O Vale do Silício da Tequila

O nome Vale do Silício (em referência ao principal componente de fabricação dos chips e ao Silicon Valley, na Califórnia) foi adotado como parte da estratégia do governo nos anos oitenta. O Vale do Silício americano, localizado ao sul de São Francisco, compreende os condados de Santa Bárbara e parte de San Mateo, Alameda e Santa Cruz, ente outros. Tido como paradigma por excelência de criação de riqueza em todos os tempos, muitos países não tiveram dúvida em batizar seus projetos tecnológicos com esse nome. Nos EUA, o Vale do Silício responde por 20% das principais empresas de tecnologia de nível mundial e por cerca de 45% da indústria americana.

 

Contudo, Jalisco, terra da Tequila e dos mariachis, surpreendeu igualmente o mundo com o desenvolvimento de sua indústria eletrônica, a qual batizou anos atrás de Vale do Silício mexicano. Em 1968, a cidade recebeu a primeira fábrica de semicondutores da América Latina: a Motorola. Agora, o cluster eletrônico de Jalisco conta com 8 empresas entre as 100 principais da indústria eletrônica mundial: Flextronics, Sanmina SCI e Solectron, além de centros de desenvolvimento de tecnologia e de projetos empresariais, como a Hewlett Packard, IBM, Intel, ST Electronics e Siemens VDO. De acordo com informações fornecidas pelo governo estadual, foi esse o setor industrial que mais cresceu, tendo contribuído decisivamente para o desenvolvimento da região. Além da montagem de produtos (nas chamadas maquiladoras), cria-se tecnologia e é cada vez maior o percentual de bens de alta tecnologia produzidos ali.

 

O conjunto de empresas, sejam elas maquiladoras (empresas que montam produtos com peças vindas de fora do país) ou não e provedoras de serviços, deram origem ao que se conhece como Cluster de Manufatura Eletrônica de Jalisco. Esse conglomerado industrial tem uma visão estratégica de longo prazo. Por enquanto, as exportações do estado estão na faixa dos 10 bilhões de dólares, dividindo-se a produção da seguinte forma: 58% dos produtos são de baixa tecnologia; 23% de tecnologia mediana e 19% de alta tecnologia. A meta para 2010 prevê que o valor das exportações supere os 14 bilhões de dólares da seguinte forma: 55% de produtos de alta tecnologia, 25% de tecnologia mediana e 22% de baixa tecnologia.

 

As perspectivas de crescimento para o setor são positivas. Entre 1990 e 2000, o México cresceu 69%, segundo estatísticas da Organização Mundial do Comércio. Conseqüentemente, a mudança por que passou Jalisco na oferta de emprego foi evidente. Durante anos, o estado registrou a maior demanda por engenheiros do país, vendo-se obrigado a importar profissionais, já que o número de profissionais locais não era suficiente. Atualmente, a tendência na geração de postos de trabalho se mantém; contudo o perfil acadêmico requerido é mais especializado. Roberto Cárdenas, engenheiro, chefe da área de Eletrônica da Universidade de Guadalajara, notou um “crescente interesse das empresas pelo aperfeiçoamento do perfil dos profissionais, e por esse motivo decidiram aumentar os vínculos entre a universidade e o setor privado”. “A Intel doou recentemente o equipamento necessário para a montagem de um laboratório de tecnologia digital, confirmando a tendência cada vez maior de envolver os alunos em situações reais”, acrescentou.

 

Clusterde fabricação eletrônica?

A indústria eletrônica de Jalisco conta com empresas nacionais e estrangeiras, as quais desenvolvem atividades que vão do cálculo à aeronáutica. Ali são fabricados hardwares, softwares e produtos eletrônicos como PCs e laptops, servidores, placas-mãe, sistemas ABS, equipamentos médicos e softwares de teste, entre outros. Assim, o Cluster da Indústria de Fabricação Eletrônica  é formado por instituições conhecidas como SS (Specialized Suppliers, ou fornecedores especializados), OEMs (Original Equipment Manufacturers, ou fabricantes originais de equipamentos) e os CEMs (Contract Equipment Manufacturers, ou fabricantes de equipamentos mediante contrato), conforme suas siglas em inglês. Os SS são os provedores especializados e representam um conglomerado de mais de 500 empresas que fornecem insumos tanto às CEMs como às OEMs. A diferença entre OEMs e e CEMs é que as primeiras subcontratam as segundas para que lhes auxiliem no fornecimento de peças ou produtos específicos.

 

Jacobo González, diretor geral da Cadelec (Cadeia Produtiva da Indústria Eletrônica), assinala que um exemplo de OEMs são empresas como a Siemens, Hewlett-Packard, Kodak, enquanto na categoria de empresas do tipo CEM aparecem a Solectron, Sanmina-SCI, Jabil Circuit, Flextronics etc., isto é, empresas montadoras de produtos (maquiladoras) e outras. A Cadelec teve papel fundamental na coordenação dos esforços que culminaram com a criação de projetos e com a aplicação de um novo modelo de negócios no setor eletrônico depois da crise dos últimos anos. Trata-se de um organismo oriundo da iniciativa privada de Jalisco e que busca integrar os provedores ao setor eletrônico da região, facilitando a aproximação das empresas com a indústria por meio da identificação e integração de provedores em potencial de produtos diretos, indiretos e de serviços.

