Octávio Lopes, da GP Investimentos: “O mundo todo está em ritmo de desalavancagem”

Octávio Lopes, sócio sênior da empresa de private equity GP Investimentos, está em meio a um processo que poderá resultar no maior fundo de private equity da América Latina. Em podcast gravado em São Paulo, Lopes discute as perspectivas de investimentos no Brasil e na América Latina para onde, em sua opinião, os preços das commodities estão convergindo, e explica de que modo a descoberta de petróleo em países como o Brasil, Colômbia e México afetará a economia local e regional.

Segue abaixo a versão editada do podcast.

Knowledge@Wharton: O sr. poderia falar um pouco sobre a GP investimentos?

Lopes: A GP é a principal empresade private equity da América Latina. Estamos em atividade há 15 anos com a mesma estrutura de qualquer outra companhia de private equity do mundo com a ligeira diferença de que, via de regra, somos os maiores investidores em nossos fundos de private equity. Não nos consideramos apenas gestores de capital de terceiros, mas também investidores principais. A maior parte dos nossos investimentos está no Brasil, mas investimos também em outros países e em toda indústria possível. Procuramos sempre as melhores oportunidades em todas as transações, sempre atentos a empresas onde possamos introduzir mudanças.

Knowledge@Wharton: Qual o montante de ativos sob gestão da empresa?

Lopes: Cerca de US$ 2 bilhões. No total, nossos compromissos até o momento estão em cerca de US$ 4,5 bilhões […] Começamos a levantar capital há cerca de alguns meses para nosso quinto fundo. Já tivemos um primeiro fechamento de US$ 1 bilhão. O fundo anterior, de número 4, totalizou US$ 1,3 bilhão e já está totalmente investido.

Knowledge@Wharton: De que maneira os investidores estão reagindo, no Brasil, ao que está se passando nos mercados financeiros internacionais?

Lopes: Se analisarmos os mercados públicos, veremos que os investidores estão fazendo cortes onde podem. Como o Brasil é o país emergente onde há maior liquidez, esse mercado foi muito abalado. Se os fundos de hedge do mundo todo quiserem se livrar do risco representado pelos mercados emergentes, o lugar mais fácil de vender é certamente o Brasil. Portanto, a bolsa brasileira foi a mais atingida no decorrer do ano. O mesmo se pode dizer dos investidores públicos.

Já no segmento privado, vale a pensa observar que continuamos a perceber um enorme interesse do segmento de doações, fundos soberanos e fundos de pensão dos EUA. Para eles, interessa uma exposição de longo prazo no país. Geralmente, a exposição dessas instituições não é muito significativa na região. Estamos levantando fundos atualmente, e cremos na possibilidade de levantar um montante expressivo — na verdade, será o maior fundo já constituído na América Latina. Nosso fundo anterior, de US$ 1,3 bilhão era o maior, agora esperamos que esse novo fundo supere aquele, sobretudo no Brasil.

Quando os investidores de várias partes do mundo observam o Brasil, e o fazem sempre da perspectiva do longo prazo, eles analisam as macromudanças introduzidas no decorrer dos últimos 15 anos e avaliam a solidez da economia atual em relação ao crescimento. É claro que, com a crise mundial, o crédito está encolhendo, as empresas estão fazendo cortes em seus planos de gastos e todos vamos sofrer um pouco, mas mesmo assim deveremos crescer cerca de 3% no ano que vem.

Knowledge@Wharton: De acordo com notícias veiculadas pela imprensa americana, talvez este seja o pior ano para o mercado acionário desde 1937. Para o investidor inteligente, porém, haverá oportunidades de compras. Onde o sr. procuraria barganhas?

Lopes: Somos investidores privados e só nos interessamos por oportunidades nesse segmento, mas em se tratando de investidores públicos, concordo com você. Se você tiver ativos líquidos, se sua visão for de longo prazo, se você for Warren Buffet, então este sem dúvida é um momento excelente, porque serão muitas as empresas de boa qualidade disponíveis e a bons preços. Se você analisar o que se passa no Brasil, verá que ações cíclicas como as da Vale e da Petrobrás, que são empresas fabulosas e muito bem administradas, estão sendo negociadas a preços muito baixos. Neste caso, será melhor ainda se você tiver acesso às reservas mundiais mais expressivas. As ações dessas empresas, na verdade, estão sendo negociadas a preços de nível de catástrofe. As pessoas continuarão a usar seus carros, a consumir produtos básicos daqui a um ou dois anos. No mundo todo, há oportunidades fantásticas, e acho que os mercados emergentes são um ótimo lugar para se fazer negócios atualmente.

