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica do país.”

 

Para o professor, o cenário atual oferece condições próprias para a concretização de uma nova indústria dedicada à elaboração de produtos não-tradicionais de cobre, já que “o governo está incentivando esse tipo de iniciativa inovadora e existe capital humano qualificado e em condições de levá-la adiante com sucesso”.

 

Contudo, Mannheim insiste que antes é necessário aperfeiçoar os conhecimentos biológicos que hoje existem sobre o metal vermelho, “uma vez que o mundo científico ainda tem muitas dúvidas sobre o funcionamento da propriedade bactericida do cobre. Enquanto não esclarecermos esse enigma, dificilmente poderemos continuar a inovar e a aplicar tecnologia de ponta nos produtos não-tradicionais à base de cobre”.

 

Polanco reconhece que uma barreira à fabricação de produtos à base de cobre seria justamente a falta de uma base adequada de estudos que ratifique o atributo bactericida dos novos produtos. “É muito importante que as pesquisas demonstrem a eficácia antimicrobiana do cobre em qualquer novo produto lançado no mercado com o propósito de garantir uma base científica demonstrável e avaliar sua utilização pelo consumidor final.”

 

Fernando Acevedo diz que “a autoridade sanitária deverá ser bastante rígida na hora de autorizar a fabricação de certos produtos feitos de cobre ou de ligas de cobre”.

 

Barreira econômica e psicológica

Juan Carlos Guajardo, diretor executivo da Cesco, descarta totalmente o fato de que o alto preço do cobre, registrado em vários pregões da Bolsa ao longo de 2008, possa se converter em obstáculo que impeça a indústria chilena de desenvolver novos produtos baseados no metal vermelho.

 

“O progresso observado em novos produtos comerciais, tomando por base as propriedades bactericidas do cobre, prosseguirá mesmo com o alto preço do metal, já que seus benefícios são muito significativos para o país em matéria sanitária”, observa o executivo. Atualmente, o preço do cobre na Bolsa de Metais de Londres é de 3,17 dólares a libra; em 3 de julho, o preço atingiu seu nível mais alto fechando o pregão a 4,07 dólares a libra.

 

Além disso, observa Guajardo, os benefícios sanitários do cobre — fruto de seu efeito bactericida — podem gerar grandes economias para o orçamento anual que o governo reserva à saúde. “Portanto, este aspecto favorecerá sua utilização.”

 

Pode ser que ocorra um efeito de substituição, como acontece com todo produto, bem ou serviço cujo valor experimenta uma alta considerável, explica o especialista. “No caso do cobre, o substituto mais próximo é o aço, que também se valorizou muito”, adverte.

 

Apesar disso, Guajardo prevê que “poderá haver barreiras sociológicas à introdução desses novos produtos no mercado por se tratar de inovações ou de produtos não-tradicionais. Contudo, devido ao seu grande potencial, creio que, com o tempo, eles acabarão tendo uma participação significativa de mercado”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O salto inovador do cobre e sua aplicação na indústria da saúde." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [01 October, 2008]. Web. [25 April, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-salto-inovador-do-cobre-e-sua-aplicacao-na-industria-da-saude/>

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"O salto inovador do cobre e sua aplicação na indústria da saúde" Universia Knowledge@Wharton, [October 01, 2008].
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