 

Parte do sucesso de Jalisco se deve ao esforço feito para atrair CEMs importantes, as quais deram suporte ao crescimento das OEMs. Um exemplo disso é a IBM. Quando a empresa chegou, nos anos 80, era a menor de todas: contava apenas com 300 funcionários e um faturamento de 300 milhões de dólares ao ano. Ao fim de dois anos, a empresa havia crescido  trazendo melhoras, como o desenvolvimento tecnológico.  A Big Blue chegou aos 10.000 empregados, e seu faturamento superou os 3,4 bilhões de dólares, convertendo-se na maior fábrica da IBM do mundo.

 

O papel das universidades

As universidades privadas: ITESO (Instituto de Estúdios Superiores de Occidente) e o ITESM (Instituto Tecnológico y de Estúdios Superiores de Monterrey) participam do desenvolvimento do cluster eletrônico de Jalisco. No caso da Universidade de Guadalajara, mantida pelo governo, a pesquisa privilegia a biotecnologia e a biogenética, já que o estado de Jalisco é o principal produtor agrícola do país. Assim, o ITESO, universidade jesuíta, trabalha com projetos de tecnologia digital, ao passo que o ITESM, câmpus de Guadalajara, foi o primeiro a criar um centro de projetos de novas tecnologias da informação (TI), além de programas de apoio que permitem às empresas mexicanas obter certificações internacionais, como o CMM.

 

O engenheiro Alfonso Alva Rosado dirige o Centro de Tecnologias da Informação do Instituto Tecnológico de Monterrey, campus de Guadalajara, dentro do Centro de Competitividade Internacional (CCI). Ele explica que a universidade foi pioneira no país ao criar um Centro de Projetos para a Tecnologia da Informação, que deverá  expandir-se por outros 30 câmpus do país dotados do Sistema ITESM. Em sua opinião, vale destacar de modo especial “a participação da gigante Intel no centro de projetos, e sua atuação no desenvolvimento da tecnologia wireless,  ou sem fio”. Além disso, discorreu sobre um projeto que vem se desenvolvendo de forma paralela e que consiste em dar apoio a empresas mexicanas, para que obtenham a certificação internacional CMM.

 

Só há duas empresas no México com a certificação CMM de nível 5: a IBM, em Jalisco, e a Softec (mexicana), em Nuevo León. Este ano serão abertos centros semelhantes para a certificação CMM na cidade de Monterrey e na capital do país. O projeto conta com a participação do ESI (European Software Institute), localizado em Bilbao, na Espanha. “A transferência de informações é de importância vital para a formulação de soluções e para o serviço de consultoria”, ressaltou o engenheiro Alva Rosado. Por outro lado, é um privilégio para o meio acadêmico ver seus alunos integrados a esses projetos. Rosado destaca a importância do ITESM para o setor: “Em face da importância que tem a indústria da tecnologia da informação e do grande desenvolvimento registrado nesse setor em Jalisco, o ITESM não se vê apenas como uma instituição formadora de especialistas, mas também como pólo de desenvolvimento econômico na região.”

 

Maria E. Chávez Echeagaray, diretora dos cursos de Tecnologias da Computação e Tecnologias da Informação e Comunicações no ITESM, câmpus de Guadalajara, salienta que “o fato de ter um sócio estratégico como a Intel na indústria eletrônica tem reflexos imediatos na formação de novos especialistas e na importância do setor para Jalisco”. Por outro lado, o engenheiro Andrés Barba, professor do Centro Universitário de Ciências Exatas e Engenharias (CUCEI), da Universidade de Guadalajara, acredita que “o setor de eletrônica de Jalisco avança a um ritmo vertiginoso, razão pela qual os desafios que se colocam para a universidade são cada vez maiores’”, e acrescenta: “Percebe-se um grande interesse pelo desenvolvimento de novas tecnologias nesse segmento da indústria”.

 

Mudança de modelo

A desaceleração por que passou o setor eletrônico entre 2001 e 2003 em todo o mundo fez com que se repensasse a viabilidade do modelo de expansão da indústria observado em Jalisco, bem como a forma de fazer negócios. Fatores como a desaceleração da economia americana, escândalos financeiros com repercussões negativas sobre a confiança dos investidores, assim como a valorização do peso mexicano, e a conseqüente perda de competitividade, dificultaram a evolução do setor. A agressividade comercial dos países asiáticos (entrada da China na OMC) fez com que uma parte da indústria eletrônica do México migrasse em busca de custos mais baixos. Assim deixaram o país a Sanyo, Canon e a Philips, todas com destino à Ásia.