O que aconteceu pela primeira vez, pelo menos no que se refere ao meu tempo de carreira, é que se olharmos para o Brasil, China, Rússia e mercados emergentes de modo geral, o desempenho desses países deverá ser melhor durante a crise do que o desempenho de países como os EUA e as nações da Europa. Costumamos dizer por aqui que se os EUA pegarem um resfriado, o Brasil terá de passar um ano internado no hospital. Agora, parece que a situação é outra. O Brasil deverá suportar bem a crise. Se observarmos o que se passa na economia real do Brasil, veremos que o país continua a desfrutar da melhor fase que já tivemos no mínimo nos últimos 30 anos aproximadamente.

Knowledge@Wharton: Qual a perspectiva para as commodities?

Lopes: Essa é uma pergunta muito importante. Houve um grande ajuste nos preços das commodities. Não investimos diretamente em commodities, mas somos, por exemplo, acionistas controladores da maior empresa de serviços no segmento de jazidas de petróleo. Nossos clientes estão preocupados, mas creio que houve, de fato, um grande ajuste de preços. Havia uma bolha de commodities no momento em que o barril de petróleo estava sendo negociado a US$ 140, mas eu pessoalmente não espero que os preços das commodities, sejam elas de minérios ou agrícolas, voltem aos níveis em que estavam quatro anos atrás. O despertar da Índia e da China mudou o patamar dos preços das commodities no longo prazo, e este percurso não será suave.  Quem acompanha regularmente os preços do barril do petróleo sabe que a situação é assustadora.

Knowledge@Wharton: Em que nível o sr. acha que estarão os preços do barril do petróleo em 2009?

Lopes: Boa parte da Street revisou para baixo os preços do petróleo para o ano que vem: de US$ 100 o barril para US$ 80 ou US$ 90.

Knowledge@Wharton: No caso do Brasil, isto é significativo, porque estou informado de que foram descobertas reservas marítimas estimadas em bilhões de barris de petróleo a 6 km de profundidade.

Lopes: Sim.

Knowledge@Wharton: Se essas reservas forem exploradas, o Brasil se tornará uma superpotência petrolífera?

Lopes: Não sei muito bem o que quer dizer uma superpotência petrolífera, mas sem dúvida o Brasil deverá se tornar um grande exportador de petróleo a longo prazo. Essas reservas, aparentemente, são enormes, mas não são de fácil acesso. Estamos falando de 1,8 km de água mais 2,5 km ou 3 km de terreno sólido que terá de ser perfurado para chegarmos até as jazidas, mas creio que chegaremos lá. Se os preços do petróleo estiverem na casa dos US$ 70 ou US$ 80 o barril, esperamos, no futuro, que aquele petróleo seja extraído, porque isso será extremamente importante para o Brasil.

Também é um risco. Os países ricos em petróleo, via de regra, não são muito bem administrados. O Brasil terá de agir com inteligência na gestão desses recursos para não desperdiçar de uma só vez toda a fortuna obtida. Contudo, é importante para o país e para nós, uma vez que temos uma grande exposição no segmento de serviços de jazidas. Estamos muito empolgados com os bilhões de dólares em gastos de capital necessários para a extração desse petróleo.

Knowledge@Wharton: Quanto custará explorar essas reservas? Quanto tempo levará e de que modo mudará a equação do mercado de petróleo na região?

Lopes: Trata-se de um volume expressivo de petróleo, mas não é algo que mudará o equilíbrio da oferta mundial. Em geral, o que a Petrobras e outras empresas especializadas dizem é que as chamadas reservas do pré-sal — assim denominadas por se encontrarem abaixo de grandes blocos de sal — serão exploradas comercialmente a partir de 2015 ou 2017. Portanto, daqui a alguns poucos anos.

Para o Brasil, isso significa que, a longo prazo, o país se tornará exportador líquido de petróleo. O Brasil foi exportador líquido durante algum tempo no ano passado, ao passo que este ano voltou novamente a ser importador líquido. Trata-se de uma mudança importante para a balança de pagamentos brasileira. É claro que o ajuste dos preços das commodities ocorrido ao longo dos últimos cinco anos mudou completamente a dinâmica da taxa de câmbio no Brasil: ficou mais fácil conseguir dólares por aqui, portanto tal situação deverá persistir.