 

O recuo da indústria em todo o mundo, entre 2001 e 2003, foi de 4%, enquanto no México foi de 1,2%. O efeito negativo se fez sentir nos cortes de pessoal e na migração de empresas para outros países. Conseqüentemente, perdeu-se o interesse pela fabricação de bens de baixa tecnologia, representados por peças pequenas e de pouco valor agregado, já que esse tipo de produto é mais volátil e com o qual o México não pode competir no plano internacional por causa dos custos envolvidos.

 

A indústria, que já vinha modificando sua estrutura de expansão diante da capitalização de oportunidades oferecidas pelo desenvolvimento de novas tecnologias, repensou seu objetivo e decidiu produzir bens e serviços de alto valor agregado, produtos de média e alta tecnologia, em vez de produtos de baixa tecnologia. Produtos e serviços de alta tecnologia (centros de projetos, suporte técnico e substituição de peças) requerem mão-de-obra qualificada, profissionais em número suficiente, um marco legal que proteja a propriedade intelectual, desenvolvimento de provedores certificados, além de uma excelente infra-estrutura de serviços de redes e telecomunicações.

 

O México encontrou então nesse nicho a oportunidade que buscava, já que supera nessa área seus concorrentes mais próximos, entre eles o Brasil e a China. Nesse novo modelo de negócio, a concorrência se mede pelo valor agregado, pelas cadeias de valor — desenvolvimento eficaz de provedores certificados — desenvolvimento de infra-estruturas, eficiência logística etc. Isto operou uma mudança importante de mentalidade diante dos desafios e de possíveis soluções de problemas.

 

Apoio da ciência e da tecnologia

O Plano Nacional de Desenvolvimento 2001-2006 colocou como prioridade o fomento à indústria e ao mercado de Tecnologias da Informação (TI) como estratégia para aumentar a competitividade.  Acredita-se que a TI tenha um efeito positivo no desenvolvimento econômico, portanto o mandato do presidente mexicano Vicente Fox enfatizou de modo especial o tema: projetos como e-México, implementação de programas de apoio para a criação do software PROSOFT (Programa para o Desenvolvimento da Indústria do Software no México), bem como a busca da certificação CMM (Capability Maturity Model) de empresas mexicanas que possam oferecer suporte técnico de alto nível, criação de estímulos fiscais, além da destinação de recursos financeiros para empresas mexicanas inovadoras, são prova da aposta do governo na tecnologia.

 

A PROSOFT tem como meta para 2013 a produção anual de softwares no valor de 5 bilhões de dólares. O objetivo é alcançar a média mundial de gastos com tecnologias da informação e fazer do México o principal desenvolvedor de software e de conteúdos digitais em espanhol de toda a América Latina. Para isso, desenvolveram-se estratégias que vão desde um plano de desenvolvimento do mercado interno até o apoio a parques de alta tecnologia vinculados a centros de pesquisa.

 

O progresso observado no setor de Tecnologias da Informação e das Comunicações (TIC), combinado com o crescimento da Internet, modificou a forma de entender e de fazer negócios. As propostas estão sobre a mesa: PROSOFT, Projeto TechBA, Certificação CMM, apoios fiscais, capital de risco etc. “O desenvolvimento intenso que sustenta a indústria do país permitiu a expansão dos projetos tecnológicos desenvolvidos pela iniciativa privada em parceria com a universidade, uma aliança que só tem se intensificado”, observa Maria E. Chávez.

 

O México no Vale do Silício de Santa Bárbara

O desenvolvimento vigoroso da tecnologia mexicana foi recompensado regiamente com a incursão de 25 empresas mexicanas pela primeira vez no Vale do Silício por meio de um projeto denominado Technology Business Accelerator (TechBA), que prevê a aceleração dos negócios de software, mecatrônica e hardware. O grupo foi aos EUA em fevereiro para conhecer as melhores práticas de negócios, o arcabouço intelectual das instituições, o desenvolvimento de programas de certificação aplicados no mercado internacional, bem como a assessoria comercial e de negócios que permita a essas empresas conquistar os mercados mundiais em pouco tempo.

 

A metodologia da TechBA recorre ao alto potencial das empresas cujo trabalho tem como base as redes de contato (networking) no desenvolvimento de relações comerciais e de investimentos. Seu objetivo é encontrar respostas às necessidades não atendidas do mercado global. O projeto tem o apoio da FUMEC (Fundação México-EUA para a Ciência e Tecnologia), do governo mexicano e da iniciativa privada.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"O Vale do Silício da Tequila." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [09 March, 2005]. Web. [27 September, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-vale-do-silicio-da-tequila/>

APA

O Vale do Silício da Tequila. Universia Knowledge@Wharton (2005, March 09). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-vale-do-silicio-da-tequila/

Chicago

"O Vale do Silício da Tequila" Universia Knowledge@Wharton, [March 09, 2005].
Accessed [September 27, 2020]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-vale-do-silicio-da-tequila/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far