A indústria do petróleo está crescendo na América Latina […] a um patamar de preços de US$ 70. Não precisamos de barris a US$ 100 ou US$ 140 para que a expansão continue. Temos o caso da Ecopetrol semiprivatizada na Colômbia, que é a companhia de petróleo local. A empresa vem fazendo investimentos significativos, porque acredita também que haja petróleo ao longo da costa colombiana. O México está explorando uma nova jazida em terra firme, Chicontepec, que é extremamente importante e demandará investimentos muito pesados. Há mais poços a serem explorados na Argentina. Não foram explorados ainda porque a estrutura regulatória do país ainda é inadequada, mas isso deverá mudar. As pessoas olham muito para a Venezuela em razão de tudo o que está ocorrendo por lá, além da queda da produção local. No entanto, se levarmos em conta o que se passa na região, veremos que a localidade que cresce mais rapidamente no mundo — levando-se em conta as dimensões modestas de produção de petróleo da região — é, na verdade, a América Latina.

Knowledge@Wharton: Que empresas o sr. acredita que estejam mais bem posicionadas para tirar vantagem dessa tendência?

Lopes: Não sei se é positivo ou negativo, mas de acordo com uma tendência mundial, as empresas nacionais estão em vantagem. Isso inclui a Petrobras brasileira; a PEMEX mexicana, que é um monopólio; a Petróleos, da Venezuela, que é também monopolista; a Ecopetrol colombiana, que não é monopolista sendo mais parecida com a Petrobras brasileira — sua presença no mercado é muito forte. Acho que essas empresas serão as mais beneficiadas. Elas não estão sozinhas — por exemplo, a British Gas participou de várias descobertas de pré-sal ocorridas no Brasil. Houve uma mudança total no tamanho da empresa em razão dessas descobertas. Há um ganho maior por parte das empresas nacionais e internacionais, e também por parte das empresas que prestam serviços. No Brasil, só a Petrobras terá cerca de US$ 150 bilhões em gastos de capital nos próximos 10 anos. É muito dinheiro.

Knowledge@Wharton: O sr. acha que alguém vai sair perdendo?

Lopes: Provavelmente, não. Trata-se de um movimento positivo com conseqüências igualmente positivas para os países, porque cria uma demanda enorme por mão-de-obra. Por exemplo, o Brasil […] nos anos 70, tinha alguns estaleiros importantes e desempenhava um papel expressivo na indústria naval mundial. Essa indústria foi completamente destruída nos anos 80 e 90, mas já começa a se reerguer em razão das centenas de navios que a Petrobras vai precisar. Essa indústria consome muita mão-de-obra […] Serão necessários dezenas de milhares de trabalhadores especializados. Se bem administrado, esse movimento será extremamente positivo para a região toda.

Knowledge@Wharton: Essa explosão na oferta de petróleo terá algum efeito negativo nos esforços de produção de energia verde no Brasil?

Lopes: Creio que não. A energia verde ainda é marginal se comparada com a equação global. O Brasil já é o maior produtor de etanol do mundo. Também é o maior produtor de etanol verde, que é o álcool obtido da cana-de-açúcar. O Brasil participa também do segmento de renováveis, o que contribui igualmente para a alta dos preços das commodities. Boa parte do território brasileiro é reservada à lavoura da cana-de-açúcar […] Mas é claro que a terra e a água estão se tornando ativos mais escassos em razão da necessidade de produzir também energia renovável.

Knowledge@Wharton: Que conselhos o sr. dá aos investidores atualmente?

Lopes: Fiquem onde estão e esperem por dias melhores. Acreditamos que eles virão. Os tempos atuais são complicados e temos sempre uma mesma preocupação: o bem-estar de nossas empresas. Trabalhamos com um portfólio grande de empresas, portanto estamos bem posicionados, já que recorremos a pouca alavancagem. Não temos risco de refinanciamento em nossas empresas. Hoje, precisamos muito da administração tradicional — conservadora, com um balanço patrimonial seguro, tomando sempre decisões prudentes em relação à forma como gerimos o fluxo de caixa e o capital disponível. É o que todos estão fazendo: o mundo todo está em ritmo de desalavancagem e os preços dos ativos estão caindo. No entanto, se você investe a longo prazo, as perspectivas para os próximos 5 ou 10 anos nunca foram melhores.  

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Octávio Lopes, da GP Investimentos: “O mundo todo está em ritmo de desalavancagem”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 February, 2009]. Web. [09 August, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/octavio-lopes-da-gp-investimentos-o-mundo-todo-esta-em-ritmo-de-desalavancagem/>

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Octávio Lopes, da GP Investimentos: “O mundo todo está em ritmo de desalavancagem”. Universia Knowledge@Wharton (2009, February 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/octavio-lopes-da-gp-investimentos-o-mundo-todo-esta-em-ritmo-de-desalavancagem/

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"Octávio Lopes, da GP Investimentos: “O mundo todo está em ritmo de desalavancagem”" Universia Knowledge@Wharton, [February 04, 2009].
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